volto sempre àqueles que me contam histórias. "Conta-me uma história, conta-me uma história de amor, sangue e verdade. Conta-me uma história de amor senão mato-te." Citação alterada e não autorizada de Tahar Ben Jelloun Volto sempre ao David Bowie. Ele sabe contar histórias
Digo que não tenho nada. O que querem de mim… não tenho nada, não sei o que possa fazer. Não sei o que querem de mim. Sou pequeno, não posso corresponder às vossas expectativas. Quero coisas simples, quero pouco… sou nada. Não me peçam cultura, não me peçam discursos pungentes, não me peçam livros porque ainda não os li verdadeiramente. Não me peçam nada. Pouco posso acrescentar na vida de ninguém. Tenho pouco e o pouco que tenho já não chega para mim. Não tenho nada. Sou nada. Quero estar vivo e isso é tudo que me resta. Uma nesga de encontros na paisagem de existir. Quero permanecer. Quero manter-me à superfície. Quero ser… mas começo a não saber como o fazer. Nada. Não tenho nada.
Rússia, São Petersburgo, a actual dicotomia da sociedade Russa - dinheiro versus espiritualidade, estética algo felliniana, o grotesco, a magia, a beleza humana em todo o seu esplendor.
Foi muito bom voltar a ouvir a língua Russa (esteve presente a produtora do filme) e rever S. Petersburgo. É também nestes momentos que as viagens que encetamos ganham um novo brilho e nos reafirmam a sua importância na nossa contrução existencial.
A primeira edição do Festival de Cinema Douro Film Harvest (venham mais) trouxe ao interior uma mão cheia de excelentes filmes que não passaram no circuito comercial português. Embora existam alguns aspectos a melhorar na organização geral do festival e exista também a necessidade de uma maior afluência de público (posso dizer que dos 8 filmes que passaram no pequeno auditório do Teatro de Vila Real eu vi 7 e fui com toda a certeza o mais assíduo dos espectadores) nunca estiveram na sala mais que 10 a 15 pessoas - em alguns filmes foram mesmo menos. Uma tão boa selecção (colheita / harvest) merecia mais público, merecia outras dinâmicas - ficou a perder quem faltou à chamada.
"Alicia en el País", um filme do chileno Estaban Larraín, foi para mim um dos melhores filmes do festival. Um filme que nos faz acreditar que há imagens que ainda fazem sentido, que há desejos, que há caminhos que embora sejam difíceis devem ser percorridos, que o sonho não tem limites, que a liberdade é tudo, que necessitamos de muito pouco para sermos felizes, que a natureza é imensa e de uma beleza suprema.
Fica aqui uma mensagem para os cinéfilos (e não só) do país - se gostam mesmo de cinema, cinema a sério, façam o sacrifício e venham ao Douro, já que, como sabem, é cada vez mais difícil ver cinema (a sério) onde quer que seja.
"Aeroporto de Lisboa. O homem alto com as roupas coloridas de palhaço e o longo rabo de cavalo de cabelos grisalhos – metade deles pintados de azul brilhante – faz parar. A senhora no ponto de controle dos passaportes devolve-lhe os seus documentos com um ar sério e agradece. Ele olha-a nos seus olhos. „ Não, sou eu que tenho de lhe agradecer pelo seu trabalho incansável que faz aqui, dia após dia. Diga-me por favor como posso agradecer-lhe?“ Atrás dele forma-se uma fila, as pessoas esperam. Sentindo que ele não se afastará sem que ela diga algo de concreto a senhora sugere: „Talvez sendo apenas feliz?“ Patch considera esta proposta por um segundo. „Sim, vou fazer isso“, responde ele seriamente. „E você? Pode prometer o mesmo?“. Como uma nuvem a sair do sol, o ar grave de todos os dias desaparece do rosto da senhora e dá lugar a um sorriso do seu olhar: „Sim, prometo“."
A ditadura capitalista Ocidental, que não é efectivamente igual às outras ditaduras (é mais refinada), baseia-se claramente neste valor: o Ter em desproveito do Saber e do Ser. Assim está o Ocidente convencido, e a educação (leia-se escola) reproduz claramente esta ideia, de que, para ser feliz e viver calmamente entre os pares será necessário possuir: - uma casa - um carro - um telemóvel - e... um ou outro "gadget". Analisando estes dados ganhamos efectivamente o quê? Algum conforto, o que é bom, e uma ou várias hipotecas vitalícias que escravizam a liberdade de existir e pensar de qualquer ser humano, enquanto em simultâneo engordam as entidades financeiras, que são a âncora do sistema. Como se não bastasse, somos todos os dias convencidos de que para sermos ainda mais felizes e reconhecidos pelos nosso pares (a ideia do sucesso) temos que acompanhar o ritmo alucinante da produção em massa. Assim, em pouco tempo acabamos por comprar uma casa de férias, um automóvel mais potente, um PDA com GPS e mais um ou outro "gadget" da moda. O que acontece ao automóvel, ao telemóvel e ao "gadget" antigos? Bom, nem queremos saber, na pior das hipóteses vai directo para o lixo e na melhor vai para a reciclagem. O que acontece a esta super-produção de coisas efectivamente inúteis? Esgotam cada vez mais os recursos da terra e são um forte contributo para a desagregação climática do planeta. O regime capitalista, que se diz democrático, o que faz, na realidade, e como já referi, é exportar a ditadura para outros continentes sugando-lhes os recursos, enquanto vai satisfazendo necessidades que nós ocidentais fomos convencidos a pensar que sentimos, ajudando assim a preservar quase intacta a ideologia vigente com o contentamento de quase todos. Será que já pensamos bem no que andamos a fazer a nós próprios e ao mundo em geral? Será que já nos demos conta que a alienação do Ter em desproveito do Saber e do Ser contribuem para que sejamos cada vez mais infelizes?
É necessário acabar com isto já. É necessário acabar de vez com a palhaçada do modelo educativo que temos e avançar de forma musculada para pôr término à ideologia capitalista, que não sendo uma ditadura como as do passado, nos está a consumir a alma até esvaziar completamente a nossa vida de sentido.
Durante anos vivi inquieto pela incapacidade de tomar decisões. Sempre que tentava decidir alguma coisa essencial, sentia a veia jugular estoirar no pescoço vermelho. Por vezes nasciam mesmo borbulhas, e, da boca só saíam palavras desconexas, como se em vez de as dizer apenas as estivesse a vomitar. Apertava os braços ao tronco suado como se algo fosse rebentar no interior e o grande temor não fosse a hemorragia interna, mas a projecção indiscriminada das vísceras. Por detrás das paredes eram sempre os mesmos ruídos, os mesmos silêncios e desejos. Como não me reconhecia neste corpo em sobressalto, comecei a olhar-me, a espiar-me, a rasgar-me por dentro. Olhava-me para sair de um sufoco existencial. Quando alguém falava, ouvia-me a mim próprio e vociferava contra a vida pouco inspirada que levava. Dei-me conta de que chegara à meia vida sem nada de extraordinário para contar. Queria ser tudo, poderia até ser tudo, mas mantinha-me fiel a uma certa jovialidade que dificilmente manteria por muito mais tempo. Sentia-me afundar num marasmo, deixava-me emocionar por uma névoa. Olhei para o lado e as crianças com quem tinha vivido os primeiros anos de escola eram agora homens e mulheres autónomos e cheios de convicção. Eu não, eu no escuro de um certo tempo mantinha-me fiel ao indefinido, ao difuso e ao não saber bem como vai terminar o dia. Acreditava em tudo, aceitava tudo e até pensei que tudo seria possível. Ergui os braços para receber as farpas considerando-me um homem de valores, um homem redondo e livre. Vivia numa espécie de cápsula existencial que se por um lado aproximava gerações por outro se distanciava da essência que julgava possuir – da vontade de ser muito bom em qualquer coisa. Mas eu não, continuava perdido, refém de querer ser tudo, refém das intensidades. Pensava que poderia ser assim para sempre, mas estava enganado. Dediquei mais que meia vida a construir… sabes… as coisas que a gente gosta – a procurar o que julgamos essencial e nunca se esgota nas palavras. A procurar toda a beleza do mundo no fundo dos olhares. Tu bem sabes que o grande fascínio do mundo está num rosto humano e por isso não parámos de olhar, sempre a olhar o fascínio intemporal de um rosto, a procurar um pensamento bom, limpo e directo.
Assim foi chegando ao princípio do mundo onde as nuvens eram habitadas por luzes fosforescentes, onde as casas estavam vazias e eu a olhar para ti. No princípio do mundo eu já tinha mais que meia vida e descobri finalmente a terra para cultivar. Descobri que na terra estava o todo que sempre procurei, descobri que as palavras tinham os seus limites bem traçados e que a grandeza estava naquilo que não se dizia. Que a grandeza era eu e tu a olhar o mundo com aquela força de corar, com aquela força terna de amar as coisas. Sabes… as coisas que a gente gosta, sem tempo, sem limites, só paixão absoluta e vontade de abraçar. Possuíamos o segredo dos seres lentos e espinhosos, dos seres difusos e íntimos como a terra, ora agreste, ora suave e aconchegante.
Em resposta ao meu post "Medo de quê?" o meu querido amigo Eduardo Condorcet enviou este excerto de uma peça que ele encenou e que não poderia deixar de partilhar aqui.
“Vivemos todos sob a ameaça da bomba - cancro - carcinógeneos - doença - desemprego - impotência - medo do medo - pretos - brancos - polícias - juros - imposto de rendimento - multas de estacionamento - esquecer as nossas deixas - perder dinheiro - ganhar demasiado dinheiro - perder cabelo - engordar - ficar feio - ser estúpido -não ter graça - ser tímido - ser tonto - ficar preocupado com qual aparelhagem comprar - como arranjar um carro - a bicicleta - aprender piano - medo de falhar - de não causar boa impressão - medo da força dos outros - medo da fraqueza - medo de ficar exposto - de não chegar a horas ao emprego - de não ter reforma - segurança - velhice - de morrer - guerra - aleijado num acidente de automóvel - medo de ficar cego - surdo - de não entender a piada - medo dos duros - medo de correr riscos - medo de nadar - de saltar - de mergulhar de uma prancha - medo da doença - medo de mexer - medo de vender - medo de comprar - medo obsessivo de aranhas - armários escuros - facas - assaltantes - medo de pessoas - festas - multidões - pessoas espertas - medo de dizer o que se pensa - medo das mulheres - medo dos homens - medo da polícia - medo da ansiedade - por isso esta peça é dedicada a todos medrosos.”
Peça “Kvetch”; Original, Steven Berkoff; Tradução: Luis Fonseca
AFLORAR À SUPERFÍCIE As cerejas vermelhas estavam sobre a mesa, frescas, belas e ácidas. O meu olhar estava ainda plasmado no horizonte que tinha abarcado momentos antes sobre a imponente cerejeira. Saía cedo, refém de uma intensidade louca de subir à árvore que engrandecia o meu horizonte e me devolvia uma certa felicidade. Os Melros enlouquecidos pela generosidade da natureza esvoaçavam num frenesim estonteante fazendo voos rasantes à minha inusitada felicidade de principio de manhã de Junho. Fazia 14 anos e nesse dia estava preste a desmaiar pela primeira vez na minha vida. A frescura da manhã rejuvenescia um cérebro jovem e algo idealista. Imaginava-me com 32 anos, a viver em todos os lugares do mundo onde existissem cerejeiras imponentes, e onde a frescura da manhã continuasse a ser um tónico revigorante para os sentidos diletantes de quem simplesmente sobe uma cerejeira imponente e se sente feliz.Acreditava já, que as coisas simples sempre seriam um lugar de encontros e igualmente de desesperos vários. Acordei a meio da viagem, a caminho do hospital, alguém me dava palmadas na cara e dizia: - acorda, acorda... lentamente devolvido à realidade senti a dor forte que me esfacelou todo o lado esquerdo do corpo. No hospital tudo me pareceu simpático, o médico, as enfermeiras roliças, as simpatias a que estava pouco habituado. Passei o fim do ano lectivo, no lugar alto em que vivia a curar as mazelas de um atropelamento, e a olhar os meus colegas de escola a brincar no recreio ou, a adivinhá-los nas aulas chatas e traumatizantes de um certo mau professor de português a quem certamente não devo este meu gosto pelas letras. O Gonçalves esse, continuava como sempre, a correr desalmado pelo relvado de ervas daninhas com uma bola - nós chamávamos-lhe râguebi. Atrás, lá vinham os colegas de turma esbaforidos e a tentar rasteirar o imperturbável rapazola, por quem ainda hoje, passados 25 anos nutro uma enorme simpatia e amizade. Hoje lembrei um daqueles acontecimentos de muitos anos e que fazem parte da minha construção existencial, sendo para isso apenas necessário, que sobre a mesa estivessem umas cerejas frescas, belas e ácidas. Enfim... coisas simples.
Não digo que não necessitemos de nenhuma educação, digo antes que não necessitamos desta educação. Se formos capazes de ouvir e ver este vídeo, talvez possamos compreender que neste momento nos debatemos com problemas similares, sendo que, agora, a figura castigadora e uniformizadora não é o mestre (professor), mas o próprio sistema que ao longo dos anos não se soube renovar e adaptar às regras da sociedade emergente e em que o professor passou a ser um objecto manipulado e manipulável (uma espécie de autómato) das vontades e dos caprichos inconfessáveis da sociedade e sobretudo dos poderes. O que agora apetece dizer não é "teachers leave us kids alone", mas antes "kids leave us teachers alone", ou seja, uma espécie de grito de revolta que se consubstancie numa mudança rápida ou até mesmo forçada do estádio das coisas. Se algum dia pensarmos que, nós professores, o podemos fazer sem o comprometimento dos alunos, estaremos mais uma vez enganados e nada vai mudar mais uma vez.
Ver o filme primeiro e depois ler o texto (se tiverem vontade)
Duvido que o futuro da humanidade esteja exclusivamente nas mulheres, na realidade penso que o futuro da humanidade está nos pequenos passos de cada um, na luta que todos os dias formos capazes de fazer para criar uma sociedade mais justa, mais equitativa.
Acredito no poder da arte como agente fundamental da transformação humana. Estará efectivamente a arte a cumprir esta componente da sua missão? nem sempre - a maior parte das vezes não, tal é seu grau de promiscuidade com poder (não é de agora, sempre foi assim).
Vivemos atafulhados de embustes, de falsos problemas, de angustias irracionais. Vivemos em torno de causas esvaziadas de significado e criaram para nós a ilusão de que o dinheiro e o poder nos fazem mais felizes. Enquanto criticamos o estado do mundo em que vivemos, enquanto nos queixamos dos nossos alunos, do seu desleixo e do "não querer saber", evitamos perguntar a nós próprios o que andamos aqui a fazer, e qual está a ser o nosso contributo para o bem comum. Todos os dias nos queixamos (nos casos mais promissores) pelo menos três ou quatro vezes por dia de uma série de coisas que estão erradas no mundo mas, seguramente, estamos menos preocupados em quantas vezes por dia damos um contributo positivo à sociedade. Atribuímos sistematicamente a culpa a um agente invisível e ainda fazemos pior quando lhe damos um rosto, mas continuamos, quando podemos, a tirar um incompreensível proveito das benesses do sistema que nos vai consumindo cada dia da nossa vida. Somos uma sociedade hipócrita e centrada em si mesma, somos uma sociedade escravizada e auto-complacente todos os dias - uns a seguir aos outros. Somos fieis consumidores do Xanax, mas cada vez mais, numa tendência higienizadora (eu gosto de lhe chamar a sociedade dos "limpinhos") castigamos os que fumam, os que bebem, os que não fazem ginástica, os que são gordos, os que são demasiado magros, os que são altos, os que são demasiado baixos, os que têm o cabelo comprido, os que são azuis, os que são pretos e até os que são demasiado brancos. Porque raio haveríamos de ser todos iguais. Por raio temos que ser iguais à força.
Que é feito da liberdade individual? porque será, que todos (quase sem excepção) nos sentimos cada vez menos livres? Que medo é este... de ser livre? que terror anda a consumir as nossas almas atormentadas? que desejos secretos nos consomem os dias? porque vivemos tão centrados nos outros, quando o segredo talvez esteja em cada um de nós?
Que medo é este... que insegurança é esta, que terror... que desvario?
É necessário acordar, acordar rápido. É necessário mudar, é necessário afrontar, é necessário colocarmo-nos na linha insegura de sermos nós mesmos. É necessário lutar, é necessário mudar de paradigma. É necessário criar a não-escola.
Vai lá pintar as folhas, 100 folhas da árvore frondosa que está no quintal. Vai lá texturar o mundo do sem sentido, vai e deixa deslumbrar-te pelo verde e os seus matizes, as sombras e os reflexos. Apanha o sol da tarde e sente-o a entrar em cada um dos poros. Não julgues e não deixes que te julguem. Olha para o sorriso bom dos que te compreendem e afronta o sorriso perturbante dos que estão fora de si. Vai lá pintar o final de ano de amarelo, de laranja e violeta. Vai imitar os pássaros e os seus voos rasantes. Vai lá pintar o mundo com as tuas cores bonitas.