Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

A vida secreta de uma toupeira V

Olhava o mundo como quem fode, com a mesma intensidade, o mesmo ritmo e o desvario das órbitas baças. Queria provar tudo rápido e sem juízo de valor. Estava para o mundo como o chocolate negro para o paladar, amargo, torrado e forte. Deslizava pelas coisas do mundo como se as visse pela primeira vez e estivesse condenado a não as ver mais. As árvores despidas, como as mulheres garças e atrevidas fascinaram-no sempre.
Num dia já longínquo levantou os olhos quase por acaso quando ela se atravessou no seu caminho e o seu olhar acompanhou-a para sempre, com aquela fome de querer sempre.
Hoje, anos mais tarde quase nada mudou, continua a trabalhar o seu quintal de mimosas que florescem cheirosas e adocicadas todos os fevereiros e quando ela vem à janela - Manel, quando terminares a redra traz-me um ramo - ele sente que nada mudou com a mesma intensidade de sempre e como se fosse a última vez. Ele espera dela essa atitude de quem vem numa bonita manhã e olha nos olhos dele com a blusa ligeiramente desabotoada e lhe pede cor e lhe pede odor e lhe pede felicidade.
Estranhamente, hoje numa bela manhã de Fevereiro e no meio de um atordoante amarelo forte, ela não apareceu de blusa desabotoada. Deitou-se mesmo ali no centro do seu mundo colorido a olhar o céu e a rota dos aviões-pássaros, para contemplar a nuvem solitária e em acelerada metamorfose, sentindo claramente que já não existiam um no outro.
Terá sido um dia triste em que as lágrimas lhe tornavam baço o olhar forte.
Eu observei de longe o fio líquido que lhe saía dos olhos e tocava a terra solta, senti o amarelo forte que apenas podia imaginar e vi-o por fim beber de um trago um copo de lixívia que presumo apagaria para sempre o amor.

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Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

A vida secreta de uma toupeira IV

Estava com o olhar esgrouviado do costume e um pé comprometido com a realidade. Ela estava de chapéu branco perfeitamente harmonizado com a bota igualmente branca e o vestido preto e desabotoado. A coxa estava bronzeada e atrevida. Olhei para os dois e vi aquela intensidade, aquele desejo de partilhar o mundo todo. Ela chegou a preto e vermelho, o cabelo solto e um sorriso cúmplice. Pousou o cachecol cor de cereja na cadeira em frente e sentou-se confortavelmente ao meu lado. Ele voltou mais tarde com a sensação de que estava atrasado. Pegou e cheirou demoradamente o cachecol cor de cereja colocando-o em volta do pescoço. Esboçou uma certa feminilidade que se manteve por longos momentos enquanto falava da importância para música portuguesa do António Variações. Eles conversaram demoradamente, fumaram cigarros e partiram quase tão rápido como tinham chegado. Ele retirou o cachecol cor de cereja do pescoço e cheirou-o uma última vez. Partiram cada um para seu lado sob uma chuva intensa. Ele atendeu o telefone sabendo exactamente quais as palavras que deveria utilizar.
Eu, senti a pele húmida, mas isso era perfeitamente natural.

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Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

A vida secreta de uma toupeira III

Acordei com a terra a tremer no meio de um sonho bom. Acordei com uma felicidade inusitada, não sei se do vinho bom que bebi, ou de estar embevecido por uma fonte de luz solar. Lá fora, no lugar da luz encontrei a razão de tamanho reboliço mesmo sobre a minha cabeça - A matança do bicho que por várias vezes me atormentara o rabo e outras tantas vezes quase me ia engolindo vivo.
Não fiquei contente, mas antes perplexo com o sangue quente que jorrava sobre a terra, mesmo ali sobre o lugar que escolhi para adormecer. A humidade quente e doce e o reboliço dos homens foram um espectáculo sem medida. Afastei-me um pouco para observar de longe o movimento desfocado e consertado de tão ardilosa tarefa, de tanto som, de tanta palavra incompreensível, da mestria de saber cumprir uma tarefa com extremado zelo.
O Porco estava morto e a minha felicidade inusitada tinha razão de ser.
A luz subiu no horizonte, momento mágico que não pude acompanhar até ao fim de tanto contentamento que senti sem conseguir ver.

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Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Celebrity Morph by MyHeritage

Domingo, Janeiro 11, 2009

A vida secreta de uma toupeira II

O carro deslizava livremente sobre o alcatrão estranhamente prateado.
Mantive o olhar na paisagem semi-obscurecida e sobre o branco fascinante da neve pontuado por cinco ou seis focos laranja.
Estava um silêncio intemporal e o meu olhar pregado no horizonte inefável - viajava ao ralenti num silêncio suave, na luz ténue e no Porto doce e amendoado.
Às três da manhã é na noite profunda e solitária que se congeminam os mais ousados rituais e as mais ternas existências. Na névoa, no escuro e no silêncio viajo no mundo dos homens sem que o compreenda perfeitamente.
O carro entretanto continuava a deslizar suave e livre num silêncio mágico.
O meu olhar estava fixo nos focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte estranhamente branco.
O gato preto atravessou a estrada, lento e perturbante e o seu olhar sinistro reflectiu luz no meu olhar igualmente intimidante. O olhar sempre nos dói ou nos fascina, tal como o monte branco assinalado por cinco ou seis focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte.
O homem saiu do carro aturdido, e eu voltei à terra e o escuro apaziguou-me.

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