09 março 2008

viagens aqui na terra

Um mapa da Europa dobrado sobre a mesa, um isqueiro sem gás, e três ou quatro cigarros mal fumados num cinzeiro imundo testemunhavam segundo ele, uma maneira de estar no mundo - nas suas palavras, eram uma espécie de roteiro oficial da alma, de toda a liberdade do mundo e das coisas fundas em que tinha acreditado pela vida fora. A única verdadeira crença que se lhe conhecia lia-se neste mapa coçado e com imensas rugas, nos esquemas assinalados, nas notas de rodapé de um roteiro que durou anos – o meu mapa existencial, dizia. S. era um tipo quase sóbrio de sorriso manso e pose aristocrata. As calças de ganga coçadas, um certo desalinho no cabelo e uma indisfarçável altivez no olhar faziam-nos pensar na figura do velho aristocrata falido.

Enfim, um ser difuso e apenas reconhecível por tipos de uma certa geração e na qual por força de umas certas vivências eu me incluía. Gostava do seu desmazelo natural, da sua pose e de uma certa intocabilidade que todos lhe associavam. Era daqueles seres que não contam na parametrização comportamental que o nosso tempo parece exigir, ou que para ser mais crítico, de que o nosso tempo padece.

Imaginamo-lo numa sala de paredes humedecidas, talvez com um piano desafinado ao fundo da sala, um papel de parede retro com inúmeras recordações de viagens espalhadas pelas paredes, e claro, umas garrafas de vinho intragável na cave. A casa solarenga e decrépita no meio de vinhedos abandonados, uma entrada frondosa e descuidada, um portão imponente mas irremediavelmente partido e ferrugento, compunham o quadro visual e existencial deste viajante que viveu longos anos na Alemanha, falava fluentemente a língua de Goethe, e que tinha um fabuloso discurso relacional sobre tudo.

Quando olho para trás, vejo-o ainda ensonado às três da tarde, umas olheiras de três noites mal dormidas e um nevoeiro cerrado a envolver todo o espaço. Ouço-o ainda a assobiar a terceira de Brahms sob as laranjeiras molhadas e projectadas no branco difuso de uma tarde fria. Quando olho para trás, sinto com muita força aquela maneira cristalina que ele tinha de olhar o Douro, as suas misérias, mas sobretudo a sua intrínseca beleza. Gostava muito de passear de carro ao fim do dia pelas veredas mais improváveis e ouvir as cenas infantis de Schumann, entre outros clássicos de arrepiar as peles mais encardidas. E depois… aquela forma destemida de ser capaz de falar de tudo, aquela forma de olhar e reflectir o meio envolvente com uma especial acuidade, um olhar muito treinado e relacional que poderia ir da relação existente entre uma certa cor da paisagem e um nú de Schiele, ou sobre a relação entre um certa curva da montanha duriense e os montes vitícolas do Tokay, na Hungria. E depois, uma parte não menos importante dos fim de tarde… parar num restaurante isolado e vazio, pedir o vinho da casa e comer o que sobrou do meio-dia.

Por muitas razões, umas explicáveis e outras talvez não, estou consciente da influência fulcral que exerceu na minha própria forma de olhar as coisas e sobretudo no respeito que ganhei ao processo de conhecimento arvorado em princípios relacionais. Em todas as viagens que acabamos por fazer, fossem reais ou imaginárias, o seu discurso pautava-se sempre pela sua capacidade extraordinária de colocar em relação factos ou visões, por vezes, surpreendentes e outras tantas vezes até improváveis. Terá sido sem dúvida o professor mais sábio que algum dia tive e devo-lhe com toda a certeza, entre outras coisas, um olhar apaixonado por esta terra que habitamos – O Douro Vinhateiro, que não escolhi para nascer, mas que seguramente, para o bem e para o mal, escolhi para viver.

03 março 2008

via ctt

Por força do progresso e do mundo tecnológico, que nos dias que correm são conceitos em parceria, foi necessário fumar três cigarros em lugares proibidos para desembainhar esta estória de hábitos e devaneios antigos, pegar numa caneta BIC e a escrever.
Vem a reflexão que se segue a propósito de um e-mail que recebi de um amigo que, por força das suas convicções, gostava de receber religiosamente o carteiro pela manhã. Gostava de receber os bons dias e de lhos retribuir, gostava da expectativa e do nervoso miudinho que sentia quando o via aproximar-se dizendo-lhe – Senhor Vítor, tenho aqui a sua correspondência. Muitas vezes ficava na expectativa louca e sonhadora de receber a carta que mudaria a sua vida, ou como acontecia por vezes, receber uma confidência mais profunda escrita a altas horas e colocada pelo remetente no correio logo pela manhã.
No e-mail que o meu amigo me enviou e onde recusava solenemente uma inscrição na ViaCTT, adivinhei-lhe a tristeza e a frustração de o carteiro já não aparecer tantas vezes e, de outras tantas, já nem ter tempo para o receber. Também ele se habituou, resignado, às virtudes do progresso e foi-se contentando em receber envelopes timbrados do cetelem, uma ou outra conta da electricidade ou do telefone. Todo o mundo, e até os bons amigos, se tinham rendido ao e-mail. Ele próprio ia escrevendo as suas mensagens telegráficas num português descuidado e sem alma, no seu HP de última geração. O que é evidente é que lhe faltava o cheiro a papel, o doce deslizar da faca pelo envelope, para depois se deliciar com as notícias que vindas de onde viessem constituíam para si sempre uma surpresa.
Hoje, olhava os monitores com idêntico entusiasmo e regularidade, mas sem a intensidade e sem a surpresa de outrora. O Gmail, que ele claramente assumia ser uma grande invenção, ia a pouco e pouco esventrando-lhe a alma e afastando-o da importância que sempre teve para si receber uma carta, daquelas escritas à mão e a cheirar a verdadeiro papel e tinta BIC.
Caro amigo, ainda bem que me alertas, pois sei agora que foi num momento de fraqueza que resolvi inscrever-me na ViaCTT para ganhar um iPod. Logo eu que só ouço música no carro, e de preferência em viagens superiores a 50 Km, logo eu que não suporto auscultadores nos ouvidos, porque acredito que me deformam o jeito de olhar para o mundo. Este olhar deformado, que tanto critico ao mundo, entrou por mim adentro nesta vontade desalmada de ter um iPod inteiramente gratuito. Logo eu que prezo o silêncio e tenho dificuldade em entender as coisas na mais absoluta cacofonia estéreo ou mesmo no mais consensual som surround.
Resolvi redimir-me e escrever-te uma carta, daquelas que ambos gostamos. No final, não poderei deixar de sentir o prazer de lamber o envelope e o selo e oferecer estas palavras como se fossem a coisa mais preciosa.