31 agosto 2005

escrever no ar



Escrevi-te as palavras que não cabiam numa folha de papel...

fumo


Foto de Carla Cabral

Se o fumo nos teus olhos não te trair, esse cigarro será intenso, como intensa será a noite e o vento que projecta a chama.

vamos à cidade



Toca a correr para o Porto ou para Lisboa,
onde o cinema a sério ainda parece existir.
Vá lá gente do interior...

perdê-lo vale muitas batidas do coração.

30 agosto 2005

este blogue

Este blogue está a querer, "autonomamente", tornar-se num retrato pessoal.
Está confuso, de gosto duvidoso, demasiado pessoal, por vezes "broeiro", outras vezes sensorial. De quando em vez sentimental, outras confessional.
Este blogue deve ser meu.

lavagem automática


Foto manipulada. Origem: www.skins.be

Depois das férias e do pó das coisas, nada melhor que a lavagem automática para iniciar o ano de trabalho com o carro limpinho.
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26 agosto 2005

feelings



Como diz a minha amiga de Elsinore "If you realy want to know, this is how I feel"
Tenho a pinã virada do aveso.
O interior é uma massa indistinta de problemas de servidor, passwords erradas, cagadelas de pombo e o respectivo mecanismo dissuasor, ensino cooperativo apoiado por computador, estudo de campo...
Enfim, os ultrasons estão a acabar comigo.

23 agosto 2005

Um dia em Paredes de Coura



O Jazz na Relva foi muito bom... como sempre, num fim de tarde com o sol já muito oblíquo e a esconder-se no horizonte. Um rio muito calmo a reflectir o céu e muita gente descontraída. Um cheirinho a erva queimada no ar e umas cervejas aqui e acolá. No palco gente interessante, a fazer da música uma das suas mais valias - divertimento.
Pela noite, só foi possível assistir a três dos cinco concertos previstos, Os extremamente banais, Juliette & The Licks, o poder de comunicação, comunicação inteligente e sedutora do Vincent Gallo e o Nick Cave & The Bad Seeds, que estiveram excelentes nos primeiros três quartos de hora. Aqui, Gritei, fiz coro e esperneei tanto quanto foi possível - o necessário para sentir que valeu a pena.

22 agosto 2005

Dona Eduarda

Interrogo-me sobre o lugar que queremos atribuir, na nossa vida, a determinadas pessoas que apenas vemos esporadicamente, mas que pela sua dimensão humana terão necessariamente que ser lembradas. Nesta ordem de ideias a Dona Eduarda é das pessoas mais curiosas que eu conheço. Digo curiosa, porque a sua forma de pensar e entender o mundo, me parece a mim, de uma outra dimensão, que me escapa de tão peculiar.
A Dona Eduarda terá uns sessenta e poucos anos, nasceu em Angola, onde conheceu um português, também ele muito peculiar. Muitos anos passados, vive em Portugal e grangeou em torno de si uma prole muito especial. Todos os anos vou a sua casa pelo Verão, a convite de um amigo e agora seu genro, comer o "Funge" e também todos os anos venho de lá encantado com a espiritualidade, poder de sedução e forte personalidade, daquela senhora simples e bem disposta. Os jantares são irrepetíveis, em particular quando se junta toda aquela família extrema a surprender-nos a todo o momento, com as histórias mais hilariantes, histórias de "partir o coco" a rir. O "Funge", um pitéu tipicamente angolano, é excelente, principalmente quando condimentado com uma dose extra de gindungo. A Dona Eduarda, sempre serena, no momento que lhe parece oportuno, o que não quer dizer que o seja, apresenta uma visão do mundo, uma visão especial e única. Aquilo que nos conta parece brotar de um saber ancestral, que me é desconhecido, uma espiritualidade que escapa aos cânones, onde nós, os Europeus, nos formamos e informamos. Do topo da sua simplicidade e humildade, fala das coisas mais sérias e também daquelas que o não são, com a vivacidade e o humor que tudo envolve e arrebata.
Traduzir a sua visão do mundo, seria o mesmo que contar em palavras, um sketch dos Monty Python. É tão diferente...

18 agosto 2005

...

vou dar um salto a Coura, essencialmente, para ver o Vítor, o Nick, o Gallo e o Jazz na relva.

16 agosto 2005

fotos de catálogo ref. a-c



Estão num dos jardins da Capital. Hoje não lançaram trigo aos pombos. Comeram a merenda toda e limitaram-se a passear pelo jardim. Ninguém andava por ali num fim de tarde de Agosto.
Ao fundo, no Palácio de Belém, os guardas fazem uma estranha dança para que se lhes não prendam os membros. Não existe a miníma brisa. As coisas estão em silêncio, só os pássaros chilreiam invisíveis e ouve-se o som contínuo de carros a passar numa Avenida ao fundo do jardim. Num bebedouro a água corre para um esgoto. Os bancos estão completamente livres. As sebes estão perfeitamente aparadas, e a relva talvez tenha sido cortada pela manhã. Dois turistas passaram - pareciam contentes. Ambos sorriram para a fotografia. Clic.

12 agosto 2005

só pequenas coisas

Como tudo nasce de pequenas coisas, como as coisas entram em nós e nos fazem felizes, como uma tarde sol, sol na relva ao fim da tarde.

Um mail que continha imagens sugestionadas pelos sons, que o meu querido amigo vítor enviou e um cálice de bushmills, que tive que voltar a encher, tornou-se num pequeno momento de ruborizar a face.

Aqui fica esta partilha de intensidades.


Crónica de um lugar


Café do Senhor António - Praia de Melides

As portas fecharam-se. O ritmo das coisas recusou-se a continuar.
O Pinguim ajeitou-se junto a nós na esplanada improvisada desde sempre. Ajeitava-se enroscado sobre si mesmo no conforto possível que um cão pode obter sobre a areia. Como sempre, do escuro ouvia-se o mar. Lá dentro talvez a Fatinha ainda faça as limpezas. Talvez o Castanho esteja confortavelmente aninhado sob as mesas ou um rato esquivo percorra o beiral. Nós afastamo-nos, recusando um último olhar sobre um lugar importante na nossa construção existencial e condenado a deixar de existir ou a existir para sempre no lugar que atribuímos ao mito, mito das coisas vividas com a intensidade possível dos dias. Este lugar que habita em nós, acontece porque nunca se quis impôr. E talvez o torne especial ser pouco exigente, se ter recusado a olhar para nós a interrogar a nossa verdade. Este lugar nunca quis saber e nós também nunca pronunciamos o nosso apego às coisas sérias que por ali passavam: o senhor que adormecia a ver televisão em frente ao café e ao bagaço, os cães, os gatos e as pulgas que se passeavam perigosamente por todo lado, a infinita panóplia de humanos que por ali populavam e que nas palavras do Senhor António, não eram mais do que guedelhudos, a simpatia contida da Fatinha e o olhar sisudo da sua mãe sentada sempre no mesmo lugar a comer pevides.
Os lugares que habitamos com intensidade transformar-se-ão inevitavelmente em lugares extintos e marcar-nos-ão sensorialmente para sempre, e bem pode o Sr. António carregar as grossas portas de madeira que nos separam do interior que o mito do lugar irá permanecer.
Este lugar extinguiu-se outros estão em vias de surgir.