29 dezembro 2004

caminhar para onde


douro 2003 (Santa Marta de Penaguião)

acusaram-me de este blogue corresponder mais a uma certa urbanidade do que a um blogue de interior, como está nas premissas da sua criação.
Forçado a concordar parcialmente com esta ideia, aqui vai uma imagem em jeito de
tentativa de redenção.

...de qualquer maneira, é sabido que temos tendência a reflectir aquilo de que estamos mais afastados em desproveito do que nos está mais próximo.
E depois, tenho tendência para ser mundano e entender as coisas da vida como um todo organizado e inseparável.

Agora que um novo ano vai começar, a mão sábia desta imagem aponta um caminho a percorrer. Que seja o inefável e abstracto caminho de quem o queira trilhar.

Árvores


Douro 2004 - foto de cc

Dias e dias a olhar as árvores


25 dezembro 2004

fotos no natal

O Natal é sempre um bom momento para ver fotos antigas.
E Este Natal não foi excepção.
Emocionou-me ver aquelas pessoas que fizeram parte da minha vida, mas que já cá não estam para partilhar o acto de viver. E emocionou ver-me a mim mesmo num corpo franzino a sorrir como se fosse feliz.
A fotografia como arte da ilusão pode enganar-nos se estivermos pouco atentos ou formos apenas observadores não intervenientes da realidade fotografada.

Estórias da vida e da morte

É sempre inquietante ver pessoas mortas e ainda mais inquietante se torna, quando essas pessoas estão num caixão vestidas com o melhor fato e com a serenidade no rosto de quem dorme um sono profundo e apaziguador.
Em volta, a família reunida fala de morte e evita olhar o defunto.
Neste caso, e por momentos, pareceu-me uma família harmoniosa e quase vislumbrei um estranho bem estar geral. Para trás pareciam ter ficado anos de picardias e invejazinhas, de muitas carvalhadas apregoadas uns aos outros.
Ontem foi diferente. Respirava-se uma paz e um silêncio irreal, havendo mesmo lugar para uma piadazinha inofensiva da minha mãe, que colocou toda a gente com um impossível sorriso de aprovação no rosto.
- Pois é, Deus fez-lhe um favor. Estava a sofrer tanto. E mais a mais ninguém cá fica.
E foram nomeando um a um a idade que tinham.
Os meus tios e tias já têm uma idade jeitosa e o que sei da maioria deles é que realmente nunca se entenderam ao longo da vida. Viveram sempre de costas voltadas uns para os outros. Aqui no lugar da morte pareceram ganhar a intimidade e a cumplicidade das crianças que brincavam no pátio. Foi um momento de felicidade e partilha de afectos à sua maneira.
Na minha família as pessoas juntam-se para morrer o que na minha opinião tem tanto de estranho quanto de clara afirmação da rudeza* de carácter que os caracteriza.

* rudeza não tem neste caso um sentido pejorativo, bem pelo contrário, trata-se de uma intimidade relacional com as suas estórias de vida e com os lugares que sempre habitaram. Uma harmoniosa relação com os elementos naturais que hoje qualquer um de nós apenas pode intuir.

21 dezembro 2004

Pelos olhos passeiam imagens

invisibilidade

daqui para Elsinore

do ponto de vista teórico entristecem-me as possibilidades ontológicas
Elsinore

As camas são lugares espirituais


Ermesinde 1999?



Canção da errância

Eu sou o irregular o vagabundo o erradio

eu sou da errância e da distância e da errática

e proibida margem de outro rio.

Haverá sempre em mim a linha matemática

e a gramática secreta do Padre António Vieira.

A minha terra é sempre em terra estranha

quem me quiser procure na fronteira

eu sou de algures entre o azul e a Espanha.

Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”

O abraço

Tudo começa com o aconchego do feto,
...depois, com os repetidos abraços das mães, das tias , dos avós e de todos aqueles que depositam em nós uma profunda esperança. Um abraço de todos aqueles que já esqueceram a importância real do abraço e nos transmitem, quantas vezes sem saber, um conhecimento primordial que vai marcar o resto dos nossos dias.
Abraçar é uma das mais importantes manifestações humanas.
Abraçar é ter esperança que o mundo vai ser melhor;
Abraçar é redescobrir o prazer de viver.

O abraço é uma profunda manifestação de amor



Senti a vontade de te abraçar, e assim foi... abraçei-te como se fosse a última vez e soube que seria para sempre. O abraço corresponde a este pacto a esta necessidade profunda de seres humanos.

Se hoje não abraçaste ninguém... procura...
...o blog está a absorver-te demasiado tempo e nunca saberás se essa foi a melhor solução.


tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac

17 dezembro 2004

Cartão de Natal (para não fumadores)


Um colega e amigo enviou-me este excelente cartão de Natal, como não poderia deixar de ser partilho-o aqui com o mundo todo em verdadeiro espírito natalício.
Dedico esta imagem áqueles que deixaram as salas de fumo (não é o meu caso, continuo a gostar do nevoeiro) e se dedicaram de corpo e alma à goma e a outras actividades que esta imagem tão bem sugere.


15 dezembro 2004

...





O meu barbeiro (esboço antes de um olhar serigráfico)

Boa tarde.
É para cortar o cabelo?
É.
Vai ter que esperar uns 10 minutitos enquanto acabo este corte.
Circulo pelo salão, passo os olhos no "Jogo". Nas paredes estão rapazes e raparigas com cortes sofisticados.
...

Ora sente-se aí fa(chavor)
Quer lavar?
Não.
Como quer o corte?
Como o costume, curtinho, mas não demasiado, certo nas pontas, mas sem exageros, orelhas destapadas e suíças discretas. Na frente, "sem risco".
Vamos lá ver isso então...
(ouve-se o som maquinal de quem passou a vida a mexer em tesouras)
Rosto inclinado ora para a direita, ora para a esquerda, ora para baixo, ora para cima - em frente.
...
Aqui, surjo eu, em frente ao espelho e projectado num fundo impossível...



08 dezembro 2004

#4.Lugares com óptica

para trocar os olhos ritsumei

#3.Lugares


#2.Lugares ao alto


# 1.Lugares da vida real

Estava demasiado eufórico para os lugares habituais e não hesitei em tentar a Foz.
Era fim de semana prolongado e as vaidades saíram à rua.
Em frente ao bar estava um casal de porteiros simpáticos, ela mais simpática do que ele e a oferecer brindes na troca de bebidas doces, e apenas, ligeiramente alcoólicas.
Como disse, eu estava verdadeiramente eufórico.
Entrei confiante e toda a gente olhou para mim, o que me fez sentir bonito.
Encostei-me ao balcão para pedir uma bebida e foi servido por gente loura e sorridente.
Voltei as costas ao balcão para sentir o ambiente, e lá estavam eles e elas, a sorrir, a saltar e a berrar nos ouvidos uns dos outros. Eles de camisa aos quadrados e barba bem escanhoada, elas de sapato de ponta fina, gangas justas ao corpo e camiseta de alças a deixar ver corpos de peles macias e cuidadas.
Entretanto, as três louras que serviam no bar tinham saltado para cima do balcão e esfregavam-se sensualmente umas nas outras a dançar o ieie.
Fiquei por momentos a olhar para todo o lado, tipo sonar da Marinha.
Pedi outra bebida.
Ela apareceu do nada e perguntou:
não te costumo ver por aqui?
então?
És diferente... barba por fazer, roupa preta e castanha, um olhar tipo sonar...
pois!
até já.(afasta-se)
...tchauuu

Saí do bar algo desiquilibrado, sendo que só hoje me dei conta, enquanto observava um livro de ilusões de óptica, que estive sujeito a uma experiência singular - as camisas dos rapazes, às riscas, aos quadrados, e sempre as riscas diagonais e os quadrados.

Há lugares que não nos pertencem, mas que deixam em nós uma marca singular.