27 novembro 2004

instruções de leitura dos dois posts precedentes

Os dois posts precedentes, respectivamente, os 31 passos para ser intelectual rural e os 31 passos para ser intelectual urbano, devem ser lidos da seguinte forma:
ler o ponto 1 do intelectual urbano, seguido do ponto 1 do intelectual rural;
ler o ponto 2 do intelectual urbano, seguido do ponto 2 do intelectual rural;
etc.

A mim parece-me que o intelectual rural sai favorecido, claro está que há quem pense o contrário; Assim como existem aqueles que se colocam no ponto intermédio;
Outros dirão que o post do intelectual rural é autobiográfico e por isso sai favorecido;
Existem ainda aqueles que pensam que não existe ninguém assim;
outros ainda dirão que nunca mais visitam este blog.

pois que todos se situem onde quiserem, que eu agora vou mesmo para a janela apanhar com o vento gelado e o perfume da noite nas ventas.

PS é aconselhável usar um rato com scroll

os 31 passos para ser intelectual rural

01. É encontrar boas ideias nos lugares, nas paisagens e no
inefável perfume das coisas;
02. É abrir a janela pela manhã e pensar que nesse dia vamos
parar, porque não vamos viver para sempre;
03. É deixar-se adormecer a ver os programas para gente culta,
no canal 2;
04. É voltar muitas vezes aos livros de sempre;
05. É estar bem no meio do “nada”;
06. É acreditar profundamente no silêncio;
07. É discutir ideias, livre e espontaneamente;
08. É sobretudo pensar;
09. É aguentar a estocada e devolver a dobrar;
10. No verão, estar numa praia onde se ouve realmente o
mar ao fundo, é retemperante;
11. É ser moderadamente egocêntrico;
12. É considerar que a percepção do tempo é relativa;
13. Nas zonas rurais não há universidade;
14. É assumir que o dinheiro tem a sua importância;
15. É falar com convicção apenas aquilo que se sente;
16. É não conseguir viver sem o silêncio;
17. É considerar que a arrogância é apanágio dos ignorantes;
18. É agir com calma sempre que possível;
19. É ser moderadamente egocêntrico (11)
20. É pensar que o centro do mundo tem um interesse relativo;
21. É relativizar quase tudo menos o amor e a amizade;
22. É responder às solicitações e principalmente às dos amigos;
23. Não é preciso combinar nada, as coisas acontecem
espontaneamente;
24. É sobretudo dar espaço às sensações primárias;
25. É muito difícil ser objectivo e racional no espaço rural;
26. No espaço rural já não se usam penicos;
27. É ser inconformista qb;
28. É sentir que não estamos sós;
29. É tocar a terra e senti-la como um ser humano a sabe sentir;
30. É ir deixando crescer uma “barriguita” e cuidar da aparência
quando é necessário;
31. Fumar nunca é um problema para o intelectual rural.

os 31 passos para ser intelectual urbano

01. É ter projectos, muitos projectos;
02. É estar a trabalhar muito e em muitas coisas ao mesmo tempo;
03. É ver o máximo de espectáculos que o “Y” noticia;
04. É ler os livros “referência” de cada ano;
05. É fazer o pouco e quantas vezes “o nada” render muito;
06. É estar sempre a dizer qualquer coisa;
07. É perguntar ao outro o que está a fazer, e sem o ouvir realmente, já estar
a falar dos seus projectos;
08. É não pensar;
09. É agir em “legitima” defesa;
10. É fazer uma “escapadinha” durante o ano aos lugares mais “in - culturais”
da Europa e no verão visitar os lugares da moda (de preferência com mar ao
fundo e muita vida nocturna);
11. É ser puramente egocêntrico;
12. É uma luta contra o tempo;
13. É ser, ou ter vontade de ser Professor Universitário;
14. É (disfarçadamente) gostar muito de dinheiro;
15. É como o mundo do futebol, é falar e saber de tudo menos de desporto;
16. É não suportar o silêncio;
17. É ser profundamente auto-confiante e denotar alguma arrogância
quando põem em causa as suas ideias;
18. É ser setressado;
19. É não ter tempo para se masturbar;
20. É pensar que Lisboa é o centro do mundo;
21. É dar ao amor e à amizade uma importância relativa;
22. É esquecer-se de responder aos mail´s dos “amigos”;
23. É combinar encontrar-se com alguém para falar ou beber uns
copos e com sorte isso só vir a acontecer passados uns meses;
24. É não dar espaço às sensações mais primárias;
25. É ser pretensamente objectivo e racional;
26. É não “mijar fora do penico”;
27. É ser aparentemente inconformista;
28. É caminhar para o vazio espiritual e para a solidão;
29. É não ser verdadeiramente um animal;
30. É emagrecer e cuidar bastante da aparência, mas ter um
aspecto “neglige” quando convém (nota-se principalmente nos
espécimes mais relacionados com as artes);
31. É estar a fazer um esforço por deixar de fumar.

26 novembro 2004

quietude

Deixei-o hoje pelas 8 da manhã junto a um caminho estreito e longo entre vinhedos. O dia estava nublado, frio e triste. Dei a volta ao carro e ele esperou pacientemente que eu me afastasse. O seu olhar estava triste durante o tempo em que o foi observando pelo retrovisor até ao desfoque e à curva na estrada. Há tantas coisas que ele não sabe e eu gostaria de lhe dizer...
Já do outro lado da encosta ainda o vi a fazer o seu percurso lento, só e pesaroso pelo caminho estreito. Mantive-o no pensamento durante horas...

O telefone tocou...
- Podes vir buscar-me à vinha?

...fiquei contente pela sua voz, e não pude deixar de notar a humildade das suas palavras, a quietude em que parece mergulhar a cada dia que passa.

"a velhice é um naufrágio, sabe?"
in Carla de Elsinore

24 novembro 2004

ponencias III


instantâneos daquela vida real

ponencias II

Ela surpreendeu todos com a sua galopante mini-saia e meias rendadas a envolver as coxas esguias.
O colosso, aquele do post anterior, não ficou indiferente e olhou-a desajeitadamente de cima a baixo. Ela sentiu o seu olhar penetrante e lambareiro, mas desviou o olhar e fez um sorriso discreto, enquanto abanava afirmativamente a cabeça para o colega com quem conversava. Avançou confiante em direcção aos bolos e escolheu o mais pequeno, enquanto perguntava ao empregado se tinham creme. O empregado olhou-a e disse que sim, acrescentando que eram fresquinhos. Ela não resistiu, e... zás, deu-lhe uma grande dentada. O empregado suspirou reconfortado. O colosso que tomava café, café de saco, mesmo ali ao lado, não pôde evitar um olhar de soslaio. Bebeu o resto de café de uma só golada e arrastou-se languidamente mesmo junto a ela enquanto aspirava profundamente o seu perfume.
Ela voltou-se repentinamente e viu-o passar desajeitado e a esticar o casaco amarrotado.

Todos os convivas desceram para mais uma ponencia.
O colosso ia discursar, e ela, sentou-se na primeira fila.
Escusado será dizer que foi uma ponencia com muito interesse, uma abordagem inovadora das estratégias educacionais para o século XXI.

20 novembro 2004

ponencias I

O meu amigo T. concordou...
não podemos permitir a sua entrada na sala de ponencias!
As suas formas exacerbadas, o seu olhar altivo e a crueldade dos seus passos, geram tensões, torções e esforços não compatíveis com o enfoque globalizador que se pretende sempre presente. Isto, para além da natural incompatibilidade com a sociedade da informação e o esforço tecnológico do Ayuntamiento de Extremadura.
Vamos colocá-lo no claustro?
Assim foi.
O sol outonal entrava pelas arcadas e ele sentiu-se bem e reconfortado. Não gostava de parecer muito exigente, mas resolveu pedir uns bolos. Bolos, e café de saco.
Quando eu e o meu amigo T. chegamos, ele ressonava encostado a uma cadeira. Por um momento sentimos um sorriso e uma expressão vagabunda de quem sonha desmesuradamente. MEU DEUS! temos que o tirar daqui.
Aquilo que tinha parecido inicialmente um problema resolvido, agravou-se agora de forma incontrolável, ou seja, como remover dali tal colosso...Liguei o portátil e servi-me do último grito em tecnologia para chamar os bombeiros. Sim, estou a falar de wireless, que é como quem diz... ela está no ar.
O colosso acordou de repente estremunhado, sacudiu as migalhas da barriga e fez um esforço inglório por eliminar uma pequena mancha de café na camisa azul marinho. Ajeitou a gravata e levantou-se com a seriedade que o caracterizava. Afastou-se ruidosamente arrastando a perna esquerda, enquanto esticava as abas do casaco amarrotado. Ainda tropeçou no último degrau das escadas, mas aguentou a estocada. Olhou o sapato arranhado e entrou confiante na Sala Europa, onde ia apresentar uma comunicação sobre: "Estratégias Educacionais para o Século XXI - uma abordagem crítica sobre o pensamento complexo e o indesejável uso das novas tecnologias."

P.S. Os bombeiros foram avisados em tempo oportuno que a missiva tinha sido cancelada.

14 novembro 2004

inactivo

este espaço de ideias soltas e saberes vádios vai estar inactivo durante 4 ou 5 dias. Mas eu volto, esperançado e com ideias renovadas.

12 novembro 2004

nazo

"Todos os dias de manhã ao olhar o espelho faço a mesma pergunta, como seria a minha cara sem"... nariz

Corporação Nazoestética

Mário Botas


Mário Botas. s/título, 1993

pêlos nos ouvidos

estão a nascer-me pêlos nos ouvidos de tal forma pujantes que as palavras que me dizem se afirmam musicais. Repare-se que a última palavra que me disseram ao ouvido ficou a meio caminho entre a "Alina" de Arvo Pärt e o suave arfar de um sono profundo.

Kem es tu. rxp

sou a ponte para lado nenhum, o azul de infinito, a terra de ninguém que recebe de braços abertos a estrela cadente que ainda agora vi.


11 novembro 2004

espelhos

altura : arutla
mat : tam
pirilipan-pan : nap-napilirip
artur : rutra
alho : ohla
soalho : ohlaos
muito : otium

o dia hoje começou mal, tudo ao contrário e muitas vezes desfocado.
o espelho da casa de banho estava sujo e no ralo da banheira havia pêlos.
Esqueci-me de fechar a torneira e à noite deparei com uma inundação. Fiquei com os sapatos todos molhados, e as calças que ontem tinha comprado na Zara, ficaram irremediavelmente estragadas.
Quando saí para a rua e me meti no carro fui todo o tempo perseguido por uma aicnâlubma (ambulância)
definitivamente tinha acordado invertido para os acontecimentos.

- Cheguei!
- só agora. Diz ela!
- sim fui perseguido por uma aicnâlubma.
- então que contas?
- Olha, hoje tenho muito pouco para te dizer. O que pretendes saber?


hoje...
não vi a novela das sete, não ouvi o relato, estive desatento nas aulas...
quando falavas eu só pensava na desculpa que iria arranjar para aguentar a vida mais um dia,
decidi não ir a mais nenhum lado, inclusive, não fui à conservatória como tinha previsto...

Chego a casa tropeço num taco do soalho, escorrego para a frente no chão molhado e ainda por cima deparo-me com o bilhetinho dos afazeres para o dia todo.
fiquei pior que estragado.
O soalho estava definitivamente irrecuperável...

09 novembro 2004

de/no interior

Tenho andado a pensar se devo, ou não, assumir este blogue como sendo de interior ou no interior. É que os dois conceitos são na realidade claramente distintos, mas de qualquer maneira, dúbios.
Eu posso estar a falar do interior, no interior.
assim como,
estar no interior a falar do interior.
e posso ainda,
falar do interior sem que nessessariamente esteja a falar de mim mesmo.
ou então,
posso estar no interior, posso estar a falar de mim mesmo e simultaneamente estar no litoral.

desculpem lá o desabafo...
São coisas de in-terior.

frenético...

"Hoje estou cruel, frenético e exigente..."
Ou nem tanto... estou apenas cansado de me repetir.
Apetecia-me voar um pouco, mas as asas estão molhadas, sem ânimo.
Fica para uma próxima oportunidade.
Há sempre uma próxima oportunidade?
ou não?


Videira após a poda - Alto Douro

07 novembro 2004

...

o mapa riscado a batom...
a pastilha elástica colada por baixo do porta luvas
um sorriso perverso
um ou outro momento de perfeição.

06 novembro 2004

blog-in (2)

in-terior e abru(p)to.

Blog-in

No in-terior os blogs são mais intensos.

MMS – 1200 metros ou tudo está em tudo

Recebi uma MMS
que continha uma fotografia da paisagem abrupta das Fisgas de Ermelo e tinha em primeiro plano gravada na pedra a palavra “amo-te”. O autor desta foto não pôde ser identificado.

Olhava a paisagem
verde pelo enquadramento da janela do carro.
O vento morno da tarde arrancou-me uma lágrima ao olho direito enquanto um rubor me subiu pelo corpo acima e me invadiu as têmperas. Emociono-me facilmente com as paisagens e com as alturas.

05 novembro 2004

Valeira

Por alturas da Valeira
convém ser mudo.
Ou esquecer o fio das palavras.

Porque há lugares tão feitos
para a malha do silêncio,
que uma simples sílaba
apenas murmurada - embaraça.
A. M. Pires Cabral

(O Cachão da Valeira é um lugar mítico em toda a história do Alto Douro Vinhateiro...
a visitar... e sobretudo, a sentir )

Olhar


S. Salvador do Mundo (S. João da Pesqueira)


04 novembro 2004

Manual do sedutor

Hoje conheci um sedutor (autêntico) que usa o "método experimental" nas suas conquistas casuais (leia-se habituais). Descobriu que a infidelidade não é um problema, mas antes uma necessidade, e que o prazer está essencialmente no "descobrir pelo corpo acima". O primeiro grande ensinamento, diz ser, o silêncio relacional e a fugacidade dos encontros. O meu amigo encontra-se com três tipos de mulher: as dos vintes, as dos trintas e as dos quarentas. Deixou escapar, segredando, que cada vez mais se interessa pelas dos quarenta, pois diz, serem um "acrescento" - de salientar que o meu amigo é um homem da área das matemáticas, e segundo ele, "acrescento" é um conceito muito específico, que prometeu explicar-me numa próxima oportunidade.
O meu amigo associa a este amplo espaço de sedução uma certa "espiritualidade", um êxtase, que diz, ser visceral. Ele, é um poeta.
É pro-activo assumindo de imediato a atitude do conquistador:
- Vamos Jantar?
segue-se um olhar sedutor pelo corpo acima.
ela responde:
- Hoje não posso.
- Ok.Fica para outro dia.
O princípio da sedução está instalado, em crescendo, e a culminar no êxtase total.
É o que ele diz...
Há dúvidas?

03 novembro 2004


ainda com o cigarro ao canto da boca

a favor da bandalheira e da devassa

No outro dia em conversa com um amigo íamos conjecturando acerca dos fascismos encaputados que por aí andam e do medo colectivo que se sente.
Ninguém diz o que pensa claramente;
Dificilmente se discutem opiniões;
Toda a gente quer parecer perfeita e sem mácula, deixando de existir o "ser" para emergir em grande força o "parecer";
Os burocratas ganham preponderância afogados em papelada...
Deus já não interessa muito (por mim tudo bem)
anda tudo a tentar "safar-se" de quê?
do desemprego,
da mulher,
da prestação do carro,
daqueles que têm opiniões (pouco saudáveis!),
...etc
até os coitados dos fumadores que nunca fizeram mal a ninguém, agora parecem ter lepra. Toda a gente está incomodada (revoltada) com o fumo. Quando tal vai ser crime.

Anda para aí uma entidade anónima a "bufar"... e todos temos medo, sabe-se lá porquê e de quê!

Que saudades da bandalheira e devassa quantas vezes "pirosa" dos anos 80.

Parece que agora o que está a dar é ser eternamente jovem, viver para sempre. Nestas condições eu gostava de saber para quê...
mas está certo,
esperemos é que isto seja cíclico... como tudo.
Não é?



Para "afunilar" o olhar


Rio Douro (próximo do Peso da Régua)


02 novembro 2004

afunilar pontos de vista

hoje acordei com vontade de "afunilar" o meu ponto de vista, o mesmo é dizer "tou-te a ver daqui com os meus binóculos".

Tele-texto

Gostava de histórias de amor e não conseguia evitar a lágrima ao canto do olho desajeitadamente disfarçada. Passava horas em frente à televisão, umas vezes enamorado pelo vazio, outras vezes a pensar em si mesmo.

Kerckhove disse no livro “A pele da cultura” que a televisão se direcciona primeiro ao corpo e só depois à mente – disse que a televisão age fisicamente com o espectador. Esta feliz conclusão não lhe terá escapado nas longas horas passadas em frente ao ecrã. Só uma ou outra mosca a zunir próxima aos ouvidos o tirava do sério. Baixava o som do televisor. Levantava-se e procurava uma almofada. Os seus sentidos estavam concentrados no ouvido que por sua vez agiam como sonares experimentados. Após várias tentativas falhadas, zás!

Voltava a sentar-se no sofá desconfortável. Uns velhos cadeirões da década de 60 que já ninguém queria e estendia-se todo enquanto aumentava o som do televisor. Por vezes fazia um pouco de zapping e ia-se deixando ficar em fragmentos de publicidade que anunciavam raparigas bonitas e de bem com a vida ou então modelos de comportamento social que só eram credíveis porque fazia-se a si mesmo o favor de não os pensar. Outras vezes adormecia por longos períodos de tempo e acordava com a sensação desconfortável de ter ficado sempre a dormir para o mesmo lado. Colocava a mão no pescoço e fazia gestos circulares com a cabeça. Puxava o corpo pelo sofá acima e mudava de canal.

Hoje acordou com sede e foi à cozinha beber um copo de água. Estava calor e a água gelada despertou-o. Eram por aí umas 8 da tarde e o sol estava a desaparecer no horizonte. Saíu para regar o jardim tal como o fazia religiosamente todos os dias de verão. Sentia uma espécie de hipnose a olhar o jacto de água a humedecer o chão e ficava feliz por ver crescer as ervas. Sentia-se responsável pelo bem estar das plantas e dos animais que viviam nas entranhas daquele pedaço de terra.

Tinham-lhe dito no dia anterior que era triste e tinha um humor irregular. Ele concordou enquanto fechava a torneira e se dirigia à sala para consultar o tele-texto.

01 novembro 2004

aqui no rio

Como terei que começar por algum lado, coloquei-me quatro ou cinco passos acima da linha de água e fiquei a pensar no que me passou pela cabeça.
Que assim seja.

Inicio assim este espaço sem qualquer conceito prévio e na esperança de que algo aconteça...