30 junho 2009
21 junho 2009
Tamera
"Aeroporto de Lisboa. O homem alto com as roupas coloridas de palhaço e o longo rabo de cavalo de cabelos grisalhos – metade deles pintados de azul brilhante – faz parar. A senhora no ponto de controle dos passaportes devolve-lhe os seus documentos com um ar sério e agradece. Ele olha-a nos seus olhos. „ Não, sou eu que tenho de lhe agradecer pelo seu trabalho incansável que faz aqui, dia após dia. Diga-me por favor como posso agradecer-lhe?“ Atrás dele forma-se uma fila, as pessoas esperam. Sentindo que ele não se afastará sem que ela diga algo de concreto a senhora sugere: „Talvez sendo apenas feliz?“ Patch considera esta proposta por um segundo. „Sim, vou fazer isso“, responde ele seriamente. „E você? Pode prometer o mesmo?“. Como uma nuvem a sair do sol, o ar grave de todos os dias desaparece do rosto da senhora e dá lugar a um sorriso do seu olhar: „Sim, prometo“."
continua aqui
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subtilezas e consequências
17 junho 2009
Pérolas da Web
protect77 (sem palavras)
quit doing it labs (estratégias para deixar de fumar)
criar album de fotos
Bjorn Borg (publicidade)
divertimento (Faces)
Muito bom design (Jonathan Yuen)
Today and tomorrow (design)
...e muito mais aqui
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Today and tomorrow (design)
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pérolas da web
Radiohead: House of Cards
Este vídeo ganhou 1 Black Pencil da D&AD
outros prémios da edição 2009 em diferentes categorias :.aqui.:
10 junho 2009
O capitalismo explicado às criancinhas
A ditadura capitalista Ocidental, que não é efectivamente igual às outras ditaduras (é mais refinada), baseia-se claramente neste valor: o Ter em desproveito do Saber e do Ser.
Assim está o Ocidente convencido, e a educação (leia-se escola) reproduz claramente esta ideia, de que, para ser feliz e viver calmamente entre os pares será necessário possuir:
- uma casa
- um carro
- um telemóvel
- e... um ou outro "gadget".
Analisando estes dados ganhamos efectivamente o quê? Algum conforto, o que é bom, e uma ou várias hipotecas vitalícias que escravizam a liberdade de existir e pensar de qualquer ser humano, enquanto em simultâneo engordam as entidades financeiras, que são a âncora do sistema.
Como se não bastasse, somos todos os dias convencidos de que para sermos ainda mais felizes e reconhecidos pelos nosso pares (a ideia do sucesso) temos que acompanhar o ritmo alucinante da produção em massa. Assim, em pouco tempo acabamos por comprar uma casa de férias, um automóvel mais potente, um PDA com GPS e mais um ou outro "gadget" da moda.
O que acontece ao automóvel, ao telemóvel e ao "gadget" antigos? Bom, nem queremos saber, na pior das hipóteses vai directo para o lixo e na melhor vai para a reciclagem.
O que acontece a esta super-produção de coisas efectivamente inúteis? Esgotam cada vez mais os recursos da terra e são um forte contributo para a desagregação climática do planeta.
O regime capitalista, que se diz democrático, o que faz, na realidade, e como já referi, é exportar a ditadura para outros continentes sugando-lhes os recursos, enquanto vai satisfazendo necessidades que nós ocidentais fomos convencidos a pensar que sentimos, ajudando assim a preservar quase intacta a ideologia vigente com o contentamento de quase todos.
Será que já pensamos bem no que andamos a fazer a nós próprios e ao mundo em geral? Será que já nos demos conta que a alienação do Ter em desproveito do Saber e do Ser contribuem para que sejamos cada vez mais infelizes?
É necessário acabar com isto já. É necessário acabar de vez com a palhaçada do modelo educativo que temos e avançar de forma musculada para pôr término à ideologia capitalista, que não sendo uma ditadura como as do passado, nos está a consumir a alma até esvaziar completamente a nossa vida de sentido.
Assim está o Ocidente convencido, e a educação (leia-se escola) reproduz claramente esta ideia, de que, para ser feliz e viver calmamente entre os pares será necessário possuir:
- uma casa
- um carro
- um telemóvel
- e... um ou outro "gadget".
Analisando estes dados ganhamos efectivamente o quê? Algum conforto, o que é bom, e uma ou várias hipotecas vitalícias que escravizam a liberdade de existir e pensar de qualquer ser humano, enquanto em simultâneo engordam as entidades financeiras, que são a âncora do sistema.
Como se não bastasse, somos todos os dias convencidos de que para sermos ainda mais felizes e reconhecidos pelos nosso pares (a ideia do sucesso) temos que acompanhar o ritmo alucinante da produção em massa. Assim, em pouco tempo acabamos por comprar uma casa de férias, um automóvel mais potente, um PDA com GPS e mais um ou outro "gadget" da moda.
O que acontece ao automóvel, ao telemóvel e ao "gadget" antigos? Bom, nem queremos saber, na pior das hipóteses vai directo para o lixo e na melhor vai para a reciclagem.
O que acontece a esta super-produção de coisas efectivamente inúteis? Esgotam cada vez mais os recursos da terra e são um forte contributo para a desagregação climática do planeta.
O regime capitalista, que se diz democrático, o que faz, na realidade, e como já referi, é exportar a ditadura para outros continentes sugando-lhes os recursos, enquanto vai satisfazendo necessidades que nós ocidentais fomos convencidos a pensar que sentimos, ajudando assim a preservar quase intacta a ideologia vigente com o contentamento de quase todos.
Será que já pensamos bem no que andamos a fazer a nós próprios e ao mundo em geral? Será que já nos demos conta que a alienação do Ter em desproveito do Saber e do Ser contribuem para que sejamos cada vez mais infelizes?
É necessário acabar com isto já. É necessário acabar de vez com a palhaçada do modelo educativo que temos e avançar de forma musculada para pôr término à ideologia capitalista, que não sendo uma ditadura como as do passado, nos está a consumir a alma até esvaziar completamente a nossa vida de sentido.
02 junho 2009
A vida secreta de uma toupeira IX
Durante anos vivi inquieto pela incapacidade de tomar decisões. Sempre que tentava decidir alguma coisa essencial, sentia a veia jugular estoirar no pescoço vermelho. Por vezes nasciam mesmo borbulhas, e, da boca só saíam palavras desconexas, como se em vez de as dizer apenas as estivesse a vomitar. Apertava os braços ao tronco suado como se algo fosse rebentar no interior e o grande temor não fosse a hemorragia interna, mas a projecção indiscriminada das vísceras.
Por detrás das paredes eram sempre os mesmos ruídos, os mesmos silêncios e desejos. Como não me reconhecia neste corpo em sobressalto, comecei a olhar-me, a espiar-me, a rasgar-me por dentro. Olhava-me para sair de um sufoco existencial. Quando alguém falava, ouvia-me a mim próprio e vociferava contra a vida pouco inspirada que levava. Dei-me conta de que chegara à meia vida sem nada de extraordinário para contar. Queria ser tudo, poderia até ser tudo, mas mantinha-me fiel a uma certa jovialidade que dificilmente manteria por muito mais tempo. Sentia-me afundar num marasmo, deixava-me emocionar por uma névoa. Olhei para o lado e as crianças com quem tinha vivido os primeiros anos de escola eram agora homens e mulheres autónomos e cheios de convicção. Eu não, eu no escuro de um certo tempo mantinha-me fiel ao indefinido, ao difuso e ao não saber bem como vai terminar o dia. Acreditava em tudo, aceitava tudo e até pensei que tudo seria possível. Ergui os braços para receber as farpas considerando-me um homem de valores, um homem redondo e livre. Vivia numa espécie de cápsula existencial que se por um lado aproximava gerações por outro se distanciava da essência que julgava possuir – da vontade de ser muito bom em qualquer coisa. Mas eu não, continuava perdido, refém de querer ser tudo, refém das intensidades. Pensava que poderia ser assim para sempre, mas estava enganado.
Dediquei mais que meia vida a construir… sabes… as coisas que a gente gosta – a procurar o que julgamos essencial e nunca se esgota nas palavras. A procurar toda a beleza do mundo no fundo dos olhares. Tu bem sabes que o grande fascínio do mundo está num rosto humano e por isso não parámos de olhar, sempre a olhar o fascínio intemporal de um rosto, a procurar um pensamento bom, limpo e directo.
Assim foi chegando ao princípio do mundo onde as nuvens eram habitadas por luzes fosforescentes, onde as casas estavam vazias e eu a olhar para ti. No princípio do mundo eu já tinha mais que meia vida e descobri finalmente a terra para cultivar. Descobri que na terra estava o todo que sempre procurei, descobri que as palavras tinham os seus limites bem traçados e que a grandeza estava naquilo que não se dizia. Que a grandeza era eu e tu a olhar o mundo com aquela força de corar, com aquela força terna de amar as coisas. Sabes… as coisas que a gente gosta, sem tempo, sem limites, só paixão absoluta e vontade de abraçar. Possuíamos o segredo dos seres lentos e espinhosos, dos seres difusos e íntimos como a terra, ora agreste, ora suave e aconchegante.
Texto publicado na revista "Pensares" - ESJAC
Por detrás das paredes eram sempre os mesmos ruídos, os mesmos silêncios e desejos. Como não me reconhecia neste corpo em sobressalto, comecei a olhar-me, a espiar-me, a rasgar-me por dentro. Olhava-me para sair de um sufoco existencial. Quando alguém falava, ouvia-me a mim próprio e vociferava contra a vida pouco inspirada que levava. Dei-me conta de que chegara à meia vida sem nada de extraordinário para contar. Queria ser tudo, poderia até ser tudo, mas mantinha-me fiel a uma certa jovialidade que dificilmente manteria por muito mais tempo. Sentia-me afundar num marasmo, deixava-me emocionar por uma névoa. Olhei para o lado e as crianças com quem tinha vivido os primeiros anos de escola eram agora homens e mulheres autónomos e cheios de convicção. Eu não, eu no escuro de um certo tempo mantinha-me fiel ao indefinido, ao difuso e ao não saber bem como vai terminar o dia. Acreditava em tudo, aceitava tudo e até pensei que tudo seria possível. Ergui os braços para receber as farpas considerando-me um homem de valores, um homem redondo e livre. Vivia numa espécie de cápsula existencial que se por um lado aproximava gerações por outro se distanciava da essência que julgava possuir – da vontade de ser muito bom em qualquer coisa. Mas eu não, continuava perdido, refém de querer ser tudo, refém das intensidades. Pensava que poderia ser assim para sempre, mas estava enganado.
Dediquei mais que meia vida a construir… sabes… as coisas que a gente gosta – a procurar o que julgamos essencial e nunca se esgota nas palavras. A procurar toda a beleza do mundo no fundo dos olhares. Tu bem sabes que o grande fascínio do mundo está num rosto humano e por isso não parámos de olhar, sempre a olhar o fascínio intemporal de um rosto, a procurar um pensamento bom, limpo e directo.
Assim foi chegando ao princípio do mundo onde as nuvens eram habitadas por luzes fosforescentes, onde as casas estavam vazias e eu a olhar para ti. No princípio do mundo eu já tinha mais que meia vida e descobri finalmente a terra para cultivar. Descobri que na terra estava o todo que sempre procurei, descobri que as palavras tinham os seus limites bem traçados e que a grandeza estava naquilo que não se dizia. Que a grandeza era eu e tu a olhar o mundo com aquela força de corar, com aquela força terna de amar as coisas. Sabes… as coisas que a gente gosta, sem tempo, sem limites, só paixão absoluta e vontade de abraçar. Possuíamos o segredo dos seres lentos e espinhosos, dos seres difusos e íntimos como a terra, ora agreste, ora suave e aconchegante.
Texto publicado na revista "Pensares" - ESJAC
Etiquetas:
A Vida Secreta de uma Toupeira
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