29 junho 2006
os que vão e os que ficam
Os que vão deixam de existir para os que ficam
Os que ficam sabem que os outros foram
Claro que os que ficam podem ter o desejo de ir
Mas como podemos saber se os que foram não sentem uma terrível vontade de voltar
Se cada um de nós for uma vez na vida, não sabe se será capaz de regressar
Se alguém que foi voltou, talvez não tenha feito a melhor opção.
Na realidade a grande preocupação dos que vão e dos que ficam não é o espaço
- é o tempo e a qualidade das viagens.
28 junho 2006
os que vão
Foste para o sul sem deixar rasto. Foste célere e
endoidecido. Estavas cheio de ideias que toda a gente pensou serem utópicas. Tu
estavas muito seguro e crente nessa viagem sem retorno. Querias outro
continente, outra vida - querias que tudo, mesmo tudo mudasse. Estranhaste
alguém poder pensar que isso era uma loucura, um devaneio. Estavas certo que
esse caminho era o teu caminho. Avançaste sem hesitar, sem te voltares para
trás. Estavas confiante e seguro que só sobreviverias enterrando metade da tua
vida. Assim foi, nunca mais voltaste, nunca mais ninguém soube de ti. Aquela
visão de criança, que um dia me contaste e em que sonhavas ser conhecido
desvaneceu-se naturalmente com os anos. Hoje tudo aquilo que querias era o
oposto, e pela primeira vez pudeste ser quem querias ser, no momento escolhido
por ti.
Nunca mais te vi desde então, mas mesmo assim não saíste de mim, e quero
acreditar que isso seja recíproco. Quanto mais não seja quando bebes um ou dois
copos de vinho bom (será que ainda bebes vinho) ou quando por acaso sobes um penhasco
qualquer e olhas do alto. Ou será que os sítios altos já não te fascinam e
vives agora ao nível do solo em vastas planícies? Não sei até que ponto mudaste,
mas também o que interessa isso. Tu quiseste ser outra coisa e isso terá sido tão
bom para ti como foi e continua a ser surpreendente e enriquecedor para mim.
27 junho 2006
Quantas vezes
aprender, desaprender, recomeçar
estar perdido, não saber.
Procurar, estudar, perder-se novamente.
Voltar aos lugares de sempre e não mudar nada.
Caminhar outra e outra vez e estar permanentemente inquieto com a viagem.
Saber, interiorizar e desconfiar - do que se sabe do que se é, e se vale a pena.
Ouvir dez vezes o mesmo ensinamento e mesmo assim desconfiar.
Reformular dentro de si perdendo-se e não sabendo se o caminho percorrido é para valer.
Voltar ao princípio iludindo-se que o caminho é novo e desiludir-se.
Voltar atrás e aprender, desaprender e recomeçar.
o triunfo da vontade

hoje alguém me contou uma estória muito intensa
uma daquelas estórias que fica em nós para sempre
uma estória que faz parte de mim...
...em parte porque já cá estava
...em parte porque nunca saiu de mim
...em parte porque deveria estar em todos nós.
porque volto.
volto porque também sou palhaço
volto porque me apetece
volto porque quero dizer coisas
digo que amo
digo que vivo
digo tudo
digo sempre
sempre...
...que é intenso
...que me inquieta
...que me toca
...que me desnuda
...que dói
...que sangra
...que sou feliz
volto só para dizer.
dizer que existo
dizer que acredito
dizer o que sei
dizer que estou aqui
volto para aqui...
...porque me sinto bem
...porque me conforta
...porque me desconforta
...porque sim.