Sempre que subia à superfície sorria estranhamente e dizia: vou ver quem anda nas alfaces. Era conhecida no meio pela Alfacinha e já contava no seu currículum com três enterramentos numa clínica privada para doenças mentais.
Os pais abandonaram-na não tinha ainda duas semanas, diz-se que morreram à sacholada, mas são só boatos. Que os pais nunca voltaram isso é uma evidência. Ficou entregue aos cuidados da avó que sempre se esmerou por lhe dar uma boa educação. E assim foi vivendo menina mimada e caprichosa. Nos longos passeios pelos túneis e por vezes quando aflorava à superfície, foi cavando toda uma vida clandestina e particular. Ausentava-se por longos períodos para desassossego da Avó. Muitos diziam que a loucura lhe tinha devolvido o olhar e na superfície chegava até a descodificar a voz humana. Quando voltava, contava estórias impossíveis, de passeios no regato na companhia de um pequeno barco de cortiça com uma vela vermelha feita de trapo. Outras vezes vinha extraordinariamente cansada e agitada dizendo que tinha sido perseguida por um animal de grande porte que lhe dava dentadas no rabo. A avó sorria carinhosamente para ela conformada e a acenar ligeiramente a cabeça num gesto de aprovação.
No dia em que fez 2 anos ausentou-se iniciando uma aventura de vários dias para desassossego da Avó. Caminhou para a porta. Antes de fechar lançou um último olhar à casa e colocou os seus olhos nos olhos tristes da Avó. Estava decidida a procurar, a aventurar-se no mundo dos homens, a compreender o mundo da luz, acreditando firmemente que a loucura que lhe imputavam era tão só, simples ignorância daqueles que desde sempre viveram na sombra.
*Esta história nasceu a 1 de Junho de 2005, tendo ficado enterrada até este preciso momento em que resolvi contar na sua totalidade a vida deste estranho ser vindo da sombra. Capítulo a capítulo todo o mistério será desvendado. Os seres da sombra estão bem perto, quase sempre debaixo dos nossos pés.
14 dezembro 2008
Elephant
06 dezembro 2008
05 dezembro 2008
voz off
É necessário que fiquemos, ainda que temporariamente, sem uma determinada coisa, para que lhe demos a sua real importância.
Perdi a voz...
mais que perder a voz perdi a capacidade de dar uma forte gargalhada. Aliás, rir pode tornar-se um verdadeiro tormento quando temos as cordas vocais estragadas.
Perder a voz pode ter mais ou menos importância no desempenho das diferentes profissões, pode ter mais ou menos importância na nossa vida social. Mas rir, sorrir , gargalhar ou chorar são manifestações sem as quais pode tornar-se verdadeiramente penoso viver. Viver sério, sorrir com as maças do rosto, chorar apenas lágrimas, não ser capaz de gritar, berrar, contestar veementemente, chamar o cão, berrar ao amigo que vai do outro lado da rua e não nos viu, elevar a voz... enfim, voz off, porra.
Perdi a voz...
mais que perder a voz perdi a capacidade de dar uma forte gargalhada. Aliás, rir pode tornar-se um verdadeiro tormento quando temos as cordas vocais estragadas.
Perder a voz pode ter mais ou menos importância no desempenho das diferentes profissões, pode ter mais ou menos importância na nossa vida social. Mas rir, sorrir , gargalhar ou chorar são manifestações sem as quais pode tornar-se verdadeiramente penoso viver. Viver sério, sorrir com as maças do rosto, chorar apenas lágrimas, não ser capaz de gritar, berrar, contestar veementemente, chamar o cão, berrar ao amigo que vai do outro lado da rua e não nos viu, elevar a voz... enfim, voz off, porra.
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