10 fevereiro 2007

Capital Cultural do Norte "just for one day"

alguns contratempos, dispersões, outras ocupações, berros e ameaças de porrada (proferidas por mim) afastaram-me de algo que eu não poderia deixar de reflectir aqui e que está relacionado com o último fim de semana em Vila Real, que nos ditos dias mais parecia a capital cultural do NORTE. Aconteceu no Teatro de Vila Real - na Sexta-Feira a peça do Fernando Moreira em colaboração com os actores do ESMAE e no sábado os Dead Combo. No que se refere ao primeiro acontecimento, não quero enganar ninguém, o Fernando Moreira é meu "amigo do peito", mas como ele sabe, estando com ele nos maus e nos bons momentos, nunca fui acrítico relativamente àquilo que tem feito em termos artísticos. Daí que me sinto muito a vontade para aqui manifestar a minha mais profunda admiração pelo trabalho realizado com os excelentes actores da ESMAE. Um trabalho exigente e no limite ( quando actores, conceitos e todo o trabalho realizado se pode desmoronar e transformar noutra coisa qualquer e a qualquer momento). É muito raro encontrarmos este atrevimento, mas é a partir destes atrevimentos que nascem obras únicas e inqualificáveis como as de Cassavetes e Fassbinder no cinema, Jean Genet e Artaud na literatura,/teatro, Michaux e kahlo nas artes plásticas.
Quanto aos Dead Combo, que não conhecia, foram uma extraordinária surpresa muito próxima de algumas das coisas que mais gosto em termos musicais.

Como os "excessos de natureza" (diria Miguel Torga) se pagam caro, passei o resto do fim de semana febril, a meio caminho entre uma vontade desmesurada de chorar e viver (compreensível) e uma esquisita mas convincente tendência para adormecer encharcado.

09 fevereiro 2007

esta forma de amar o mundo não tem sexo

Eterno

Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais queiras diferente;
que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes
representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d'Aire
- mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax
e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
felina e ondulante numa ilha tropical
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada,
ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
a quem atribuíssem um número de contribuinte
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
e que sejas louca e sábia
que tenhas lábios e mordas,
língua e sorvas, sexo e sexes, salto e salto, riso e rias,
sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne,
passos de corsa, graça de arlequim,
pose de Diva, corpo de areia e luz.
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e fecundes um poema em cada gesto
e voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Índia em cada cacilheiro
e que sejas, mores, vivas e creias
longe
muito longe daqui...

quero que sejas profundamente minha e ritual
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

(letra e música de Pedro Barroso in CD «Longe daqui», 1990)