Tenho a mania de pensar que efectivamente tenho poucos amigos, amigos de verdade.
Hoje fiz um périplo pelas fotografias do meu baú de memórias e constatei que não só tenho bastantes amigos como os continuo a preservar e a enaltecer com a mesma força e intensidade de sempre. Como parte integrante daquilo em que me transformei. Ainda mais importante é o facto de ter a sensação de que o sentimento é mútuo e que a intensidade de tudo resulta desta força grande de estarmos em comunhão, desse sentido de pertença a um grupo de referência onde não existem limites, onde a liberdade não se questiona.
13 julho 2011
04 junho 2011
Má Educação
falta-me uma razão forte, falta-me um desejo pungente, falta-me paixão e querer tudo em demasia, falta-me ser fiel a mim mesmo e espaço para ser diletante. Falta-me ousadia, falta-me seleccionar, falta-me aquilo que me importa ser... Falta-me efectivamente distinção, percorrer o caminho inverso, olhar livre, viver sem amarras, recusar o que parece ser óbvio - entrar em rota de colisão com o que está adormecido, com o que está morto e fede. Com o que parece natural num gajo de 40 anos, com o clima que se vai instalando em mim como coisa de gajo de 40 anos...
Os gajos talvez não tenham idade, os gajos talvez possam recusar ser aquilo que todos parecem crer que são. Os gajos talvez possam colocar-se em ténue planar, em ténue banho morno e em caminho diverso.
Porque será que mentes tão inexploradas e complexas como parece ser a mente humana, tendem "naturalmente" para os padrões, para a boçalidade da uniformização. Que limites, que prerrogativas andaremos a construir. Que sociedade milenar, que aprendizagem... Que ética nos informa?
Os gajos talvez não tenham idade, os gajos talvez possam recusar ser aquilo que todos parecem crer que são. Os gajos talvez possam colocar-se em ténue planar, em ténue banho morno e em caminho diverso.
Porque será que mentes tão inexploradas e complexas como parece ser a mente humana, tendem "naturalmente" para os padrões, para a boçalidade da uniformização. Que limites, que prerrogativas andaremos a construir. Que sociedade milenar, que aprendizagem... Que ética nos informa?
O lugar do morto
Percorria a estrada alienado no vento e no percurso tantas vezes repetido, quando me dei conta de algumas coisas significantes, dos mitos que criamos em torno do que já está definitivamente impresso na alma e da construção que ao longo dos anos fazemos de nós mesmos. Não adianta querermos mais e diferente pois o nosso caminho tem padrões bem traçados que, ora nos iludem, ora nos atormentam e alienam. A construção do indivíduo é coisa própria do mistério de existir, sem dúvida, da fidelidade que temos ou não a nós mesmos, da autenticidade que procuramos nos dias. Olho para o todo e vejo uma nuvem bem definida de comportamentos e atitudes que indiciam que daqui para a frente não vai ser particularmente diferente. Que o que verdadeiramente nos fascina foge-nos todos os dias das mãos inábeis para agarrar tanta imensidão. Que o que vemos é tão só o que efectivamente vemos e o resto se esfuma nas sinapses da mente. Gostaríamos de dar algum sentido a isto tudo e dar o rumo necessário às inquietações, mas limitamo-nos a olhar de soslaio para a vida que nos passa ao lado ou para os comportamentos em exaustiva e enfadonha repetição. Gostaríamos de ter a solução para um corpo morto, uma solução para um comportamento desestruturado, para na realidade nos agarrarmos à infinita e suprema ordem, ao caminho seguro para algum lado, ao caminho fácil que é querer que todos gostem de nós, à falsa transparência de cumprir objectivos mais ou menos estabelecidos, mais ou menos consensuais. Talvez esteja inscrito nos genes que não vamos abandonar uma certa forma de existir, que para todos os efeitos é uma estratégia obsoleta.
Nada nos fascina mais e nos atormenta do que a morte, morte em estado brutalmente puro. Morto encostado ao leito frio do xisto e projectando a sombra como último impacto na natureza, aquela natureza que os vivos ainda entendem. Morto junto ao verde crescente de uma primavera febril e explosiva, ao esplendor do bacelo jovem. Dois ou três olhares bastam para compreender a beleza horrível da putrefacção, do corpo finalmente humilde e pungente na sua comunhão com tudo o que existe. São efectivamente os dias débeis de uma primavera esplendorosa, quando um corpo distraído se encontra no nosso olhar temeroso perante o que se adivinha cruel e verdadeiro. Quando o nosso olhar rarefeito e simultaneamente atento se fragiliza e refugia no turbilhão sempre inconclusivo do nada, do vazio absoluto e do silêncio das coisas sérias. Das coisas que nos impelem a ficar quietos, quando nós só queremos avançar deixando para trás a dor de nos sentirmos inconclusivos e sem respostas, sem chão e sem nada.
Nas últimas semanas andei por aí com a morte no caminho, a coisa estranhamente inquietante do corpo inanimado, morto, alvo. Do corpo matriz do existir e do deixar de ser. Do corpo abandonado aos elementos e à combustão que estes provocam. Do corpo que segrega sucos, do corpo que exala perfumes atribuíveis às coisas mortas, às coisas que não queremos olhar, que não queremos ver, quanto mais cheirar. Em volta dele, do morto, iludimo-nos de que compreendemos finalmente o significado da existência, o significado da vida e da sua verdadeira e curta dimensão, para logo nos redimirmos de tal conclusão e avançarmos vivendo exactamente da mesma forma, como se fossemos eternos.
Publicado na revista Pensar(es) - Junho de 2011
27 maio 2011
Ser grande
Ser grande... ser grande mesmo... é olhar no fundo dos olhos dos outros e ser capaz de construir uma relação visceral, uma visão do mundo. Um momento único. O resto... não importa.
Os dias
Às vezes sinto tanto que não consigo dizer nada.
...e quando escrevo é como quem encheu o saco, como quem é diletante, como quem está perdido, como quem quer estar calado.
...e quando escrevo é como quem encheu o saco, como quem é diletante, como quem está perdido, como quem quer estar calado.
26 abril 2011
no comments
(...) Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
Miguel Sousa Tavares, in 'Não Te Deixarei Morrer, David Crockett '
Miguel Sousa Tavares, in 'Não Te Deixarei Morrer, David Crockett '
25 março 2011
Olhares
O Jorge trouxe-me no outro dia esta foto. Não é particularmente especial. Não existe o Punctum de Barthes. É uma foto vulgaríssima de um tempo em que ser-se fotografado nada tinha de vulgar. De um tempo em que o acto de fotografar e ser fotografado era efectivamente especial. Vestia-se a melhor roupa e tentávamos fazer a pose que melhor sabíamos adequar àquilo que julgávamos ser ou que a toda a força queríamos parecer, ou que até nem disto sabíamos e apenas nos limitávamos a olhar, com ingenuidade, a lente que nos iria eternizar.
Este terá sido um desses momentos especiais de que efectivamente não me lembro, mas que certamente foi importante.
A foto de grupo ter-nos-á sido anunciada no dia anterior e as nossas mães vestiram-nos a melhor indumentária. O cabelo foi arranjado. Fomos incentivados a fazer a pose segura, a pose da posteridade.
No meio de tanta azáfama lá estávamos nós no momento certo de olhos bem arregalados para não falhar, quem sabe para não perder desde logo a posteridade. Queríamos nas entrelinhas que as nossas mães quando nos vissem se orgulhassem de nós e nos dissessem como éramos lindos e como depositavam em nós toda a confiança do mundo. Claro que esta vontade não foi possível para todos, mas bem lá no fundo todos acreditávamos nessa possibilidade.
Recordo com ternura a minha professora primária. Uma Senhora progressista para o tempo e que sempre me negou as reguadas que talvez tenha merecido. Recordo também as expressões do Jorge e do Toninho como meus amigos mais chegados.
E lá apareço eu no meio disto tudo, agora mais de trinta anos passados, olhando nos olhos do menino que era com a ternura que o tempo coloca nas coisas autênticas.
Quero tudo
Tantos olhares, tantas palavras, tantos desejos, tantos quereres, tantos sentires, tanta dor. Tanto amor, tanto compromisso, tanto desespero, tanta amizade, tanto indizível, tanto Ser e tanto Não Ser. Tanta pele, tanto álcool, tanta interrogação, tanto não saber, tanto tudo.
03 março 2011
Jorrar
Tenho esta intenção autêntica de querer transformar o pequeno mundo que me circunda, tenho esta tentação de dar tudo, de ser transparente, mágico de mangas arregaçadas. Abrir os braços e deixar jorrar o sangue quente que vem do interior. E depois, ficar assim a definhar de prazer insólito.
26 fevereiro 2011
Primavera sem flor
Faltam-me livros e escrever sobre filmes pungentes para os quais já não tenho palavras. Faltam-me aqueles silêncios, aquele amor, aquela intensidade. Falta-me aquele excesso, aquele deslumbramento das paisagens matinais depois de longas noites acordadas. Falta-me aquela sonoridade, aquele desespero próprio das coisas inacabadas, aquela paixão dos amantes que não sabem que o são. Falta-me aquela insegurança pura de não saber. Aquela viagem que sempre quis fazer, aquele pedaço de mundo que sempre quis tocar. Falta-me disponibilidade para alguns dos lugares onde fui feliz, falta-me acreditar que existe vida para além do conforto, que existe vento, quatro pontos cardeais e primavera.
Falta-me afinal quase tudo, no momento em que talvez tudo fosse possível, assim quisesse, assim me demarcasse do balão insuflável que me alimenta os dias. Assim me renovasse.
Falta-me afinal quase tudo, no momento em que talvez tudo fosse possível, assim quisesse, assim me demarcasse do balão insuflável que me alimenta os dias. Assim me renovasse.
Homem balão
Parece que já só ouço o que efectivamente quero ouvir e que já só vivo aquilo que me apetece viver. Nesta circunstância protejo-me, na exacta medida em que me julgo errado. Errado para tantas coisas. Parece que a minha disponibilidade é um balão que se insufla, ora cheio, ora vazio, elástico para tudo, elástico sem ser nada.
25 dezembro 2010
Lágrimas
Chorar... tudo, tudo... chorar até estar vazio, sem nada, despojado, suave de tanta lassidão, de tanto ser.
12 dezembro 2010
Flor de Inverno
Será sensato voar, deslizar sobre o asfalto grosseiro, viver os dias com clareza e romper os sonhos que acalentamos durante tanto tempo? Será sensato ficar intacto, será sensato não arriscar?
Interrogo-me se a sensatez não existe para nos refrear os ímpetos de querer, os ímpetos de ser, quando já somos tão pouco para tudo que existe, tão ínfimos e tão sós, desmesuradamente sós nas opções, desmesuradamente sós nas atitudes, pouco mais que nada.
Talvez acordemos um dia para a graciosidade, para uma atenção fecunda, para gestos desmesurados, para uma humanidade pungente, um desejo grande de ser tudo, de viver tudo e de estar de braços abertos para os Homens, como se cada segundo fosse o último, como se cada hora fosse para a posteridade, como se cada dia fosse uma consciente, frágil flor de Inverno.
Interrogo-me se a sensatez não existe para nos refrear os ímpetos de querer, os ímpetos de ser, quando já somos tão pouco para tudo que existe, tão ínfimos e tão sós, desmesuradamente sós nas opções, desmesuradamente sós nas atitudes, pouco mais que nada.
Talvez acordemos um dia para a graciosidade, para uma atenção fecunda, para gestos desmesurados, para uma humanidade pungente, um desejo grande de ser tudo, de viver tudo e de estar de braços abertos para os Homens, como se cada segundo fosse o último, como se cada hora fosse para a posteridade, como se cada dia fosse uma consciente, frágil flor de Inverno.
11 dezembro 2010
Vai amanhecer
Ouço o ritmo particular do cortar da cebola, o som rasgado da faca e o teu olhar lacrimejante perdido na série "Bones", tu sabes... ta, ta, ta, ra, ra, ta, ta , ra, rammm...
Preparaste uma tina completa de legumes frescos para fazer a sopa que vai alimentar estes dias de reclusão, estes dias em que eu e tu nos entregamos às tarefas prazenteiras que a vida domestica nos dá. Farás um belo jantar e um amigo virá para partilhar isto tudo. Beberemos bom vinho, teremos conversas intensas e de verdade. Lançaremos ideias fortes aos quatro ventos e lá fora estará a chover. O vento fará ruídos conhecidos na nossa grande janela, que se abre para aquele horizonte, que tão bem conheces e que por acaso nem é nada de especial.
Mais especiais seremos então nós e tudo se irá concentrar no interior disto tudo. A nossa casa, as pessoas que amamos, os nossos livros, a nossa música e os nossos filmes. A Gatim estará por perto, sempre esquiva e ao mesmo tempo sempre à procura do lugar mais aconchegante, que serão os nosso braços. Sabes como é bonita, como olha para nós com ternura, uma ternura desmesurada, daquela que raramente se vê nas pessoas.
Sei que mais tarde ou mais cedo irás subir as escadas, ausentares-te para dar lugar à minha solidão e à minha vagabundagem. Eu estarei aqui, atento ao pormenor de ter que sair para não sufocar, de ter que ir para lado nenhum. Vai amanhecer já daqui a pouco e eu estarei presente para continuar.
Preparaste uma tina completa de legumes frescos para fazer a sopa que vai alimentar estes dias de reclusão, estes dias em que eu e tu nos entregamos às tarefas prazenteiras que a vida domestica nos dá. Farás um belo jantar e um amigo virá para partilhar isto tudo. Beberemos bom vinho, teremos conversas intensas e de verdade. Lançaremos ideias fortes aos quatro ventos e lá fora estará a chover. O vento fará ruídos conhecidos na nossa grande janela, que se abre para aquele horizonte, que tão bem conheces e que por acaso nem é nada de especial.
Mais especiais seremos então nós e tudo se irá concentrar no interior disto tudo. A nossa casa, as pessoas que amamos, os nossos livros, a nossa música e os nossos filmes. A Gatim estará por perto, sempre esquiva e ao mesmo tempo sempre à procura do lugar mais aconchegante, que serão os nosso braços. Sabes como é bonita, como olha para nós com ternura, uma ternura desmesurada, daquela que raramente se vê nas pessoas.
Sei que mais tarde ou mais cedo irás subir as escadas, ausentares-te para dar lugar à minha solidão e à minha vagabundagem. Eu estarei aqui, atento ao pormenor de ter que sair para não sufocar, de ter que ir para lado nenhum. Vai amanhecer já daqui a pouco e eu estarei presente para continuar.
Para os dias que passam
Ligar o esquentador e consolar os pés gelados e esquecidos. A intensidade do trabalho ou daquilo que nos ocupa os dias. O conforto da música em simultâneo com demência de ter tanto para fazer, tanto caminho e tanto tudo. Estar para aqui amarrado aos dias que fluem sem deixar rasto, sem deixar paisagem, sem deixar nada.
Ao encontro da ideia de missão cumprida, exaspera-se a vagabundagem existencial e tudo que nos vai consumindo o corpo e a alma. Necessitamos efectivamente de tão pouco e perdemo-nos em diletâncias tristes, em sensações vagas de felicidade, em falsos açúcares doces e vácuos. Perdemo-nos em geometrias frágeis, em verdades insensatas, em desejos de querer, em exageros prosaicos e em finais desoladores em que queríamos mais e muito mais.
Sempre esta angústia de não ter tudo e de preparar o futuro, este desejo desconexo de que amanhã tudo irá ser melhor, esta inteira sensação de mais não poder, de estar de bem com o mundo e com as coisas que ele arrasta para nós, que nos atropela os dias, que nos deixa extenuados e quase mortos, tontos de tanto optar.
Ao encontro da ideia de missão cumprida, exaspera-se a vagabundagem existencial e tudo que nos vai consumindo o corpo e a alma. Necessitamos efectivamente de tão pouco e perdemo-nos em diletâncias tristes, em sensações vagas de felicidade, em falsos açúcares doces e vácuos. Perdemo-nos em geometrias frágeis, em verdades insensatas, em desejos de querer, em exageros prosaicos e em finais desoladores em que queríamos mais e muito mais.
Sempre esta angústia de não ter tudo e de preparar o futuro, este desejo desconexo de que amanhã tudo irá ser melhor, esta inteira sensação de mais não poder, de estar de bem com o mundo e com as coisas que ele arrasta para nós, que nos atropela os dias, que nos deixa extenuados e quase mortos, tontos de tanto optar.
08 dezembro 2010
Querer
Quero comunicar-te a mais ínfima parte da raiz quadrada de tudo. Quero dizer-te que há mais profundidade do que aquilo que é imaginável, que há mais dor e não saber do que aquilo que seria espectável. Que os dias evoluem menos do que aquilo que seria possível e desejável. Que as nuvens são tão passageiras como as emoções e que o coração pára quando menos se espera. Queria dizer-te que o tempo urge para aquilo que é verdadeiramente importante e que Arvo Part até pode ser o centro do mundo se tu deixares.
O que te posso dizer, embora tu o saibas, é que há mais vida no comum dos mortais do que na construção epistemológica elaborada em torno da Vénus de Milo. Dizer-te da simplicidade de tudo e os olhares graciosos dos animais e das pessoas bonitas. Queria dizer-te com muita força, que tudo isto existe e que tudo não será por muito tempo. Que o tempo urge e nós somos neste momento os actores. Queria que amasses profundamente, que gostasses de tantas coisas, que exalasses paixão arrebatada, desejo profundo, que não tivesses religião e que acreditasses que podes ser melhor e podes, claramente, transformar tudo. Queria que não lesses isto com a leveza vã da poesia e da utopia, mas como coisa séria e sobretudo como coisa transformadora. Queria que aplicasses os conceitos aos outros e pudesses ser feliz com eles, com o todo. Queria que fosses universalmente são, verdadeiro e forte nas convicções, queria que fosses suave na avaliação que fazes de ti e do outro, que aceitasses falhar como uma construção inerente ao Eu. Queria-te espiritual e único e com um olhar relativo para o que de menos bom aconteceu e desperto para o que está para vir. Queria que fosses grande e verdadeiro, queria que fosses tudo, sobretudo queria que fosses leve e tivesses a aura que caracteriza os Homens.
O que te posso dizer, embora tu o saibas, é que há mais vida no comum dos mortais do que na construção epistemológica elaborada em torno da Vénus de Milo. Dizer-te da simplicidade de tudo e os olhares graciosos dos animais e das pessoas bonitas. Queria dizer-te com muita força, que tudo isto existe e que tudo não será por muito tempo. Que o tempo urge e nós somos neste momento os actores. Queria que amasses profundamente, que gostasses de tantas coisas, que exalasses paixão arrebatada, desejo profundo, que não tivesses religião e que acreditasses que podes ser melhor e podes, claramente, transformar tudo. Queria que não lesses isto com a leveza vã da poesia e da utopia, mas como coisa séria e sobretudo como coisa transformadora. Queria que aplicasses os conceitos aos outros e pudesses ser feliz com eles, com o todo. Queria que fosses universalmente são, verdadeiro e forte nas convicções, queria que fosses suave na avaliação que fazes de ti e do outro, que aceitasses falhar como uma construção inerente ao Eu. Queria-te espiritual e único e com um olhar relativo para o que de menos bom aconteceu e desperto para o que está para vir. Queria que fosses grande e verdadeiro, queria que fosses tudo, sobretudo queria que fosses leve e tivesses a aura que caracteriza os Homens.
27 novembro 2010
sem título
a mão sobre a pedra e os pés na terra... o olhar pousado no horizonte. As neblinas e o silêncio que invade tudo, enquanto as águas jorram para o lado oposto ao da fronteira entre nós. Tu ressonas enquanto eu conquisto montanhas de nada e de vazio, no exacto momento em que mais valia dormir.
O progresso das almas diletantes
Como se diz o amor ou se diz tudo, como se diz a angustia dos dias que passam ou a passagem dos novembros frios. Como se diz o querer ou nos dizemos intactos, quando quase sempre nos remetemos à ínfima parte daquilo que somos. Como nos relacionamos com o todo sendo nós mesmos ou como transformar o mundo. Como vivemos pequenos quando efectivamente somos grandes tantas vezes. Como se explicam os pássaros e as noites mal dormidas, as angustias que a noite acentua e o desespero breve e tantas vezes perene de nos sentirmos perdidos. Como são tão frias as manhãs, para logo darem lugar ao retemperador nascer do sol. Como somos tantas vezes breves, quando deveríamos ser perenes e outras tantas vezes ausentes, quando deveríamos estar presentes. Como ousamos tudo para outras vezes nos remetermos a uma constrangedora insignificância. De que matéria somos feitos, que sinapses povoam a nossa alma diletante. De que ancestral filosofia descendemos, de que religião e de que homem, de que ausência, de que tudo. De que conforto necessitamos para progredir, de que espaço e de que tempo.
25 novembro 2010
José e Pilar
Retomo e reafirmo aqui as palavras do post de 18 de Junho de 2010 (dia da morte de José Saramago). Só que agora não vou dizer nada. Tudo que haveria para dizer será pouco comparado com o excelente documentário de Miguel Gonçalves Mendes. Em exibição em algumas salas de cinema.
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