11 dezembro 2010

Vai amanhecer

Ouço o ritmo particular do cortar da cebola, o som rasgado da faca e o teu olhar lacrimejante perdido na série "Bones", tu sabes... ta, ta, ta, ra, ra, ta, ta , ra, rammm...
Preparaste uma tina completa de legumes frescos para fazer a sopa que vai alimentar estes dias de reclusão, estes dias em que eu e tu nos entregamos às tarefas prazenteiras que a vida domestica nos dá. Farás um belo jantar e um amigo virá para partilhar isto tudo. Beberemos bom vinho, teremos conversas intensas e de verdade. Lançaremos ideias fortes aos quatro ventos e lá fora estará a chover. O vento fará ruídos conhecidos na nossa grande janela, que se abre para aquele horizonte, que tão bem conheces e que por acaso nem é nada de especial.
Mais especiais seremos então nós e tudo se irá concentrar no interior disto tudo. A nossa casa, as pessoas que amamos, os nossos livros, a nossa música e os nossos filmes. A Gatim estará por perto, sempre esquiva e ao mesmo tempo sempre à procura do lugar mais aconchegante, que serão os nosso braços. Sabes como é bonita, como olha para nós com ternura, uma ternura desmesurada, daquela que raramente se vê nas pessoas.

Sei que mais tarde ou mais cedo irás subir as escadas, ausentares-te para dar lugar à minha solidão e à minha vagabundagem. Eu estarei aqui, atento ao pormenor de ter que sair para não sufocar, de ter que ir para lado nenhum. Vai amanhecer já daqui a pouco e eu estarei presente para continuar.

Para os dias que passam

Ligar o esquentador e consolar os pés gelados e esquecidos. A intensidade do trabalho ou daquilo que nos ocupa os dias. O conforto da música em simultâneo com demência de ter tanto para fazer, tanto caminho e tanto tudo. Estar para aqui amarrado aos dias que fluem sem deixar rasto, sem deixar paisagem, sem deixar nada.
Ao encontro da ideia de missão cumprida, exaspera-se a vagabundagem existencial e tudo que nos vai consumindo o corpo e a alma. Necessitamos efectivamente de tão pouco e perdemo-nos em diletâncias tristes, em sensações vagas de felicidade, em falsos açúcares doces e vácuos.  Perdemo-nos em geometrias frágeis, em verdades insensatas, em desejos de querer, em exageros prosaicos e em finais desoladores em que queríamos mais e muito mais.
Sempre esta angústia de não ter tudo e de preparar o futuro, este desejo desconexo de que amanhã tudo irá ser melhor, esta inteira sensação de mais não poder, de estar de bem com o mundo e com as coisas que ele arrasta para nós, que nos atropela os dias, que nos deixa extenuados e quase mortos, tontos de tanto optar.

08 dezembro 2010

Querer

Quero comunicar-te a mais ínfima parte da raiz quadrada de tudo. Quero dizer-te que há mais profundidade do que aquilo que é imaginável, que há mais dor e não saber do que aquilo que seria espectável. Que os dias evoluem menos do que aquilo que seria possível e desejável. Que as nuvens são tão passageiras como as emoções e que o coração pára quando menos se espera. Queria dizer-te que o tempo urge para aquilo que é verdadeiramente importante e que Arvo Part até pode ser o centro do mundo se tu deixares.
O que te posso dizer, embora tu o saibas, é que há mais vida no comum dos mortais do que na construção epistemológica elaborada em torno da Vénus de Milo. Dizer-te da simplicidade de tudo e os olhares graciosos dos animais e das pessoas bonitas. Queria dizer-te com muita força, que tudo isto existe e que tudo não será por muito tempo. Que o tempo urge e nós somos neste momento os actores. Queria que amasses profundamente, que gostasses de tantas coisas, que exalasses paixão arrebatada, desejo profundo, que não tivesses religião e que acreditasses que podes ser melhor e podes, claramente, transformar tudo. Queria que não lesses isto com a leveza vã da poesia e da utopia, mas como coisa séria e sobretudo como coisa transformadora. Queria que aplicasses os conceitos aos outros e pudesses ser feliz com eles, com o todo. Queria que fosses universalmente são, verdadeiro e forte nas convicções, queria que fosses suave na avaliação que fazes de ti e do outro, que aceitasses falhar como uma construção inerente ao Eu. Queria-te espiritual e único e com um olhar relativo para o que de menos bom aconteceu e desperto para o que está para vir. Queria que fosses grande e verdadeiro, queria que fosses tudo, sobretudo queria que fosses leve e tivesses a aura que caracteriza os Homens.

27 novembro 2010

sem título

a mão sobre a pedra e os pés na terra... o olhar pousado no horizonte. As neblinas e o silêncio que invade tudo, enquanto as águas jorram para o lado oposto ao da fronteira entre nós. Tu ressonas enquanto eu conquisto montanhas de nada e de vazio, no exacto momento em que mais valia dormir.

O progresso das almas diletantes

Como se diz o amor ou se diz tudo, como se diz a angustia dos dias que passam ou a passagem dos novembros frios. Como se diz o querer ou nos dizemos intactos, quando quase sempre nos remetemos à ínfima parte daquilo que somos. Como nos relacionamos com o todo sendo nós mesmos ou como transformar o mundo. Como vivemos pequenos quando efectivamente somos grandes tantas vezes. Como se explicam os pássaros e as noites mal dormidas, as angustias que a noite acentua e o desespero breve e tantas vezes perene de nos sentirmos perdidos. Como são tão frias as manhãs, para logo darem lugar ao retemperador nascer do sol. Como somos tantas vezes breves, quando deveríamos ser perenes e outras tantas vezes ausentes, quando deveríamos estar presentes. Como ousamos tudo para outras vezes nos remetermos a uma constrangedora insignificância. De que matéria somos feitos, que sinapses povoam a nossa alma diletante. De que ancestral filosofia descendemos, de que religião e de que homem, de que ausência, de que tudo. De que conforto necessitamos para progredir, de que espaço e de que tempo.

25 novembro 2010

José e Pilar

Retomo e reafirmo aqui as palavras do post de 18 de Junho de 2010 (dia da morte de José Saramago). Só que agora não vou dizer nada. Tudo que haveria para dizer será pouco comparado com o excelente documentário de Miguel Gonçalves Mendes. Em exibição em algumas salas de cinema.




07 novembro 2010

06 novembro 2010

A noite beija a solidão demoradamente

olhar as luzes e as festas dos outros
de um lugar estranho de tão próximo
e distante ao mesmo tempo.

Estar em todo lado.
Imaginar a solidão de tudo, de todos,
mergulhar nesse silêncio de madrugada fria
e ousar pensar que não haverá amanhã.

Cenas românticas de um vadio

Quero sair na noite para não sufocar, sair para apreender o nada que invade tudo. Sair para não pensar. Ligar o mp3, ouvir Satie, diluir-me nas ruas vazias e deter-me nos pormenores mais ínfimos. Respirar com as árvores e observar a suave queda das folhas de Novembro. Observar tudo, essencialmente observar os quadros que todos os dias me escapam. Acreditar que ainda se pode ter um olhar virginal sobre o mundo, sabendo perfeitamente que isso já não é possível. Saltar gerações. Estar disponível e olhar de frente para a realidade. Não querer acrescentar nada e pensar que se está no melhor dos mundos, sabendo perfeitamente que isso não é verdade, mas que também não é totalmente mentira.
Silêncio, noite profunda, suave noite profunda para sempre.

22 outubro 2010

A inteligência

é ter tempo.
É ocupar espaços com a humildade suficiente para nos permitirmos que nada de extraordinário aconteça.
É estar disponível para tudo.
É ser capaz de ouvir.
É entender que a dimensão humana de cada um se revela aos bocadinhos e nem sempre é particularmente especial.
É ser capaz de não dizer nada, quando talvez houvesse tanto para dizer.
É estar presente nos lugares mais improváveis.
É sairmos do lugar de conforto.
É não ter medo nem pré-conceitos.
É sermos nós mesmos.

15 outubro 2010

Streetfighter encartado

Como seria de prever já sou um StreetFighter (gosto desta ideia: cavaleiro do asfalto) encartado.

Só me falta a mota.














(imagem manipulada - campanha promocional da Honda)

Ideias que mudam o mundo

"Os sistemas educacionais estão a sofrer reformas em todo o mundo, no entanto, neste momento já não chega a evolução é necessária a revolução"
Abraham Lincoln disse em 1862: "...os dogmas de um passado calmo são inadequados a um presente tempestuoso. O nosso presente é extraordinariamente difícil e nós temos de nos elevar com o desafio.
Como o nosso caso é novo, temos de pensar numa nova maneira de agir.

Ken Robinson, que já passou neste blogue numa conferência TED de 2006, volta agora com uma abordagem ao sistema educacional contemporâneo. É de visionamento obrigatório.

http://www.ted.com/talks/sir_ken_robinson_bring_on_the_revolution.html (conferência de 2010)
http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html (conferência de 2006)
Ambas as conferências com legendagem em português.

02 outubro 2010

Aqui ao lado

Chamem-lhe ingenuidade, chamem-lhe utopia, chamem-lhe fragilidade ou, "a cena sensível"...
Acredito que a "boa" Energia Humana pode mudar o mundo. Não o mundo todo, mas o mundo que gravita à nossa volta.

01 outubro 2010

Universo. Sistema Solar. Terra. Um Ponto no Google Earth

A energia que te move é o coração, a energia que te alimenta é combustível, a energia que te transforma é espiritual.
Levas o vento, o sol, a chuva, as tempestades e tudo que é belo por ser natural, como um soluto primordial, germinal sumo amniótico. Desta matéria prima nos construímos como seres pensantes e solidários da eterna combustão universal.
Para que Deus exista não basta um pregador, nem tão pouco um explicável livro de histórias. Para que Deus exista é necessária a chama intemporal das inteligências, a partilha grande de acreditar que existe uma razão para aqui estarmos, quando talvez não exista razão nenhuma, quando talvez alimentemos a esperança de que a razão nos possa salvar, nos possa fazer esquecer o quão insignificantes e frágeis somos.
E como é bela a fragilidade humana, como é belo o sem sentido, como é belo o amor sem razão, como faz sentido partilhar o melhor de nós com o todo, com o universo ou com o gato que ronrona junto a nós.

24 setembro 2010

Ou algumas séries americanas são muito boas ou os telejornais passam o tempo a noticiar balelas perigosas – Perigo de revolta. Alerta!!!

O sistema político capitalista bateu no fundo (todos o sabemos, queiramos ou não), existe uma crise de valores, existe uma crise ideológica, existe uma crise... Hoje, o capitalismo, pouco mais é que a divinização do capital (leia-se dinheiro), que alimenta uma corja de gente mal formada, mal intencionada e hedonista (a maior parte são políticos e os que os lambem alimentando-lhes os vícios para benefício próprio, com muito respeito por aqueles, que não fazendo à partida parte da corja, não deixam de ser “ a corja” quando pactuam com determinado estado das coisas). Gente sem rugas, gente que a comunicação social, escrava deste mistério, gosta de promover. Gente do nada, liberal e aparentemente cosmopolita, que vai deixando no ar uma bafienta e retrógrada forma de olhar o mundo. Gente aparentemente normal que congemina na sua mente desestruturada e frágil um saber grotesco e uma visão tão parcial do mundo que dói pensar que ocupe cargos tão nobres quanto perigosos para o todo social que se desmorona a cada dia que passa.
E o povinho vai acreditando que o telejornal, uma espécie de novela das oito, nos traz a verdade, nos traz a escandaleira do desgoverno, da afirmação e do desmentido, das cheias, das tragédias e de outras judiarias, quando na realidade mais não faz do que perpetuar a ignorância, a lavagem cerebral que tanto interessa àqueles que descaradamente sugam até ao tutano, quais necrófagos desavindos, o que resta àqueles que estão vivos, ou talvez já não o estejam verdadeiramente.
Proponho às pessoas de bem, aos bem formados, aos reformados, aos activos, aos passivos, ao heterossexuais, às lésbicas e aos gays, aos musculados e aos gordos, aos pacíficos e aos guerreiros, aos empregados e aos desempregados, aos políticos e aos apolíticos, aos ateus e aos crentes… proponho a revolta generalizada… generalizada, antes que seja tarde.

08 setembro 2010

South of the Border



No Douro Film Harvest
Um filme que nos dá uma visão particularmente lúcida e interessante da revolução política, social e ideológica que nos últimos anos se está a operar na generalidade dos países da América Latina.
Documentário de Oliver Stone a não perder. Este documentário recorda-nos a cada momento do embuste em que a maior parte das vezes a comunicação social e os poderes instituídos nos embrulham.
Enquanto a Europa carece de ideologia e de ideólogos, a América Latina parece recuperar a passos largos o tempo perdido.
Viva la Revolución.