27 julho 2010

Tudo é excesso

Olhar para a névoa que se solta da água fresca em contacto com a terra ressequida pelo intenso calor é pouco mais que uma visão do esforço do homem para lograr da terra o indefinido perfume que a natureza exala em homenagem a quem a trabalha.
Soltou-se-me este parágrafo, como uma coisa que nos passa de repente pela cabeça, como um turbilhão de ideias sintetizadas em algumas palavras.Parecem algo prosaicas, parecem excessivas, como excessivo é o dizer de Torga, como excessivas são as palavras de Steinbeck. Tudo é em excesso para quem trabalha a terra ou de alguma forma a pensa e sente.
Tudo vale quando a força indomável do homem pretende arrebanhar à terra improdutiva uma colheita única.
Tudo vale e tudo é êxtase quando a terra devolve ao homem na sua infindável generosidade, o verde pungente de uma incipiente videira rodeada de xistos abrasadores e terra seca.

18 junho 2010

Coincidências

no dia dos meus anos os astros estão em convulsão e mostram a este mundo o seu esplendor. No dia dos meus anos vai ser cremado o grande Saramago.
Os astros estão a meu favor e querem indiciar um ano bom.

Previsões instáveis de um tipo mais ou menos elucidado da intrínseca falácia de qualquer futurologia.

Saramago* essa grande couve

aos grandes muito grandes
aos que colocam ao serviço do humano o seu pensamento abrangente
aos que tornam o "pensar o mundo" a sua grande missão de vida
aos vagabundos das palavras
aos hereges da mórbida política secular da igreja católica
aos convictos
aos que acreditam
aos livres pensadores
ao José Saramago e ao seu grande amor.

*Saramago é uma planta "crucífera e rasteira, que é comestível e cresce sem cultura"

04 junho 2010

Dá-me tempo

Dá-me tempo para que eu possa construir tudo, dá-me tempo para que eu possa ser aquilo que desejo. Dá-me tempo e matéria colectável, dá-me amor, dá-me paisagens cultivadas,
vinho sem bolhinhas, viosinho e Touriga Nacional.
Dá-me espaço para o prazer.
Dá-me a tua pele suave junto com as vagas subtis das partículas ínfimas em suspensão.
Olhares ternos e sorrisos.
Dá-me prazer, dá-me vida, dá-me tempo e uma balada do Tom Waits.

Poemas para o vento que passa

Gosto do épico, do profundo lado esquerdo do olhar
Da incrível fosforescência das palavras desconexas
Do sabor tangível, do vinho branco, a pão acabado de fazer.

Gosto dos algoritmos que constroem as paisagens cultivadas
da geometria sóbria do Pessoa e,
das emoções simples que atravessam os poemas de Michaux,
e das baladas sussurradas dos pássaros nocturnos.

28 maio 2010

Gil Scott-Heron - "Where Did The Night Go"

Gosto mesmo disto.

Anselm Kieffer

E se eu um dia for um pintor de paisagens devastadas, de um desespero intenso e magia profunda, funda universal.
E se eu um dia for assoberbado pelo vazio íntimo de um céu estrelado. Pelo lastro, lado negro do passado.
E se um dia voltar a sentir a magia de um pincel vagabundo nas mãos...
E se um dia deixar de existir em mim um avassalador desejo de Satie.
E se um dia se me esfumar o pensamento e a razão, serei eu capaz de pintar paisagens lunares, mudas, profundas e inquietantes?

FarmVille

As previsões para 2010 são francamente más. Sob o signo de gémeos prevêem-se armas e armadilhas bem ancoradas à metáfora do escorregar na casca da banana. Nada de bom, portanto. A PJ bate à porta, questiona sobre o que andas a fazer de ilegal. Alguém te diz que vais fazer parte de um Conselho de qualquer coisa, alguém te diz que vais ter que tomar decisões sobre as quais não sabes absolutamente nada e talvez nem queiras saber. Alguém quer que te definas, que tomes uma posição. Todos te dizem que o ser humano é coisa política e lá vais assim pesando os prós e contras… e irremediavelmente acreditar que tudo pode ser diferente.
Voltas a casa, ao silêncio do terreno saibrado, à paisagem agreste da terra endurecida pela geada. Sonhas lá do alto do monte, emocionas-te mesmo. Julgas ter um projecto de vida. Admiras longamente o novo contorno do terreno, agora desprovido de vegetação. Imaginas patamares cheios de vinha, estradas que atravessam o terreno. Vês mesmo algumas roseiras e ciprestes em bordadura a apontar um céu grequiano. Voltas aos pontos mais baixos da paisagem e tens a p… da realidade. Sentes e olhas as pessoas que te rodeiam. Vês uma lágrima mal ocultada na cara do teu pai envelhecido e só. Do teu pai sem a pujança de outrora. Sentes que para que uns vivam outros estarão a morrer e que esse é o curso natural das coisas. Sentes que é impossível viver plenamente feliz e que na melhor da hipóteses terás alguns arrebatamentos de bem-estar contigo e com o mundo.
Colhes uma troncha enrugada pela geada. Dizem-te que assim é mais suculenta e macia no prato.

Universo, sistema solar, terra, um ponto no Google Earth.
Estou aqui a olhar para as coisas do mundo. Aqui onde tudo vive, nasce e morre. Confirmas para ti mesmo os 40 anos de vida e sentes que deves cada vez mais cuidar da alma para que o corpo não estoire.

Entretanto, alguém te diz que só os loucos interessam, alguém te diz que deves praticar a tua verdade, que deves ser inconformista, que deves afrontar a realidade, que deves ser aquilo que guardas religiosamente no teu diário imaginário e aquilo que escreves num blogue, que por ser público, até parece já não fazer parte de ti. Coisa estranha, vomitar diários para a blogosfera. Enquanto uns têm medo de existir tu projectas tudo na rede, tu vomitas o que sabes e o que não sabes. Estranhas verdades para uns, indiferença de outros, encontros na paisagem de existir para alguns.
Vais para a rua caminhar, olhar a paisagem numa tarde soalheira e descobres que perdeste o olhar virginal sobre tudo, que poucas coisas te fascinam verdadeiramente e que já é uma segurança enorme poderes percorrer a mesma rua durante anos. Que homem é esse em que te transformaste.
Sentes que tens os teus limites traçados e vês pouco mais que nada. Aceitas. Jogas com o destino, jogas com as sensibilidades. Ficas confuso, ficas incerto, ficas por momentos sem chão e retomas a espuma dos dias.

Publicado na Revista Pensares (ESJAC) Maio de 2010

14 maio 2010

Perspectivas

olhar Portugal de outra perspectiva paisagística, arquitectónica, iconográfica e sociológica


Máxima do dia

Mais vale mostrar a carne do que não mostrar nada.


Sem título

Os homens que transportavam o fogo nas mãos afastaram-se para outros devaneios.
Os homens que tinham magia no olhar são agora escravos.
Os homens de Deus são agora arreigados políticos convincentes.
Três ou quatro bandidos de outrora, são agora velhos e crentes… homens de fé.
Rebeldes com causa, são agora boys de outras causas.
Pedófilos compulsivos, são agora pais de família e recusam socialmente o aborto.
Gajos como eu, que nunca foram lá grande coisa, escrevem poemas épicos, coisas do fundo e do nada.
Este poema exorta,
Exorta a violência, exorta o nada, exorta o vazio e os cães danados, os gatos astutos e o sem sentido.
Exorta Deus e o Diabo e os que o carregam.
Recuso a formação humanista. Recuso o Mishima e todos os livros que tenho na estante.

02 maio 2010

1º de Maio. EU e TU.

“Os anos foram a nosso favor, não contra nós”
Henri Michaux, in “Nós dois ainda”

Nesta noite, como noutras noites em que vomito coisas para a rede (WWW) e em que tenho 100.000 coisas para fazer, vou simplesmente reflectir, olhar para mim e olhar para ti passados exactamente 20 anos. Vou beber três ou quatro copos de vinho, vinho bom, vinho combustível intemporal dos amantes.
Olho muitas vezes para ti, aliás, penso que passei grande parte da minha vida (pelo menos 20 anos) a olhar para ti, linda e abrangente. Foi-se algum calor, é verdade, a intensidade do sexo e de alguns mundos em descoberta comum, mas ficou a súmula de tudo, ficou este amor profundo. Esta coisa grande que é ter uma pessoa próxima, muito próxima, tangível. Como se viver fosse o Eu ampliado a Tu. Como se o EU não fosse EU, mas EU e TU.
Deste desdobramento físico, sensorial e tudo, se fez uma relação forte, uma relação de sempre para sempre. Como se o antes nunca tivesse existido, como se tu fosses intrínseca, como se fosses EU. Olho-te repetidamente embora até possas não o notar, e sei que isso é recíproco. Olho-te com a força de querer tudo, de saber que estás aí com a tua generosidade natural, com a tua inteligência, com a tua liberdade e autonomia. Com os teus desejos grandes, com as tuas idiossincrasias.
Escrevo muito sobre mim e sobre aqueles que me rodeiam e são significativos. Quase sempre me esqueço de ti como se de mim mesmo me esquecesse. Mas, como sabes, dificilmente publico algo sem que passe pelo teu filtro. Como se não fosse capaz de me expor verdadeiramente, como se o EU fosse carente do TU.
Sei claramente que há palavras não contempladas no nosso léxico vivencial, sei que este exercício reflexivo é completamente desnecessário, que todas estas palavras são algo inócuas. Sei que é impossível dizer tudo, sei que posso desistir a qualquer momento deste exercício de colocar em palavras o nosso amor.
Mas vou continuar…
Existem momentos e existem dias em que não distingo, em que não sei verdadeiramente quem sou, não sei efectivamente colocar-me em perspectiva, não sei para onde vou. Questiono opções, questiono tudo, e como se de algo natural se tratasse sempre sei que estarás aí… sempre do meu lado, sempre como prolongamento do tudo. Sempre com a energia grande, sempre TU e EU.
Lemos os mesmos livros, somos reféns das mesmas intensidades, gostamos das mesmas pessoas, podemos compreender o mundo todo com num simples trocar de olhares. Somos tolerantes, somos abrangentes, somos autênticos, partilhamos valores intemporais.
Claro que somos diferentes em muitas coisas, mesmo muito diferentes… a começar com a minha tendência para a ordem em directo conflito com a tua desorganização. Mas mesmo aqui a nossa diferença é apenas um pormenor. Um pormenor que nos aproxima mais do que nos afasta. Respeitamos deliberadamente o espaço do outro, embora eu seja por natureza mais invasivo.
Da nossa longa vida em comum fica este resultado grande de respeito intrínseco pela vontade do outro, desta energia única de levar a vida para frente, desta partilha grande que é dar importância ao que verdadeiramente é importante e nos projecta para a inteligência e a abrangência que esta possibilita.
O nosso corpo caminha junto, em uníssono com as nossas sombras variáveis, mutáveis, errantes e volúveis, como tudo que verdadeiramente importa.

29 abril 2010

"Hold your horses - 70 Million"

Uma daquelas coisas muito fixes que alguns amigos descobrem para nós.
Obrigado Samuel


25 abril 2010

memória ou poses arrebanhadas a um fotógrafo

Agosto de 2009. São seis e meia da manhã em S. Petersburgo, estou embrulhado em álcool, amor e cansaço e esta imagem não me sai da cabeça.
Porquê?


24 abril 2010

Os amigos que nos surpreendem são lufadas de ar fresco nos dias que passam

Viver tem piada quando alguém nos surpreende, quando alguém nos envia para o espaço do desconforto criativo. Quando alguém nos tira do sério, quando alguém nos deixa lívidos como cal. Quando existir já não chega e agir se torna imperioso. Desta matéria se fazem os amigos, como as pessoas que verdadeiramente interessam e que por vontade do destino atravessam a nossa vida.
São estas pessoas que interessam. São os não consensuais, os não enquadráveis, os que nos dizem que viver é sempre uma aventura, que cada momento pode ser significativo, que cada dia pode ser um acto de renovação. Que viver verdadeiramente não se esgota na capacidade de respirar, que cada um de nós, ser ínfimo, pode mudar o curso dos acontecimentos e que à micro-escala em que cada um se move pode mudar tudo.
Na história dos homens, as inquietações mais pungentes sempre foram mais ou menos as mesmas. Aquilo que verdadeiramente importa esgota-se no standard da folha A4, no fio inesgotável de umas tantas palavras repetidas e mais dificilmente vividas quotidianamente.
Esmaga-nos o formato comportamental das conveniências, o formato existencial linear, o anular do verdadeiro Eu, não em proveito do Nós, mas em proveito de um sistema em que a diferença, a ousadia, a liberdade e o respeito por todas as questões verdadeiramente importantes da humanidade são coisas de somenos importância.
Por força do destino, de alguma acutilância existencial e de disponibilidade para os outros, vou tendo amigos que me surpreendem, amigos que me projectam para longe, para o fio inesgotável da incerteza, do querer mais, do querer melhor, da construção ininterrupta do Eu em comunhão plena com o Nós – Humanidade.
Humanidade, sem limites, sem credos, sem sexistas, sem racialistas, sem verdades absolutas, sem sanguessugas, sem bestas, sem filhos da puta - com nexos*, sexos e plexos**.
É neste espírito construtivista que me movo, que me encontro, desencontro e vivo.

*Nexo – Ligação. Conexão; vínculo; união.
**Plexo – Rede de nervos ou de vasos sanguíneos; encadeamento; entrelaçamento.

Para todos os meus amigos

mudar de nome

Mudar de nome (literalmente) é uma forma ousada e credível de iniciar, de renovar, de voltar a fazer as coisas de novo, umas vezes diferente, outras vezes não.