14 maio 2010
Sem título
Os homens que tinham magia no olhar são agora escravos.
Os homens de Deus são agora arreigados políticos convincentes.
Três ou quatro bandidos de outrora, são agora velhos e crentes… homens de fé.
Rebeldes com causa, são agora boys de outras causas.
Pedófilos compulsivos, são agora pais de família e recusam socialmente o aborto.
Gajos como eu, que nunca foram lá grande coisa, escrevem poemas épicos, coisas do fundo e do nada.
Este poema exorta,
Exorta a violência, exorta o nada, exorta o vazio e os cães danados, os gatos astutos e o sem sentido.
Exorta Deus e o Diabo e os que o carregam.
Recuso a formação humanista. Recuso o Mishima e todos os livros que tenho na estante.
12 maio 2010
02 maio 2010
1º de Maio. EU e TU.
Henri Michaux, in “Nós dois ainda”
Nesta noite, como noutras noites em que vomito coisas para a rede (WWW) e em que tenho 100.000 coisas para fazer, vou simplesmente reflectir, olhar para mim e olhar para ti passados exactamente 20 anos. Vou beber três ou quatro copos de vinho, vinho bom, vinho combustível intemporal dos amantes.
Olho muitas vezes para ti, aliás, penso que passei grande parte da minha vida (pelo menos 20 anos) a olhar para ti, linda e abrangente. Foi-se algum calor, é verdade, a intensidade do sexo e de alguns mundos em descoberta comum, mas ficou a súmula de tudo, ficou este amor profundo. Esta coisa grande que é ter uma pessoa próxima, muito próxima, tangível. Como se viver fosse o Eu ampliado a Tu. Como se o EU não fosse EU, mas EU e TU.
Deste desdobramento físico, sensorial e tudo, se fez uma relação forte, uma relação de sempre para sempre. Como se o antes nunca tivesse existido, como se tu fosses intrínseca, como se fosses EU. Olho-te repetidamente embora até possas não o notar, e sei que isso é recíproco. Olho-te com a força de querer tudo, de saber que estás aí com a tua generosidade natural, com a tua inteligência, com a tua liberdade e autonomia. Com os teus desejos grandes, com as tuas idiossincrasias.
Escrevo muito sobre mim e sobre aqueles que me rodeiam e são significativos. Quase sempre me esqueço de ti como se de mim mesmo me esquecesse. Mas, como sabes, dificilmente publico algo sem que passe pelo teu filtro. Como se não fosse capaz de me expor verdadeiramente, como se o EU fosse carente do TU.
Sei claramente que há palavras não contempladas no nosso léxico vivencial, sei que este exercício reflexivo é completamente desnecessário, que todas estas palavras são algo inócuas. Sei que é impossível dizer tudo, sei que posso desistir a qualquer momento deste exercício de colocar em palavras o nosso amor.
Mas vou continuar…
Existem momentos e existem dias em que não distingo, em que não sei verdadeiramente quem sou, não sei efectivamente colocar-me em perspectiva, não sei para onde vou. Questiono opções, questiono tudo, e como se de algo natural se tratasse sempre sei que estarás aí… sempre do meu lado, sempre como prolongamento do tudo. Sempre com a energia grande, sempre TU e EU.
Lemos os mesmos livros, somos reféns das mesmas intensidades, gostamos das mesmas pessoas, podemos compreender o mundo todo com num simples trocar de olhares. Somos tolerantes, somos abrangentes, somos autênticos, partilhamos valores intemporais.
Claro que somos diferentes em muitas coisas, mesmo muito diferentes… a começar com a minha tendência para a ordem em directo conflito com a tua desorganização. Mas mesmo aqui a nossa diferença é apenas um pormenor. Um pormenor que nos aproxima mais do que nos afasta. Respeitamos deliberadamente o espaço do outro, embora eu seja por natureza mais invasivo.
Da nossa longa vida em comum fica este resultado grande de respeito intrínseco pela vontade do outro, desta energia única de levar a vida para frente, desta partilha grande que é dar importância ao que verdadeiramente é importante e nos projecta para a inteligência e a abrangência que esta possibilita.
O nosso corpo caminha junto, em uníssono com as nossas sombras variáveis, mutáveis, errantes e volúveis, como tudo que verdadeiramente importa.
29 abril 2010
"Hold your horses - 70 Million"
Obrigado Samuel
25 abril 2010
memória ou poses arrebanhadas a um fotógrafo
Agosto de 2009. São seis e meia da manhã em S. Petersburgo, estou embrulhado em álcool, amor e cansaço e esta imagem não me sai da cabeça.
Porquê?
24 abril 2010
Os amigos que nos surpreendem são lufadas de ar fresco nos dias que passam
São estas pessoas que interessam. São os não consensuais, os não enquadráveis, os que nos dizem que viver é sempre uma aventura, que cada momento pode ser significativo, que cada dia pode ser um acto de renovação. Que viver verdadeiramente não se esgota na capacidade de respirar, que cada um de nós, ser ínfimo, pode mudar o curso dos acontecimentos e que à micro-escala em que cada um se move pode mudar tudo.
Na história dos homens, as inquietações mais pungentes sempre foram mais ou menos as mesmas. Aquilo que verdadeiramente importa esgota-se no standard da folha A4, no fio inesgotável de umas tantas palavras repetidas e mais dificilmente vividas quotidianamente.
Esmaga-nos o formato comportamental das conveniências, o formato existencial linear, o anular do verdadeiro Eu, não em proveito do Nós, mas em proveito de um sistema em que a diferença, a ousadia, a liberdade e o respeito por todas as questões verdadeiramente importantes da humanidade são coisas de somenos importância.
Por força do destino, de alguma acutilância existencial e de disponibilidade para os outros, vou tendo amigos que me surpreendem, amigos que me projectam para longe, para o fio inesgotável da incerteza, do querer mais, do querer melhor, da construção ininterrupta do Eu em comunhão plena com o Nós – Humanidade.
Humanidade, sem limites, sem credos, sem sexistas, sem racialistas, sem verdades absolutas, sem sanguessugas, sem bestas, sem filhos da puta - com nexos*, sexos e plexos**.
É neste espírito construtivista que me movo, que me encontro, desencontro e vivo.
*Nexo – Ligação. Conexão; vínculo; união.
**Plexo – Rede de nervos ou de vasos sanguíneos; encadeamento; entrelaçamento.
Para todos os meus amigos
mudar de nome
10 abril 2010
Saibrar
20 março 2010
VIVER PARA SEMPRE
Quem te disse que podes viver para sempre enganou-te.
EM FRENTE
TERRA
Quero-te na enxurrada, espectador na primeira fila. Quero-te lá onde sobre uma pedra solta a água nasce livremente, como livremente corre para o lugar mais fundo. Quero-te ali nos lugares inesperados que dão significado aos teus dias iguais. Quero-te solta e verdadeira mãe, mãe terra onde as toupeiras vivem onde os seres ocultos são alvos e a tua vida nada.
26 fevereiro 2010
AQUI
10 janeiro 2010
29 dezembro 2009
O QUE HÁ EM MIM SEGUIDO DO QUE GOSTO
há em mim duas viagens que se digladiam e as imagens que vêm do frio e do Outono dos dias, do rosto de gente e dos ténues monumentos
há em mim céus boreais e visões caleidoscópicas, ondas de marfim e sangue, incomensuráveis vazios e desejos vadios
há em mim desejo de verdade, coisas simples e nadas que duram milénios
há em mim um clássico que me faz chorar e mundos despidos de artifício
há em mim vida, rios de saudade e de visões heliocêntricas
uma infinidade de lugares e de odores perdidos no tempo
há em mim uma espécie de vento na fronteira entre o comum o excepcional.
Olho as coisas, compreendo os procedimentos e diluo-me num espaço intemporal onde o corpo é matéria volátil, onde o coração é balão insuflável de desejos e angústias.
Há em mim vazio, não saber e não querer
há e mim despeito , ousadia e perdição. Uma esponja sensorial insondável
há em mim desregramento e tatuagens perenes
há em mim coisas que não compreendo, seres heróicos, mortos-vivos e eclipses lunares
há em mim espaço para qualquer coisa que ainda não vivi
há em mim uma toupeira cercada de terra , de escuro e estonteante luz crua
há em mim paisagens humanas e naturais que me arrebatam, enquadramentos de existir, coisas simples de doer, silhuetas espectrais, fronteiras para lado nenhum – sonhos irrealizáveis.
Um pouco de azoto e verdade é tudo que de essencial necessito para viver.
…
Gosto de seres poéticos, de cabelos enrolados no vento, de histórias de amor impossíveis e de devaneios estéreis
gosto de pensar em nada, das nuvens rápidas a atravessar os montes e de folhas outonais suspensas no ar
gosto de enquadramentos fotográficos arrebanhados ao quotidiano
gosto dos sorrisos suaves que me olham e gosto também de olhar o sorriso escondido dos que se pensam sós
gosto dos tiques, das manias e da paranóia
gosto de observar e de inventar histórias mais ou menos falsas acerca de tudo
gosto de me lembrar do que sonho e das manhãs solares
gosto de decidir partes importantes do dia no chuveiro matinal enquanto a luz entra difusa pela clarabóia
gosto dos insatisfeitos que têm um brilho abrangente no olhar
gosto dos inquietos, dos libertinos, dos espontâneos e dos noctívagos
gosto da transparência, dos palhaços e da autenticidade
gosto dos que são capazes de viver cada dia como se fosse o último
gosto dos que riem, dos que choram, dos que se emocionam com qualquer coisa
gosto de ouvir gente simples a pensar em voz alta.
Gosto de verdade não sabendo muito bem o que isso é.
06 dezembro 2009
desenho do interior
14 novembro 2009
conta-me uma história
"Conta-me uma história, conta-me uma história de amor, sangue e verdade. Conta-me uma história de amor senão mato-te."
Citação alterada e não autorizada de Tahar Ben Jelloun
Volto sempre ao David Bowie. Ele sabe contar histórias
31 outubro 2009
28 outubro 2009
Digo que não tenho nada. O que querem de mim… não tenho nada, não sei o que possa fazer. Não sei o que querem de mim. Sou pequeno, não posso corresponder às vossas expectativas. Quero coisas simples, quero pouco… sou nada. Não me peçam cultura, não me peçam discursos pungentes, não me peçam livros porque ainda não os li verdadeiramente. Não me peçam nada. Pouco posso acrescentar na vida de ninguém. Tenho pouco e o pouco que tenho já não chega para mim. Não tenho nada. Sou nada. Quero estar vivo e isso é tudo que me resta. Uma nesga de encontros na paisagem de existir. Quero permanecer. Quero manter-me à superfície. Quero ser… mas começo a não saber como o fazer. Nada. Não tenho nada.

