25 abril 2010

memória ou poses arrebanhadas a um fotógrafo

Agosto de 2009. São seis e meia da manhã em S. Petersburgo, estou embrulhado em álcool, amor e cansaço e esta imagem não me sai da cabeça.
Porquê?


24 abril 2010

Os amigos que nos surpreendem são lufadas de ar fresco nos dias que passam

Viver tem piada quando alguém nos surpreende, quando alguém nos envia para o espaço do desconforto criativo. Quando alguém nos tira do sério, quando alguém nos deixa lívidos como cal. Quando existir já não chega e agir se torna imperioso. Desta matéria se fazem os amigos, como as pessoas que verdadeiramente interessam e que por vontade do destino atravessam a nossa vida.
São estas pessoas que interessam. São os não consensuais, os não enquadráveis, os que nos dizem que viver é sempre uma aventura, que cada momento pode ser significativo, que cada dia pode ser um acto de renovação. Que viver verdadeiramente não se esgota na capacidade de respirar, que cada um de nós, ser ínfimo, pode mudar o curso dos acontecimentos e que à micro-escala em que cada um se move pode mudar tudo.
Na história dos homens, as inquietações mais pungentes sempre foram mais ou menos as mesmas. Aquilo que verdadeiramente importa esgota-se no standard da folha A4, no fio inesgotável de umas tantas palavras repetidas e mais dificilmente vividas quotidianamente.
Esmaga-nos o formato comportamental das conveniências, o formato existencial linear, o anular do verdadeiro Eu, não em proveito do Nós, mas em proveito de um sistema em que a diferença, a ousadia, a liberdade e o respeito por todas as questões verdadeiramente importantes da humanidade são coisas de somenos importância.
Por força do destino, de alguma acutilância existencial e de disponibilidade para os outros, vou tendo amigos que me surpreendem, amigos que me projectam para longe, para o fio inesgotável da incerteza, do querer mais, do querer melhor, da construção ininterrupta do Eu em comunhão plena com o Nós – Humanidade.
Humanidade, sem limites, sem credos, sem sexistas, sem racialistas, sem verdades absolutas, sem sanguessugas, sem bestas, sem filhos da puta - com nexos*, sexos e plexos**.
É neste espírito construtivista que me movo, que me encontro, desencontro e vivo.

*Nexo – Ligação. Conexão; vínculo; união.
**Plexo – Rede de nervos ou de vasos sanguíneos; encadeamento; entrelaçamento.

Para todos os meus amigos

mudar de nome

Mudar de nome (literalmente) é uma forma ousada e credível de iniciar, de renovar, de voltar a fazer as coisas de novo, umas vezes diferente, outras vezes não.

10 abril 2010

voos adiados

Saibrar

Surribar, revolver, marcar o patamar, não pensar em mais nada. Revolver novamente, escavar, surribar, saibrar. Olhar a paisagem em volta, os contornos, as sombras mutáveis, a Gestalt do lugar... olhar a terra revolvida, o extinto socalco esventrado e o que de belo possa existir em tudo que se reformula, em tudo que se desconstrói, em tudo que potencie a vontade do homem sem ferir de morte a natureza.

20 março 2010

VIVER PARA SEMPRE

A maior parte dos meus amigos mais próximos (que não são muitos), antes fieis escritores de blogues, abandonaram-me à minha sorte. Estes meus amigos fundos, não sei que fazem, não sei que pensam, nem sequer sei por onde andam. Está bem, quem te mandou arranjar amigos que vivem longe, quem te mandou ir à procura do interior. Quem te mandou ter quarenta anos e os teus amigos serem mais ou menos da tua idade. Quem te mandou fugir, quem te mandou trabalhar, quem te mandou querer tantas coisas. Quem te mandou ser simpático com o mundo. Quem te mandou ser socialmente aceitável. Quem te mandou querer tudo.
Quem te disse que podes viver para sempre enganou-te.

EM FRENTE

caminhar, olhar o todo, conceder folga à parte. Absorver o que verdadeiramente interessa, aniquilar o acessório. Querer outras coisas, estar inquieto e seguir em frente. Não parar, afrontar, gritar, cagar literalmente no que não te interessa. Devolver à merda o que é merda, dar algum significado ao que pouco mais que merda é. Hesitar, olhar de frente, não tremer, acreditar. Seguir em frente.

TERRA

Quero colocar-te a ver a terra, a terra a absorver a água, a água a deslizar pela surriba, a água a jorrar terra, a terra a jorrar água. Quero colocar-te a seguir o caminho seguro e marcado da goteira,a toupeira enlameada que segue a minhoca, os seres ocultos que jorram em ti. Os seres vivos que jorram nela, terra, mãe terra. TUDO.

Quero-te na enxurrada, espectador na primeira fila. Quero-te lá onde sobre uma pedra solta a água nasce livremente, como livremente corre para o lugar mais fundo. Quero-te ali nos lugares inesperados que dão significado aos teus dias iguais. Quero-te solta e verdadeira mãe, mãe terra onde as toupeiras vivem onde os seres ocultos são alvos e a tua vida nada.

26 fevereiro 2010

AQUI

Universo, sistema solar, terra, um ponto no Google earth.

29 dezembro 2009

O QUE HÁ EM MIM SEGUIDO DO QUE GOSTO

Há em mim duas viagens, dois ou três quadros paradisíacos encerrados na mala do carro
há em mim duas viagens que se digladiam e as imagens que vêm do frio e do Outono dos dias, do rosto de gente e dos ténues monumentos
há em mim céus boreais e visões caleidoscópicas, ondas de marfim e sangue, incomensuráveis vazios e desejos vadios
há em mim desejo de verdade, coisas simples e nadas que duram milénios
há em mim um clássico que me faz chorar e mundos despidos de artifício
há em mim vida, rios de saudade e de visões heliocêntricas
uma infinidade de lugares e de odores perdidos no tempo
há em mim uma espécie de vento na fronteira entre o comum o excepcional.

Olho as coisas, compreendo os procedimentos e diluo-me num espaço intemporal onde o corpo é matéria volátil, onde o coração é balão insuflável de desejos e angústias.

Há em mim vazio, não saber e não querer
há e mim despeito , ousadia e perdição. Uma esponja sensorial insondável
há em mim desregramento e tatuagens perenes
há em mim coisas que não compreendo, seres heróicos, mortos-vivos e eclipses lunares
há em mim espaço para qualquer coisa que ainda não vivi
há em mim uma toupeira cercada de terra , de escuro e estonteante luz crua
há em mim paisagens humanas e naturais que me arrebatam, enquadramentos de existir, coisas simples de doer, silhuetas espectrais, fronteiras para lado nenhum – sonhos irrealizáveis.

Um pouco de azoto e verdade é tudo que de essencial necessito para viver.



Gosto de seres poéticos, de cabelos enrolados no vento, de histórias de amor impossíveis e de devaneios estéreis
gosto de pensar em nada, das nuvens rápidas a atravessar os montes e de folhas outonais suspensas no ar
gosto de enquadramentos fotográficos arrebanhados ao quotidiano
gosto dos sorrisos suaves que me olham e gosto também de olhar o sorriso escondido dos que se pensam sós
gosto dos tiques, das manias e da paranóia
gosto de observar e de inventar histórias mais ou menos falsas acerca de tudo
gosto de me lembrar do que sonho e das manhãs solares
gosto de decidir partes importantes do dia no chuveiro matinal enquanto a luz entra difusa pela clarabóia
gosto dos insatisfeitos que têm um brilho abrangente no olhar
gosto dos inquietos, dos libertinos, dos espontâneos e dos noctívagos
gosto da transparência, dos palhaços e da autenticidade
gosto dos que são capazes de viver cada dia como se fosse o último
gosto dos que riem, dos que choram, dos que se emocionam com qualquer coisa
gosto de ouvir gente simples a pensar em voz alta.

Gosto de verdade não sabendo muito bem o que isso é.

06 dezembro 2009

desenho do interior

nunca fui muito com o "fora"... sou de dentro e sempre procuro o melhor ângulo para o desenho do interior, ainda que muitas vezes a perspectiva saia distorcida.

bom... é único não é!

14 novembro 2009

conta-me uma história

volto sempre àqueles que me contam histórias.
"Conta-me uma história, conta-me uma história de amor, sangue e verdade. Conta-me uma história de amor senão mato-te."
Citação alterada e não autorizada de Tahar Ben Jelloun
Volto sempre ao David Bowie. Ele sabe contar histórias

28 outubro 2009

Digo que não tenho nada. O que querem de mim… não tenho nada, não sei o que possa fazer. Não sei o que querem de mim. Sou pequeno, não posso corresponder às vossas expectativas. Quero coisas simples, quero pouco… sou nada. Não me peçam cultura, não me peçam discursos pungentes, não me peçam livros porque ainda não os li verdadeiramente. Não me peçam nada. Pouco posso acrescentar na vida de ninguém. Tenho pouco e o pouco que tenho já não chega para mim. Não tenho nada. Sou nada. Quero estar vivo e isso é tudo que me resta. Uma nesga de encontros na paisagem de existir. Quero permanecer. Quero manter-me à superfície. Quero ser… mas começo a não saber como o fazer. Nada. Não tenho nada.

03 outubro 2009

"Muitas vezes não sou da minha opinião"
Paul Valéry

13 setembro 2009

Cidades com gente dentro

















































São Petersburgo - Rússia / Agosto de 2009

Douro Film Harvest II

Rússia, São Petersburgo, a actual dicotomia da sociedade Russa - dinheiro versus espiritualidade, estética algo felliniana, o grotesco, a magia, a beleza humana em todo o seu esplendor.
Foi muito bom voltar a ouvir a língua Russa (esteve presente a produtora do filme) e rever S. Petersburgo. É também nestes momentos que as viagens que encetamos ganham um novo brilho e nos reafirmam a sua importância na nossa contrução existencial.