31 outubro 2009
28 outubro 2009
Digo que não tenho nada. O que querem de mim… não tenho nada, não sei o que possa fazer. Não sei o que querem de mim. Sou pequeno, não posso corresponder às vossas expectativas. Quero coisas simples, quero pouco… sou nada. Não me peçam cultura, não me peçam discursos pungentes, não me peçam livros porque ainda não os li verdadeiramente. Não me peçam nada. Pouco posso acrescentar na vida de ninguém. Tenho pouco e o pouco que tenho já não chega para mim. Não tenho nada. Sou nada. Quero estar vivo e isso é tudo que me resta. Uma nesga de encontros na paisagem de existir. Quero permanecer. Quero manter-me à superfície. Quero ser… mas começo a não saber como o fazer. Nada. Não tenho nada.
03 outubro 2009
13 setembro 2009
Cidades com gente dentro
Douro Film Harvest II
Douro Film Harvest
Embora existam alguns aspectos a melhorar na organização geral do festival e exista também a necessidade de uma maior afluência de público (posso dizer que dos 8 filmes que passaram no pequeno auditório do Teatro de Vila Real eu vi 7 e fui com toda a certeza o mais assíduo dos espectadores) nunca estiveram na sala mais que 10 a 15 pessoas - em alguns filmes foram mesmo menos.
Uma tão boa selecção (colheita / harvest) merecia mais público, merecia outras dinâmicas - ficou a perder quem faltou à chamada.
02 setembro 2009
Dexter
Depois da série "Sete Palmos de Terra", "Dexter" é sem dúvida a série mais estimulante da TV.
Às quartas, na RTP2 (10:40).
05 agosto 2009
20 julho 2009
Limpar Portugal
http://www.youtube.com/watch?v=T7GzfMD6LHs
No dia 31 de Outubro será a vez de Portugal:
http://limparportugal.ning.com/
30 junho 2009
22 junho 2009
21 junho 2009
Tamera
continua aqui
17 junho 2009
Pérolas da Web
quit doing it labs (estratégias para deixar de fumar)
criar album de fotos
Bjorn Borg (publicidade)
divertimento (Faces)
Muito bom design (Jonathan Yuen)
Today and tomorrow (design)
...e muito mais aqui
Radiohead: House of Cards
Este vídeo ganhou 1 Black Pencil da D&AD
outros prémios da edição 2009 em diferentes categorias :.aqui.:
10 junho 2009
O capitalismo explicado às criancinhas
Assim está o Ocidente convencido, e a educação (leia-se escola) reproduz claramente esta ideia, de que, para ser feliz e viver calmamente entre os pares será necessário possuir:
- uma casa
- um carro
- um telemóvel
- e... um ou outro "gadget".
Analisando estes dados ganhamos efectivamente o quê? Algum conforto, o que é bom, e uma ou várias hipotecas vitalícias que escravizam a liberdade de existir e pensar de qualquer ser humano, enquanto em simultâneo engordam as entidades financeiras, que são a âncora do sistema.
Como se não bastasse, somos todos os dias convencidos de que para sermos ainda mais felizes e reconhecidos pelos nosso pares (a ideia do sucesso) temos que acompanhar o ritmo alucinante da produção em massa. Assim, em pouco tempo acabamos por comprar uma casa de férias, um automóvel mais potente, um PDA com GPS e mais um ou outro "gadget" da moda.
O que acontece ao automóvel, ao telemóvel e ao "gadget" antigos? Bom, nem queremos saber, na pior das hipóteses vai directo para o lixo e na melhor vai para a reciclagem.
O que acontece a esta super-produção de coisas efectivamente inúteis? Esgotam cada vez mais os recursos da terra e são um forte contributo para a desagregação climática do planeta.
O regime capitalista, que se diz democrático, o que faz, na realidade, e como já referi, é exportar a ditadura para outros continentes sugando-lhes os recursos, enquanto vai satisfazendo necessidades que nós ocidentais fomos convencidos a pensar que sentimos, ajudando assim a preservar quase intacta a ideologia vigente com o contentamento de quase todos.
Será que já pensamos bem no que andamos a fazer a nós próprios e ao mundo em geral? Será que já nos demos conta que a alienação do Ter em desproveito do Saber e do Ser contribuem para que sejamos cada vez mais infelizes?
É necessário acabar com isto já. É necessário acabar de vez com a palhaçada do modelo educativo que temos e avançar de forma musculada para pôr término à ideologia capitalista, que não sendo uma ditadura como as do passado, nos está a consumir a alma até esvaziar completamente a nossa vida de sentido.
02 junho 2009
A vida secreta de uma toupeira IX
Por detrás das paredes eram sempre os mesmos ruídos, os mesmos silêncios e desejos. Como não me reconhecia neste corpo em sobressalto, comecei a olhar-me, a espiar-me, a rasgar-me por dentro. Olhava-me para sair de um sufoco existencial. Quando alguém falava, ouvia-me a mim próprio e vociferava contra a vida pouco inspirada que levava. Dei-me conta de que chegara à meia vida sem nada de extraordinário para contar. Queria ser tudo, poderia até ser tudo, mas mantinha-me fiel a uma certa jovialidade que dificilmente manteria por muito mais tempo. Sentia-me afundar num marasmo, deixava-me emocionar por uma névoa. Olhei para o lado e as crianças com quem tinha vivido os primeiros anos de escola eram agora homens e mulheres autónomos e cheios de convicção. Eu não, eu no escuro de um certo tempo mantinha-me fiel ao indefinido, ao difuso e ao não saber bem como vai terminar o dia. Acreditava em tudo, aceitava tudo e até pensei que tudo seria possível. Ergui os braços para receber as farpas considerando-me um homem de valores, um homem redondo e livre. Vivia numa espécie de cápsula existencial que se por um lado aproximava gerações por outro se distanciava da essência que julgava possuir – da vontade de ser muito bom em qualquer coisa. Mas eu não, continuava perdido, refém de querer ser tudo, refém das intensidades. Pensava que poderia ser assim para sempre, mas estava enganado.
Dediquei mais que meia vida a construir… sabes… as coisas que a gente gosta – a procurar o que julgamos essencial e nunca se esgota nas palavras. A procurar toda a beleza do mundo no fundo dos olhares. Tu bem sabes que o grande fascínio do mundo está num rosto humano e por isso não parámos de olhar, sempre a olhar o fascínio intemporal de um rosto, a procurar um pensamento bom, limpo e directo.
Assim foi chegando ao princípio do mundo onde as nuvens eram habitadas por luzes fosforescentes, onde as casas estavam vazias e eu a olhar para ti. No princípio do mundo eu já tinha mais que meia vida e descobri finalmente a terra para cultivar. Descobri que na terra estava o todo que sempre procurei, descobri que as palavras tinham os seus limites bem traçados e que a grandeza estava naquilo que não se dizia. Que a grandeza era eu e tu a olhar o mundo com aquela força de corar, com aquela força terna de amar as coisas. Sabes… as coisas que a gente gosta, sem tempo, sem limites, só paixão absoluta e vontade de abraçar. Possuíamos o segredo dos seres lentos e espinhosos, dos seres difusos e íntimos como a terra, ora agreste, ora suave e aconchegante.
Texto publicado na revista "Pensares" - ESJAC
31 maio 2009
28 maio 2009
Porque temos medo
“Vivemos todos sob a ameaça da bomba - cancro - carcinógeneos - doença - desemprego - impotência - medo do medo - pretos - brancos - polícias - juros - imposto de rendimento - multas de estacionamento - esquecer as nossas deixas - perder dinheiro - ganhar demasiado dinheiro - perder cabelo - engordar - ficar feio - ser estúpido -não ter graça - ser tímido - ser tonto - ficar preocupado com qual aparelhagem comprar - como arranjar um carro - a bicicleta - aprender piano - medo de falhar - de não causar boa impressão - medo da força dos outros - medo da fraqueza - medo de ficar exposto - de não chegar a horas ao emprego - de não ter reforma - segurança - velhice - de morrer - guerra - aleijado num acidente de automóvel - medo de ficar cego - surdo - de não entender a piada - medo dos duros - medo de correr riscos - medo de nadar - de saltar - de mergulhar de uma prancha - medo da doença - medo de mexer - medo de vender - medo de comprar - medo obsessivo de aranhas - armários escuros - facas - assaltantes - medo de pessoas - festas - multidões - pessoas espertas - medo de dizer o que se pensa - medo das mulheres - medo dos homens - medo da polícia - medo da ansiedade - por isso esta peça é dedicada a todos medrosos.”
Peça “Kvetch”; Original, Steven Berkoff; Tradução: Luis Fonseca
26 maio 2009
A vida secreta de uma toupeira VIII
As cerejas vermelhas estavam sobre a mesa, frescas, belas e ácidas. O meu olhar estava ainda plasmado no horizonte que tinha abarcado momentos antes sobre a imponente cerejeira. Saía cedo, refém de uma intensidade louca de subir à árvore que engrandecia o meu horizonte e me devolvia uma certa felicidade. Os Melros enlouquecidos pela generosidade da natureza esvoaçavam num frenesim estonteante fazendo voos rasantes à minha inusitada felicidade de principio de manhã de Junho. Fazia 14 anos e nesse dia estava preste a desmaiar pela primeira vez na minha vida.
A frescura da manhã rejuvenescia um cérebro jovem e algo idealista. Imaginava-me com 32 anos, a viver em todos os lugares do mundo onde existissem cerejeiras imponentes, e onde a frescura da manhã continuasse a ser um tónico revigorante para os sentidos diletantes de quem simplesmente sobe uma cerejeira imponente e se sente feliz.Acreditava já, que as coisas simples sempre seriam um lugar de encontros e igualmente de desesperos vários.
Acordei a meio da viagem, a caminho do hospital, alguém me dava palmadas na cara e dizia: - acorda, acorda... lentamente devolvido à realidade senti a dor forte que me esfacelou todo o lado esquerdo do corpo. No hospital tudo me pareceu simpático, o médico, as enfermeiras roliças, as simpatias a que estava pouco habituado.
Passei o fim do ano lectivo, no lugar alto em que vivia a curar as mazelas de um atropelamento, e a olhar os meus colegas de escola a brincar no recreio ou, a adivinhá-los nas aulas chatas e traumatizantes de um certo mau professor de português a quem certamente não devo este meu gosto pelas letras. O Gonçalves esse, continuava como sempre, a correr desalmado pelo relvado de ervas daninhas com uma bola - nós chamávamos-lhe râguebi. Atrás, lá vinham os colegas de turma esbaforidos e a tentar rasteirar o imperturbável rapazola, por quem ainda hoje, passados 25 anos nutro uma enorme simpatia e amizade.
Hoje lembrei um daqueles acontecimentos de muitos anos e que fazem parte da minha construção existencial, sendo para isso apenas necessário, que sobre a mesa estivessem umas cerejas frescas, belas e ácidas. Enfim... coisas simples.

foto: António Manuel Silva






