31 maio 2009
28 maio 2009
Porque temos medo
“Vivemos todos sob a ameaça da bomba - cancro - carcinógeneos - doença - desemprego - impotência - medo do medo - pretos - brancos - polícias - juros - imposto de rendimento - multas de estacionamento - esquecer as nossas deixas - perder dinheiro - ganhar demasiado dinheiro - perder cabelo - engordar - ficar feio - ser estúpido -não ter graça - ser tímido - ser tonto - ficar preocupado com qual aparelhagem comprar - como arranjar um carro - a bicicleta - aprender piano - medo de falhar - de não causar boa impressão - medo da força dos outros - medo da fraqueza - medo de ficar exposto - de não chegar a horas ao emprego - de não ter reforma - segurança - velhice - de morrer - guerra - aleijado num acidente de automóvel - medo de ficar cego - surdo - de não entender a piada - medo dos duros - medo de correr riscos - medo de nadar - de saltar - de mergulhar de uma prancha - medo da doença - medo de mexer - medo de vender - medo de comprar - medo obsessivo de aranhas - armários escuros - facas - assaltantes - medo de pessoas - festas - multidões - pessoas espertas - medo de dizer o que se pensa - medo das mulheres - medo dos homens - medo da polícia - medo da ansiedade - por isso esta peça é dedicada a todos medrosos.”
Peça “Kvetch”; Original, Steven Berkoff; Tradução: Luis Fonseca
26 maio 2009
A vida secreta de uma toupeira VIII
As cerejas vermelhas estavam sobre a mesa, frescas, belas e ácidas. O meu olhar estava ainda plasmado no horizonte que tinha abarcado momentos antes sobre a imponente cerejeira. Saía cedo, refém de uma intensidade louca de subir à árvore que engrandecia o meu horizonte e me devolvia uma certa felicidade. Os Melros enlouquecidos pela generosidade da natureza esvoaçavam num frenesim estonteante fazendo voos rasantes à minha inusitada felicidade de principio de manhã de Junho. Fazia 14 anos e nesse dia estava preste a desmaiar pela primeira vez na minha vida.
A frescura da manhã rejuvenescia um cérebro jovem e algo idealista. Imaginava-me com 32 anos, a viver em todos os lugares do mundo onde existissem cerejeiras imponentes, e onde a frescura da manhã continuasse a ser um tónico revigorante para os sentidos diletantes de quem simplesmente sobe uma cerejeira imponente e se sente feliz.Acreditava já, que as coisas simples sempre seriam um lugar de encontros e igualmente de desesperos vários.
Acordei a meio da viagem, a caminho do hospital, alguém me dava palmadas na cara e dizia: - acorda, acorda... lentamente devolvido à realidade senti a dor forte que me esfacelou todo o lado esquerdo do corpo. No hospital tudo me pareceu simpático, o médico, as enfermeiras roliças, as simpatias a que estava pouco habituado.
Passei o fim do ano lectivo, no lugar alto em que vivia a curar as mazelas de um atropelamento, e a olhar os meus colegas de escola a brincar no recreio ou, a adivinhá-los nas aulas chatas e traumatizantes de um certo mau professor de português a quem certamente não devo este meu gosto pelas letras. O Gonçalves esse, continuava como sempre, a correr desalmado pelo relvado de ervas daninhas com uma bola - nós chamávamos-lhe râguebi. Atrás, lá vinham os colegas de turma esbaforidos e a tentar rasteirar o imperturbável rapazola, por quem ainda hoje, passados 25 anos nutro uma enorme simpatia e amizade.
Hoje lembrei um daqueles acontecimentos de muitos anos e que fazem parte da minha construção existencial, sendo para isso apenas necessário, que sobre a mesa estivessem umas cerejas frescas, belas e ácidas. Enfim... coisas simples.

foto: António Manuel Silva
22 maio 2009
HEY KIDS LEAVE US TEACHERS ALONE
Se formos capazes de ouvir e ver este vídeo, talvez possamos compreender que neste momento nos debatemos com problemas similares, sendo que, agora, a figura castigadora e uniformizadora não é o mestre (professor), mas o próprio sistema que ao longo dos anos não se soube renovar e adaptar às regras da sociedade emergente e em que o professor passou a ser um objecto manipulado e manipulável (uma espécie de autómato) das vontades e dos caprichos inconfessáveis da sociedade e sobretudo dos poderes.
O que agora apetece dizer não é "teachers leave us kids alone", mas antes "kids leave us teachers alone", ou seja, uma espécie de grito de revolta que se consubstancie numa mudança rápida ou até mesmo forçada do estádio das coisas. Se algum dia pensarmos que, nós professores, o podemos fazer sem o comprometimento dos alunos, estaremos mais uma vez enganados e nada vai mudar mais uma vez.
21 maio 2009
20 maio 2009
Medo de quê?
Duvido que o futuro da humanidade esteja exclusivamente nas mulheres, na realidade penso que o futuro da humanidade está nos pequenos passos de cada um, na luta que todos os dias formos capazes de fazer para criar uma sociedade mais justa, mais equitativa.
Acredito no poder da arte como agente fundamental da transformação humana. Estará efectivamente a arte a cumprir esta componente da sua missão?
nem sempre - a maior parte das vezes não, tal é seu grau de promiscuidade com poder (não é de agora, sempre foi assim).
Vivemos atafulhados de embustes, de falsos problemas, de angustias irracionais. Vivemos em torno de causas esvaziadas de significado e criaram para nós a ilusão de que o dinheiro e o poder nos fazem mais felizes.
Enquanto criticamos o estado do mundo em que vivemos, enquanto nos queixamos dos nossos alunos, do seu desleixo e do "não querer saber", evitamos perguntar a nós próprios o que andamos aqui a fazer, e qual está a ser o nosso contributo para o bem comum. Todos os dias nos queixamos (nos casos mais promissores) pelo menos três ou quatro vezes por dia de uma série de coisas que estão erradas no mundo mas, seguramente, estamos menos preocupados em quantas vezes por dia damos um contributo positivo à sociedade. Atribuímos sistematicamente a culpa a um agente invisível e ainda fazemos pior quando lhe damos um rosto, mas continuamos, quando podemos, a tirar um incompreensível proveito das benesses do sistema que nos vai consumindo cada dia da nossa vida.
Somos uma sociedade hipócrita e centrada em si mesma, somos uma sociedade escravizada e auto-complacente todos os dias - uns a seguir aos outros. Somos fieis consumidores do Xanax, mas cada vez mais, numa tendência higienizadora (eu gosto de lhe chamar a sociedade dos "limpinhos") castigamos os que fumam, os que bebem, os que não fazem ginástica, os que são gordos, os que são demasiado magros, os que são altos, os que são demasiado baixos, os que têm o cabelo comprido, os que são azuis, os que são pretos e até os que são demasiado brancos. Porque raio haveríamos de ser todos iguais. Por raio temos que ser iguais à força.
Que é feito da liberdade individual? porque será, que todos (quase sem excepção) nos sentimos cada vez menos livres? Que medo é este... de ser livre? que terror anda a consumir as nossas almas atormentadas? que desejos secretos nos consomem os dias? porque vivemos tão centrados nos outros, quando o segredo talvez esteja em cada um de nós?
Que medo é este... que insegurança é esta, que terror... que desvario?
É necessário acordar, acordar rápido. É necessário mudar, é necessário afrontar, é necessário colocarmo-nos na linha insegura de sermos nós mesmos.
É necessário lutar, é necessário mudar de paradigma. É necessário criar a não-escola.
vai lá pintar
Vai lá pintar o final de ano de amarelo, de laranja e violeta. Vai imitar os pássaros e os seus voos rasantes.
Vai lá pintar o mundo com as tuas cores bonitas.
17 abril 2009
08 abril 2009
DEAD COMBO "Putos A Roubar Maçãs"
é ou não é a música mais inspiradora que se faz actualmente em Portugal
13 março 2009
A vida secreta de uma toupeira VII
A paz secreta de uma paisagem é um lugar estranho
Vês-te para lá dos montes para saíres de um sufoco existencial. Atendeste o telefone para te ouvires a ti próprio vociferar contra a vida inspirada que levavas. Deste-te conta de que chegaste à meia idade sendo um traquina das emoções. Querias ser tudo, poderias até ser tudo, mas mantinhas-te fiel a uma certa jovialidade que dificilmente manterias por muito mais tempo. Sentias-te afundar num marasmo, deixaste-te emocionar por uma névoa. Olhaste para o lado e as crianças com quem viveste os primeiros anos de escola eram agora homens e mulheres autónomos e cheios de convicção. Tu não, tu no escuro de um certo tempo mantinhas-te fiel ao indefinido, ao difuso e ao não saber bem como vai terminar o dia. Acreditavas em tudo, aceitavas tudo e até pensaste que tudo seria possível. Ergueste os braços quando te meteram farpas no coração. Consideravas-te um homem de valores, um homem redondo e livre. Desenvolveste uma espécie de cápsula existencial que se por um lado aproximava gerações por outro te distanciava da essência que julgavas possuir – da vontade de seres muito bom em qualquer coisa. Mas tu não, continuavas perdido, refém de querer ser tudo, refém das intensidades. Pensaste que poderia ser assim para sempre, mas estavas enganado.
Existe uma fórmula química que nos dita o tempo, existe uma fórmula humana que nos restitui a liberdade de agir e pensar uma coisa e fazer exactamente o oposto. Existe insustentabilidade nestes seres difusos, como nas crianças dos primeiros anos de escola. Estar no mundo e gostar de tudo é como olhar a paz secreta de uma paisagem e sentir que estamos num lugar estranho.
Estavas cheio de ideias fortes, de vontade de partir, mas foste ficando, foste-te adaptando aos altos e baixos de uma vida sóbria e aos entusiasmos dos dias bons. Foste cavando túneis, caminhos tão sólidos como insólitos. Querias vivenciar o mundo dos homens e até compreendê-lo aflorando à superfície com alguma frequência. Foste medindo a intensidade da luz e escolhendo cada vez mais o lusco-fusco dos dias e as ramagens mais densas. Foste-te desiludindo e incorporando os arrufos, as misérias e as loucuras da humanidade. Conheceste homens bons e outros tantos seres cavernosos, seres que como tu vieram do escuro e ao escuro sempre tendiam a voltar. Seres escravos das mais estranhas causas, dos mais obscuros pensamentos. Estavas triste num dia triste e numa luz difusa de um Outono negro. Hoje pensaste que dormir seria a melhor solução e não é que o tempo te deu razão!
22 fevereiro 2009
A vida secreta de uma toupeira VI
Entretanto numa colina sobranceira, eu olho para ti e para dentro de mim próprio sem que me reconheça, olho-me e espio-me como se de outro se tratasse, olho-me como se fosse uma casa cheia de memórias antigas e difusas.
Olho-me como se a casa estivesse desarrumada, os caixotes espalhados e talvez um lençol a cobrir um velho sofá de couro. A luz que me cega entra difusa pela janela revelando o vetusto soalho onde tu projectas a esguia silhueta de fim de tarde. As nuvens adensam-se no horizonte, a terceira de brahms toca na rádio. Eu aqui a olhar para mim como se fosse uma casa desabitada, quando lá ao fundo existe um porto de felicidade e de transformação onde alguém pensa ficar para sempre.
Estar aqui é como querer pertencer a outro tempo da forma mais desencontrada possível. Estar aqui é ser qualquer coisa de intermédio, é não existir em mim... é uma espécie de nada... é um desencontro com tudo.
Enquanto uns chegam eu penso partir num cargueiro transcontinental, chafurdar noutra terra, noutro jardim e noutro delírio, noutro Eu.
Enquanto me passavam pela cabeça estes pensamentos vadios olhava para ti a construíres a vida com as mãos e entendi, que tal como eu, também estavas próxima da terra e deste lugar sem saída.
Perguntaste o que faria lá mais para o fim da viagem e eu só pude responder, que se algum dia te enterrasse seria no meu jardim.
06 fevereiro 2009
Esmaga os teus dias maus
Tom Waits - Cold Cold Ground -
Gosto de gestos bem intencionados e dos vídeos amadores do youtube. Gosto de paredes nuas e de olhares indiscretos. Gosto de portas fechadas e de ti a olhar para mim como se o resto do mundo não existisse. Gosto das intensidades e dos lugares desabitados. Gosto de paisagem e dos gestos incomuns. Gosto de ser o último a sair e do desconforto de não ser nem querer ser o mais interessante. Gosto do silêncio e das sombras, dos espelhos e dos reflexos. Gosto de esmagar os dias maus...
Where The Wild Roses Grow - Nick Cave & Kylie Minogue
Há coisas que nunca mudam... e algumas são verdadeiramente boas.
30 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira V
Num dia já longínquo levantou os olhos quase por acaso quando ela se atravessou no seu caminho e o seu olhar acompanhou-a para sempre, com aquela fome de querer sempre.
Hoje, anos mais tarde quase nada mudou, continua a trabalhar o seu quintal de mimosas que florescem cheirosas e adocicadas todos os fevereiros e quando ela vem à janela - Manel, quando terminares a redra traz-me um ramo - ele sente que nada mudou com a mesma intensidade de sempre e como se fosse a última vez. Ele espera dela essa atitude de quem vem numa bonita manhã e olha nos olhos dele com a blusa ligeiramente desabotoada e lhe pede cor e lhe pede odor e lhe pede felicidade.
Estranhamente, hoje numa bela manhã de Fevereiro e no meio de um atordoante amarelo forte, ela não apareceu de blusa desabotoada. Deitou-se mesmo ali no centro do seu mundo colorido a olhar o céu e a rota dos aviões-pássaros, para contemplar a nuvem solitária e em acelerada metamorfose, sentindo claramente que já não existiam um no outro.
Terá sido um dia triste em que as lágrimas lhe tornavam baço o olhar forte.
Eu observei de longe o fio líquido que lhe saía dos olhos e tocava a terra solta, senti o amarelo forte que apenas podia imaginar e vi-o por fim beber de um trago um copo de lixívia que presumo apagaria para sempre o amor.
23 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira IV
Eu, senti a pele húmida, mas isso era perfeitamente natural.
16 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira III
Não fiquei contente, mas antes perplexo com o sangue quente que jorrava sobre a terra, mesmo ali sobre o lugar que escolhi para adormecer. A humidade quente e doce e o reboliço dos homens foram um espectáculo sem medida. Afastei-me um pouco para observar de longe o movimento desfocado e consertado de tão ardilosa tarefa, de tanto som, de tanta palavra incompreensível, da mestria de saber cumprir uma tarefa com extremado zelo.
O Porco estava morto e a minha felicidade inusitada tinha razão de ser.
A luz subiu no horizonte, momento mágico que não pude acompanhar até ao fim de tanto contentamento que senti sem conseguir ver.
15 janeiro 2009
11 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira II
Mantive o olhar na paisagem semi-obscurecida e sobre o branco fascinante da neve pontuado por cinco ou seis focos laranja.
Estava um silêncio intemporal e o meu olhar pregado no horizonte inefável - viajava ao ralenti num silêncio suave, na luz ténue e no Porto doce e amendoado.
Às três da manhã é na noite profunda e solitária que se congeminam os mais ousados rituais e as mais ternas existências. Na névoa, no escuro e no silêncio viajo no mundo dos homens sem que o compreenda perfeitamente.
O carro entretanto continuava a deslizar suave e livre num silêncio mágico.
O meu olhar estava fixo nos focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte estranhamente branco.
O gato preto atravessou a estrada, lento e perturbante e o seu olhar sinistro reflectiu luz no meu olhar igualmente intimidante. O olhar sempre nos dói ou nos fascina, tal como o monte branco assinalado por cinco ou seis focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte.
O homem saiu do carro aturdido, e eu voltei à terra e o escuro apaziguou-me.
14 dezembro 2008
A vida secreta de uma Toupeira I*
Os pais abandonaram-na não tinha ainda duas semanas, diz-se que morreram à sacholada, mas são só boatos. Que os pais nunca voltaram isso é uma evidência. Ficou entregue aos cuidados da avó que sempre se esmerou por lhe dar uma boa educação. E assim foi vivendo menina mimada e caprichosa. Nos longos passeios pelos túneis e por vezes quando aflorava à superfície, foi cavando toda uma vida clandestina e particular. Ausentava-se por longos períodos para desassossego da Avó. Muitos diziam que a loucura lhe tinha devolvido o olhar e na superfície chegava até a descodificar a voz humana. Quando voltava, contava estórias impossíveis, de passeios no regato na companhia de um pequeno barco de cortiça com uma vela vermelha feita de trapo. Outras vezes vinha extraordinariamente cansada e agitada dizendo que tinha sido perseguida por um animal de grande porte que lhe dava dentadas no rabo. A avó sorria carinhosamente para ela conformada e a acenar ligeiramente a cabeça num gesto de aprovação.
No dia em que fez 2 anos ausentou-se iniciando uma aventura de vários dias para desassossego da Avó. Caminhou para a porta. Antes de fechar lançou um último olhar à casa e colocou os seus olhos nos olhos tristes da Avó. Estava decidida a procurar, a aventurar-se no mundo dos homens, a compreender o mundo da luz, acreditando firmemente que a loucura que lhe imputavam era tão só, simples ignorância daqueles que desde sempre viveram na sombra.
*Esta história nasceu a 1 de Junho de 2005, tendo ficado enterrada até este preciso momento em que resolvi contar na sua totalidade a vida deste estranho ser vindo da sombra. Capítulo a capítulo todo o mistério será desvendado. Os seres da sombra estão bem perto, quase sempre debaixo dos nossos pés.
Elephant

é muito curioso colocar adolescentes, de 17 ou 18 anos, a aborrecer-se com filmes como Elephant de Gus Van Sant. Os putos gostam de realidade mas evitam a todo custo a dor que ela comporta.
De qualquer maneira fiquei seguro de que esta crueza não lhes é indiferente. Espero que tenha deixado marca.
