é ou não é a música mais inspiradora que se faz actualmente em Portugal
08 abril 2009
13 março 2009
A vida secreta de uma toupeira VII
A paz secreta de uma paisagem é um lugar estranho
Vês-te para lá dos montes para saíres de um sufoco existencial. Atendeste o telefone para te ouvires a ti próprio vociferar contra a vida inspirada que levavas. Deste-te conta de que chegaste à meia idade sendo um traquina das emoções. Querias ser tudo, poderias até ser tudo, mas mantinhas-te fiel a uma certa jovialidade que dificilmente manterias por muito mais tempo. Sentias-te afundar num marasmo, deixaste-te emocionar por uma névoa. Olhaste para o lado e as crianças com quem viveste os primeiros anos de escola eram agora homens e mulheres autónomos e cheios de convicção. Tu não, tu no escuro de um certo tempo mantinhas-te fiel ao indefinido, ao difuso e ao não saber bem como vai terminar o dia. Acreditavas em tudo, aceitavas tudo e até pensaste que tudo seria possível. Ergueste os braços quando te meteram farpas no coração. Consideravas-te um homem de valores, um homem redondo e livre. Desenvolveste uma espécie de cápsula existencial que se por um lado aproximava gerações por outro te distanciava da essência que julgavas possuir – da vontade de seres muito bom em qualquer coisa. Mas tu não, continuavas perdido, refém de querer ser tudo, refém das intensidades. Pensaste que poderia ser assim para sempre, mas estavas enganado.
Existe uma fórmula química que nos dita o tempo, existe uma fórmula humana que nos restitui a liberdade de agir e pensar uma coisa e fazer exactamente o oposto. Existe insustentabilidade nestes seres difusos, como nas crianças dos primeiros anos de escola. Estar no mundo e gostar de tudo é como olhar a paz secreta de uma paisagem e sentir que estamos num lugar estranho.
Estavas cheio de ideias fortes, de vontade de partir, mas foste ficando, foste-te adaptando aos altos e baixos de uma vida sóbria e aos entusiasmos dos dias bons. Foste cavando túneis, caminhos tão sólidos como insólitos. Querias vivenciar o mundo dos homens e até compreendê-lo aflorando à superfície com alguma frequência. Foste medindo a intensidade da luz e escolhendo cada vez mais o lusco-fusco dos dias e as ramagens mais densas. Foste-te desiludindo e incorporando os arrufos, as misérias e as loucuras da humanidade. Conheceste homens bons e outros tantos seres cavernosos, seres que como tu vieram do escuro e ao escuro sempre tendiam a voltar. Seres escravos das mais estranhas causas, dos mais obscuros pensamentos. Estavas triste num dia triste e numa luz difusa de um Outono negro. Hoje pensaste que dormir seria a melhor solução e não é que o tempo te deu razão!
22 fevereiro 2009
A vida secreta de uma toupeira VI
Entretanto numa colina sobranceira, eu olho para ti e para dentro de mim próprio sem que me reconheça, olho-me e espio-me como se de outro se tratasse, olho-me como se fosse uma casa cheia de memórias antigas e difusas.
Olho-me como se a casa estivesse desarrumada, os caixotes espalhados e talvez um lençol a cobrir um velho sofá de couro. A luz que me cega entra difusa pela janela revelando o vetusto soalho onde tu projectas a esguia silhueta de fim de tarde. As nuvens adensam-se no horizonte, a terceira de brahms toca na rádio. Eu aqui a olhar para mim como se fosse uma casa desabitada, quando lá ao fundo existe um porto de felicidade e de transformação onde alguém pensa ficar para sempre.
Estar aqui é como querer pertencer a outro tempo da forma mais desencontrada possível. Estar aqui é ser qualquer coisa de intermédio, é não existir em mim... é uma espécie de nada... é um desencontro com tudo.
Enquanto uns chegam eu penso partir num cargueiro transcontinental, chafurdar noutra terra, noutro jardim e noutro delírio, noutro Eu.
Enquanto me passavam pela cabeça estes pensamentos vadios olhava para ti a construíres a vida com as mãos e entendi, que tal como eu, também estavas próxima da terra e deste lugar sem saída.
Perguntaste o que faria lá mais para o fim da viagem e eu só pude responder, que se algum dia te enterrasse seria no meu jardim.
06 fevereiro 2009
Esmaga os teus dias maus
Tom Waits - Cold Cold Ground -
Gosto de gestos bem intencionados e dos vídeos amadores do youtube. Gosto de paredes nuas e de olhares indiscretos. Gosto de portas fechadas e de ti a olhar para mim como se o resto do mundo não existisse. Gosto das intensidades e dos lugares desabitados. Gosto de paisagem e dos gestos incomuns. Gosto de ser o último a sair e do desconforto de não ser nem querer ser o mais interessante. Gosto do silêncio e das sombras, dos espelhos e dos reflexos. Gosto de esmagar os dias maus...
Where The Wild Roses Grow - Nick Cave & Kylie Minogue
Há coisas que nunca mudam... e algumas são verdadeiramente boas.
30 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira V
Num dia já longínquo levantou os olhos quase por acaso quando ela se atravessou no seu caminho e o seu olhar acompanhou-a para sempre, com aquela fome de querer sempre.
Hoje, anos mais tarde quase nada mudou, continua a trabalhar o seu quintal de mimosas que florescem cheirosas e adocicadas todos os fevereiros e quando ela vem à janela - Manel, quando terminares a redra traz-me um ramo - ele sente que nada mudou com a mesma intensidade de sempre e como se fosse a última vez. Ele espera dela essa atitude de quem vem numa bonita manhã e olha nos olhos dele com a blusa ligeiramente desabotoada e lhe pede cor e lhe pede odor e lhe pede felicidade.
Estranhamente, hoje numa bela manhã de Fevereiro e no meio de um atordoante amarelo forte, ela não apareceu de blusa desabotoada. Deitou-se mesmo ali no centro do seu mundo colorido a olhar o céu e a rota dos aviões-pássaros, para contemplar a nuvem solitária e em acelerada metamorfose, sentindo claramente que já não existiam um no outro.
Terá sido um dia triste em que as lágrimas lhe tornavam baço o olhar forte.
Eu observei de longe o fio líquido que lhe saía dos olhos e tocava a terra solta, senti o amarelo forte que apenas podia imaginar e vi-o por fim beber de um trago um copo de lixívia que presumo apagaria para sempre o amor.
23 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira IV
Eu, senti a pele húmida, mas isso era perfeitamente natural.
16 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira III
Não fiquei contente, mas antes perplexo com o sangue quente que jorrava sobre a terra, mesmo ali sobre o lugar que escolhi para adormecer. A humidade quente e doce e o reboliço dos homens foram um espectáculo sem medida. Afastei-me um pouco para observar de longe o movimento desfocado e consertado de tão ardilosa tarefa, de tanto som, de tanta palavra incompreensível, da mestria de saber cumprir uma tarefa com extremado zelo.
O Porco estava morto e a minha felicidade inusitada tinha razão de ser.
A luz subiu no horizonte, momento mágico que não pude acompanhar até ao fim de tanto contentamento que senti sem conseguir ver.
15 janeiro 2009
11 janeiro 2009
A vida secreta de uma toupeira II
Mantive o olhar na paisagem semi-obscurecida e sobre o branco fascinante da neve pontuado por cinco ou seis focos laranja.
Estava um silêncio intemporal e o meu olhar pregado no horizonte inefável - viajava ao ralenti num silêncio suave, na luz ténue e no Porto doce e amendoado.
Às três da manhã é na noite profunda e solitária que se congeminam os mais ousados rituais e as mais ternas existências. Na névoa, no escuro e no silêncio viajo no mundo dos homens sem que o compreenda perfeitamente.
O carro entretanto continuava a deslizar suave e livre num silêncio mágico.
O meu olhar estava fixo nos focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte estranhamente branco.
O gato preto atravessou a estrada, lento e perturbante e o seu olhar sinistro reflectiu luz no meu olhar igualmente intimidante. O olhar sempre nos dói ou nos fascina, tal como o monte branco assinalado por cinco ou seis focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte.
O homem saiu do carro aturdido, e eu voltei à terra e o escuro apaziguou-me.
14 dezembro 2008
A vida secreta de uma Toupeira I*
Os pais abandonaram-na não tinha ainda duas semanas, diz-se que morreram à sacholada, mas são só boatos. Que os pais nunca voltaram isso é uma evidência. Ficou entregue aos cuidados da avó que sempre se esmerou por lhe dar uma boa educação. E assim foi vivendo menina mimada e caprichosa. Nos longos passeios pelos túneis e por vezes quando aflorava à superfície, foi cavando toda uma vida clandestina e particular. Ausentava-se por longos períodos para desassossego da Avó. Muitos diziam que a loucura lhe tinha devolvido o olhar e na superfície chegava até a descodificar a voz humana. Quando voltava, contava estórias impossíveis, de passeios no regato na companhia de um pequeno barco de cortiça com uma vela vermelha feita de trapo. Outras vezes vinha extraordinariamente cansada e agitada dizendo que tinha sido perseguida por um animal de grande porte que lhe dava dentadas no rabo. A avó sorria carinhosamente para ela conformada e a acenar ligeiramente a cabeça num gesto de aprovação.
No dia em que fez 2 anos ausentou-se iniciando uma aventura de vários dias para desassossego da Avó. Caminhou para a porta. Antes de fechar lançou um último olhar à casa e colocou os seus olhos nos olhos tristes da Avó. Estava decidida a procurar, a aventurar-se no mundo dos homens, a compreender o mundo da luz, acreditando firmemente que a loucura que lhe imputavam era tão só, simples ignorância daqueles que desde sempre viveram na sombra.
*Esta história nasceu a 1 de Junho de 2005, tendo ficado enterrada até este preciso momento em que resolvi contar na sua totalidade a vida deste estranho ser vindo da sombra. Capítulo a capítulo todo o mistério será desvendado. Os seres da sombra estão bem perto, quase sempre debaixo dos nossos pés.
Elephant

é muito curioso colocar adolescentes, de 17 ou 18 anos, a aborrecer-se com filmes como Elephant de Gus Van Sant. Os putos gostam de realidade mas evitam a todo custo a dor que ela comporta.
De qualquer maneira fiquei seguro de que esta crueza não lhes é indiferente. Espero que tenha deixado marca.
06 dezembro 2008
05 dezembro 2008
voz off
Perdi a voz...
mais que perder a voz perdi a capacidade de dar uma forte gargalhada. Aliás, rir pode tornar-se um verdadeiro tormento quando temos as cordas vocais estragadas.
Perder a voz pode ter mais ou menos importância no desempenho das diferentes profissões, pode ter mais ou menos importância na nossa vida social. Mas rir, sorrir , gargalhar ou chorar são manifestações sem as quais pode tornar-se verdadeiramente penoso viver. Viver sério, sorrir com as maças do rosto, chorar apenas lágrimas, não ser capaz de gritar, berrar, contestar veementemente, chamar o cão, berrar ao amigo que vai do outro lado da rua e não nos viu, elevar a voz... enfim, voz off, porra.
14 novembro 2008
12 novembro 2008
pelo olhar
Olhar, olhar todos os dias, olhar mais e profundamente. É este um dos segredos intemporais.
Este filão pouco valorizado da comunicação dá os resultados mais surpreendentes e fidedignos e aproxima-nos emocionalmente do outro.
Não estará no olhar a verdade, a clareza, a transparência e o carácter...
Para mim está lá tudo, bem no fundo da pupila.
Ovos pelo ar
Acredito profundamente nas ideias e na inteligência humana.
Não coloco a origem de todos os problemas actuais da educação numa pessoa, mas numa equipa alargada a que chamamos governo.
Não acredito que atirar ovos a quem quer que seja resolva problemas.
Embora não sabendo exactamente quem foram os energúmenos que o fizeram lá para os lados de Fafe, penso que seria interessante que os sindicatos e forças da oposição a este governo dissessem alguma coisa acerca desta postura intolerável que de alguma forma mancha o que de nobre existe na luta dos professores, que aliás, deveriam veementemente demarcar-se de posições desta natureza.
Eu já me demarquei aqui.
09 novembro 2008
O colectivo e Eu
Ontem, subi do Terreiro do Paço até ao Marquês em silêncio para sentir demasiadas coisas quando efectivamente se fez um minuto de silêncio.
Interroguei-me sobre o que estava a li a fazer, interroguei-me se vale a pena este percurso que levo vai para 12 anos.
Dei-me conta que tinha 40 anos e não estava absolutamente confiante na minha missão, se é que algum dia a tive. Olhei em volta, olhei sempre em volta à procura de algo que me desse uma resposta conclusiva, como se estas existissem.
Vi colegas de profissão convictos da sua luta, empunhando cartazes, levantando a voz, confiantes de que quem decide somos nós... admirei-os.
Eu por mim... continuo à procura de um lugar em que construindo-me como ser humano, possa efectivamente ajudar os outros a construírem-se a si próprios.
Continuo à procura.
07 novembro 2008
Imogen Heap e o vinho bom
Esta rapariga deixa-me mesmo com vontade de beber um bom vinho. Aí estão duas coisas sem as quais talvez não conseguisse viver.
Um americano dos bons (Gary Vaynerchuk) a falar de vinho também é uma excelente ajuda:
http://tv.winelibrary.com/