22 fevereiro 2009

A vida secreta de uma toupeira VI

Sempre me fascinaram os marinheiros, sobretudo aqueles que aportam como se pudessem ficar para sempre. Aqueles desenraizados que parecem poder construir a felicidade em qualquer porto do mundo. Daqueles que têm um pensamento bom, limpo e discreto.
Entretanto numa colina sobranceira, eu olho para ti e para dentro de mim próprio sem que me reconheça, olho-me e espio-me como se de outro se tratasse, olho-me como se fosse uma casa cheia de memórias antigas e difusas.
Olho-me como se a casa estivesse desarrumada, os caixotes espalhados e talvez um lençol a cobrir um velho sofá de couro. A luz que me cega entra difusa pela janela revelando o vetusto soalho onde tu projectas a esguia silhueta de fim de tarde. As nuvens adensam-se no horizonte, a terceira de brahms toca na rádio. Eu aqui a olhar para mim como se fosse uma casa desabitada, quando lá ao fundo existe um porto de felicidade e de transformação onde alguém pensa ficar para sempre.
Estar aqui é como querer pertencer a outro tempo da forma mais desencontrada possível. Estar aqui é ser qualquer coisa de intermédio, é não existir em mim... é uma espécie de nada... é um desencontro com tudo.
Enquanto uns chegam eu penso partir num cargueiro transcontinental, chafurdar noutra terra, noutro jardim e noutro delírio, noutro Eu.
Enquanto me passavam pela cabeça estes pensamentos vadios olhava para ti a construíres a vida com as mãos e entendi, que tal como eu, também estavas próxima da terra e deste lugar sem saída.
Perguntaste o que faria lá mais para o fim da viagem e eu só pude responder, que se algum dia te enterrasse seria no meu jardim.

06 fevereiro 2009

Esmaga os teus dias maus


Tom Waits - Cold Cold Ground -

Gosto de gestos bem intencionados e dos vídeos amadores do youtube. Gosto de paredes nuas e de olhares indiscretos. Gosto de portas fechadas e de ti a olhar para mim como se o resto do mundo não existisse. Gosto das intensidades e dos lugares desabitados. Gosto de paisagem e dos gestos incomuns. Gosto de ser o último a sair e do desconforto de não ser nem querer ser o mais interessante. Gosto do silêncio e das sombras, dos espelhos e dos reflexos. Gosto de esmagar os dias maus...

Where The Wild Roses Grow - Nick Cave & Kylie Minogue

Há coisas que nunca mudam... e algumas são verdadeiramente boas.

30 janeiro 2009

A vida secreta de uma toupeira V

Olhava o mundo como quem fode, com a mesma intensidade, o mesmo ritmo e o desvario das órbitas baças. Queria provar tudo rápido e sem juízo de valor. Estava para o mundo como o chocolate negro para o paladar, amargo, torrado e forte. Deslizava pelas coisas do mundo como se as visse pela primeira vez e estivesse condenado a não as ver mais. As árvores despidas, como as mulheres garças e atrevidas fascinaram-no sempre.
Num dia já longínquo levantou os olhos quase por acaso quando ela se atravessou no seu caminho e o seu olhar acompanhou-a para sempre, com aquela fome de querer sempre.
Hoje, anos mais tarde quase nada mudou, continua a trabalhar o seu quintal de mimosas que florescem cheirosas e adocicadas todos os fevereiros e quando ela vem à janela - Manel, quando terminares a redra traz-me um ramo - ele sente que nada mudou com a mesma intensidade de sempre e como se fosse a última vez. Ele espera dela essa atitude de quem vem numa bonita manhã e olha nos olhos dele com a blusa ligeiramente desabotoada e lhe pede cor e lhe pede odor e lhe pede felicidade.
Estranhamente, hoje numa bela manhã de Fevereiro e no meio de um atordoante amarelo forte, ela não apareceu de blusa desabotoada. Deitou-se mesmo ali no centro do seu mundo colorido a olhar o céu e a rota dos aviões-pássaros, para contemplar a nuvem solitária e em acelerada metamorfose, sentindo claramente que já não existiam um no outro.
Terá sido um dia triste em que as lágrimas lhe tornavam baço o olhar forte.
Eu observei de longe o fio líquido que lhe saía dos olhos e tocava a terra solta, senti o amarelo forte que apenas podia imaginar e vi-o por fim beber de um trago um copo de lixívia que presumo apagaria para sempre o amor.

23 janeiro 2009

A vida secreta de uma toupeira IV

Estava com o olhar esgrouviado do costume e um pé comprometido com a realidade. Ela estava de chapéu branco perfeitamente harmonizado com a bota igualmente branca e o vestido preto e desabotoado. A coxa estava bronzeada e atrevida. Olhei para os dois e vi aquela intensidade, aquele desejo de partilhar o mundo todo. Ela chegou a preto e vermelho, o cabelo solto e um sorriso cúmplice. Pousou o cachecol cor de cereja na cadeira em frente e sentou-se confortavelmente ao meu lado. Ele voltou mais tarde com a sensação de que estava atrasado. Pegou e cheirou demoradamente o cachecol cor de cereja colocando-o em volta do pescoço. Esboçou uma certa feminilidade que se manteve por longos momentos enquanto falava da importância para música portuguesa do António Variações. Eles conversaram demoradamente, fumaram cigarros e partiram quase tão rápido como tinham chegado. Ele retirou o cachecol cor de cereja do pescoço e cheirou-o uma última vez. Partiram cada um para seu lado sob uma chuva intensa. Ele atendeu o telefone sabendo exactamente quais as palavras que deveria utilizar.
Eu, senti a pele húmida, mas isso era perfeitamente natural.

16 janeiro 2009

A vida secreta de uma toupeira III

Acordei com a terra a tremer no meio de um sonho bom. Acordei com uma felicidade inusitada, não sei se do vinho bom que bebi, ou de estar embevecido por uma fonte de luz solar. Lá fora, no lugar da luz encontrei a razão de tamanho reboliço mesmo sobre a minha cabeça - A matança do bicho que por várias vezes me atormentara o rabo e outras tantas vezes quase me ia engolindo vivo.
Não fiquei contente, mas antes perplexo com o sangue quente que jorrava sobre a terra, mesmo ali sobre o lugar que escolhi para adormecer. A humidade quente e doce e o reboliço dos homens foram um espectáculo sem medida. Afastei-me um pouco para observar de longe o movimento desfocado e consertado de tão ardilosa tarefa, de tanto som, de tanta palavra incompreensível, da mestria de saber cumprir uma tarefa com extremado zelo.
O Porco estava morto e a minha felicidade inusitada tinha razão de ser.
A luz subiu no horizonte, momento mágico que não pude acompanhar até ao fim de tanto contentamento que senti sem conseguir ver.

11 janeiro 2009

A vida secreta de uma toupeira II

O carro deslizava livremente sobre o alcatrão estranhamente prateado.
Mantive o olhar na paisagem semi-obscurecida e sobre o branco fascinante da neve pontuado por cinco ou seis focos laranja.
Estava um silêncio intemporal e o meu olhar pregado no horizonte inefável - viajava ao ralenti num silêncio suave, na luz ténue e no Porto doce e amendoado.
Às três da manhã é na noite profunda e solitária que se congeminam os mais ousados rituais e as mais ternas existências. Na névoa, no escuro e no silêncio viajo no mundo dos homens sem que o compreenda perfeitamente.
O carro entretanto continuava a deslizar suave e livre num silêncio mágico.
O meu olhar estava fixo nos focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte estranhamente branco.
O gato preto atravessou a estrada, lento e perturbante e o seu olhar sinistro reflectiu luz no meu olhar igualmente intimidante. O olhar sempre nos dói ou nos fascina, tal como o monte branco assinalado por cinco ou seis focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte.
O homem saiu do carro aturdido, e eu voltei à terra e o escuro apaziguou-me.

14 dezembro 2008

A vida secreta de uma Toupeira I*

Sempre que subia à superfície sorria estranhamente e dizia: vou ver quem anda nas alfaces. Era conhecida no meio pela Alfacinha e já contava no seu currículum com três enterramentos numa clínica privada para doenças mentais.
Os pais abandonaram-na não tinha ainda duas semanas, diz-se que morreram à sacholada, mas são só boatos. Que os pais nunca voltaram isso é uma evidência. Ficou entregue aos cuidados da avó que sempre se esmerou por lhe dar uma boa educação. E assim foi vivendo menina mimada e caprichosa. Nos longos passeios pelos túneis e por vezes quando aflorava à superfície, foi cavando toda uma vida clandestina e particular. Ausentava-se por longos períodos para desassossego da Avó. Muitos diziam que a loucura lhe tinha devolvido o olhar e na superfície chegava até a descodificar a voz humana. Quando voltava, contava estórias impossíveis, de passeios no regato na companhia de um pequeno barco de cortiça com uma vela vermelha feita de trapo. Outras vezes vinha extraordinariamente cansada e agitada dizendo que tinha sido perseguida por um animal de grande porte que lhe dava dentadas no rabo. A avó sorria carinhosamente para ela conformada e a acenar ligeiramente a cabeça num gesto de aprovação.
No dia em que fez 2 anos ausentou-se iniciando uma aventura de vários dias para desassossego da Avó. Caminhou para a porta. Antes de fechar lançou um último olhar à casa e colocou os seus olhos nos olhos tristes da Avó. Estava decidida a procurar, a aventurar-se no mundo dos homens, a compreender o mundo da luz, acreditando firmemente que a loucura que lhe imputavam era tão só, simples ignorância daqueles que desde sempre viveram na sombra.

*Esta história nasceu a 1 de Junho de 2005, tendo ficado enterrada até este preciso momento em que resolvi contar na sua totalidade a vida deste estranho ser vindo da sombra. Capítulo a capítulo todo o mistério será desvendado. Os seres da sombra estão bem perto, quase sempre debaixo dos nossos pés.

Elephant










é muito curioso colocar adolescentes, de 17 ou 18 anos, a aborrecer-se com filmes como Elephant de Gus Van Sant. Os putos gostam de realidade mas evitam a todo custo a dor que ela comporta.

De qualquer maneira fiquei seguro de que esta crueza não lhes é indiferente. Espero que tenha deixado marca.

05 dezembro 2008

Dakota Suite



dakota suite - morning lake forever - dakota suite

voz off

É necessário que fiquemos, ainda que temporariamente, sem uma determinada coisa, para que lhe demos a sua real importância.
Perdi a voz...
mais que perder a voz perdi a capacidade de dar uma forte gargalhada. Aliás, rir pode tornar-se um verdadeiro tormento quando temos as cordas vocais estragadas.
Perder a voz pode ter mais ou menos importância no desempenho das diferentes profissões, pode ter mais ou menos importância na nossa vida social. Mas rir, sorrir , gargalhar ou chorar são manifestações sem as quais pode tornar-se verdadeiramente penoso viver. Viver sério, sorrir com as maças do rosto, chorar apenas lágrimas, não ser capaz de gritar, berrar, contestar veementemente, chamar o cão, berrar ao amigo que vai do outro lado da rua e não nos viu, elevar a voz... enfim, voz off, porra.

14 novembro 2008

Nunca ninguém se torna mestre num domínio em que não conheceu a impotência, e, quem aceita esta ideia, saberá também que tal impotência não se encontra nem no começo nem antes do esforço empreendido, mas sim no seu centro.
Walter Benjamim

12 novembro 2008

pelo olhar

Estou todos os dias mais confiante na premissa de que é pelo olhar mais do que pelas palavras que as pessoas exprimem a sua verdade e desta forma nos dão a respectiva recompensa relacional.
Olhar, olhar todos os dias, olhar mais e profundamente. É este um dos segredos intemporais.
Este filão pouco valorizado da comunicação dá os resultados mais surpreendentes e fidedignos e aproxima-nos emocionalmente do outro.
Não estará no olhar a verdade, a clareza, a transparência e o carácter...
Para mim está lá tudo, bem no fundo da pupila.

Ovos pelo ar

Acredito profundamente nas ideias e na inteligência humana.
Não coloco a origem de todos os problemas actuais da educação numa pessoa, mas numa equipa alargada a que chamamos governo.
Não acredito que atirar ovos a quem quer que seja resolva problemas.
Embora não sabendo exactamente quem foram os energúmenos que o fizeram lá para os lados de Fafe, penso que seria interessante que os sindicatos e forças da oposição a este governo dissessem alguma coisa acerca desta postura intolerável que de alguma forma mancha o que de nobre existe na luta dos professores, que aliás, deveriam veementemente demarcar-se de posições desta natureza.
Eu já me demarquei aqui.

09 novembro 2008

O colectivo e Eu

Hoje ouvi dois discursos políticos e não entendi uma única palavra, como se de repente não compreendesse a linguagem que falavam.
Ontem, subi do Terreiro do Paço até ao Marquês em silêncio para sentir demasiadas coisas quando efectivamente se fez um minuto de silêncio.
Interroguei-me sobre o que estava a li a fazer, interroguei-me se vale a pena este percurso que levo vai para 12 anos.
Dei-me conta que tinha 40 anos e não estava absolutamente confiante na minha missão, se é que algum dia a tive. Olhei em volta, olhei sempre em volta à procura de algo que me desse uma resposta conclusiva, como se estas existissem.
Vi colegas de profissão convictos da sua luta, empunhando cartazes, levantando a voz, confiantes de que quem decide somos nós... admirei-os.
Eu por mim... continuo à procura de um lugar em que construindo-me como ser humano, possa efectivamente ajudar os outros a construírem-se a si próprios.
Continuo à procura.

07 novembro 2008

Imogen Heap e o vinho bom



Esta rapariga deixa-me mesmo com vontade de beber um bom vinho. Aí estão duas coisas sem as quais talvez não conseguisse viver.
Um americano dos bons (Gary Vaynerchuk) a falar de vinho também é uma excelente ajuda:
http://tv.winelibrary.com/

O banho matinal

Tenho para mim que o banho matinal é um espaço de reflexão por excelência. Uns cantam, alguns sussurram maldição para o mundo que os faz acordar tão cedo, outros masturbam-se...
...Eu penso. Este acontecimento é tão mais pungente, quanto menos horas tenha dormido, daí que é para mim um grande incremento aos meus sentidos e filosofias pessoais dormir poucas horas, e contra todas as recomendações médicas, praticar com grande regularidade o acto de apenas dormitar, para que assim possa permitir-me ter grandes ideias sobre o mundo de uma maneira geral e sobre as coisas que me rodeiam em particular.
Foi numa destas manhãs que se me afunilou o pensamento para a concepção maquiavélica de ensino da actual equipa ministerial, impulsionada pelo Pinto de Sousa, que é o nome que, carinhosamente, um querido amigo chama ao dito, por não ser digno do bom nome de um dos grandes pensadores da humanidade.
Concluí pois então, que as principais medidas para melhorar o sistema de ensino em Portugal nos últimos quatro anos foram:
- Mexer na carteira dos professores, congelando os salários e as progressões na carreira durante uns anos;
- Atacar a dignidade dos professores, colocando os portugueses a pensar, que eram estes os grandes culpados dos graves problemas educacionais do país;
- Melhorar a qualidade de ensino fornecendo computadores aos alunos e professores a baixo preço e forjando provas de avaliação nacionais que permitissem melhorar os resultados gerais dos alunos em termos estatísticos;
- Burocratizar de tal maneira o processo de avaliação, que qualquer professor decente se vê condenado a preencher grelhas kafkianas, que no final apenas servem para acabar de vez com a floresta em portugal.

Como sou um daqueles professores que dormem pouco para fomentar o pensamento no banhinho matinal, tenho algumas ideias para melhorar a qualidade do ensino, que embora não sendo novas nunca é demais repetir:
- Colocar os melhores cérebros apolitizados portugueses (sempre na presenção de quem efectivamente está no terreno) a reformular completamente os currículos de ensino, adaptando-os às circunstâncias do nosso tempo;
- Reduzir o número de alunos por turma, permitindo que um ensino mais experimental e menos formatado possa ser colocado em prática;
- Reforçar a autoridade dos professores agilizando todos os processos decorrentes de condutas desviantes;
- Melhorar gradualmente as condições de trabalho nas escolas, fomentando a possibilidade de os professores lá trabalharem em horas não lectivas, libertando-os do trabalho que todos os dias levam para casa;
- Criar um sistema de avaliação não burocratizado que distinga simultaneamente o mérito e seja igualmente formativo, corrigindo eventuais lacunas no desempenho dos profissionais de educação.

Dito isto, Eu, Professor que sempre se dedicou a fazer o melhor que sabe, amanhã, vou estar em Lisboa na Manif e se as coisas correrem bem vou gritar tão alto quanto possível - "estou farto desta merda!"