11 janeiro 2009

A vida secreta de uma toupeira II

O carro deslizava livremente sobre o alcatrão estranhamente prateado.
Mantive o olhar na paisagem semi-obscurecida e sobre o branco fascinante da neve pontuado por cinco ou seis focos laranja.
Estava um silêncio intemporal e o meu olhar pregado no horizonte inefável - viajava ao ralenti num silêncio suave, na luz ténue e no Porto doce e amendoado.
Às três da manhã é na noite profunda e solitária que se congeminam os mais ousados rituais e as mais ternas existências. Na névoa, no escuro e no silêncio viajo no mundo dos homens sem que o compreenda perfeitamente.
O carro entretanto continuava a deslizar suave e livre num silêncio mágico.
O meu olhar estava fixo nos focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte estranhamente branco.
O gato preto atravessou a estrada, lento e perturbante e o seu olhar sinistro reflectiu luz no meu olhar igualmente intimidante. O olhar sempre nos dói ou nos fascina, tal como o monte branco assinalado por cinco ou seis focos de luz laranja perfeitamente alinhados do outro lado do monte.
O homem saiu do carro aturdido, e eu voltei à terra e o escuro apaziguou-me.

14 dezembro 2008

A vida secreta de uma Toupeira I*

Sempre que subia à superfície sorria estranhamente e dizia: vou ver quem anda nas alfaces. Era conhecida no meio pela Alfacinha e já contava no seu currículum com três enterramentos numa clínica privada para doenças mentais.
Os pais abandonaram-na não tinha ainda duas semanas, diz-se que morreram à sacholada, mas são só boatos. Que os pais nunca voltaram isso é uma evidência. Ficou entregue aos cuidados da avó que sempre se esmerou por lhe dar uma boa educação. E assim foi vivendo menina mimada e caprichosa. Nos longos passeios pelos túneis e por vezes quando aflorava à superfície, foi cavando toda uma vida clandestina e particular. Ausentava-se por longos períodos para desassossego da Avó. Muitos diziam que a loucura lhe tinha devolvido o olhar e na superfície chegava até a descodificar a voz humana. Quando voltava, contava estórias impossíveis, de passeios no regato na companhia de um pequeno barco de cortiça com uma vela vermelha feita de trapo. Outras vezes vinha extraordinariamente cansada e agitada dizendo que tinha sido perseguida por um animal de grande porte que lhe dava dentadas no rabo. A avó sorria carinhosamente para ela conformada e a acenar ligeiramente a cabeça num gesto de aprovação.
No dia em que fez 2 anos ausentou-se iniciando uma aventura de vários dias para desassossego da Avó. Caminhou para a porta. Antes de fechar lançou um último olhar à casa e colocou os seus olhos nos olhos tristes da Avó. Estava decidida a procurar, a aventurar-se no mundo dos homens, a compreender o mundo da luz, acreditando firmemente que a loucura que lhe imputavam era tão só, simples ignorância daqueles que desde sempre viveram na sombra.

*Esta história nasceu a 1 de Junho de 2005, tendo ficado enterrada até este preciso momento em que resolvi contar na sua totalidade a vida deste estranho ser vindo da sombra. Capítulo a capítulo todo o mistério será desvendado. Os seres da sombra estão bem perto, quase sempre debaixo dos nossos pés.

Elephant










é muito curioso colocar adolescentes, de 17 ou 18 anos, a aborrecer-se com filmes como Elephant de Gus Van Sant. Os putos gostam de realidade mas evitam a todo custo a dor que ela comporta.

De qualquer maneira fiquei seguro de que esta crueza não lhes é indiferente. Espero que tenha deixado marca.

05 dezembro 2008

Dakota Suite



dakota suite - morning lake forever - dakota suite

voz off

É necessário que fiquemos, ainda que temporariamente, sem uma determinada coisa, para que lhe demos a sua real importância.
Perdi a voz...
mais que perder a voz perdi a capacidade de dar uma forte gargalhada. Aliás, rir pode tornar-se um verdadeiro tormento quando temos as cordas vocais estragadas.
Perder a voz pode ter mais ou menos importância no desempenho das diferentes profissões, pode ter mais ou menos importância na nossa vida social. Mas rir, sorrir , gargalhar ou chorar são manifestações sem as quais pode tornar-se verdadeiramente penoso viver. Viver sério, sorrir com as maças do rosto, chorar apenas lágrimas, não ser capaz de gritar, berrar, contestar veementemente, chamar o cão, berrar ao amigo que vai do outro lado da rua e não nos viu, elevar a voz... enfim, voz off, porra.

14 novembro 2008

Nunca ninguém se torna mestre num domínio em que não conheceu a impotência, e, quem aceita esta ideia, saberá também que tal impotência não se encontra nem no começo nem antes do esforço empreendido, mas sim no seu centro.
Walter Benjamim

12 novembro 2008

pelo olhar

Estou todos os dias mais confiante na premissa de que é pelo olhar mais do que pelas palavras que as pessoas exprimem a sua verdade e desta forma nos dão a respectiva recompensa relacional.
Olhar, olhar todos os dias, olhar mais e profundamente. É este um dos segredos intemporais.
Este filão pouco valorizado da comunicação dá os resultados mais surpreendentes e fidedignos e aproxima-nos emocionalmente do outro.
Não estará no olhar a verdade, a clareza, a transparência e o carácter...
Para mim está lá tudo, bem no fundo da pupila.

Ovos pelo ar

Acredito profundamente nas ideias e na inteligência humana.
Não coloco a origem de todos os problemas actuais da educação numa pessoa, mas numa equipa alargada a que chamamos governo.
Não acredito que atirar ovos a quem quer que seja resolva problemas.
Embora não sabendo exactamente quem foram os energúmenos que o fizeram lá para os lados de Fafe, penso que seria interessante que os sindicatos e forças da oposição a este governo dissessem alguma coisa acerca desta postura intolerável que de alguma forma mancha o que de nobre existe na luta dos professores, que aliás, deveriam veementemente demarcar-se de posições desta natureza.
Eu já me demarquei aqui.

09 novembro 2008

O colectivo e Eu

Hoje ouvi dois discursos políticos e não entendi uma única palavra, como se de repente não compreendesse a linguagem que falavam.
Ontem, subi do Terreiro do Paço até ao Marquês em silêncio para sentir demasiadas coisas quando efectivamente se fez um minuto de silêncio.
Interroguei-me sobre o que estava a li a fazer, interroguei-me se vale a pena este percurso que levo vai para 12 anos.
Dei-me conta que tinha 40 anos e não estava absolutamente confiante na minha missão, se é que algum dia a tive. Olhei em volta, olhei sempre em volta à procura de algo que me desse uma resposta conclusiva, como se estas existissem.
Vi colegas de profissão convictos da sua luta, empunhando cartazes, levantando a voz, confiantes de que quem decide somos nós... admirei-os.
Eu por mim... continuo à procura de um lugar em que construindo-me como ser humano, possa efectivamente ajudar os outros a construírem-se a si próprios.
Continuo à procura.

07 novembro 2008

Imogen Heap e o vinho bom



Esta rapariga deixa-me mesmo com vontade de beber um bom vinho. Aí estão duas coisas sem as quais talvez não conseguisse viver.
Um americano dos bons (Gary Vaynerchuk) a falar de vinho também é uma excelente ajuda:
http://tv.winelibrary.com/

O banho matinal

Tenho para mim que o banho matinal é um espaço de reflexão por excelência. Uns cantam, alguns sussurram maldição para o mundo que os faz acordar tão cedo, outros masturbam-se...
...Eu penso. Este acontecimento é tão mais pungente, quanto menos horas tenha dormido, daí que é para mim um grande incremento aos meus sentidos e filosofias pessoais dormir poucas horas, e contra todas as recomendações médicas, praticar com grande regularidade o acto de apenas dormitar, para que assim possa permitir-me ter grandes ideias sobre o mundo de uma maneira geral e sobre as coisas que me rodeiam em particular.
Foi numa destas manhãs que se me afunilou o pensamento para a concepção maquiavélica de ensino da actual equipa ministerial, impulsionada pelo Pinto de Sousa, que é o nome que, carinhosamente, um querido amigo chama ao dito, por não ser digno do bom nome de um dos grandes pensadores da humanidade.
Concluí pois então, que as principais medidas para melhorar o sistema de ensino em Portugal nos últimos quatro anos foram:
- Mexer na carteira dos professores, congelando os salários e as progressões na carreira durante uns anos;
- Atacar a dignidade dos professores, colocando os portugueses a pensar, que eram estes os grandes culpados dos graves problemas educacionais do país;
- Melhorar a qualidade de ensino fornecendo computadores aos alunos e professores a baixo preço e forjando provas de avaliação nacionais que permitissem melhorar os resultados gerais dos alunos em termos estatísticos;
- Burocratizar de tal maneira o processo de avaliação, que qualquer professor decente se vê condenado a preencher grelhas kafkianas, que no final apenas servem para acabar de vez com a floresta em portugal.

Como sou um daqueles professores que dormem pouco para fomentar o pensamento no banhinho matinal, tenho algumas ideias para melhorar a qualidade do ensino, que embora não sendo novas nunca é demais repetir:
- Colocar os melhores cérebros apolitizados portugueses (sempre na presenção de quem efectivamente está no terreno) a reformular completamente os currículos de ensino, adaptando-os às circunstâncias do nosso tempo;
- Reduzir o número de alunos por turma, permitindo que um ensino mais experimental e menos formatado possa ser colocado em prática;
- Reforçar a autoridade dos professores agilizando todos os processos decorrentes de condutas desviantes;
- Melhorar gradualmente as condições de trabalho nas escolas, fomentando a possibilidade de os professores lá trabalharem em horas não lectivas, libertando-os do trabalho que todos os dias levam para casa;
- Criar um sistema de avaliação não burocratizado que distinga simultaneamente o mérito e seja igualmente formativo, corrigindo eventuais lacunas no desempenho dos profissionais de educação.

Dito isto, Eu, Professor que sempre se dedicou a fazer o melhor que sabe, amanhã, vou estar em Lisboa na Manif e se as coisas correrem bem vou gritar tão alto quanto possível - "estou farto desta merda!"

17 outubro 2008

O peso e a leveza*

Coisas bem simples, como olhar à nossa volta e ser livre em tudo, constituem seguramente momentos de grande humanidade que nos podem reconciliar com as coisas do mundo.
Gostar do preto, do azul, do verde, do branco e do amarelo dá-nos um sentido de pertença a essa coisa grande que é ser Homem, ser inteligente e construtor intemporal de realidades.
Olhar para o mundo de forma alargada e sem limitações de qualquer espécie é viver 100 anos todos os dias. Não excluir nada nem ninguém é aproximarmo-nos de tudo, é a quinta-essência
de estar vivo.

Por isso vou ficando triste com muitas coisas que se passam à minha volta - a ignorância, a visão única e o desrespeito pelo outro e pelo seu direito a ser diferente.

Vem isto a propósito do peso que vejo todos os dias na vida de muitas pessoas que parecem encarar a realidade com uma visão direccional - A queixa e o desconforto permanente, a pouca intensidade e abertura com que vêm o mundo, a visão muito parcial da realidade.
Vejo todos os dias pessoas a ter opinião sobre tudo e sobre todos sem se dar conta que o que existe de importante está em nós e não no outro.
O mundo esquece-se que existem múltiplas formas de entender a realidade, muitas formas de viver a vida, tantas formas de comunicação aparentemente incompatíveis.
A verdade não existe em nós, a verdade somos nós em relação com os outros.
Nós construímos-nos em visões alargadas, na tolerância, nas visões alternativas e relativas.
Nós morremos um pouco se formos parciais e tivermos visões de sentido único.
Viver é um momento único e a inteligência é uma faculdade fantástica.

Se tivermos uma mão cheia de areia veremos que quanto mais suavemente a agarrarmos mais probabilidade temos de ficar com ela na mão. Se a apertarmos se a quisermos toda para nós mais rapidamente veremos a mão cheia de nada. Esta extraordinária metáfora deveria permitir que as pessoas do mundo compreendessem que o Homem não necessita de regras, de moral ou de qualquer outro aprisionamento. O que o Homem necessita é de liberdade, de liberdade total.
Se formos capazes de ser livres provavelmente seremos capazes de ser felizes.

* A ideia para o título deste post foi roubada a Milan Kundera, o conceito, mais ou menos consensual, terá sido roubado ao Paulo Coelho, que nunca li e espero nunca vir a ler.

16 outubro 2008

avaliação alternativa

Por uma ou outra razão lá se vai percebendo que o autor deste blogue é professor e como tal, um indivíduo passível de ser "criteriosamente" avaliado pelos seus pares.
Sendo daquele tipo de pessoas que gosta de dar importância àquilo que tem importância e ignorar até ao limite todas as outras coisas, tenho estado até ao momento completamente "a leste" deste assunto menor que é a avaliação de professores. Não fosse a minha querida colega Teresa a pôr-me ao corrente desta loucura e eu neste momento ainda vivia como se fosse o ano lectivo 2007-2008. Disse até ao momento, porque hoje, iniciei a leitura de várias instrumentos existentes na net que se destinam a orientar os professores na ardilosa tarefa de estabelecerem aquilo que um professor sempre teve obrigação de fazer, ou seja, fazer o melhor que sabe. Como estou entre aqueles que nos doze anos de vida como professor, sempre fez o melhor que foi capaz, achei por bem copiar muitas das boas ideias que altruisticamente muitos colegas colocaram na net e vejo-me assim a fazer aquilo que um bom professor sempre critica nos seus alunos - fazer copy paste. Não o faço porque não seja capaz de estabelecer os meus objectivos, mas porque simplesmente não tenho tempo nem pachorra para esta estupidez.
Como professor que leva a sério a sua profissão e que está ciente da grande importância e influência que pode ter na vida dos alunos, ocupo parte do meu tempo a preparar apelativos power points, escolher as sequências cinematográficas mais significativas, os textos mais ousados e significativos, para que os meus alunos continuem a assistir às minhas aulas sentindo que o "stor" meio alienado, que mete umas asneiras no discurso e está francamente a cagar nos telemóveis que tocam, até é um tipo "porreiro" e como sabe umas coisas da matéria, é naturalmente uma boa influência nas suas vidas.

21 setembro 2008

momentos

Viajar pode ser um impulso individual forte e construtivo, e igualmente agressivo e inspirador do desconforto que nos faz confrontar de forma intempestiva com nós mesmos e com os outros. 

As viagens colocam na nossa memória uma infinidade de lugares difusos e algumas vezes significativos que as fotografias enquadram, sintetizam e acabam por fixar para sempre. 

Estes momentos/lugares são informados pela cultura em que estão inseridos, mas são enquanto enquadramento fotográfico suficientemente abstractos para poderem ocorrer em diferentes lugares do mundo.

Eis alguns desses momentos/lugares vividos e fixados pelo vitor pela carla e por mim.