07 novembro 2008

Imogen Heap e o vinho bom



Esta rapariga deixa-me mesmo com vontade de beber um bom vinho. Aí estão duas coisas sem as quais talvez não conseguisse viver.
Um americano dos bons (Gary Vaynerchuk) a falar de vinho também é uma excelente ajuda:
http://tv.winelibrary.com/

O banho matinal

Tenho para mim que o banho matinal é um espaço de reflexão por excelência. Uns cantam, alguns sussurram maldição para o mundo que os faz acordar tão cedo, outros masturbam-se...
...Eu penso. Este acontecimento é tão mais pungente, quanto menos horas tenha dormido, daí que é para mim um grande incremento aos meus sentidos e filosofias pessoais dormir poucas horas, e contra todas as recomendações médicas, praticar com grande regularidade o acto de apenas dormitar, para que assim possa permitir-me ter grandes ideias sobre o mundo de uma maneira geral e sobre as coisas que me rodeiam em particular.
Foi numa destas manhãs que se me afunilou o pensamento para a concepção maquiavélica de ensino da actual equipa ministerial, impulsionada pelo Pinto de Sousa, que é o nome que, carinhosamente, um querido amigo chama ao dito, por não ser digno do bom nome de um dos grandes pensadores da humanidade.
Concluí pois então, que as principais medidas para melhorar o sistema de ensino em Portugal nos últimos quatro anos foram:
- Mexer na carteira dos professores, congelando os salários e as progressões na carreira durante uns anos;
- Atacar a dignidade dos professores, colocando os portugueses a pensar, que eram estes os grandes culpados dos graves problemas educacionais do país;
- Melhorar a qualidade de ensino fornecendo computadores aos alunos e professores a baixo preço e forjando provas de avaliação nacionais que permitissem melhorar os resultados gerais dos alunos em termos estatísticos;
- Burocratizar de tal maneira o processo de avaliação, que qualquer professor decente se vê condenado a preencher grelhas kafkianas, que no final apenas servem para acabar de vez com a floresta em portugal.

Como sou um daqueles professores que dormem pouco para fomentar o pensamento no banhinho matinal, tenho algumas ideias para melhorar a qualidade do ensino, que embora não sendo novas nunca é demais repetir:
- Colocar os melhores cérebros apolitizados portugueses (sempre na presenção de quem efectivamente está no terreno) a reformular completamente os currículos de ensino, adaptando-os às circunstâncias do nosso tempo;
- Reduzir o número de alunos por turma, permitindo que um ensino mais experimental e menos formatado possa ser colocado em prática;
- Reforçar a autoridade dos professores agilizando todos os processos decorrentes de condutas desviantes;
- Melhorar gradualmente as condições de trabalho nas escolas, fomentando a possibilidade de os professores lá trabalharem em horas não lectivas, libertando-os do trabalho que todos os dias levam para casa;
- Criar um sistema de avaliação não burocratizado que distinga simultaneamente o mérito e seja igualmente formativo, corrigindo eventuais lacunas no desempenho dos profissionais de educação.

Dito isto, Eu, Professor que sempre se dedicou a fazer o melhor que sabe, amanhã, vou estar em Lisboa na Manif e se as coisas correrem bem vou gritar tão alto quanto possível - "estou farto desta merda!"

17 outubro 2008

O peso e a leveza*

Coisas bem simples, como olhar à nossa volta e ser livre em tudo, constituem seguramente momentos de grande humanidade que nos podem reconciliar com as coisas do mundo.
Gostar do preto, do azul, do verde, do branco e do amarelo dá-nos um sentido de pertença a essa coisa grande que é ser Homem, ser inteligente e construtor intemporal de realidades.
Olhar para o mundo de forma alargada e sem limitações de qualquer espécie é viver 100 anos todos os dias. Não excluir nada nem ninguém é aproximarmo-nos de tudo, é a quinta-essência
de estar vivo.

Por isso vou ficando triste com muitas coisas que se passam à minha volta - a ignorância, a visão única e o desrespeito pelo outro e pelo seu direito a ser diferente.

Vem isto a propósito do peso que vejo todos os dias na vida de muitas pessoas que parecem encarar a realidade com uma visão direccional - A queixa e o desconforto permanente, a pouca intensidade e abertura com que vêm o mundo, a visão muito parcial da realidade.
Vejo todos os dias pessoas a ter opinião sobre tudo e sobre todos sem se dar conta que o que existe de importante está em nós e não no outro.
O mundo esquece-se que existem múltiplas formas de entender a realidade, muitas formas de viver a vida, tantas formas de comunicação aparentemente incompatíveis.
A verdade não existe em nós, a verdade somos nós em relação com os outros.
Nós construímos-nos em visões alargadas, na tolerância, nas visões alternativas e relativas.
Nós morremos um pouco se formos parciais e tivermos visões de sentido único.
Viver é um momento único e a inteligência é uma faculdade fantástica.

Se tivermos uma mão cheia de areia veremos que quanto mais suavemente a agarrarmos mais probabilidade temos de ficar com ela na mão. Se a apertarmos se a quisermos toda para nós mais rapidamente veremos a mão cheia de nada. Esta extraordinária metáfora deveria permitir que as pessoas do mundo compreendessem que o Homem não necessita de regras, de moral ou de qualquer outro aprisionamento. O que o Homem necessita é de liberdade, de liberdade total.
Se formos capazes de ser livres provavelmente seremos capazes de ser felizes.

* A ideia para o título deste post foi roubada a Milan Kundera, o conceito, mais ou menos consensual, terá sido roubado ao Paulo Coelho, que nunca li e espero nunca vir a ler.

16 outubro 2008

avaliação alternativa

Por uma ou outra razão lá se vai percebendo que o autor deste blogue é professor e como tal, um indivíduo passível de ser "criteriosamente" avaliado pelos seus pares.
Sendo daquele tipo de pessoas que gosta de dar importância àquilo que tem importância e ignorar até ao limite todas as outras coisas, tenho estado até ao momento completamente "a leste" deste assunto menor que é a avaliação de professores. Não fosse a minha querida colega Teresa a pôr-me ao corrente desta loucura e eu neste momento ainda vivia como se fosse o ano lectivo 2007-2008. Disse até ao momento, porque hoje, iniciei a leitura de várias instrumentos existentes na net que se destinam a orientar os professores na ardilosa tarefa de estabelecerem aquilo que um professor sempre teve obrigação de fazer, ou seja, fazer o melhor que sabe. Como estou entre aqueles que nos doze anos de vida como professor, sempre fez o melhor que foi capaz, achei por bem copiar muitas das boas ideias que altruisticamente muitos colegas colocaram na net e vejo-me assim a fazer aquilo que um bom professor sempre critica nos seus alunos - fazer copy paste. Não o faço porque não seja capaz de estabelecer os meus objectivos, mas porque simplesmente não tenho tempo nem pachorra para esta estupidez.
Como professor que leva a sério a sua profissão e que está ciente da grande importância e influência que pode ter na vida dos alunos, ocupo parte do meu tempo a preparar apelativos power points, escolher as sequências cinematográficas mais significativas, os textos mais ousados e significativos, para que os meus alunos continuem a assistir às minhas aulas sentindo que o "stor" meio alienado, que mete umas asneiras no discurso e está francamente a cagar nos telemóveis que tocam, até é um tipo "porreiro" e como sabe umas coisas da matéria, é naturalmente uma boa influência nas suas vidas.

21 setembro 2008

momentos

Viajar pode ser um impulso individual forte e construtivo, e igualmente agressivo e inspirador do desconforto que nos faz confrontar de forma intempestiva com nós mesmos e com os outros. 

As viagens colocam na nossa memória uma infinidade de lugares difusos e algumas vezes significativos que as fotografias enquadram, sintetizam e acabam por fixar para sempre. 

Estes momentos/lugares são informados pela cultura em que estão inseridos, mas são enquanto enquadramento fotográfico suficientemente abstractos para poderem ocorrer em diferentes lugares do mundo.

Eis alguns desses momentos/lugares vividos e fixados pelo vitor pela carla e por mim.












O Homem Lento

O Homem Lento do Novel sul-africano da Literatura J. M. Coetzee.  
"A pancada atinge-o do lado direito, violenta, surpreendente e dolorosa, como uma faísca eléctrica, projectando-o da bicicleta."
Assim inicia a surpreendente história de um fotógrafo na casa dos 60 anos existencialmente solitário que de um momento para o outro se torna num ser frágil e dependente dos outros.
Uma história pungente que fala do envelhecimento e das ambiguidades, dualidades e fragilidades humanas. 

04 agosto 2008

património

Um livro autobiográfico.

O sentido da vida, as relações familiares e a morte dos que são próximos.

Phillip Roth no seu melhor: reflexivo, intenso e emocional.

02 agosto 2008

ir...

Nunca espero muito de uma viagem a um lugar apenas conhecido por aquilo que nos disseram ou lemos acerca dele.
Nunca me deixo impressionar à priori pela qualidade da sua cultura, do seu património, pelas suas gentes ou pela sua gastronomia.
Nunca espero muito de uma viagem.
Fico apenas aberto à novidade e planeio apenas o indispensável.
Vou solto e com a liberdade possível, baseada na hora de partida e o dia de volta a casa.
Depois fico à espera que aquilo que já é também uma outra viagem se reflicta nos dias que passam e potenciem novas viagens.

30 maio 2008

Confissões do Homem e da Máscara

Todos temos um segredo, todos usamos uma máscara.

Se em algum lugar me sinto seguro, se algum lugar faz jus àquilo que sou, esse lugar poderia ser classificado - Freud chamar-lhe-ia, inquietante estranheza (Unheimlich).

Não, não me revejo em questões políticas, não me revejo nas leis, não gosto de futebol e não tenho um olhar consensual do mundo - para além disso pareço ter sido talhado para um excesso de qualquer coisa, talhado para a densidade emocional, para o aprisionamento das palavras ditas. Assim, por força das circunstâncias, tenho naturalmente aquele ar esgrouviado do inadaptado e um certo desaprumo para as coisas próprias da maior parte dos homens. Eu, nasci amputado para a realidade, cumprindo-a, no entanto, com extremado zelo.

Acordo de manhã com o longo dia já decidido, numa extensa lista de afazeres que guardo religiosamente na carteira e que vou riscando à medida que os cumpro. Olho para o mundo segundo o prisma fixo de ter que cumprir o que me propus. Vivo desta angústia de ter e de querer cumprir aquilo que todas as noites estabeleço para o dia seguinte. Vivo escravo deste desejo insólito de evitar falhar. Mas falho, falho rotundamente todos os dias sem excepção, fruto desta ânsia, deste destempero emocional que dia após dia, ano após ano me leva para o nada, para um certo vazio próprio das casas desabitadas. Vivo para tão pouco, que repetidamente me vou dando conta de que não vivo realmente, mas apenas sobrevivo às intempestivas investidas da realidade. Esta realidade que me destrói por dentro, que me escraviza todos os dias e tanto que chega a doer. Sim, a doer, a doer no corpo e em tudo.

Estabeleci uma série de procedimentos regulamentares para viver, estabeleci os filtros mais ousados e as máscaras mais subtis. Escuso-me a pensar que as coisas poderiam ser diferentes, sabendo claramente que o poderiam ser. Para já vou crendo em todas as listas de afazeres que religiosamente cumpro, para me sentir intacto e invencível, para me sentir a fazer parte das coisas próprias do mundo, a querer que ninguém me possa acusar, que ninguém me possa apontar o dedo. Eu não falho para fora, mas falho todos os dias desmesuradamente para dentro.

Esta ambivalência que me destrói, ajuda por outro lado a construir o ser ignaro em que os anos me transformaram. A metamorfosear-me no rato de laboratório da experiência que criei para mim mesmo – na armadilha intemporal.

Tenho um desejo profundo de liberdade que não consigo exprimir. Quero recusar as raízes, mas ainda não sei como se constrói esse paradigma. Penso um dia abandonar tudo e voltar a África para me reencontrar nos sentidos – a terra vermelha, o rugir do Leopardo, os odores adocicados ou acres e o incrível sabor do jindungo. Procuro alguma sanidade na lonjura mas de momento mais não faço que viver na dualidade pouco saudável de estar com um pé na estúpida realidade e outro pé na descrença absoluta de que posso mudar. Sim mudar, reformular o curso das coisas que parecem certas. Afrontar tudo.

Hoje parece-me um dia longo, é um daqueles dias em que o olhar se plasma e deixa fascinar pela realidade, pelas estrelas que avançam para sul junto com os aviões nocturnos. Hoje não adormeci por opção para poder absorver a realidade em toda a sua potência. Hoje procurei superar-me e contrariar para sempre o curso da realidade (da minha). Hoje tomei o pulso ao mundo e decidi sair, decidi dar a cara. Hoje não foi um dia como os outros, hoje caiu uma máscara no preciso momento em que me pareceu ter tomado uma decisão acertada.

27 maio 2008

'Quando nada mais tens, constrói cerimónias a partir do nada e dá-lhes vida com o teu sopro'.

em Palhaço Voador, citação de "A Estrada" de Cormac McCarthy

12 abril 2008

Pedagogia Pop Reloaded

Já acreditei profundamente nesta mensagem que a seguir se apresenta.
Hoje estou desiludido e perdido como todos aqueles que acreditaram muito numa coisa que vai falhando a cada dia que passa.
Dirão que não sou capaz, dirão que não foi capaz. Talvez...
Só tenho uma certeza... tenho feito o melhor que sei, tenho dado tudo.

09 março 2008

viagens aqui na terra

Um mapa da Europa dobrado sobre a mesa, um isqueiro sem gás, e três ou quatro cigarros mal fumados num cinzeiro imundo testemunhavam segundo ele, uma maneira de estar no mundo - nas suas palavras, eram uma espécie de roteiro oficial da alma, de toda a liberdade do mundo e das coisas fundas em que tinha acreditado pela vida fora. A única verdadeira crença que se lhe conhecia lia-se neste mapa coçado e com imensas rugas, nos esquemas assinalados, nas notas de rodapé de um roteiro que durou anos – o meu mapa existencial, dizia. S. era um tipo quase sóbrio de sorriso manso e pose aristocrata. As calças de ganga coçadas, um certo desalinho no cabelo e uma indisfarçável altivez no olhar faziam-nos pensar na figura do velho aristocrata falido.

Enfim, um ser difuso e apenas reconhecível por tipos de uma certa geração e na qual por força de umas certas vivências eu me incluía. Gostava do seu desmazelo natural, da sua pose e de uma certa intocabilidade que todos lhe associavam. Era daqueles seres que não contam na parametrização comportamental que o nosso tempo parece exigir, ou que para ser mais crítico, de que o nosso tempo padece.

Imaginamo-lo numa sala de paredes humedecidas, talvez com um piano desafinado ao fundo da sala, um papel de parede retro com inúmeras recordações de viagens espalhadas pelas paredes, e claro, umas garrafas de vinho intragável na cave. A casa solarenga e decrépita no meio de vinhedos abandonados, uma entrada frondosa e descuidada, um portão imponente mas irremediavelmente partido e ferrugento, compunham o quadro visual e existencial deste viajante que viveu longos anos na Alemanha, falava fluentemente a língua de Goethe, e que tinha um fabuloso discurso relacional sobre tudo.

Quando olho para trás, vejo-o ainda ensonado às três da tarde, umas olheiras de três noites mal dormidas e um nevoeiro cerrado a envolver todo o espaço. Ouço-o ainda a assobiar a terceira de Brahms sob as laranjeiras molhadas e projectadas no branco difuso de uma tarde fria. Quando olho para trás, sinto com muita força aquela maneira cristalina que ele tinha de olhar o Douro, as suas misérias, mas sobretudo a sua intrínseca beleza. Gostava muito de passear de carro ao fim do dia pelas veredas mais improváveis e ouvir as cenas infantis de Schumann, entre outros clássicos de arrepiar as peles mais encardidas. E depois… aquela forma destemida de ser capaz de falar de tudo, aquela forma de olhar e reflectir o meio envolvente com uma especial acuidade, um olhar muito treinado e relacional que poderia ir da relação existente entre uma certa cor da paisagem e um nú de Schiele, ou sobre a relação entre um certa curva da montanha duriense e os montes vitícolas do Tokay, na Hungria. E depois, uma parte não menos importante dos fim de tarde… parar num restaurante isolado e vazio, pedir o vinho da casa e comer o que sobrou do meio-dia.

Por muitas razões, umas explicáveis e outras talvez não, estou consciente da influência fulcral que exerceu na minha própria forma de olhar as coisas e sobretudo no respeito que ganhei ao processo de conhecimento arvorado em princípios relacionais. Em todas as viagens que acabamos por fazer, fossem reais ou imaginárias, o seu discurso pautava-se sempre pela sua capacidade extraordinária de colocar em relação factos ou visões, por vezes, surpreendentes e outras tantas vezes até improváveis. Terá sido sem dúvida o professor mais sábio que algum dia tive e devo-lhe com toda a certeza, entre outras coisas, um olhar apaixonado por esta terra que habitamos – O Douro Vinhateiro, que não escolhi para nascer, mas que seguramente, para o bem e para o mal, escolhi para viver.

03 março 2008

via ctt

Por força do progresso e do mundo tecnológico, que nos dias que correm são conceitos em parceria, foi necessário fumar três cigarros em lugares proibidos para desembainhar esta estória de hábitos e devaneios antigos, pegar numa caneta BIC e a escrever.
Vem a reflexão que se segue a propósito de um e-mail que recebi de um amigo que, por força das suas convicções, gostava de receber religiosamente o carteiro pela manhã. Gostava de receber os bons dias e de lhos retribuir, gostava da expectativa e do nervoso miudinho que sentia quando o via aproximar-se dizendo-lhe – Senhor Vítor, tenho aqui a sua correspondência. Muitas vezes ficava na expectativa louca e sonhadora de receber a carta que mudaria a sua vida, ou como acontecia por vezes, receber uma confidência mais profunda escrita a altas horas e colocada pelo remetente no correio logo pela manhã.
No e-mail que o meu amigo me enviou e onde recusava solenemente uma inscrição na ViaCTT, adivinhei-lhe a tristeza e a frustração de o carteiro já não aparecer tantas vezes e, de outras tantas, já nem ter tempo para o receber. Também ele se habituou, resignado, às virtudes do progresso e foi-se contentando em receber envelopes timbrados do cetelem, uma ou outra conta da electricidade ou do telefone. Todo o mundo, e até os bons amigos, se tinham rendido ao e-mail. Ele próprio ia escrevendo as suas mensagens telegráficas num português descuidado e sem alma, no seu HP de última geração. O que é evidente é que lhe faltava o cheiro a papel, o doce deslizar da faca pelo envelope, para depois se deliciar com as notícias que vindas de onde viessem constituíam para si sempre uma surpresa.
Hoje, olhava os monitores com idêntico entusiasmo e regularidade, mas sem a intensidade e sem a surpresa de outrora. O Gmail, que ele claramente assumia ser uma grande invenção, ia a pouco e pouco esventrando-lhe a alma e afastando-o da importância que sempre teve para si receber uma carta, daquelas escritas à mão e a cheirar a verdadeiro papel e tinta BIC.
Caro amigo, ainda bem que me alertas, pois sei agora que foi num momento de fraqueza que resolvi inscrever-me na ViaCTT para ganhar um iPod. Logo eu que só ouço música no carro, e de preferência em viagens superiores a 50 Km, logo eu que não suporto auscultadores nos ouvidos, porque acredito que me deformam o jeito de olhar para o mundo. Este olhar deformado, que tanto critico ao mundo, entrou por mim adentro nesta vontade desalmada de ter um iPod inteiramente gratuito. Logo eu que prezo o silêncio e tenho dificuldade em entender as coisas na mais absoluta cacofonia estéreo ou mesmo no mais consensual som surround.
Resolvi redimir-me e escrever-te uma carta, daquelas que ambos gostamos. No final, não poderei deixar de sentir o prazer de lamber o envelope e o selo e oferecer estas palavras como se fossem a coisa mais preciosa.

05 novembro 2007

O peso e a leveza

Entre o choro compulsivo e a grande gargalhada, há uma afinidade electiva, que nos pode levar naturalmente, de um lado ao outro, sem que estejamos a a ter uma qualquer síncope neuronal.
Nos rituais de morte, ambas as acções tem por finalidade expiar a mesma dor, o mesmo desconforto e ajudam-nos a reencontrar a normalidade possível.
De tão viscerais que são, ambas as manifestações podem decorrer em simultâneo, sendo que apenas, a associação naturalmente feita a cada uma delas, ou o medo do que os outros possam pensar de nós, nos leva a conter esta livre e extraordinária ambivalência do sentir.
Como já vão fazendo parte das minhas vivências, experienciar alguns intensos rituais de morte, tenho observado que em muitos momentos as pessoas riem até às lágrimas, soltam grandes gargalhadas, dizem piadas cáusticas, parecem quase felizes. Estas expressões, ao contrário do que se possa pensar, não correspondem a qualquer tipo de leviandade ou falta de decoro - bem pelo contrário, elas existem para nos aliviar do que é pesado e ajudam-nos a reencontrar a leveza espiritual necessária ao equilíbrio emocional. Momentos assim bonitos acontecem por exemplo,
na noite em que se vela o falecido, a altas horas, quando já só estão presentes pessoas chegadas ao falecido; ou, após o funeral, quando o corpo é devolvido à terra e a nossa mente se torna leve flutuante e criativa, que para os crentes, pode ter como paralelo o momento em que a alma do defunto se eleva ao Reino dos Céus.