19 outubro 2008
Não fossem tipos como estes e começo a pensar para que raio necessitamos nós dos EUA
Tom Waits
Devendra Banhart
17 outubro 2008
O peso e a leveza*
Gostar do preto, do azul, do verde, do branco e do amarelo dá-nos um sentido de pertença a essa coisa grande que é ser Homem, ser inteligente e construtor intemporal de realidades.
Olhar para o mundo de forma alargada e sem limitações de qualquer espécie é viver 100 anos todos os dias. Não excluir nada nem ninguém é aproximarmo-nos de tudo, é a quinta-essência
de estar vivo.
Por isso vou ficando triste com muitas coisas que se passam à minha volta - a ignorância, a visão única e o desrespeito pelo outro e pelo seu direito a ser diferente.
Vem isto a propósito do peso que vejo todos os dias na vida de muitas pessoas que parecem encarar a realidade com uma visão direccional - A queixa e o desconforto permanente, a pouca intensidade e abertura com que vêm o mundo, a visão muito parcial da realidade.
Vejo todos os dias pessoas a ter opinião sobre tudo e sobre todos sem se dar conta que o que existe de importante está em nós e não no outro.
O mundo esquece-se que existem múltiplas formas de entender a realidade, muitas formas de viver a vida, tantas formas de comunicação aparentemente incompatíveis.
A verdade não existe em nós, a verdade somos nós em relação com os outros.
Nós construímos-nos em visões alargadas, na tolerância, nas visões alternativas e relativas.
Nós morremos um pouco se formos parciais e tivermos visões de sentido único.
Viver é um momento único e a inteligência é uma faculdade fantástica.
Se tivermos uma mão cheia de areia veremos que quanto mais suavemente a agarrarmos mais probabilidade temos de ficar com ela na mão. Se a apertarmos se a quisermos toda para nós mais rapidamente veremos a mão cheia de nada. Esta extraordinária metáfora deveria permitir que as pessoas do mundo compreendessem que o Homem não necessita de regras, de moral ou de qualquer outro aprisionamento. O que o Homem necessita é de liberdade, de liberdade total.
Se formos capazes de ser livres provavelmente seremos capazes de ser felizes.
* A ideia para o título deste post foi roubada a Milan Kundera, o conceito, mais ou menos consensual, terá sido roubado ao Paulo Coelho, que nunca li e espero nunca vir a ler.
16 outubro 2008
avaliação alternativa
Sendo daquele tipo de pessoas que gosta de dar importância àquilo que tem importância e ignorar até ao limite todas as outras coisas, tenho estado até ao momento completamente "a leste" deste assunto menor que é a avaliação de professores. Não fosse a minha querida colega Teresa a pôr-me ao corrente desta loucura e eu neste momento ainda vivia como se fosse o ano lectivo 2007-2008. Disse até ao momento, porque hoje, iniciei a leitura de várias instrumentos existentes na net que se destinam a orientar os professores na ardilosa tarefa de estabelecerem aquilo que um professor sempre teve obrigação de fazer, ou seja, fazer o melhor que sabe. Como estou entre aqueles que nos doze anos de vida como professor, sempre fez o melhor que foi capaz, achei por bem copiar muitas das boas ideias que altruisticamente muitos colegas colocaram na net e vejo-me assim a fazer aquilo que um bom professor sempre critica nos seus alunos - fazer copy paste. Não o faço porque não seja capaz de estabelecer os meus objectivos, mas porque simplesmente não tenho tempo nem pachorra para esta estupidez.
Como professor que leva a sério a sua profissão e que está ciente da grande importância e influência que pode ter na vida dos alunos, ocupo parte do meu tempo a preparar apelativos power points, escolher as sequências cinematográficas mais significativas, os textos mais ousados e significativos, para que os meus alunos continuem a assistir às minhas aulas sentindo que o "stor" meio alienado, que mete umas asneiras no discurso e está francamente a cagar nos telemóveis que tocam, até é um tipo "porreiro" e como sabe umas coisas da matéria, é naturalmente uma boa influência nas suas vidas.
21 setembro 2008
momentos
O Homem Lento
04 agosto 2008
património
Um livro autobiográfico.
O sentido da vida, as relações familiares e a morte dos que são próximos.
Phillip Roth no seu melhor: reflexivo, intenso e emocional.
02 agosto 2008
ir...
Nunca me deixo impressionar à priori pela qualidade da sua cultura, do seu património, pelas suas gentes ou pela sua gastronomia.
Nunca espero muito de uma viagem.
Fico apenas aberto à novidade e planeio apenas o indispensável.
Vou solto e com a liberdade possível, baseada na hora de partida e o dia de volta a casa.
Depois fico à espera que aquilo que já é também uma outra viagem se reflicta nos dias que passam e potenciem novas viagens.
30 maio 2008
Confissões do Homem e da Máscara
Todos temos um segredo, todos usamos uma máscara.
Se em algum lugar me sinto seguro, se algum lugar faz jus àquilo que sou, esse lugar poderia ser classificado - Freud chamar-lhe-ia, inquietante estranheza (Unheimlich).
Não, não me revejo em questões políticas, não me revejo nas leis, não gosto de futebol e não tenho um olhar consensual do mundo - para além disso pareço ter sido talhado para um excesso de qualquer coisa, talhado para a densidade emocional, para o aprisionamento das palavras ditas. Assim, por força das circunstâncias, tenho naturalmente aquele ar esgrouviado do inadaptado e um certo desaprumo para as coisas próprias da maior parte dos homens. Eu, nasci amputado para a realidade, cumprindo-a, no entanto, com extremado zelo.
Acordo de manhã com o longo dia já decidido, numa extensa lista de afazeres que guardo religiosamente na carteira e que vou riscando à medida que os cumpro. Olho para o mundo segundo o prisma fixo de ter que cumprir o que me propus. Vivo desta angústia de ter e de querer cumprir aquilo que todas as noites estabeleço para o dia seguinte. Vivo escravo deste desejo insólito de evitar falhar. Mas falho, falho rotundamente todos os dias sem excepção, fruto desta ânsia, deste destempero emocional que dia após dia, ano após ano me leva para o nada, para um certo vazio próprio das casas desabitadas. Vivo para tão pouco, que repetidamente me vou dando conta de que não vivo realmente, mas apenas sobrevivo às intempestivas investidas da realidade. Esta realidade que me destrói por dentro, que me escraviza todos os dias e tanto que chega a doer. Sim, a doer, a doer no corpo e em tudo.
Estabeleci uma série de procedimentos regulamentares para viver, estabeleci os filtros mais ousados e as máscaras mais subtis. Escuso-me a pensar que as coisas poderiam ser diferentes, sabendo claramente que o poderiam ser. Para já vou crendo em todas as listas de afazeres que religiosamente cumpro, para me sentir intacto e invencível, para me sentir a fazer parte das coisas próprias do mundo, a querer que ninguém me possa acusar, que ninguém me possa apontar o dedo. Eu não falho para fora, mas falho todos os dias desmesuradamente para dentro.
Esta ambivalência que me destrói, ajuda por outro lado a construir o ser ignaro em que os anos me transformaram. A metamorfosear-me no rato de laboratório da experiência que criei para mim mesmo – na armadilha intemporal.
Tenho um desejo profundo de liberdade que não consigo exprimir. Quero recusar as raízes, mas ainda não sei como se constrói esse paradigma. Penso um dia abandonar tudo e voltar a África para me reencontrar nos sentidos – a terra vermelha, o rugir do Leopardo, os odores adocicados ou acres e o incrível sabor do jindungo. Procuro alguma sanidade na lonjura mas de momento mais não faço que viver na dualidade pouco saudável de estar com um pé na estúpida realidade e outro pé na descrença absoluta de que posso mudar. Sim mudar, reformular o curso das coisas que parecem certas. Afrontar tudo.
Hoje parece-me um dia longo, é um daqueles dias em que o olhar se plasma e deixa fascinar pela realidade, pelas estrelas que avançam para sul junto com os aviões nocturnos. Hoje não adormeci por opção para poder absorver a realidade em toda a sua potência. Hoje procurei superar-me e contrariar para sempre o curso da realidade (da minha). Hoje tomei o pulso ao mundo e decidi sair, decidi dar a cara. Hoje não foi um dia como os outros, hoje caiu uma máscara no preciso momento em que me pareceu ter tomado uma decisão acertada.
27 maio 2008
em Palhaço Voador, citação de "A Estrada" de Cormac McCarthy
12 abril 2008
09 março 2008
viagens aqui na terra
Um mapa da Europa dobrado sobre a mesa, um isqueiro sem gás, e três ou quatro cigarros mal fumados num cinzeiro imundo testemunhavam segundo ele, uma maneira de estar no mundo - nas suas palavras, eram uma espécie de roteiro oficial da alma, de toda a liberdade do mundo e das coisas fundas em que tinha acreditado pela vida fora. A única verdadeira crença que se lhe conhecia lia-se neste mapa coçado e com imensas rugas, nos esquemas assinalados, nas notas de rodapé de um roteiro que durou anos – o meu mapa existencial, dizia. S. era um tipo quase sóbrio de sorriso manso e pose aristocrata. As calças de ganga coçadas, um certo desalinho no cabelo e uma indisfarçável altivez no olhar faziam-nos pensar na figura do velho aristocrata falido.
Imaginamo-lo numa sala de paredes humedecidas, talvez com um piano desafinado ao fundo da sala, um papel de parede retro com inúmeras recordações de viagens espalhadas pelas paredes, e claro, umas garrafas de vinho intragável na cave. A casa solarenga e decrépita no meio de vinhedos abandonados, uma entrada frondosa e descuidada, um portão imponente mas irremediavelmente partido e ferrugento, compunham o quadro visual e existencial deste viajante que viveu longos anos na Alemanha, falava fluentemente a língua de Goethe, e que tinha um fabuloso discurso relacional sobre tudo.
03 março 2008
via ctt
Por força do progresso e do mundo tecnológico, que nos dias que correm são conceitos em parceria, foi necessário fumar três cigarros em lugares proibidos para desembainhar esta estória de hábitos e devaneios antigos, pegar numa caneta BIC e a escrever.
No e-mail que o meu amigo me enviou e onde recusava solenemente uma inscrição na ViaCTT, adivinhei-lhe a tristeza e a frustração de o carteiro já não aparecer tantas vezes e, de outras tantas, já nem ter tempo para o receber. Também ele se habituou, resignado, às virtudes do progresso e foi-se contentando em receber envelopes timbrados do cetelem, uma ou outra conta da electricidade ou do telefone. Todo o mundo, e até os bons amigos, se tinham rendido ao e-mail. Ele próprio ia escrevendo as suas mensagens telegráficas num português descuidado e sem alma, no seu HP de última geração. O que é evidente é que lhe faltava o cheiro a papel, o doce deslizar da faca pelo envelope, para depois se deliciar com as notícias que vindas de onde viessem constituíam para si sempre uma surpresa.
Hoje, olhava os monitores com idêntico entusiasmo e regularidade, mas sem a intensidade e sem a surpresa de outrora. O Gmail, que ele claramente assumia ser uma grande invenção, ia a pouco e pouco esventrando-lhe a alma e afastando-o da importância que sempre teve para si receber uma carta, daquelas escritas à mão e a cheirar a verdadeiro papel e tinta BIC.
05 novembro 2007
O peso e a leveza
Nos rituais de morte, ambas as acções tem por finalidade expiar a mesma dor, o mesmo desconforto e ajudam-nos a reencontrar a normalidade possível.
De tão viscerais que são, ambas as manifestações podem decorrer em simultâneo, sendo que apenas, a associação naturalmente feita a cada uma delas, ou o medo do que os outros possam pensar de nós, nos leva a conter esta livre e extraordinária ambivalência do sentir.
Como já vão fazendo parte das minhas vivências, experienciar alguns intensos rituais de morte, tenho observado que em muitos momentos as pessoas riem até às lágrimas, soltam grandes gargalhadas, dizem piadas cáusticas, parecem quase felizes. Estas expressões, ao contrário do que se possa pensar, não correspondem a qualquer tipo de leviandade ou falta de decoro - bem pelo contrário, elas existem para nos aliviar do que é pesado e ajudam-nos a reencontrar a leveza espiritual necessária ao equilíbrio emocional. Momentos assim bonitos acontecem por exemplo,
na noite em que se vela o falecido, a altas horas, quando já só estão presentes pessoas chegadas ao falecido; ou, após o funeral, quando o corpo é devolvido à terra e a nossa mente se torna leve flutuante e criativa, que para os crentes, pode ter como paralelo o momento em que a alma do defunto se eleva ao Reino dos Céus.



