30 maio 2008

Confissões do Homem e da Máscara

Todos temos um segredo, todos usamos uma máscara.

Se em algum lugar me sinto seguro, se algum lugar faz jus àquilo que sou, esse lugar poderia ser classificado - Freud chamar-lhe-ia, inquietante estranheza (Unheimlich).

Não, não me revejo em questões políticas, não me revejo nas leis, não gosto de futebol e não tenho um olhar consensual do mundo - para além disso pareço ter sido talhado para um excesso de qualquer coisa, talhado para a densidade emocional, para o aprisionamento das palavras ditas. Assim, por força das circunstâncias, tenho naturalmente aquele ar esgrouviado do inadaptado e um certo desaprumo para as coisas próprias da maior parte dos homens. Eu, nasci amputado para a realidade, cumprindo-a, no entanto, com extremado zelo.

Acordo de manhã com o longo dia já decidido, numa extensa lista de afazeres que guardo religiosamente na carteira e que vou riscando à medida que os cumpro. Olho para o mundo segundo o prisma fixo de ter que cumprir o que me propus. Vivo desta angústia de ter e de querer cumprir aquilo que todas as noites estabeleço para o dia seguinte. Vivo escravo deste desejo insólito de evitar falhar. Mas falho, falho rotundamente todos os dias sem excepção, fruto desta ânsia, deste destempero emocional que dia após dia, ano após ano me leva para o nada, para um certo vazio próprio das casas desabitadas. Vivo para tão pouco, que repetidamente me vou dando conta de que não vivo realmente, mas apenas sobrevivo às intempestivas investidas da realidade. Esta realidade que me destrói por dentro, que me escraviza todos os dias e tanto que chega a doer. Sim, a doer, a doer no corpo e em tudo.

Estabeleci uma série de procedimentos regulamentares para viver, estabeleci os filtros mais ousados e as máscaras mais subtis. Escuso-me a pensar que as coisas poderiam ser diferentes, sabendo claramente que o poderiam ser. Para já vou crendo em todas as listas de afazeres que religiosamente cumpro, para me sentir intacto e invencível, para me sentir a fazer parte das coisas próprias do mundo, a querer que ninguém me possa acusar, que ninguém me possa apontar o dedo. Eu não falho para fora, mas falho todos os dias desmesuradamente para dentro.

Esta ambivalência que me destrói, ajuda por outro lado a construir o ser ignaro em que os anos me transformaram. A metamorfosear-me no rato de laboratório da experiência que criei para mim mesmo – na armadilha intemporal.

Tenho um desejo profundo de liberdade que não consigo exprimir. Quero recusar as raízes, mas ainda não sei como se constrói esse paradigma. Penso um dia abandonar tudo e voltar a África para me reencontrar nos sentidos – a terra vermelha, o rugir do Leopardo, os odores adocicados ou acres e o incrível sabor do jindungo. Procuro alguma sanidade na lonjura mas de momento mais não faço que viver na dualidade pouco saudável de estar com um pé na estúpida realidade e outro pé na descrença absoluta de que posso mudar. Sim mudar, reformular o curso das coisas que parecem certas. Afrontar tudo.

Hoje parece-me um dia longo, é um daqueles dias em que o olhar se plasma e deixa fascinar pela realidade, pelas estrelas que avançam para sul junto com os aviões nocturnos. Hoje não adormeci por opção para poder absorver a realidade em toda a sua potência. Hoje procurei superar-me e contrariar para sempre o curso da realidade (da minha). Hoje tomei o pulso ao mundo e decidi sair, decidi dar a cara. Hoje não foi um dia como os outros, hoje caiu uma máscara no preciso momento em que me pareceu ter tomado uma decisão acertada.

27 maio 2008

'Quando nada mais tens, constrói cerimónias a partir do nada e dá-lhes vida com o teu sopro'.

em Palhaço Voador, citação de "A Estrada" de Cormac McCarthy

12 abril 2008

Pedagogia Pop Reloaded

Já acreditei profundamente nesta mensagem que a seguir se apresenta.
Hoje estou desiludido e perdido como todos aqueles que acreditaram muito numa coisa que vai falhando a cada dia que passa.
Dirão que não sou capaz, dirão que não foi capaz. Talvez...
Só tenho uma certeza... tenho feito o melhor que sei, tenho dado tudo.

09 março 2008

viagens aqui na terra

Um mapa da Europa dobrado sobre a mesa, um isqueiro sem gás, e três ou quatro cigarros mal fumados num cinzeiro imundo testemunhavam segundo ele, uma maneira de estar no mundo - nas suas palavras, eram uma espécie de roteiro oficial da alma, de toda a liberdade do mundo e das coisas fundas em que tinha acreditado pela vida fora. A única verdadeira crença que se lhe conhecia lia-se neste mapa coçado e com imensas rugas, nos esquemas assinalados, nas notas de rodapé de um roteiro que durou anos – o meu mapa existencial, dizia. S. era um tipo quase sóbrio de sorriso manso e pose aristocrata. As calças de ganga coçadas, um certo desalinho no cabelo e uma indisfarçável altivez no olhar faziam-nos pensar na figura do velho aristocrata falido.

Enfim, um ser difuso e apenas reconhecível por tipos de uma certa geração e na qual por força de umas certas vivências eu me incluía. Gostava do seu desmazelo natural, da sua pose e de uma certa intocabilidade que todos lhe associavam. Era daqueles seres que não contam na parametrização comportamental que o nosso tempo parece exigir, ou que para ser mais crítico, de que o nosso tempo padece.

Imaginamo-lo numa sala de paredes humedecidas, talvez com um piano desafinado ao fundo da sala, um papel de parede retro com inúmeras recordações de viagens espalhadas pelas paredes, e claro, umas garrafas de vinho intragável na cave. A casa solarenga e decrépita no meio de vinhedos abandonados, uma entrada frondosa e descuidada, um portão imponente mas irremediavelmente partido e ferrugento, compunham o quadro visual e existencial deste viajante que viveu longos anos na Alemanha, falava fluentemente a língua de Goethe, e que tinha um fabuloso discurso relacional sobre tudo.

Quando olho para trás, vejo-o ainda ensonado às três da tarde, umas olheiras de três noites mal dormidas e um nevoeiro cerrado a envolver todo o espaço. Ouço-o ainda a assobiar a terceira de Brahms sob as laranjeiras molhadas e projectadas no branco difuso de uma tarde fria. Quando olho para trás, sinto com muita força aquela maneira cristalina que ele tinha de olhar o Douro, as suas misérias, mas sobretudo a sua intrínseca beleza. Gostava muito de passear de carro ao fim do dia pelas veredas mais improváveis e ouvir as cenas infantis de Schumann, entre outros clássicos de arrepiar as peles mais encardidas. E depois… aquela forma destemida de ser capaz de falar de tudo, aquela forma de olhar e reflectir o meio envolvente com uma especial acuidade, um olhar muito treinado e relacional que poderia ir da relação existente entre uma certa cor da paisagem e um nú de Schiele, ou sobre a relação entre um certa curva da montanha duriense e os montes vitícolas do Tokay, na Hungria. E depois, uma parte não menos importante dos fim de tarde… parar num restaurante isolado e vazio, pedir o vinho da casa e comer o que sobrou do meio-dia.

Por muitas razões, umas explicáveis e outras talvez não, estou consciente da influência fulcral que exerceu na minha própria forma de olhar as coisas e sobretudo no respeito que ganhei ao processo de conhecimento arvorado em princípios relacionais. Em todas as viagens que acabamos por fazer, fossem reais ou imaginárias, o seu discurso pautava-se sempre pela sua capacidade extraordinária de colocar em relação factos ou visões, por vezes, surpreendentes e outras tantas vezes até improváveis. Terá sido sem dúvida o professor mais sábio que algum dia tive e devo-lhe com toda a certeza, entre outras coisas, um olhar apaixonado por esta terra que habitamos – O Douro Vinhateiro, que não escolhi para nascer, mas que seguramente, para o bem e para o mal, escolhi para viver.

03 março 2008

via ctt

Por força do progresso e do mundo tecnológico, que nos dias que correm são conceitos em parceria, foi necessário fumar três cigarros em lugares proibidos para desembainhar esta estória de hábitos e devaneios antigos, pegar numa caneta BIC e a escrever.
Vem a reflexão que se segue a propósito de um e-mail que recebi de um amigo que, por força das suas convicções, gostava de receber religiosamente o carteiro pela manhã. Gostava de receber os bons dias e de lhos retribuir, gostava da expectativa e do nervoso miudinho que sentia quando o via aproximar-se dizendo-lhe – Senhor Vítor, tenho aqui a sua correspondência. Muitas vezes ficava na expectativa louca e sonhadora de receber a carta que mudaria a sua vida, ou como acontecia por vezes, receber uma confidência mais profunda escrita a altas horas e colocada pelo remetente no correio logo pela manhã.
No e-mail que o meu amigo me enviou e onde recusava solenemente uma inscrição na ViaCTT, adivinhei-lhe a tristeza e a frustração de o carteiro já não aparecer tantas vezes e, de outras tantas, já nem ter tempo para o receber. Também ele se habituou, resignado, às virtudes do progresso e foi-se contentando em receber envelopes timbrados do cetelem, uma ou outra conta da electricidade ou do telefone. Todo o mundo, e até os bons amigos, se tinham rendido ao e-mail. Ele próprio ia escrevendo as suas mensagens telegráficas num português descuidado e sem alma, no seu HP de última geração. O que é evidente é que lhe faltava o cheiro a papel, o doce deslizar da faca pelo envelope, para depois se deliciar com as notícias que vindas de onde viessem constituíam para si sempre uma surpresa.
Hoje, olhava os monitores com idêntico entusiasmo e regularidade, mas sem a intensidade e sem a surpresa de outrora. O Gmail, que ele claramente assumia ser uma grande invenção, ia a pouco e pouco esventrando-lhe a alma e afastando-o da importância que sempre teve para si receber uma carta, daquelas escritas à mão e a cheirar a verdadeiro papel e tinta BIC.
Caro amigo, ainda bem que me alertas, pois sei agora que foi num momento de fraqueza que resolvi inscrever-me na ViaCTT para ganhar um iPod. Logo eu que só ouço música no carro, e de preferência em viagens superiores a 50 Km, logo eu que não suporto auscultadores nos ouvidos, porque acredito que me deformam o jeito de olhar para o mundo. Este olhar deformado, que tanto critico ao mundo, entrou por mim adentro nesta vontade desalmada de ter um iPod inteiramente gratuito. Logo eu que prezo o silêncio e tenho dificuldade em entender as coisas na mais absoluta cacofonia estéreo ou mesmo no mais consensual som surround.
Resolvi redimir-me e escrever-te uma carta, daquelas que ambos gostamos. No final, não poderei deixar de sentir o prazer de lamber o envelope e o selo e oferecer estas palavras como se fossem a coisa mais preciosa.

05 novembro 2007

O peso e a leveza

Entre o choro compulsivo e a grande gargalhada, há uma afinidade electiva, que nos pode levar naturalmente, de um lado ao outro, sem que estejamos a a ter uma qualquer síncope neuronal.
Nos rituais de morte, ambas as acções tem por finalidade expiar a mesma dor, o mesmo desconforto e ajudam-nos a reencontrar a normalidade possível.
De tão viscerais que são, ambas as manifestações podem decorrer em simultâneo, sendo que apenas, a associação naturalmente feita a cada uma delas, ou o medo do que os outros possam pensar de nós, nos leva a conter esta livre e extraordinária ambivalência do sentir.
Como já vão fazendo parte das minhas vivências, experienciar alguns intensos rituais de morte, tenho observado que em muitos momentos as pessoas riem até às lágrimas, soltam grandes gargalhadas, dizem piadas cáusticas, parecem quase felizes. Estas expressões, ao contrário do que se possa pensar, não correspondem a qualquer tipo de leviandade ou falta de decoro - bem pelo contrário, elas existem para nos aliviar do que é pesado e ajudam-nos a reencontrar a leveza espiritual necessária ao equilíbrio emocional. Momentos assim bonitos acontecem por exemplo,
na noite em que se vela o falecido, a altas horas, quando já só estão presentes pessoas chegadas ao falecido; ou, após o funeral, quando o corpo é devolvido à terra e a nossa mente se torna leve flutuante e criativa, que para os crentes, pode ter como paralelo o momento em que a alma do defunto se eleva ao Reino dos Céus.

14 maio 2007

Geometria da alma

















img aqui

Sempre me deixei fascinar pela falta de perpendicularidade, pelos planos inclinados, pelas rampas, pelos trapézios e por outros objectos que tendem a desafiar a gravidade ou, pelo menos, o nosso giroscópio natural que nos impele à verticalidade. Talvez por isso a Casa da Música, no Porto, seja o meu edifício fetiche, a minha casa. Visto do exterior ou a partir do interior tudo nele é um desafio, os seus labirintos, os espaços diferenciados, as transparências, a obliquidade, as surpresas permanentes. É igualmente um desafio porque inquieta os sentidos e provoca comprovadamente a reflexão. Quando lá entrei pela primeira vez pensei que nunca o iria descobrir na íntegra e ainda não desisti dessa convicção. Este edifício contém em si uma espécie de geometria da alma e corresponde a uma visão do mundo que, não sendo original, é aquela em que acredito e aqui venho defender convictamente, ou seja, olhar para as coisas sob um ponto de vista inclinado.

Aviso desde já os leitores que esta ideia de gostar de inclinações é uma qualidade que possuo e, não fazendo de mim nem melhor nem pior que ninguém, corresponde a uma visão do mundo que ao longo deste curto artigo fará de mim um homem de nobres virtudes, que em boa verdade e sem arrogância garanto possuir, mas que pode igualmente fazer de mim um alvo a abater.

A Inclinação

Observar o mundo sob um ponto de vista diferenciado, daqui para a frente e por força de uma certa visão, designado de inclinado, ajuda qualquer um a desenvolver o sentido da relatividade que é um primeiro passo para o desenvolvimento da criatividade e do sentido crítico sobre aquilo que apelidamos de real. Ver inclinado não é fácil, como não é fácil lutar contra uma multidão de pessoas verticais e sem capacidade de soltar uma grande gargalhada no momento mais sério. O povo diz e com razão que rir é o melhor remédio e eu passo a explicar porquê: quando rimos verdadeiramente contorcemos de tal forma o corpo que passamos a ver o mundo sob um ponto de vista inclinado, o que me vem dar razão nesta visão que aqui defendo.

Sabemos bem que é sempre a dificuldade em perspectivar, em relativizar, que conduz à generalidade dos conflitos humanos, daí que talvez possamos ter uma sociedade mais assertiva quando um maior número de pessoas for capaz de se inclinar. Claro que existem aqueles que por natureza se tornaram inclinados e para os quais meio mundo sempre olhou com alguma desconfiança, estou a pensar, por exemplo, nos artistas e nos cientistas visionários. Mas a inclinação não é necessariamente uma coisa inata ou propriedade de alguns, pois qualquer um que seja capaz de rir ou chorar pode sem dúvida alcançar esse estádio crítico (e inseguro) de ficar inclinado e assim contribuir para uma visão ampla e relativizada do mundo, contribuindo igualmente para a natural resolução salutar dos problemas mais comezinhos da vida de todos os dias e porque não dos grandes problemas que nos afectam a todos.

O Fanatismo

Segundo o galardoado escritor Israelita Amos Oz a essência do fanatismo (consequência inequívoca da falta de inclinação humana) reside no desejo de obrigar o outro a mudar, aliás ainda segundo o mesmo autor o fanático é um grande altruísta: “quer salvar a nossa alma, redimir-nos. Livrar-nos do pecado, do erro, do tabaco, da nossa fé ou da nossa carência de fé. Quer melhorar os nossos hábitos alimentares, ou curar-nos do alcoolismo”, enfim “o fanático morre de amores pelo outro”. Ora o nosso tempo está pleno de fanáticos encapotados que querem parecer verdadeiros democratas e defensores da liberdade, mas o que nós não vemos a maior parte das vezes é que a alma de muito desta boa gente congemina no mais profundo de si, na “gruta da alma” o maior dos fanatismos e a maior das desconfianças relativamente a tudo que foge da norma. É destas mentes invisíveis que devemos ter medo, muito medo, pois a invisibilidade, a par do fanatismo, é uma das maiores inimigas da inclinação. É na invisibilidade que se congeminam as mais audazes estratégias subversivas, as lavagens cerebrais mais profundas, é uma verdadeira força do mal, arvorada em princípios tão rígidos e conformistas que dão aos seus possuidores a capacidade de sentirem a mais inabalável das confianças e acreditar que a verdade é só uma, que o caminho está traçado e que tudo se concretizará se não fugirmos do trilho altruisticamente construído pelos sábios da invisibilidade que, qual Deus omnipotente e omnipresente, conduz o mundo a um porto seguro.

A Transparência

Contra a invisibilidade de que atrás falávamos, os seres inclinados contrapõem a transparência, os reflexos, as nuances, as imagens volúveis, as visões fractais, uma certa ideia de inacabado. Os seres inclinados ao contrário das forças da invisibilidade não têm nada a esconder, são naturalmente abertos ao mundo e acreditam que o conhecimento é maior quando abertamente partilhado. Os seres inclinados são verdadeiros adeptos das possibilidades comunicacionais da contemporaneidade e não têm medo da sociedade em rede, bem pelo contrário, vêm nela uma estrutura não hierarquizada e livre que corresponde àquilo que Manuel Castells chamou de “Glocal” - uma estrutura comunicacional que actua do global para o local e do local para o global, ou seja, um processo de conhecimento que por ora apenas exclui (e este é um dos grandes desafios do nosso tempo) aqueles que por várias razões não têm acesso à rede, mas que, por outro lado, permite àqueles que lhe têm acesso partilhar conhecimentos de forma até agora nunca vista.

Para terminar gostaria de deixar aqui uma mensagem de força a todos os inclinados do mundo ou aqueles que por qualquer razão se encontram próximos desta visão - riam, chorem muito, porque rir e chorar é uma forma pura e virtuosa de pensar o mundo.

10 fevereiro 2007

Capital Cultural do Norte "just for one day"

alguns contratempos, dispersões, outras ocupações, berros e ameaças de porrada (proferidas por mim) afastaram-me de algo que eu não poderia deixar de reflectir aqui e que está relacionado com o último fim de semana em Vila Real, que nos ditos dias mais parecia a capital cultural do NORTE. Aconteceu no Teatro de Vila Real - na Sexta-Feira a peça do Fernando Moreira em colaboração com os actores do ESMAE e no sábado os Dead Combo. No que se refere ao primeiro acontecimento, não quero enganar ninguém, o Fernando Moreira é meu "amigo do peito", mas como ele sabe, estando com ele nos maus e nos bons momentos, nunca fui acrítico relativamente àquilo que tem feito em termos artísticos. Daí que me sinto muito a vontade para aqui manifestar a minha mais profunda admiração pelo trabalho realizado com os excelentes actores da ESMAE. Um trabalho exigente e no limite ( quando actores, conceitos e todo o trabalho realizado se pode desmoronar e transformar noutra coisa qualquer e a qualquer momento). É muito raro encontrarmos este atrevimento, mas é a partir destes atrevimentos que nascem obras únicas e inqualificáveis como as de Cassavetes e Fassbinder no cinema, Jean Genet e Artaud na literatura,/teatro, Michaux e kahlo nas artes plásticas.
Quanto aos Dead Combo, que não conhecia, foram uma extraordinária surpresa muito próxima de algumas das coisas que mais gosto em termos musicais.

Como os "excessos de natureza" (diria Miguel Torga) se pagam caro, passei o resto do fim de semana febril, a meio caminho entre uma vontade desmesurada de chorar e viver (compreensível) e uma esquisita mas convincente tendência para adormecer encharcado.

09 fevereiro 2007

esta forma de amar o mundo não tem sexo

Eterno

Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais queiras diferente;
que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes
representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d'Aire
- mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax
e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
felina e ondulante numa ilha tropical
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada,
ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
a quem atribuíssem um número de contribuinte
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
e que sejas louca e sábia
que tenhas lábios e mordas,
língua e sorvas, sexo e sexes, salto e salto, riso e rias,
sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne,
passos de corsa, graça de arlequim,
pose de Diva, corpo de areia e luz.
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e fecundes um poema em cada gesto
e voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Índia em cada cacilheiro
e que sejas, mores, vivas e creias
longe
muito longe daqui...

quero que sejas profundamente minha e ritual
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

(letra e música de Pedro Barroso in CD «Longe daqui», 1990)

24 janeiro 2007

talvez um Porto não seja só uma bebida única e irrepetível
talvez um vinho bom não seja só o despertar sensorial
talvez uma manhã fria não seja só... uma manhã fria
talvez o tempo seja pessoal e intransmissível
talvez estejamos sonolentos na manhã mais clara
talvez estejamos ausentes nos momentos essenciais
talvez façamos pouco por nós mesmos
talvez sejamos escravos de tudo
talvez estejamos amarrados num porto aparentemente seguro
talvez possamos mudar tudo
talvez possamos partir
talvez nos queiramos perder
talvez não estejamos felizes
talvez o muito que temos seja pouco
talvez a vida seja curta e o mundo extenso
talvez sejamos ínfimos
talvez queiramos estar parados
talvez queiramos dormir
talvez seja inglória a nossa inquietação
talvez sejamos frágeis
talvez queiramos nascer de novo
talvez não valha a pena movermo-nos
talvez valha a pena abdicarmos de muitas coisas
talvez não sejamos tão criativos como pensamos
talvez não saibamos tanto quanto seria possível
talvez possamos morrer
talvez estejamos sempre a meio do caminho
talvez não seja importante ter moral
talvez o nosso relativo sucesso se deva ao nosso igualmente relativo insucesso
talvez a nossa coragem seja relativa
talvez os nossos conceitos sejam pouco abrangentes
talvez os bons momentos não cheguem
talvez os maus momentos não nos construam tanto quanto isso
talvez a nossa vida não valha nada
talvez tenhamos que procurar mais longe
talvez os espaços condicionem as almas
talvez os espaços sejam os nossos carcereiros
talvez nós sejamos carcereiros de nós mesmos
talvez pouco seja muito... ou não seja nada.

09 janeiro 2007

Artaud e o seu duplo

Surgiu uma pequena e nova companhia de teatro em Vila Real - Trouxa Mouxa é o nome a fixar.

Esta companhia estreou-se no dia 5 de Janeiro com uma peça baseada na atribulada vida de Artaud - dramaturgia de Ricardo Ferreira de Almeida.

Se o facto de aparecer uma nova companhia teatral em Vila Real é um claro reflexo da dinâmica introduzida pelo Teatro de Vila Real e é bem vinda, já o desempenho dos actores na referida peça deixou muito a desejar. Um texto e uma estória tão pungente necessitava de actores mais talentosos ou pelo menos mais experientes. Poderei no entanto concordar que o desafio era extremamente difícil e talvez por isso não terá sido a melhor ideia avançar por caminhos tão pantanosos.

De qualquer forma é importante ficarmos atentos porque eles têm garra e certamente farão melhor na próxima oportunidade, para além que é uma lufada de ar fresco comparando com o trabalho que a Filandorra nos tem habituado ao longo dos anos - um tipo de teatro parado no tempo não pelos textos que escolhe mas pela utilização recorrente de soluções cénicas e dramaturgicas gastas.

29 dezembro 2006

aqui se vê a força d...

não costumo participar em campanhas, ainda menos naquelas que nem sequer deveriam existir, no entanto, esta questão do aborto parece-me particularmente importante.

Na minha modesta opinião a despenalização do aborto deveria ser legislada pelo governo e pronto - sempre se poupavam uns milhões ao erário público.

Mas como não há nada a fazer, não posso deixar aqui de manifestar a minha opinião.