27 setembro 2005

breve história acerca de quase nada

Não sei que diga,
em baixo e em cima ou ao meio... tanto faz.
Ficam pelo caminho alguns dias nublosos,
alguns comportamentos incompreensíveis,
sorrisos esporádicos
e gargalhadas arrancadas a ferros,
um ou outro problema resolvido e
essencialmente muitos por resolver.

Digo que ficaram lágrimas por verter,
noites povoadas de sombras estranhas
e uma evocação de querer...
"aquilo que não me dão,
por isso tento a China,
o Laos, o Alaska, a Índia,
a Tailândia, o Japão ... o barhein"


PORRA.

14 setembro 2005

paralelos

Dei-me conta, agora que tenho um mapa do mundo mesmo ao meu lado, que os melhores vinhos se produzem aproximadamente entre os paralelos 30º e 45º, acima e abaixo do equador. Enfim, curiosidades...

gosto de...

Gosto de excessos. Gosto da noite até de manhã e da inclemente luz nos olhos.
Gosto de vermelho do preto e do branco.
Gosto de relações fortes, de alunos difíceis e de homens rudes.
Gosto de sabores intensos, de feijoada, sardinha e bagaço.
Gosto de bebidas fortes, de todos os dias difíceis e de quando o sol se esconde.
Gosto do Douro, gosto da vinha e dos odores intensos da paisagem nas vindimas.
Gosto de transpirar como um cavalo e cheirar os sovacos com o mesmo odor.
Gosto de gritar, embora o faça pouco.
Gosto de carregar pesos, de subir encostas e de serras inóspitas.
Gosto de amar, de detestar e sobretudo de me manifestar, embora nem sempre o faça.

08 setembro 2005

mulheres

Image hosted by Photobucket.com

Gosto de mulheres. Gosto particularmente de trabalhar com mulheres. Gosto da sua sensibilidade, do seu pragmatismo e da sua objectividade no trabalho. Gosto da forma como me respeitam, gosto de as ouvir, como processo de conhecimento mútuo. Gosto também de não me sentir atraído por elas, se bem que o contrário também é verdade. Assim como tenho a sensação de que se a Hillary Clinton ganhasse as eleições americanas o mundo poderia ser um pouco melhor.

01 setembro 2005

carta à Maria - viver ao largo

Nasci no alto mar, fruto de um amor proibido entre uma "senhora da vida" e um padre ortodoxo.
Iniciei a minha adolescência nas camas dos oficiais de bordo.
Aos dezassete lia os livros da biblioteca pessoal do Artaud, que um dia cruzou o atlântico à procura de si mesmo.
Apaixonei-me por Genet, Ginsberg e Kerouac.
Aos vinte já comprava eu próprio os livros. Rimbaud, Verlaine, Peret, Apollinaire, Baudelaire e Bataille, todos franceses, vá-se lá saber porquê.
Aos trinta e cinco estava já reformado das coisas do mar e dediquei-me à pesca onde conheci o Hemingwey. Li O Velho e o Mar e nasceu em mim o desejo de saber:
Isto é normal para um homem da minha idade?

Mapa do estar. Geografia do sentir



Olho para cada pedaço desta imagem e sinto que existem tantas coisas que vos poderia contar.
Nasci e vivo actualmente em dois extremos deste lugar, que enclausuram mais de trinta anos de vida. Um espaço tão pequeno no mapa do mundo, mas tão intenso na construção do que sou.
Inauguro hoje o PARALELO 41.

31 agosto 2005

escrever no ar



Escrevi-te as palavras que não cabiam numa folha de papel...

fumo


Foto de Carla Cabral

Se o fumo nos teus olhos não te trair, esse cigarro será intenso, como intensa será a noite e o vento que projecta a chama.

vamos à cidade



Toca a correr para o Porto ou para Lisboa,
onde o cinema a sério ainda parece existir.
Vá lá gente do interior...

perdê-lo vale muitas batidas do coração.

30 agosto 2005

este blogue

Este blogue está a querer, "autonomamente", tornar-se num retrato pessoal.
Está confuso, de gosto duvidoso, demasiado pessoal, por vezes "broeiro", outras vezes sensorial. De quando em vez sentimental, outras confessional.
Este blogue deve ser meu.

lavagem automática


Foto manipulada. Origem: www.skins.be

Depois das férias e do pó das coisas, nada melhor que a lavagem automática para iniciar o ano de trabalho com o carro limpinho.
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26 agosto 2005

feelings



Como diz a minha amiga de Elsinore "If you realy want to know, this is how I feel"
Tenho a pinã virada do aveso.
O interior é uma massa indistinta de problemas de servidor, passwords erradas, cagadelas de pombo e o respectivo mecanismo dissuasor, ensino cooperativo apoiado por computador, estudo de campo...
Enfim, os ultrasons estão a acabar comigo.

23 agosto 2005

Um dia em Paredes de Coura



O Jazz na Relva foi muito bom... como sempre, num fim de tarde com o sol já muito oblíquo e a esconder-se no horizonte. Um rio muito calmo a reflectir o céu e muita gente descontraída. Um cheirinho a erva queimada no ar e umas cervejas aqui e acolá. No palco gente interessante, a fazer da música uma das suas mais valias - divertimento.
Pela noite, só foi possível assistir a três dos cinco concertos previstos, Os extremamente banais, Juliette & The Licks, o poder de comunicação, comunicação inteligente e sedutora do Vincent Gallo e o Nick Cave & The Bad Seeds, que estiveram excelentes nos primeiros três quartos de hora. Aqui, Gritei, fiz coro e esperneei tanto quanto foi possível - o necessário para sentir que valeu a pena.

22 agosto 2005

Dona Eduarda

Interrogo-me sobre o lugar que queremos atribuir, na nossa vida, a determinadas pessoas que apenas vemos esporadicamente, mas que pela sua dimensão humana terão necessariamente que ser lembradas. Nesta ordem de ideias a Dona Eduarda é das pessoas mais curiosas que eu conheço. Digo curiosa, porque a sua forma de pensar e entender o mundo, me parece a mim, de uma outra dimensão, que me escapa de tão peculiar.
A Dona Eduarda terá uns sessenta e poucos anos, nasceu em Angola, onde conheceu um português, também ele muito peculiar. Muitos anos passados, vive em Portugal e grangeou em torno de si uma prole muito especial. Todos os anos vou a sua casa pelo Verão, a convite de um amigo e agora seu genro, comer o "Funge" e também todos os anos venho de lá encantado com a espiritualidade, poder de sedução e forte personalidade, daquela senhora simples e bem disposta. Os jantares são irrepetíveis, em particular quando se junta toda aquela família extrema a surprender-nos a todo o momento, com as histórias mais hilariantes, histórias de "partir o coco" a rir. O "Funge", um pitéu tipicamente angolano, é excelente, principalmente quando condimentado com uma dose extra de gindungo. A Dona Eduarda, sempre serena, no momento que lhe parece oportuno, o que não quer dizer que o seja, apresenta uma visão do mundo, uma visão especial e única. Aquilo que nos conta parece brotar de um saber ancestral, que me é desconhecido, uma espiritualidade que escapa aos cânones, onde nós, os Europeus, nos formamos e informamos. Do topo da sua simplicidade e humildade, fala das coisas mais sérias e também daquelas que o não são, com a vivacidade e o humor que tudo envolve e arrebata.
Traduzir a sua visão do mundo, seria o mesmo que contar em palavras, um sketch dos Monty Python. É tão diferente...

18 agosto 2005

...

vou dar um salto a Coura, essencialmente, para ver o Vítor, o Nick, o Gallo e o Jazz na relva.

16 agosto 2005

fotos de catálogo ref. a-c



Estão num dos jardins da Capital. Hoje não lançaram trigo aos pombos. Comeram a merenda toda e limitaram-se a passear pelo jardim. Ninguém andava por ali num fim de tarde de Agosto.
Ao fundo, no Palácio de Belém, os guardas fazem uma estranha dança para que se lhes não prendam os membros. Não existe a miníma brisa. As coisas estão em silêncio, só os pássaros chilreiam invisíveis e ouve-se o som contínuo de carros a passar numa Avenida ao fundo do jardim. Num bebedouro a água corre para um esgoto. Os bancos estão completamente livres. As sebes estão perfeitamente aparadas, e a relva talvez tenha sido cortada pela manhã. Dois turistas passaram - pareciam contentes. Ambos sorriram para a fotografia. Clic.

12 agosto 2005

só pequenas coisas

Como tudo nasce de pequenas coisas, como as coisas entram em nós e nos fazem felizes, como uma tarde sol, sol na relva ao fim da tarde.

Um mail que continha imagens sugestionadas pelos sons, que o meu querido amigo vítor enviou e um cálice de bushmills, que tive que voltar a encher, tornou-se num pequeno momento de ruborizar a face.

Aqui fica esta partilha de intensidades.


Crónica de um lugar


Café do Senhor António - Praia de Melides

As portas fecharam-se. O ritmo das coisas recusou-se a continuar.
O Pinguim ajeitou-se junto a nós na esplanada improvisada desde sempre. Ajeitava-se enroscado sobre si mesmo no conforto possível que um cão pode obter sobre a areia. Como sempre, do escuro ouvia-se o mar. Lá dentro talvez a Fatinha ainda faça as limpezas. Talvez o Castanho esteja confortavelmente aninhado sob as mesas ou um rato esquivo percorra o beiral. Nós afastamo-nos, recusando um último olhar sobre um lugar importante na nossa construção existencial e condenado a deixar de existir ou a existir para sempre no lugar que atribuímos ao mito, mito das coisas vividas com a intensidade possível dos dias. Este lugar que habita em nós, acontece porque nunca se quis impôr. E talvez o torne especial ser pouco exigente, se ter recusado a olhar para nós a interrogar a nossa verdade. Este lugar nunca quis saber e nós também nunca pronunciamos o nosso apego às coisas sérias que por ali passavam: o senhor que adormecia a ver televisão em frente ao café e ao bagaço, os cães, os gatos e as pulgas que se passeavam perigosamente por todo lado, a infinita panóplia de humanos que por ali populavam e que nas palavras do Senhor António, não eram mais do que guedelhudos, a simpatia contida da Fatinha e o olhar sisudo da sua mãe sentada sempre no mesmo lugar a comer pevides.
Os lugares que habitamos com intensidade transformar-se-ão inevitavelmente em lugares extintos e marcar-nos-ão sensorialmente para sempre, e bem pode o Sr. António carregar as grossas portas de madeira que nos separam do interior que o mito do lugar irá permanecer.
Este lugar extinguiu-se outros estão em vias de surgir.