
Foto de Carla Cabral
Se o fumo nos teus olhos não te trair, esse cigarro será intenso, como intensa será a noite e o vento que projecta a chama.






Como tudo nasce de pequenas coisas, como as coisas entram em nós e nos fazem felizes, como uma tarde sol, sol na relva ao fim da tarde.
Um mail que continha imagens sugestionadas pelos sons, que o meu querido amigo vítor enviou e um cálice de bushmills, que tive que voltar a encher, tornou-se num pequeno momento de ruborizar a face.
Aqui fica esta partilha de intensidades.








Querias saber porque cheguei tarde. Porque não arrumei a mesa que partilhavamos.
Porque fui jantar fora, quando tinhamos com
Perguntaste porque beijei toda a gente naquela noite de São João, debaixo do Jacarandá, sem que te lembrasses das flores que se desprendiam da árvore e caíam sobre nós, tão serenos e intensos ao mesmo tempo. Tão amantes e tão contraditórios.
Querias saber porque cheguei a casa a cheirar mal. Porque ficou a porta entreaberta a noite toda. Porque não entrei no teu quarto para te beijar...
Senti o fio das palavras destrutivas sem surpresa e como se estas sempre tivessem existido, mas impronunciáveis. Impossibilitadas por um exercício contorcionista da parte do corpo que as produz, pelo rossar na garganta áspera de tanto regurgitar o que sempre se quis dizer e que agora se libertava no espaço covil de querer saber porquê.


Toquei o negro, flecti o ombro, simulei a entrada no nada.
Ouvi um soluço, um tilintar de vidro partido no chão. Humedeceu-se-me a cara e desatei a correr em frente. Esperei partir-me todo contra qualquer coisa. Caí na água.
Levantei um braço,outro braço e tentei erguer o corpo todo com uma sofreguidão de naufrago. Timidamente abri um olho e depois outro. Observei em volta. Sustive a respiração. Aaaahh…

Estava atrasado para qualquer coisa. Era noite. Esqueci-me de acender a luz da entrada.
A chave caiu ao chão e eu debrucei-me para a apanhar. Por entre os dedos esfumou-se-me aquele desejo e enfoquei o olhar no negro.
Sentei-me na cadeira de baloiço e olhei um cão que ladrava. Tentei imitá-lo com a autenticidade atribuída aos homens de muita vontade.
Ele replicou sem grande expressão. E eu remeti-me ao silêncio.


Resposta ao talento da mediocridade
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro de capa grossa
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Sim. Zaratrusta e Zenão.
Qual foi o último livro que compraste?
Foi o meu amigo talento da mediocridade que os foi buscar a um alfarrabista da rua das flores: duas edições antigas do Alves Redol – Trilogia do Port Wine I e III, respectivamente, Horizonte Cerrado e Vindima de Sangue.
Qual o último livro que leste?
Até ao fim, foi provavelmente, Vindima de Miguel Torga
Que livros estás a ler?
Bom, para não pregar uma seca a ninguém vou ficar calado
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Seguramente não levava nenhum. Só acredito nos livros quando podem ser partilhaveis.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Talvez ao meu amigo português suave amarelo, já que os restantes amigos bloguistas já responderam ao questionário.


Aqui há uns dias interrogava-me acerca da questão interioridade/urbanidade a propósito de um post acerca da revista “Periférica”. Hoje chegou até mim e sem esforço um esboço de reflexão sobre o assunto.
Por razões profissionais e com enorme prazer, tive com alguns colegas de trabalho, um encontro com dois vultos da cultura portuguesa, respectivamente, Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral. Tal encontro decorreu primeiro num agradabilíssimo almoço a que se seguiu um revelador encontro de Graça Morais com alunos da Escola Secundária João de Araújo Correia, no Peso da Régua. E digo revelador pois Graça Morais, igual a si mesma e à sua pintura falou aos alunos e respondeu às suas perguntas com a autenticidade que lhe é característica, na obra que eu já conhecia, e que agora se me revelou também no seu olhar e na personalidade afável e disponível que pude conhecer.
Posso dizer que conheço razoavelmente bem a obra da pintora, ao contrário da obra do músico e compositor Pedro Caldeira Cabral, reputado especialista em guitarra portuguesa e também ele com um percurso artístico notável.
Graça Morais é natural de Vieiro, uma aldeia trasmontana perto de Vila Flor e a sua obra é um excelente exemplo da relação que se pode estabelecer entre o cosmopolitismo e a ruralidade. Com uma já longa carreira e uma assinalável notoriadade, a sua obra desde sempre reflectiu esse microcosmos que é a sua aldeia natal, mas que numa visão mais alargada se pode considerar a visão de uma certa ruralidade nacional. Talvez não exista em Portugal exemplo tão feliz, profundo e intenso dessa interpretação antropológica do Portugal interior.
O traço de Graça Morais é forte, quase masculino, se é que os traços têm sexo, e terá na sua génese, a influência dos expressionismos do início de século, a multiplicação/fragmentação da realidade de um Picasso ou mesmo as transparências e realismo mágico de Francis Picabia.
Particularmente interessante foi o encontro com os adolescentes interessados em ouvir o que a artista tinha para dizer e para os quais Graça Morais se disponibilizou para responder a todas as perguntas que estes lhe colocaram. Não pude deixar de notar a humildade sábia de quem alcançou um lugar de destaque na arte portuguesa, o sorriso bonito e toda a disponibilidade do mundo, que é apanágio de quem fez uma boa construção existencial e não chegou lá por acaso.





No cinema…
uma das coisas que me fascina são os hiatos temporais que apagam tudo que é supérfluo.
Por outro lado…
também me agrada quando o realizador quer dizer-nos que aquilo que é infímo e parece não ter importância é um factor decisivo, não só na narrativa, como no processo vivencial que constrói os personagens.
Há um cinema que nos quer ocultar os hiatos temporais e mostrar-nos o processo existêncial passo a passo. O grande Kiarostami pode ser um dos exemplos paradigmáticos.
Gosto particularmente…
quando num filme o personagem inicialmente de costas para a câmara de repente se volta e firma um olhar revelador. Nesse preciso momento a câmara subjectiva (o olhar do mesmo personagem) encontra aquela plenitude, a revelação do encontro com algo que possamos considerar fundamental: um profundo desejo de mudança ou uma brisa que agita uma flor.

o que nos dizem as letras em webcedário

Certamente muitos já terão visto por aí nas bancas a revista Periférica, da qual aliás eu sou assinante desde o primeiro dia. Primeiro por solidariedade regional e depois por me parecer um “pontapé” bem assente na interioridade onde nada parece acontecer, mas onde ao mesmo tempo também tudo acontece num ambiente certamente mais saudável (refiro-me literalmente ao ambiente) do que na urbanidade cosmopolita e “avançada”.
Desta revista se pode dizer que é para ler, o caracter miudinho e o texto denso afasta qualquer leitor apressado. Pode ainda dizer-se que tem um grafismo à altura. Quem a vê pela primeira vez dificilmente dirá que esta é escrita, produzida e reproduzida em pleno Trás-os-Montes (tal é a visão que se tem do interior). O único elemento delator da sua interioridade talvez seja mesmo a publicidade de página inteira que muitas vezes pelo seu grafismo “pitoresco” mais parece um sarcasmo da irreverente revista do que algo para levar a sério. Mas claro, estes projectos têm custos.
No entanto, e apesar de tudo que foi dito, tenho com a “Periférica” uma relação de amor/ódio.
É uma revista do interior que sistematicamente pisca o olho à urbanidade cúmplice, vejam-se as acções de lançamento realizadas em lugares da moda, na capital. Até aqui, tudo bem. Pior é quando por vezes os textos roçam a erudição hermética e afectada, a começar nos editoriais, que são escritos por quem realmente não acredita no interior. Francamente não sei como me relacionar com este facto, já que também eu próprio apesar de ser e viver no interior, tenho sob muitos aspectos uma grande dificuldade em me relacionar com ele. Mas que não gosto nada, lá isso não gosto.
É uma revista do interior, que no fundo o despreza e o minimiza e onde o ser-se construtivo ou até didáctico não tem espaço.
Francamente penso que esta revista, do interior, só tem mesmo o nome da aldeia onde é produzida (Vilarelho – Vila Pouca de Aguiar) e a ficha técnica, já que o seu público privilegiado e mesmo assim minoritário, é urbano, não havendo nela nada, ou quase nada, que reflicta a interioridade, à excepção, claro, da publicidade!




Os ovos e o bacon eram considerados na sociedade americana de finais do século XIX, alimentos afrodisíacos conducentes à masturbação. Para refrear os hábitos "perversos" dos "bons americanos" o senhor Will Keith Kellogg criou os agora muito famosos Kellogg's. No sítio da empresa refere-se que o senhor Kellogg acreditava que a "dieta" era um factor muito importante para um estilo de vida saudável e que o pequeno almoço era a refeição mais importante do dia. Será que alguém acredita nesta "dieta"?
Eu por mim prefiro Chocapic.

foto de CC
Já me sinto melhor do meu lado esquerdo.
O que significam as coisas fora do seu contexto?
Pois é, significam outras tantas coisas.
Fico sempre espantado com o processo comunicativo e com alguma aragem.

foto de CC com tratamento de JAM
Nas boas metáforas cabem todas as ideias do mundo, são obras abertas para livres pensadores.
Hoje, acordei com uma uma visão inclinada de mim.
Fiquei atento no silêncio a tentar ouvir o sangue nas veias, mas desisti intimidado ao dar-me conta da precaridade de existir.
Tudo se complicou: eu quero ser eterno.
Mas o meu verdadeiro problema é acordar todos os dias inclinado.
Estou sempre seguramente dois ou três dias para me conseguir endireitar. Às vezes é um verdadeiro tormento.
Arranjei uma estaca, daquelas que se usam para manter os feijões "encaminhados". Foi uma sorte, assim descanso bastante a minha perna esquerda. Estava a sofrer muito da minha perna esquerda. Não fosse aquela ideia da estaca que o amigo Gonçalves me deu e...
De resto está tudo bem. Não tenho filhos, o empregozito é seguro e as pessoas fazem um esforço para gostar de mim.
Vou confessar-vos uma coisa... na realidade as pessoas não só gostam de mim como me adoram, não fazem outra coisa que não seja saber coisas acerca de mim. Tanto, que a minha mãe deixou de trabalhar, e agora passa os dias na mercearia da Mariazinha, a falar de mim, dos meus feitos, dos meus actos de bravura, da luta titânica que continuo a ter com a minha inclinação natural de acordar inclinado.
Para ser franco nem entendo esta obsessão que as pessoas têm por mim!
Tenho-me interrogado e cheguei à conclusão que a razão do meu sucesso existêncial é a minha inclinação natural para as coisas simples: o natal, a família, a integração social absoluta e claro, ver televisão na diagonal (literalmente).
Muitas vezes se confunde o verdadeiro viajante com aquele que simplesmente entra num avião ou no carro e se desloca para um determinado destino. Viajar não corresponde unicamente ao movimento perceptível da pessoa que vai de um lugar para outro, nem tão pouco existe um único conceito de viagem. Fernando Pessoa viajava dentro do seu próprio quarto, para Pavese era, simplesmente, “uma brutalidade”. Para Kerouac era alienação pura.
O verdadeiro viajante não é um turista, o verdadeiro viajante é um ser interrogativo e diletante. Desafia as normas e os conceitos pré-estabelecidos e não lhe interessa o lugar de chegada mas antes as nuances do seu percurso. O verdadeiro viajante só existe sem roteiro.
* Leia-se o post do meu querido amigo talento da mediocridade
Estive cerca de dez dias à espera que a barba me crescesse o suficiente
para ser sábio.
Esperei todos os dias ansiosamente...
Olhar o espelho logo pela manhã tornou-se tão frequente que quase
deixei de me ver (estava concentrado no crescimento da barba).
Os dias foram passando!
... e a barba cresceu.
Quando já sabia tudo (ao décimo dia), num momento de excesso resolvi cortá-la...
Ermesinde 1999?
Eu sou o irregular o vagabundo o erradio
eu sou da errância e da distância e da errática
e proibida margem de outro rio.
Haverá sempre em mim a linha matemática
e a gramática secreta do Padre António Vieira.
A minha terra é sempre em terra estranha
quem me quiser procure na fronteira
eu sou de algures entre o azul e a Espanha.
Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”

Um colega e amigo enviou-me este excelente cartão de Natal, como não poderia deixar de ser partilho-o aqui com o mundo todo em verdadeiro espírito natalício.
Dedico esta imagem áqueles que deixaram as salas de fumo (não é o meu caso, continuo a gostar do nevoeiro) e se dedicaram de corpo e alma à goma e a outras actividades que esta imagem tão bem sugere.