31 agosto 2005

fumo


Foto de Carla Cabral

Se o fumo nos teus olhos não te trair, esse cigarro será intenso, como intensa será a noite e o vento que projecta a chama.

vamos à cidade



Toca a correr para o Porto ou para Lisboa,
onde o cinema a sério ainda parece existir.
Vá lá gente do interior...

perdê-lo vale muitas batidas do coração.

30 agosto 2005

este blogue

Este blogue está a querer, "autonomamente", tornar-se num retrato pessoal.
Está confuso, de gosto duvidoso, demasiado pessoal, por vezes "broeiro", outras vezes sensorial. De quando em vez sentimental, outras confessional.
Este blogue deve ser meu.

lavagem automática


Foto manipulada. Origem: www.skins.be

Depois das férias e do pó das coisas, nada melhor que a lavagem automática para iniciar o ano de trabalho com o carro limpinho.
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26 agosto 2005

feelings



Como diz a minha amiga de Elsinore "If you realy want to know, this is how I feel"
Tenho a pinã virada do aveso.
O interior é uma massa indistinta de problemas de servidor, passwords erradas, cagadelas de pombo e o respectivo mecanismo dissuasor, ensino cooperativo apoiado por computador, estudo de campo...
Enfim, os ultrasons estão a acabar comigo.

23 agosto 2005

Um dia em Paredes de Coura



O Jazz na Relva foi muito bom... como sempre, num fim de tarde com o sol já muito oblíquo e a esconder-se no horizonte. Um rio muito calmo a reflectir o céu e muita gente descontraída. Um cheirinho a erva queimada no ar e umas cervejas aqui e acolá. No palco gente interessante, a fazer da música uma das suas mais valias - divertimento.
Pela noite, só foi possível assistir a três dos cinco concertos previstos, Os extremamente banais, Juliette & The Licks, o poder de comunicação, comunicação inteligente e sedutora do Vincent Gallo e o Nick Cave & The Bad Seeds, que estiveram excelentes nos primeiros três quartos de hora. Aqui, Gritei, fiz coro e esperneei tanto quanto foi possível - o necessário para sentir que valeu a pena.

22 agosto 2005

Dona Eduarda

Interrogo-me sobre o lugar que queremos atribuir, na nossa vida, a determinadas pessoas que apenas vemos esporadicamente, mas que pela sua dimensão humana terão necessariamente que ser lembradas. Nesta ordem de ideias a Dona Eduarda é das pessoas mais curiosas que eu conheço. Digo curiosa, porque a sua forma de pensar e entender o mundo, me parece a mim, de uma outra dimensão, que me escapa de tão peculiar.
A Dona Eduarda terá uns sessenta e poucos anos, nasceu em Angola, onde conheceu um português, também ele muito peculiar. Muitos anos passados, vive em Portugal e grangeou em torno de si uma prole muito especial. Todos os anos vou a sua casa pelo Verão, a convite de um amigo e agora seu genro, comer o "Funge" e também todos os anos venho de lá encantado com a espiritualidade, poder de sedução e forte personalidade, daquela senhora simples e bem disposta. Os jantares são irrepetíveis, em particular quando se junta toda aquela família extrema a surprender-nos a todo o momento, com as histórias mais hilariantes, histórias de "partir o coco" a rir. O "Funge", um pitéu tipicamente angolano, é excelente, principalmente quando condimentado com uma dose extra de gindungo. A Dona Eduarda, sempre serena, no momento que lhe parece oportuno, o que não quer dizer que o seja, apresenta uma visão do mundo, uma visão especial e única. Aquilo que nos conta parece brotar de um saber ancestral, que me é desconhecido, uma espiritualidade que escapa aos cânones, onde nós, os Europeus, nos formamos e informamos. Do topo da sua simplicidade e humildade, fala das coisas mais sérias e também daquelas que o não são, com a vivacidade e o humor que tudo envolve e arrebata.
Traduzir a sua visão do mundo, seria o mesmo que contar em palavras, um sketch dos Monty Python. É tão diferente...

18 agosto 2005

...

vou dar um salto a Coura, essencialmente, para ver o Vítor, o Nick, o Gallo e o Jazz na relva.

16 agosto 2005

fotos de catálogo ref. a-c



Estão num dos jardins da Capital. Hoje não lançaram trigo aos pombos. Comeram a merenda toda e limitaram-se a passear pelo jardim. Ninguém andava por ali num fim de tarde de Agosto.
Ao fundo, no Palácio de Belém, os guardas fazem uma estranha dança para que se lhes não prendam os membros. Não existe a miníma brisa. As coisas estão em silêncio, só os pássaros chilreiam invisíveis e ouve-se o som contínuo de carros a passar numa Avenida ao fundo do jardim. Num bebedouro a água corre para um esgoto. Os bancos estão completamente livres. As sebes estão perfeitamente aparadas, e a relva talvez tenha sido cortada pela manhã. Dois turistas passaram - pareciam contentes. Ambos sorriram para a fotografia. Clic.

12 agosto 2005

só pequenas coisas

Como tudo nasce de pequenas coisas, como as coisas entram em nós e nos fazem felizes, como uma tarde sol, sol na relva ao fim da tarde.

Um mail que continha imagens sugestionadas pelos sons, que o meu querido amigo vítor enviou e um cálice de bushmills, que tive que voltar a encher, tornou-se num pequeno momento de ruborizar a face.

Aqui fica esta partilha de intensidades.


Crónica de um lugar


Café do Senhor António - Praia de Melides

As portas fecharam-se. O ritmo das coisas recusou-se a continuar.
O Pinguim ajeitou-se junto a nós na esplanada improvisada desde sempre. Ajeitava-se enroscado sobre si mesmo no conforto possível que um cão pode obter sobre a areia. Como sempre, do escuro ouvia-se o mar. Lá dentro talvez a Fatinha ainda faça as limpezas. Talvez o Castanho esteja confortavelmente aninhado sob as mesas ou um rato esquivo percorra o beiral. Nós afastamo-nos, recusando um último olhar sobre um lugar importante na nossa construção existencial e condenado a deixar de existir ou a existir para sempre no lugar que atribuímos ao mito, mito das coisas vividas com a intensidade possível dos dias. Este lugar que habita em nós, acontece porque nunca se quis impôr. E talvez o torne especial ser pouco exigente, se ter recusado a olhar para nós a interrogar a nossa verdade. Este lugar nunca quis saber e nós também nunca pronunciamos o nosso apego às coisas sérias que por ali passavam: o senhor que adormecia a ver televisão em frente ao café e ao bagaço, os cães, os gatos e as pulgas que se passeavam perigosamente por todo lado, a infinita panóplia de humanos que por ali populavam e que nas palavras do Senhor António, não eram mais do que guedelhudos, a simpatia contida da Fatinha e o olhar sisudo da sua mãe sentada sempre no mesmo lugar a comer pevides.
Os lugares que habitamos com intensidade transformar-se-ão inevitavelmente em lugares extintos e marcar-nos-ão sensorialmente para sempre, e bem pode o Sr. António carregar as grossas portas de madeira que nos separam do interior que o mito do lugar irá permanecer.
Este lugar extinguiu-se outros estão em vias de surgir.

29 julho 2005

banhos de sol


desenho (1992)

Pois chegou o momento de um homem do interior esquecer (durante alguns dias) a sua montanha e ir a banhos para o litoral.
A água salgada e o sol em bruto também têm o seu interesse. O corpo todo a mostrar-se à luz, a pele a ver-se livre das inúmeras "espinhas" acumuladas ao longo do ano, beber cerveja, olhar o mar e o seu ruído em profundidade. Tudo isto retemperante nos três primeiros dias de boa vida.
Depois... bom, depois ler uns livritos no tasco estrategicamente colocado sobre o areal, olhar em volta só pelo prazer de olhar. Observar a Fatinha a servir cervejas, os alemães (do tipo hippie) a fumar umas ganzas e a beber copos de vinho barato.
O melhor momento do dia:
Fim de tarde no "Café dos Alemães" a olhar a extensa praia (vê-se a Arrábida nos dias mais límpidos), uma ou duas cervejas, um queijinho, a companhia da Carla com quem partilho isto tudo e um suave ruído de fundo numa língua que não conheço mas que me é familiar.
Será isto possível?
Sim. Num certo Alentejo que eu cá sei de há alguns anos a esta parte.


(...) misturemos as bebidas, brindemos à confusão.
Michel Serres, Os Cinco Sentidos

27 julho 2005

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David Hockney, The Fourth love painting, 1961


fascinam-me as propostas condicionais, não porque tenham necessariamente de se cumprir, mas porque se nos impõem, porque são desafios e criam o desconforto necessário para agir.

26 julho 2005

Corpo a corpo com o passado



Tinha a vida em rolos que fui destruindo sem mágoa. Um corpo a corpo suado entre o que fui e o presente. Uma distinta selecção do passado. Destrui tudo sem mágoa nem sensações fortes. Só apagar para sempre, lançar fora uma intensidade vaga de dias distantes.
De uma vez pude resolver vários problemas: abrir espaço na poeira das coisas e libertar-me de espaços reflexivos que já não interessam, partes de mim que já não amo.
Guardei apenas dois rolos, robustos e organizados. Sinto-me leve. Fui capaz de fazer a selecção necessária. Posso recomeçar de outro lugar sem cometer os mesmos erros.
Uma parte do passado reduzida à condição de pó, ou um velho livro abandonado, cujas páginas desfilam abrindo por si quando o vento sopra, e sem que ninguém as leia.

21 julho 2005

reclamações



Este sou eu. A partir de agora, quando houver reclamações, vão ter que dar uma voltinha no labirinto que me define e entrar pela porta das traseiras, que costuma estar apenas presa pelo ferrolho.

20 julho 2005

viagem inaugural


pintura, 1995

Aqui vou arquitectar uma viagem inaugural de sombra e vastidão

no dia dos meus anos recebi de um amigo uma prenda surpreendente. Ou talvez não.



em nós sempre existe algo de inalienável.
Traços profundos que nos caracterizam.
E, simultaneamente, um desejo de mudar.

...

Querias saber porque cheguei tarde. Porque não arrumei a mesa que partilhavamos.
Porque fui jantar fora, quando tinhamos combinado comer apenas uma sopa e uma sande de atum.
Perguntaste porque beijei toda a gente naquela noite de São João, debaixo do Jacarandá, sem que te lembrasses das flores que se desprendiam da árvore e caíam sobre nós, tão serenos e intensos ao mesmo tempo. Tão amantes e tão contraditórios.
Querias saber porque cheguei a casa a cheirar mal. Porque ficou a porta entreaberta a noite toda. Porque não entrei no teu quarto para te beijar...


Senti o fio das palavras destrutivas sem surpresa e como se estas sempre tivessem existido, mas impronunciáveis. Impossibilitadas por um exercício contorcionista da parte do corpo que as produz, pelo rossar na garganta áspera de tanto regurgitar o que sempre se quis dizer e que agora se libertava no espaço covil de querer saber porquê.

um mês depois

um mês após ter abandonado este lugar, olhei para trás e vi algumas coisas práticas resolvidas. Essencialmente, nada de importante. Voltei novamente ao teclado. Não que me sinta obrigado a alimentar este espaço, mas antes porque as teclas me massajam os dedos e eu gosto da urgência das palavras. Mas também por causa daqueles que habitualmente me visitam e me sentem extinto. Não que eu possa assegurar a minha existência aqui, ou, onde quer que seja. Não que eu consiga gravar aqui aquilo que sou ou na pedra o meu nome com os dedos. Não.

18 junho 2005

regresso aos lugares extintos

Fui ao funeral do teu pai e lá estavas tu, de preto, naturalmente. Semblante carregado. Fizeste um suspiro abafado quando te abracei a meio daquilo que poderia ser um grito. Forçamos o abraço por alguns momentos e senti nas mãos a intensidade com que te apertava, e tu a mim. Pensaste que eu poderia não aparecer, e ficaste aliviado quando me viste. Voltaste a sentir pela enésima vez que afinal há pessoas das quais inevitavelmente nunca nos vamos afastar, ainda que muitas vezes pareça, e outras tantas vezes nos sintamos abandonados. Por momentos saíste para a rua, e gracejaste quando passaste por mim: - vou fumar um cigarro lá fora para o meu pai não ver. Pareceste-me alguém muito familiar. Pareceste-me tu. Lembras-te?
Fiquei pouco tempo. Mais tarde senti que deveria ter ficado mais um pouco, não seria necessário falar. Bastava que estivessemos por ali a observarmo-nos sem nos olhar.
Mas não quis ficar mais. Voltamos a dar um abraço forte na despedida e pareceste-me triste por eu me ir embora.

tropeçar no acaso

As coordenadas, os mapas rabiscados nos guardanapos,os esquiços ocasionais, riscos nas letras do jornal, desenhos na contracapa dos livros, as manchas de vinho sobre as palavras... sempre me fascinaram.
Assim como a lista de afazeres para o dia que decorre e criteriosamente riscada nas tarefas cumpridas. E ainda a lista do dia seguinte que repete as tarefas não cumpridas no dia anterior.
Estes testemunhos congelam, por vezes, momentos inesquecíveis, dias raros, dias vulgares, lugares de intensidade, de tristeza, mas tanbém de felicidade.
São lugares de memória, registos que ajudam na construção daquilo que somos ou vias de cintura interna congestionadas.
O vento, os grãos de areia entre os livros, vestígios de protector solar, o marulhar agitado do mar nas páginas de Boris Vian... ou Douglas Coupland.
Notas de rodapé, frases interrompidas por falta de espaço e continuadas na página seguinte. Lombadas desfeitas e livros amarelos do uso e exposição aos elementos.
Quatro ou cinco momentos especiais incrivelmente registados em fotografias e onde nos vemos mais novos, cheios de vida e quem sabe de esperança.
Ocasionalmente palavras sublinhadas nos livros que nos inspiram saudade e nos fazem recuar no tempo aos tropeções e onde encontramos aquilo que muitas vezes já estava esquecido e nem sequer queríamos lembrar.

14 junho 2005

sem tempo

Peço desculpa às pessoas que habitualmente visitam este espaço, mas de momento estou sem tempo nenhum. Para a semana prometo voltar com saborosas crónicas de andar por aí.

De qualquer maneira tenho uma sugestão, que descobri aqui à uns dias, muito interessante e que está a nascer sob a terra.

02 junho 2005

a minha montanha

hoje fiquei de costas voltadas para o verde intenso e primaveril da minha montanha.
Cansei-me da provincia. Renasci cosmopolita.
Recusei as histórias do povo e sobre o povo, e senti que a literatura, como a arte, não se deve encerrar no espaço espartilhado das sensações vagas. E, que o país avança na medida do seu cosmopolitismo e na sua fé profunda em ideias transversais e abrangentes.
Digo-o no dia em que se comemora João de Araújo Correia (escritor alto duriense). Não que recuse o valor intrínseco da sua obra, mas antes na recusa da apropriação vaga e redutora, que facilmente se pode fazer do seu trabalho. Na relação estritamente provinciana que facilmente se faz dos seus escritos, das suas palavras. É que as palavras não são propriedade de uma certa visão do mundo, mas estão ao serviço de quem as explora numa dimensão dilatada.

01 junho 2005

resgatado ao quotidiano III - a bomba



O dia tinha terminado. Estava exausto. Trabalhei seguramente durante dezoito horas.
Passei o dia, como grande parte dos dias da minha curta existência a fazer um trabalho repetitivo, ainda por cima hoje tive que aturar a patroa, que se babava por todos os lados. Eu não sei se sabem, mas trabalho num lugar escuro, sombrio, e a maior parte das vezes húmido. Nas paredes não existem quadros e quase nunca se sonha. Lá onde trabalho, todos nos limitamos a passar silenciosamente uns pelos outros, na melhor das hipóteses esboçamos um impossível sorriso. Somos explorados dia após dia por um poder invisível e despótico. Neste momento estamos a trabalhar num livro, uma edição bastante antiga do Alves Redol. A pior parte é a capa, capa dura, como se faziam antigamente. O meu trabalho hoje foi remover a lombada interna. Por vezes quando pude subir à zona superior da capa olhava o horizonte, mas a vista não era particularmente bonita. Um velho cadeirão com a almofada esburacada e uma janela entreaberta. As paredes estavam negras de tanta humidade e a um canto uns sacos de plástico do Pingo Doce abandonados e com restos de comida. Houve dias em que aparecia alguém para dormir, mas já há quatro dias que é só aquilo vazio. Por vezes o sol entra pela janela e eu fico expectante a imaginar os mundos que não existirão do outro lado. Mas não dura muito. Rapidamente sou forçado a avançar carregado com pedaços de lombada. Durante a noite sonho libertar-me deste mundo constrangedor, colocar uma bomba, destruir o mundo hostil.

25 maio 2005

Resgatado ao quotidiano II - dentro de mim

Das três cartas que te enviei, não respondeste a nenhuma.
Não tiveste tempo.
Trocaste de passeio quando me viste na rua.
Olhaste para o infinito quando estavamos quase frente a frente naquela esplanada.
Valeu um sol de fim de tarde. Uma mágoa dolorosa no peito. E o gin tónico que acabei por beber de golada.
Sorri para outra mesa como se fossem velhos conhecidos.
De lá acenaram-me e dos lábios do puto pude entender as palavras ciciadas: até segunda.
Não tinha por hábito sair aos domingos. Mas hoje não sei, o sol, um odor impossível a maresia fez-me levantar da cama mais cedo que o costume.
E lá estava eu num fim de tarde domingueiro a olhar um rio lento e uma brisa fresca.
Não esperava era encontrar-te.
Mas pronto aconteceu... e depois.
Vou para casa lavar a louça de sábado à noite. Ler um livro para adormecer.
E na segunda lá estarei como se o mundo renascesse de novo.

Resgatado ao quotidiano I - fora de mim

Estou desfocado, estou inquieto. Estou fora de mim.
Deixei de ser feliz nos lugares de sempre.
Não encontro tranquilidade em lugar nenhum.
Vivo no paradoxo de dois mundos distantes.
Sinto-me desconsolado, ameaçado.
Estou sem tempo.
Escrevo mensagens no telemóvel para adormecer.
Acordo como se tivesse levado uma sova.
A vida que sempre me seduziu deixou de me fascinar.
Dou beijos de braços abertos no vento e tenho em troca cagadelas de pássaro.
Não gosto de ninguém.
Estou desfocado, estou inquieto. Estou fora de mim.

Quando alguém se sente assim só pode ter razão.

reunião geral

isto só vai demorar 10 minutos.
Silêncio, por favor.

Trás-os-Montes e Alto Douro


site meter

porque será que as pessoas que visitam o meu blog sempre contribuem para me lembrar o lugar onde vivo?
Não é que eu não seja feliz aqui, mas também gosto do Alentejo.
Caramba! vejam lá se vêm cá todos os dias estou a necessitar de um horizonte mais distante.

24 maio 2005

É uma espécie de

Toquei o negro, flecti o ombro, simulei a entrada no nada.
Ouvi um soluço, um tilintar de vidro partido no chão. Humedeceu-se-me a cara e desatei a correr em frente. Esperei partir-me todo contra qualquer coisa. Caí na água.
Levantei um braço,outro braço e tentei erguer o corpo todo com uma sofreguidão de naufrago. Timidamente abri um olho e depois outro. Observei em volta. Sustive a respiração. Aaaahh…
Toquei um ombro, flecti um braço. Abri a porta, simulei entrar. Ouvi uma voz atrás de mim. Voltei-me. Vi alguém encharcado a caminhar para mim. Afastei-me… ele passou como se não me visse. Tropeçou numa secretária, partiu um copo. O patrão disse-lhe: está despedido.
Timidamente abriu um olho e depois o outro. Olhou em volta e viu alguém. Hesitou entrar. Olhou para mim.

19 maio 2005


Estava atrasado para qualquer coisa. Era noite. Esqueci-me de acender a luz da entrada.
A chave caiu ao chão e eu debrucei-me para a apanhar. Por entre os dedos esfumou-se-me aquele desejo e enfoquei o olhar no negro.
Sentei-me na cadeira de baloiço e olhei um cão que ladrava. Tentei imitá-lo com a autenticidade atribuída aos homens de muita vontade.
Ele replicou sem grande expressão. E eu remeti-me ao silêncio.

17 maio 2005

H.O.L.O.G.R.A.F.I.A

Como se a vida estivesse confinada ao ambiente de trabalho. Um ecrã de 17 polegadas, bem calibradas. Os dias passassem ao sabor da organização de pastas recentes e antigas. As novidades e toda a excitação passasse pelo Outlook e o inovador gmail: o momento mais emocionante do dia. Os anti-vírus e firewalls actualizadissímos. Um novo wallpapper. Amontoar os livros em pilhas para não os ler e os sentir cada vez mais, elementos estranhos. Beber um copo de vinho tirado da silhueta permanente do monitor. Não usar canetas, lápis e outros elementos que correspondam a instrumentos da pré-história da sabedoria humana. O teclado ser uma extensão do corpo. Cada vez mais debilitado. Tudo coisa mental. Tudo direccionado à cabeça. Olhos fixados no ecrã como única possibilidade real de existir, de pensar, de saber. Ligação permanente à Internet, na banda mais larga disponível.

A quebra de rede corresponde ao corte primordial do cordão umbilical.

Percorrer páginas e páginas de informação descontextualizada e acreditar nas possibilidades intangíveis da flexibilidade cognitiva. Estabelecer comunicação via messenger e exclusivamente via messenger. Tocar o teclado apaixonadamente, suprema manifestação da sensualidade. Montar a cama mesmo junto ao desktop e acreditar que um dia o ecrã será uma tela virtual. O espaço holográfico. Um corpo em rede, em comunicação ininterrupta, em relação total com os elementos. Montar três coolers no computador e sentir uma brisa suave e quente. O marulhar permanente do seu funcionamento. As águas de um rio.

15 maio 2005

eram as estrelas, caminhante,
o mapa que não soubeste decifrar
mas vais continuar e continuar
perdido para sempre.

José Luís Peixoto. a criança em ruínas

10 maio 2005

o mundo do vinho



Mondovino, um documentário de Jonathan Nossiter, é um retrato bastante fiel das pessoas ligadas ao mundo do vinho. Trata-se de uma visão ampla do assunto, onde podemos ver o vinho como mercadoria e o vinho como arte. Sobretudo podemos ver tipos humanos: Se os primeiros vendem ou produzem vinho, como quem poderia produzir embalagens para palitos, os segundos integram a criação do vinho na sua própria existência, o discurso destes é aliás sintomático de quão intensa pode ser esta relação - Homem, Vida e Vinho (HVV).
O filme aborda a questão da globalização e do efeito que esta está a ter na harmonização do gosto (do vinho) a nível mundial. A questão é ponderada pelo filme, sem que no entanto seja manifestada uma posição de um ou outro lado. Muitos disseram que o realizador estava do lado da anti-globalização. Francamente não me pareceu que o filme manifestasse essa posição (o risco seria transformar-se num mau filme, ou pelo menos num filme panfletário). A não ser que o facto de o filme ter sido filmado na integra com câmara à mão e num registo bastante turbulento (exagerado por vezes), logo menos convencional, possa ser conotado com um dos lados da barricada.
Eu por mim, embora a massificação do que quer que seja, me dê um arrepio na espinha, penso também que o processo de globalização, apesar de estar por aí e sendo inevitável, não é propriamente um problema de maior - assim haja espaço para todos e assim haja espaço para o meu gosto pessoal. E para já vai havendo. Ou não?

08 maio 2005

Samuel

Samuel tinha 3 horas de vida, uns olhos enormes e vontade de não ser incomodado por ninguém.
Samuel estava a lançar os primeiros olhares para mundo.
Samuel era frágil e ainda não descobriu o interesse de tudo isto.
O que pensa um ser quando nasce?
O que sente?
O que quer?
O que sabe?

haverá tempo, muito tempo para descobrir o segredo...

O pai já decidiu a primeira etapa:
- Quando sairmos daqui (da maternidade) vamos levá-lo a Serralves.

Confesso que me agradou bastante a opção.

03 maio 2005

porquê?

De um documentário sobre as mentes brilhantes de Galileu, Newton, Einstein e Stephen Hawking, que hoje vi na televisão, salta a ideia que o avanço científico está menos relacionado com as respostas que se têm do que com as perguntas que se fazem. Se esta ideia sempre serviu a física e outras ciências, porque não aplicá-la à nossa vida quotidiana e podermos assim também nós colocarmo-nos numa posição mais construtiva da existência.
Claro que esta ideia parece simples e básica como ponto de partida, mas não nos podemos esquecer que também foram sempre as ideias simples e básicas, à partida, que por força do génio humano se transformaram nas grandes e complexas ideias que fizeram avançar a história da humanidade. Para mim que não sou um tipo das ciências talvez comece agora a compreender um pouco melhor as aulas do professor Eurico Carrapatoso (um professor que dá as aulas a perguntar) e quem sabe vir a aplicá-las às artes, quanto mais não seja para ficar de consciência tranquila e poder dizer que as grandes ideias (que na realidade é o que alimenta a alma) não me passaram ao lado.

02 maio 2005

sete palmos de terra



Sete Palmos de Terra voltou ao canal 2 para nos continuar a reconciliar com a vida, com as coisas, com tudo que gira em torno de nós.
Se na maioria das vezes as múltiplas versões do que quer que seja correspondem a um decrescimo de qualidade, neste caso temos estórias que cada vez mais nos continuam a contar o mais precioso, mais belo e intenso da vida.
Durante as próximas treze semanas se houver falta de intensidade existêncial, de uma coisa vou estar certo, nas segundas às 10:30 vou viver um momento intenso.

30 abril 2005

Júlio

Em Agosto de 1998 assisti ao Festival de Paredes de Coura pela primeira vez e por lá fui passando nos anos seguintes por várias razões. Antes de mais, por causa do meu querido amigo Vítor, depois pelos convites que este foi fazendo a mim e à Carla para trabalharmos naqueles três ou quatro dias alucinantes. Mas também porque sempre me senti por lá muito bem e fui sempre extremamente bem recebido, primeiro pela família (tão bonita) do meu amigo em segundo lugar pelos amigos dos amigos que se juntavam à noite para beber umas cervejas no café do Paulo. Um desses amigos que também acabou por se tornar num dos meus amigos foi o Júlio. Confesso que a nossa amizade nunca foi profunda já que apenas nos encontravamos naqueles três ou quatro dias, uma vez por ano. De qualquer forma tivemos longas e boas conversas quantas vezes animadas por umas boas cervejas. Era um ser humano de carácter nobre , bom companheiro e pelo que me pareceu, a tirar sempre bom proveito do facto de estar vivo. Hoje soube da sua morte estúpida e fiquei triste. Mais uma vez a vida e o confronto com a morte nos ensina e nos ilumina sobre a preciosidade de estar vivo e de como nunca nos devemos esquecer de a aproveitar em toda a sua plenitude.

29 abril 2005

jardim suspenso

"Jardins suspensos" (o nome da actual exposição organizada pela comissão instaladora do museu do Douro) é uma bela metáfora para a suspensão da criação à muito aguardada do famigerado Museu. Existem instalações, existe muita vontade, existe trabalho feito e bem sucedido. Parece não existir vontade política. Ou então não há dinheiro (presumo que tenha sido gasto na casa da música).

28 abril 2005

interrogação semanal

se o orçamento da casa da música fosse rigoroso, com uma pequena fração da derrapagem já poderiamos ter o Museu do Douro em actividade. Assim temos uma exposição particularmente bem organizada que se chama "Jardins Suspensos" com um número de visitantes anuais da ordem dos 30.000, que por estar localizada do interior (Peso da Régua) ainda não consegue ver a luz ao fundo do túnel, na gíria regional até se poderia dizer Tonel (recipiente de grandes dimensões usado para armazenar vinho) que dê luz verde (na região conhecida por maduro tinto) para a concretização do já muito bem estruturado projecto.

cultura retro

"Retroescavadoras invadiram monumento nacional no Douro" pode ler-se no Público de 28 de Abril (quinta-feira).
Vemos assim mais uma vez, o património nacional, e no caso, também património da humanidade, abandonado e por consequência vítima da incúria e da falta de cidadania. Desta vez até parece que o mandante é letrado (a grande besta). Temos pois a irresponsabilidade dos organismos oficiais e a bestialidade dos cidadãos de mãos dadas.
São muitas vezes estes os ingredientes que caracterizam o nosso alegre povo.

21 abril 2005

perguntas com livros

Resposta ao talento da mediocridade

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro de capa grossa

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Sim. Zaratrusta e Zenão.

Qual foi o último livro que compraste?
Foi o meu amigo talento da mediocridade que os foi buscar a um alfarrabista da rua das flores: duas edições antigas do Alves Redol – Trilogia do Port Wine I e III, respectivamente, Horizonte Cerrado e Vindima de Sangue.

Qual o último livro que leste?
Até ao fim, foi provavelmente, Vindima de Miguel Torga

Que livros estás a ler?
Bom, para não pregar uma seca a ninguém vou ficar calado

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Seguramente não levava nenhum. Só acredito nos livros quando podem ser partilhaveis.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Talvez ao meu amigo português suave amarelo, já que os restantes amigos bloguistas já responderam ao questionário.

19 abril 2005

uma parte de mim


Alice Geirinhas

Uma parte de mim tem "necessidade" de acreditar nas teorias educacionais.

16 abril 2005

confesso que nunca li Agustina...

... a não ser pelo olhar de Manoel de Oliveira: o belíssimo "Vale Abraão", "O Covento" e o assombroso e viscontiano "Party".
Hoje, um excelente documentário na 2, revela um ser humano amplo e irreverente, que a páginas tantas, quando alguém que não a conhecia lhe perguntou como era a sua escrita, respondeu: "escrevo mais ou menos como o Dostoyevski".
Agustina Bessa-Luís tem uma obra "monstra" no panorana nacional e mesmo internacional, ela própria diz, que se numa determinada fase da sua vida tivesse ido para França, como quase poderia ter acontecido, seria uma grande escritora de língua francesa. Esta falta de humildade está-lhe no sangue e é intrinseca à sua própria personalidade controversa e quantas vezes excessiva. Ela diz ainda, que não se leva muito a sério, considerando que essa seria uma forma de estar, que a colocaria em inferioridade perante a vida. Temos assim um ser humano em toda a sua magnitude a assumir um papel claro, transparente e... lúcido!
Do documentário salta esta frase: "Eu gosto tanto de si, que um dia até sou capaz de ler um dos seus livros".
Perfeitamente adequado para o autor deste post.

15 abril 2005

Recordações de uma amoreira ou os dias com árvores

Lembro a Estrada Nacional n.º 2, em Santa Marta de Penaguião, com o pavimento carcomido e um carro a passar de 5 em 5 minutos.
Lembro um chão negro e um cheiro adocicado de fruta madura.
Lembro uma amoreira imponente e inalcançável, mesmo para as travessuras de um puto de 8 anos.
Lembro o desejo de a trepar para lhe descobrir o segredo e o sabor da fruta nos lugares mais altos.
Lembro o Estio abrasador e seco.
Lembro a minha tia, já velhinha, a pontear umas meias na soleira da porta, com um óculos redondinhos e a lançar-me um sorriso carinhoso quando me via a entrar pelo portão. Até parece que ainda sinto o seu colo.

Persona


Ingmar Bergman, Persona (1966) - na imagem Bibi Andersson e Liv Ullmann

Se eu quisesse escrever sobre este filme todas as palavras seriam necessessariamente redutoras.
Por isso, veja-se, reveja-se e volte-se a ver.

13 abril 2005

Interior intenso com Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral

Aqui há uns dias interrogava-me acerca da questão interioridade/urbanidade a propósito de um post acerca da revista “Periférica”. Hoje chegou até mim e sem esforço um esboço de reflexão sobre o assunto.

Por razões profissionais e com enorme prazer, tive com alguns colegas de trabalho, um encontro com dois vultos da cultura portuguesa, respectivamente, Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral. Tal encontro decorreu primeiro num agradabilíssimo almoço a que se seguiu um revelador encontro de Graça Morais com alunos da Escola Secundária João de Araújo Correia, no Peso da Régua. E digo revelador pois Graça Morais, igual a si mesma e à sua pintura falou aos alunos e respondeu às suas perguntas com a autenticidade que lhe é característica, na obra que eu já conhecia, e que agora se me revelou também no seu olhar e na personalidade afável e disponível que pude conhecer.

Posso dizer que conheço razoavelmente bem a obra da pintora, ao contrário da obra do músico e compositor Pedro Caldeira Cabral, reputado especialista em guitarra portuguesa e também ele com um percurso artístico notável.

Graça Morais é natural de Vieiro, uma aldeia trasmontana perto de Vila Flor e a sua obra é um excelente exemplo da relação que se pode estabelecer entre o cosmopolitismo e a ruralidade. Com uma já longa carreira e uma assinalável notoriadade, a sua obra desde sempre reflectiu esse microcosmos que é a sua aldeia natal, mas que numa visão mais alargada se pode considerar a visão de uma certa ruralidade nacional. Talvez não exista em Portugal exemplo tão feliz, profundo e intenso dessa interpretação antropológica do Portugal interior.

O traço de Graça Morais é forte, quase masculino, se é que os traços têm sexo, e terá na sua génese, a influência dos expressionismos do início de século, a multiplicação/fragmentação da realidade de um Picasso ou mesmo as transparências e realismo mágico de Francis Picabia.

Particularmente interessante foi o encontro com os adolescentes interessados em ouvir o que a artista tinha para dizer e para os quais Graça Morais se disponibilizou para responder a todas as perguntas que estes lhe colocaram. Não pude deixar de notar a humildade sábia de quem alcançou um lugar de destaque na arte portuguesa, o sorriso bonito e toda a disponibilidade do mundo, que é apanágio de quem fez uma boa construção existencial e não chegou lá por acaso.

09 abril 2005

nos dias tranquilos (para um amor sem limites)

Olhava-te timidamente nos gestos mais simples. Tinha pudor de te olhar no lugar do sexo e até os teus braços suados de fim de tarde. O sopro das tuas palavras maravilhava-me, os teus gestos contidos, a tua inocência virginal de quem não se sente observado. Vi-te energia pura e aprendi a descobrir-te degrau a degrau, como quem sobe sem pressa aquela escada desdobrável que me permite uma arrecadação exemplarmente organizada.
Quando saíste eu já não estava lá, antes te organizava, no lugar que decidi atribuir às coisas belas.

Aos meus amores (fragmento de um discurso amoroso)

08 abril 2005

nos dias tranquilos

Hoje vi-te num silêncio explosivo.
Saltaste da cadeira e correste vermelho como um touro para ela.
Com toda a força do mundo, levantaste-a junto com a cadeira e derrubaste-a sobre as mesas.
Penso que te vi possesso de um amor visceral, genuíno e adolescente.

05 abril 2005

não sei


Edward Hopper

Esta pintura sobejamente conhecida do Hopper fascina-me há alguns anos, de tal forma que tenho algum receio em confrontar-me com ela num museu. É que a pintura é sob o meu ponto de vista uma arte não reproduzível.
Tenho alguns exemplos de fascínio pela reprodução e desilusão no confronto directo com a obra. Mas também tenho exemplos do contrário. É o caso do déjeuner sur l'herbe do Manet.


Edouard Manet

Como estão aqui perante duas reproduções, este post... não sei!

02 abril 2005

se não tivesse tanta dificuldade em sair de casa, talvez fosse um grande viajante

Fico particularmente mal disposto nas partidas, o que só é superado quando a ideia de voltar se torna demasiado penosa ou já sem sentido. Estar longe apaga todos os fantasmas e permite ter a sensação de a qualquer momento poder viver outra vida. A realidade é para quem viaja particularmente volátil, sempre novos caminhos... tantos caminhos.

de uma viagem

De uma viagem também nos podem ficar vazios, nadas, olhos vermelhos de procurar.
De uma viagem sempre podemos reter, um momento límpido, que não será um monumento nem uma ruina, que não será um museu nem uma cidade...
De uma viagem sempre nos fica a nostalgia de ter chegado ao fim.

28 março 2005

27 de Julho de 1973. 18:31:43


composição sobre um desenho de João Rodrigues
uma vinha.uma árvore.alguém por perto

25 março 2005

No cinema...

No cinema…
uma das coisas que me fascina são os hiatos temporais que apagam tudo que é supérfluo.

Por outro lado…
também me agrada quando o realizador quer dizer-nos que aquilo que é infímo e parece não ter importância é um factor decisivo, não só na narrativa, como no processo vivencial que constrói os personagens.
Há um cinema que nos quer ocultar os hiatos temporais e mostrar-nos o processo existêncial passo a passo. O grande Kiarostami pode ser um dos exemplos paradigmáticos.

Gosto particularmente…
quando num filme o personagem inicialmente de costas para a câmara de repente se volta e firma um olhar revelador. Nesse preciso momento a câmara subjectiva (o olhar do mesmo personagem) encontra aquela plenitude, a revelação do encontro com algo que possamos considerar fundamental: um profundo desejo de mudança ou uma brisa que agita uma flor.

19 março 2005

sol raiano

É-me muito difícil falar daquilo que fui. Dos livros que li, os filmes mais especiais, os momentos intensos, os excessos que vivi.
Quase me recuso a reflecti-los.
Quem me encontrar terá sido por acaso. Um acaso feliz ou um desencontro.
Quando publico (posto) tenho um espelho na mão que por força da verdade só pode reflectir-me a mim, nas misérias e nas virtudes de ser-se humano.
Quem me quiser, vá à fronteira ou ao planalto, onde o sol do fim de tarde é uma laranja e o desejo é de infinito.

18 março 2005

periferias



Certamente muitos já terão visto por aí nas bancas a revista Periférica, da qual aliás eu sou assinante desde o primeiro dia. Primeiro por solidariedade regional e depois por me parecer um “pontapé” bem assente na interioridade onde nada parece acontecer, mas onde ao mesmo tempo também tudo acontece num ambiente certamente mais saudável (refiro-me literalmente ao ambiente) do que na urbanidade cosmopolita e “avançada”.
Desta revista se pode dizer que é para ler, o caracter miudinho e o texto denso afasta qualquer leitor apressado. Pode ainda dizer-se que tem um grafismo à altura. Quem a vê pela primeira vez dificilmente dirá que esta é escrita, produzida e reproduzida em pleno Trás-os-Montes (tal é a visão que se tem do interior). O único elemento delator da sua interioridade talvez seja mesmo a publicidade de página inteira que muitas vezes pelo seu grafismo “pitoresco” mais parece um sarcasmo da irreverente revista do que algo para levar a sério. Mas claro, estes projectos têm custos.

No entanto, e apesar de tudo que foi dito, tenho com a “Periférica” uma relação de amor/ódio.
É uma revista do interior que sistematicamente pisca o olho à urbanidade cúmplice, vejam-se as acções de lançamento realizadas em lugares da moda, na capital. Até aqui, tudo bem. Pior é quando por vezes os textos roçam a erudição hermética e afectada, a começar nos editoriais, que são escritos por quem realmente não acredita no interior. Francamente não sei como me relacionar com este facto, já que também eu próprio apesar de ser e viver no interior, tenho sob muitos aspectos uma grande dificuldade em me relacionar com ele. Mas que não gosto nada, lá isso não gosto.
É uma revista do interior, que no fundo o despreza e o minimiza e onde o ser-se construtivo ou até didáctico não tem espaço.
Francamente penso que esta revista, do interior, só tem mesmo o nome da aldeia onde é produzida (Vilarelho – Vila Pouca de Aguiar) e a ficha técnica, já que o seu público privilegiado e mesmo assim minoritário, é urbano, não havendo nela nada, ou quase nada, que reflicta a interioridade, à excepção, claro, da publicidade!

16 março 2005

Sideways



Não me parecendo a mim um exercício cinematográfico excepcional, "soube-me muito bem" ver esta história de amizade e inquietação existêncial. O vinho surge neste filme como a perfeita metáfora da "coisa viva" e inquieta. Um dos personagens diz, mais ou menos desta forma: "dentro de uma garrafa está um produto vivo. Um vinho nunca é igual em dois momentos diferentes". Tal como os estados de "alma" humanos.
Talvez por viver numa região que produz vinho e de partilhar com os personagens deste filme o prazer de o beber, talvez por existirem aspectos de identificação pessoal com um dos personagens, saí do cinema com um sorriso cumplice e uma grande vontade de beber um copo de vinho de forma ainda mais atenta que o costume.

11 março 2005

11.03.2004.MADRID




Acordamos no dia 11 de Março de 2004, faz hoje um ano, convictos da vulnerabilidade da existência e limitações humanas. Acordamos com um "soco" no estômago e sustivemos por um segundo a respiração para logo a seguir entendermos a inevitabilidade de já nada podermos fazer. Quisemos ir para a rua gritar, mas não o fizemos. Ficamos revoltados, mas não fizemos mais que ficar chocados com a catadupa de imagens que nos entravam pelos olhos e pela "alma" a todos os segundos, num continuum constrangedor de estarmos parados. Charles Darwin disse um dia: "Nenhum facto na longa história do mundo é tão chocante como os amplos e repetidos extermínios dos seus habitantes". Esta frase lapidar é verdade a cada instante, mas neste dia foi mais verdade, porque a morte estava mais perto, muito mais perto.

06 março 2005

paralelo 36


http://www.zemos98.org/festivales/zemos987/prezemos/vie101204.htm
[largometraje-documental]
"Paralelo 36, de José Luis Tirado - Zap Producciones 2003-2004 - 70 min.
Documento y ficción en la frontera sur de Europa
El Paralelo 36 es una línea imaginaria en un mapa, a la vez que un espacio real en el que transcurre el viaje de la emigración clandestina en el Estrecho de Gibraltar. En Paralelo 36 los protagonistas son los emigrantes: documento y ficción, gestos y palabras, sueños y deseos. Paralelo 36 es un relato, un cruce de micronarrativas que cartografían la frontera sur de Europa."

No mínimo muito curiosa esta coincidência.

05 março 2005

chocapic

Hosted by Photobucket.com

Os ovos e o bacon eram considerados na sociedade americana de finais do século XIX, alimentos afrodisíacos conducentes à masturbação. Para refrear os hábitos "perversos" dos "bons americanos" o senhor Will Keith Kellogg criou os agora muito famosos Kellogg's. No sítio da empresa refere-se que o senhor Kellogg acreditava que a "dieta" era um factor muito importante para um estilo de vida saudável e que o pequeno almoço era a refeição mais importante do dia. Será que alguém acredita nesta "dieta"?

Eu por mim prefiro Chocapic.

23 fevereiro 2005

sem dúvidas

Por vezes perguntam-me se o personagem que tantas vezes aparece nas fotografias corresponde ao autor deste blogue.
Definitivamente não. E para que não haja dúvidas vou tentar esclarecer a situação, até porque não quero que andem por aí a dizer que sou narcisista.
O dito modelo/personagem é o namorado da minha querida amiga CC que assina algumas das fotos que por aqui vão passando e posso até dizer-vos de fonte segura, que se não fosse o talento fotográfico da minha amiga o "careto" do barbudo não estaria assim tão favorecido.

esquerda

foto de CC

Já me sinto melhor do meu lado esquerdo.

O que significam as coisas fora do seu contexto?
Pois é, significam outras tantas coisas.

Fico sempre espantado com o processo comunicativo e com alguma aragem.

bla! bla! ou talvez não

foto de CC com tratamento de JAM


Nas boas metáforas cabem todas as ideias do mundo, são obras abertas para livres pensadores.

13 fevereiro 2005

inclinação natural?

Hoje, acordei com uma uma visão inclinada de mim.

Fiquei atento no silêncio a tentar ouvir o sangue nas veias, mas desisti intimidado ao dar-me conta da precaridade de existir.

Tudo se complicou: eu quero ser eterno.

Mas o meu verdadeiro problema é acordar todos os dias inclinado.

Estou sempre seguramente dois ou três dias para me conseguir endireitar. Às vezes é um verdadeiro tormento.

Arranjei uma estaca, daquelas que se usam para manter os feijões "encaminhados". Foi uma sorte, assim descanso bastante a minha perna esquerda. Estava a sofrer muito da minha perna esquerda. Não fosse aquela ideia da estaca que o amigo Gonçalves me deu e...

De resto está tudo bem. Não tenho filhos, o empregozito é seguro e as pessoas fazem um esforço para gostar de mim.

Vou confessar-vos uma coisa... na realidade as pessoas não só gostam de mim como me adoram, não fazem outra coisa que não seja saber coisas acerca de mim. Tanto, que a minha mãe deixou de trabalhar, e agora passa os dias na mercearia da Mariazinha, a falar de mim, dos meus feitos, dos meus actos de bravura, da luta titânica que continuo a ter com a minha inclinação natural de acordar inclinado.

Para ser franco nem entendo esta obsessão que as pessoas têm por mim!

Tenho-me interrogado e cheguei à conclusão que a razão do meu sucesso existêncial é a minha inclinação natural para as coisas simples: o natal, a família, a integração social absoluta e claro, ver televisão na diagonal (literalmente).

03 fevereiro 2005

Contos minúsculos*

Muitas vezes se confunde o verdadeiro viajante com aquele que simplesmente entra num avião ou no carro e se desloca para um determinado destino. Viajar não corresponde unicamente ao movimento perceptível da pessoa que vai de um lugar para outro, nem tão pouco existe um único conceito de viagem. Fernando Pessoa viajava dentro do seu próprio quarto, para Pavese era, simplesmente, “uma brutalidade”. Para Kerouac era alienação pura.

O verdadeiro viajante não é um turista, o verdadeiro viajante é um ser interrogativo e diletante. Desafia as normas e os conceitos pré-estabelecidos e não lhe interessa o lugar de chegada mas antes as nuances do seu percurso. O verdadeiro viajante só existe sem roteiro.

* Leia-se o post do meu querido amigo talento da mediocridade

01 fevereiro 2005

o palácio da sabedoria

Estive cerca de dez dias à espera que a barba me crescesse o suficiente
para ser sábio.
Esperei todos os dias ansiosamente...
Olhar o espelho logo pela manhã tornou-se tão frequente que quase
deixei de me ver (estava concentrado no crescimento da barba).
Os dias foram passando!
... e a barba cresceu.
Quando já sabia tudo (ao décimo dia), num momento de excesso resolvi cortá-la...

28 janeiro 2005

tudo que te disse

Tudo que te disse acerca de répteis e tubarões era verdade.
Tenho-o comprovado dia após dia e repetidamente no canal dois.
Quando a realidade me agride fico perplexo e reconfortado
por viver num mundo onde não existem tubarões tigre nem cobras venenosas.
Por aqui o veneno é outro... tem dimensão humana e quantas vezes não deixa
um homem à procura de um antidoto.

26 janeiro 2005

divagação


foto de CC

Observar meticulosamente um aspecto da realidade pode não corresponder a uma necessidade fundamental do indivíduo que observa.
Estou envolvido num estudo que de tão específico e meticuloso me remete para o perigo sempre eminente de não me entender a mim mesmo e de estar a construir coisa nenhuma.
É um abismo que me afasta do que me é essencial e se afirma num academismo sem precedentes na estória da minha existência.
Sem espontaneidade, sem disponibilidade mental para a arte e sem divagação.
Sinto-me esfomeado...
... de intensidade, de diletância, de paixão, de arrebatamento, de arte... e sobretudo de viajar.

19 janeiro 2005

mais um pormenor

O pormenor é um exercício de análise da realidade,
e porque nos surpreende, revela a acutilância
do nosso olhar e uma certa intensidade de viver.
Viver sem pormenores seria insuportável.

só um pormenor por ser inverno e frio

Tenho duas moscas na minha cozinha.
No dia anterior tinha-as visto em alegre carrocel em volta da lâmpada, testando mutuamente a sua perícia na arte de bem circular.
Hoje, uma está parada no bordo do candeeiro, enquanto a outra se arrasta encharcada pelo lava louça.
Em breve haverá apenas uma única mosca na minha cozinha.

outro pormenor

Hoje ao jantar via as notícias da SIC.
Tive uma certa dificuldade em "engolir" a ideia de que em
cada três segundos morre uma pessoa com fome no mundo.

16 janeiro 2005

Dr. Bayard



Os míticos rebuçados do Doutor não tiveram até agora o efeito desejado!

10 janeiro 2005

sem intensidade

Tenho nos últimos tempos sentido uma falta abissal de intensidade existêncial.
Raramente me surpreendo e tudo vai acontecendo sem surpresas de maior.
Uso o humor no processo vivêncial.
Perdi algum sentido crítico e vejo-me mesmo a caminhar por um túnel perfeitamente iluminado.
Toco muitas vezes o peito a ver se o coração ainda bate.
Acordo pela manhã sem surpresas e crente que a higiene pessoal sempre existiu.
Vivo o resto do dia com uma relativa leveza e chateio-me menos do que nunca com as pessoas do costume.
Hoje acordei de cabeça virada para o fundo da cama e achei perfeitamente natural.
Nada se me afigura de difícil resolução e os dias passam a uma velocidade estonteante.
Olho para o mundo e tudo me parece perfeitamente natural.
Qualquer dia plantam-me no chão e eu vou querer dar frutos.
Perfeitamente natural!

04 janeiro 2005

mudar de vida ou o carácter

mudar de vida - traços de carácter

Sempre tive uma certa dificuldade em comemorar o que quer que seja. Começa com o dia dos meus anos e passa pelos natais, anos novos e outros que tais.
Já tentei várias vezes, sem sucesso, alterar este estádio de introspecção forçada em que me vejo envolvido no decorrer destas festividades com lugar assinalado no calendário.
Quis mudar de vida, sem sucesso!
Reveillon em
Galicia a torcer o nariz à festividade de Ano Novo e a disparar mau humor em todas as direcções. Puxei da cigarrilha... e zás, alapado em frente ao televisor durante horas, seguido de sono profundo e retemperante.
Às vezes sou invadido por esta espécie de loucura a que o meu amigo Vítor, sempre com a explicação dos factos na ponta da língua, chamaria de, traços de carácter inerentes ao ser humano e definidores da sua identidade.


29 dezembro 2004

caminhar para onde


douro 2003 (Santa Marta de Penaguião)

acusaram-me de este blogue corresponder mais a uma certa urbanidade do que a um blogue de interior, como está nas premissas da sua criação.
Forçado a concordar parcialmente com esta ideia, aqui vai uma imagem em jeito de
tentativa de redenção.

...de qualquer maneira, é sabido que temos tendência a reflectir aquilo de que estamos mais afastados em desproveito do que nos está mais próximo.
E depois, tenho tendência para ser mundano e entender as coisas da vida como um todo organizado e inseparável.

Agora que um novo ano vai começar, a mão sábia desta imagem aponta um caminho a percorrer. Que seja o inefável e abstracto caminho de quem o queira trilhar.

Árvores


Douro 2004 - foto de cc

Dias e dias a olhar as árvores


25 dezembro 2004

fotos no natal

O Natal é sempre um bom momento para ver fotos antigas.
E Este Natal não foi excepção.
Emocionou-me ver aquelas pessoas que fizeram parte da minha vida, mas que já cá não estam para partilhar o acto de viver. E emocionou ver-me a mim mesmo num corpo franzino a sorrir como se fosse feliz.
A fotografia como arte da ilusão pode enganar-nos se estivermos pouco atentos ou formos apenas observadores não intervenientes da realidade fotografada.

Estórias da vida e da morte

É sempre inquietante ver pessoas mortas e ainda mais inquietante se torna, quando essas pessoas estão num caixão vestidas com o melhor fato e com a serenidade no rosto de quem dorme um sono profundo e apaziguador.
Em volta, a família reunida fala de morte e evita olhar o defunto.
Neste caso, e por momentos, pareceu-me uma família harmoniosa e quase vislumbrei um estranho bem estar geral. Para trás pareciam ter ficado anos de picardias e invejazinhas, de muitas carvalhadas apregoadas uns aos outros.
Ontem foi diferente. Respirava-se uma paz e um silêncio irreal, havendo mesmo lugar para uma piadazinha inofensiva da minha mãe, que colocou toda a gente com um impossível sorriso de aprovação no rosto.
- Pois é, Deus fez-lhe um favor. Estava a sofrer tanto. E mais a mais ninguém cá fica.
E foram nomeando um a um a idade que tinham.
Os meus tios e tias já têm uma idade jeitosa e o que sei da maioria deles é que realmente nunca se entenderam ao longo da vida. Viveram sempre de costas voltadas uns para os outros. Aqui no lugar da morte pareceram ganhar a intimidade e a cumplicidade das crianças que brincavam no pátio. Foi um momento de felicidade e partilha de afectos à sua maneira.
Na minha família as pessoas juntam-se para morrer o que na minha opinião tem tanto de estranho quanto de clara afirmação da rudeza* de carácter que os caracteriza.

* rudeza não tem neste caso um sentido pejorativo, bem pelo contrário, trata-se de uma intimidade relacional com as suas estórias de vida e com os lugares que sempre habitaram. Uma harmoniosa relação com os elementos naturais que hoje qualquer um de nós apenas pode intuir.

21 dezembro 2004

Pelos olhos passeiam imagens

invisibilidade

daqui para Elsinore

do ponto de vista teórico entristecem-me as possibilidades ontológicas
Elsinore

As camas são lugares espirituais


Ermesinde 1999?



Canção da errância

Eu sou o irregular o vagabundo o erradio

eu sou da errância e da distância e da errática

e proibida margem de outro rio.

Haverá sempre em mim a linha matemática

e a gramática secreta do Padre António Vieira.

A minha terra é sempre em terra estranha

quem me quiser procure na fronteira

eu sou de algures entre o azul e a Espanha.

Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”

O abraço

Tudo começa com o aconchego do feto,
...depois, com os repetidos abraços das mães, das tias , dos avós e de todos aqueles que depositam em nós uma profunda esperança. Um abraço de todos aqueles que já esqueceram a importância real do abraço e nos transmitem, quantas vezes sem saber, um conhecimento primordial que vai marcar o resto dos nossos dias.
Abraçar é uma das mais importantes manifestações humanas.
Abraçar é ter esperança que o mundo vai ser melhor;
Abraçar é redescobrir o prazer de viver.

O abraço é uma profunda manifestação de amor



Senti a vontade de te abraçar, e assim foi... abraçei-te como se fosse a última vez e soube que seria para sempre. O abraço corresponde a este pacto a esta necessidade profunda de seres humanos.

Se hoje não abraçaste ninguém... procura...
...o blog está a absorver-te demasiado tempo e nunca saberás se essa foi a melhor solução.


tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac

17 dezembro 2004

Cartão de Natal (para não fumadores)


Um colega e amigo enviou-me este excelente cartão de Natal, como não poderia deixar de ser partilho-o aqui com o mundo todo em verdadeiro espírito natalício.
Dedico esta imagem áqueles que deixaram as salas de fumo (não é o meu caso, continuo a gostar do nevoeiro) e se dedicaram de corpo e alma à goma e a outras actividades que esta imagem tão bem sugere.