30 agosto 2005
este blogue
Está confuso, de gosto duvidoso, demasiado pessoal, por vezes "broeiro", outras vezes sensorial. De quando em vez sentimental, outras confessional.
Este blogue deve ser meu.
lavagem automática

Foto manipulada. Origem: www.skins.be
Depois das férias e do pó das coisas, nada melhor que a lavagem automática para iniciar o ano de trabalho com o carro limpinho.
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26 agosto 2005
feelings

Como diz a minha amiga de Elsinore "If you realy want to know, this is how I feel"
Tenho a pinã virada do aveso.
O interior é uma massa indistinta de problemas de servidor, passwords erradas, cagadelas de pombo e o respectivo mecanismo dissuasor, ensino cooperativo apoiado por computador, estudo de campo...
Enfim, os ultrasons estão a acabar comigo.
23 agosto 2005
Um dia em Paredes de Coura

O Jazz na Relva foi muito bom... como sempre, num fim de tarde com o sol já muito oblíquo e a esconder-se no horizonte. Um rio muito calmo a reflectir o céu e muita gente descontraída. Um cheirinho a erva queimada no ar e umas cervejas aqui e acolá. No palco gente interessante, a fazer da música uma das suas mais valias - divertimento.
Pela noite, só foi possível assistir a três dos cinco concertos previstos, Os extremamente banais, Juliette & The Licks, o poder de comunicação, comunicação inteligente e sedutora do Vincent Gallo e o Nick Cave & The Bad Seeds, que estiveram excelentes nos primeiros três quartos de hora. Aqui, Gritei, fiz coro e esperneei tanto quanto foi possível - o necessário para sentir que valeu a pena.
22 agosto 2005
Dona Eduarda
A Dona Eduarda terá uns sessenta e poucos anos, nasceu em Angola, onde conheceu um português, também ele muito peculiar. Muitos anos passados, vive em Portugal e grangeou em torno de si uma prole muito especial. Todos os anos vou a sua casa pelo Verão, a convite de um amigo e agora seu genro, comer o "Funge" e também todos os anos venho de lá encantado com a espiritualidade, poder de sedução e forte personalidade, daquela senhora simples e bem disposta. Os jantares são irrepetíveis, em particular quando se junta toda aquela família extrema a surprender-nos a todo o momento, com as histórias mais hilariantes, histórias de "partir o coco" a rir. O "Funge", um pitéu tipicamente angolano, é excelente, principalmente quando condimentado com uma dose extra de gindungo. A Dona Eduarda, sempre serena, no momento que lhe parece oportuno, o que não quer dizer que o seja, apresenta uma visão do mundo, uma visão especial e única. Aquilo que nos conta parece brotar de um saber ancestral, que me é desconhecido, uma espiritualidade que escapa aos cânones, onde nós, os Europeus, nos formamos e informamos. Do topo da sua simplicidade e humildade, fala das coisas mais sérias e também daquelas que o não são, com a vivacidade e o humor que tudo envolve e arrebata.
Traduzir a sua visão do mundo, seria o mesmo que contar em palavras, um sketch dos Monty Python. É tão diferente...
18 agosto 2005
...
16 agosto 2005
fotos de catálogo ref. a-c

Estão num dos jardins da Capital. Hoje não lançaram trigo aos pombos. Comeram a merenda toda e limitaram-se a passear pelo jardim. Ninguém andava por ali num fim de tarde de Agosto.
Ao fundo, no Palácio de Belém, os guardas fazem uma estranha dança para que se lhes não prendam os membros. Não existe a miníma brisa. As coisas estão em silêncio, só os pássaros chilreiam invisíveis e ouve-se o som contínuo de carros a passar numa Avenida ao fundo do jardim. Num bebedouro a água corre para um esgoto. Os bancos estão completamente livres. As sebes estão perfeitamente aparadas, e a relva talvez tenha sido cortada pela manhã. Dois turistas passaram - pareciam contentes. Ambos sorriram para a fotografia. Clic.
12 agosto 2005
só pequenas coisas
Como tudo nasce de pequenas coisas, como as coisas entram em nós e nos fazem felizes, como uma tarde sol, sol na relva ao fim da tarde.
Um mail que continha imagens sugestionadas pelos sons, que o meu querido amigo vítor enviou e um cálice de bushmills, que tive que voltar a encher, tornou-se num pequeno momento de ruborizar a face.
Aqui fica esta partilha de intensidades.
Crónica de um lugar

Café do Senhor António - Praia de Melides
As portas fecharam-se. O ritmo das coisas recusou-se a continuar.
O Pinguim ajeitou-se junto a nós na esplanada improvisada desde sempre. Ajeitava-se enroscado sobre si mesmo no conforto possível que um cão pode obter sobre a areia. Como sempre, do escuro ouvia-se o mar. Lá dentro talvez a Fatinha ainda faça as limpezas. Talvez o Castanho esteja confortavelmente aninhado sob as mesas ou um rato esquivo percorra o beiral. Nós afastamo-nos, recusando um último olhar sobre um lugar importante na nossa construção existencial e condenado a deixar de existir ou a existir para sempre no lugar que atribuímos ao mito, mito das coisas vividas com a intensidade possível dos dias. Este lugar que habita em nós, acontece porque nunca se quis impôr. E talvez o torne especial ser pouco exigente, se ter recusado a olhar para nós a interrogar a nossa verdade. Este lugar nunca quis saber e nós também nunca pronunciamos o nosso apego às coisas sérias que por ali passavam: o senhor que adormecia a ver televisão em frente ao café e ao bagaço, os cães, os gatos e as pulgas que se passeavam perigosamente por todo lado, a infinita panóplia de humanos que por ali populavam e que nas palavras do Senhor António, não eram mais do que guedelhudos, a simpatia contida da Fatinha e o olhar sisudo da sua mãe sentada sempre no mesmo lugar a comer pevides.
Os lugares que habitamos com intensidade transformar-se-ão inevitavelmente em lugares extintos e marcar-nos-ão sensorialmente para sempre, e bem pode o Sr. António carregar as grossas portas de madeira que nos separam do interior que o mito do lugar irá permanecer.
Este lugar extinguiu-se outros estão em vias de surgir.
29 julho 2005
banhos de sol

desenho (1992)
Pois chegou o momento de um homem do interior esquecer (durante alguns dias) a sua montanha e ir a banhos para o litoral.
A água salgada e o sol em bruto também têm o seu interesse. O corpo todo a mostrar-se à luz, a pele a ver-se livre das inúmeras "espinhas" acumuladas ao longo do ano, beber cerveja, olhar o mar e o seu ruído em profundidade. Tudo isto retemperante nos três primeiros dias de boa vida.
Depois... bom, depois ler uns livritos no tasco estrategicamente colocado sobre o areal, olhar em volta só pelo prazer de olhar. Observar a Fatinha a servir cervejas, os alemães (do tipo hippie) a fumar umas ganzas e a beber copos de vinho barato.
O melhor momento do dia:
Fim de tarde no "Café dos Alemães" a olhar a extensa praia (vê-se a Arrábida nos dias mais límpidos), uma ou duas cervejas, um queijinho, a companhia da Carla com quem partilho isto tudo e um suave ruído de fundo numa língua que não conheço mas que me é familiar.
Será isto possível?
Sim. Num certo Alentejo que eu cá sei de há alguns anos a esta parte.

(...) misturemos as bebidas, brindemos à confusão.
Michel Serres, Os Cinco Sentidos
28 julho 2005
27 julho 2005
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David Hockney, The Fourth love painting, 1961
fascinam-me as propostas condicionais, não porque tenham necessariamente de se cumprir, mas porque se nos impõem, porque são desafios e criam o desconforto necessário para agir.
26 julho 2005
Corpo a corpo com o passado

Tinha a vida em rolos que fui destruindo sem mágoa. Um corpo a corpo suado entre o que fui e o presente. Uma distinta selecção do passado. Destrui tudo sem mágoa nem sensações fortes. Só apagar para sempre, lançar fora uma intensidade vaga de dias distantes.
De uma vez pude resolver vários problemas: abrir espaço na poeira das coisas e libertar-me de espaços reflexivos que já não interessam, partes de mim que já não amo.
Guardei apenas dois rolos, robustos e organizados. Sinto-me leve. Fui capaz de fazer a selecção necessária. Posso recomeçar de outro lugar sem cometer os mesmos erros.
Uma parte do passado reduzida à condição de pó, ou um velho livro abandonado, cujas páginas desfilam abrindo por si quando o vento sopra, e sem que ninguém as leia.
21 julho 2005
reclamações

Este sou eu. A partir de agora, quando houver reclamações, vão ter que dar uma voltinha no labirinto que me define e entrar pela porta das traseiras, que costuma estar apenas presa pelo ferrolho.
20 julho 2005
viagem inaugural

pintura, 1995
Aqui vou arquitectar uma viagem inaugural de sombra e vastidão
no dia dos meus anos recebi de um amigo uma prenda surpreendente. Ou talvez não.

em nós sempre existe algo de inalienável.
Traços profundos que nos caracterizam.
E, simultaneamente, um desejo de mudar.
...
Querias saber porque cheguei tarde. Porque não arrumei a mesa que partilhavamos.
Porque fui jantar fora, quando tinhamos com
Perguntaste porque beijei toda a gente naquela noite de São João, debaixo do Jacarandá, sem que te lembrasses das flores que se desprendiam da árvore e caíam sobre nós, tão serenos e intensos ao mesmo tempo. Tão amantes e tão contraditórios.
Querias saber porque cheguei a casa a cheirar mal. Porque ficou a porta entreaberta a noite toda. Porque não entrei no teu quarto para te beijar...
Senti o fio das palavras destrutivas sem surpresa e como se estas sempre tivessem existido, mas impronunciáveis. Impossibilitadas por um exercício contorcionista da parte do corpo que as produz, pelo rossar na garganta áspera de tanto regurgitar o que sempre se quis dizer e que agora se libertava no espaço covil de querer saber porquê.