22 agosto 2005

Dona Eduarda

Interrogo-me sobre o lugar que queremos atribuir, na nossa vida, a determinadas pessoas que apenas vemos esporadicamente, mas que pela sua dimensão humana terão necessariamente que ser lembradas. Nesta ordem de ideias a Dona Eduarda é das pessoas mais curiosas que eu conheço. Digo curiosa, porque a sua forma de pensar e entender o mundo, me parece a mim, de uma outra dimensão, que me escapa de tão peculiar.
A Dona Eduarda terá uns sessenta e poucos anos, nasceu em Angola, onde conheceu um português, também ele muito peculiar. Muitos anos passados, vive em Portugal e grangeou em torno de si uma prole muito especial. Todos os anos vou a sua casa pelo Verão, a convite de um amigo e agora seu genro, comer o "Funge" e também todos os anos venho de lá encantado com a espiritualidade, poder de sedução e forte personalidade, daquela senhora simples e bem disposta. Os jantares são irrepetíveis, em particular quando se junta toda aquela família extrema a surprender-nos a todo o momento, com as histórias mais hilariantes, histórias de "partir o coco" a rir. O "Funge", um pitéu tipicamente angolano, é excelente, principalmente quando condimentado com uma dose extra de gindungo. A Dona Eduarda, sempre serena, no momento que lhe parece oportuno, o que não quer dizer que o seja, apresenta uma visão do mundo, uma visão especial e única. Aquilo que nos conta parece brotar de um saber ancestral, que me é desconhecido, uma espiritualidade que escapa aos cânones, onde nós, os Europeus, nos formamos e informamos. Do topo da sua simplicidade e humildade, fala das coisas mais sérias e também daquelas que o não são, com a vivacidade e o humor que tudo envolve e arrebata.
Traduzir a sua visão do mundo, seria o mesmo que contar em palavras, um sketch dos Monty Python. É tão diferente...

18 agosto 2005

...

vou dar um salto a Coura, essencialmente, para ver o Vítor, o Nick, o Gallo e o Jazz na relva.

16 agosto 2005

fotos de catálogo ref. a-c



Estão num dos jardins da Capital. Hoje não lançaram trigo aos pombos. Comeram a merenda toda e limitaram-se a passear pelo jardim. Ninguém andava por ali num fim de tarde de Agosto.
Ao fundo, no Palácio de Belém, os guardas fazem uma estranha dança para que se lhes não prendam os membros. Não existe a miníma brisa. As coisas estão em silêncio, só os pássaros chilreiam invisíveis e ouve-se o som contínuo de carros a passar numa Avenida ao fundo do jardim. Num bebedouro a água corre para um esgoto. Os bancos estão completamente livres. As sebes estão perfeitamente aparadas, e a relva talvez tenha sido cortada pela manhã. Dois turistas passaram - pareciam contentes. Ambos sorriram para a fotografia. Clic.

12 agosto 2005

só pequenas coisas

Como tudo nasce de pequenas coisas, como as coisas entram em nós e nos fazem felizes, como uma tarde sol, sol na relva ao fim da tarde.

Um mail que continha imagens sugestionadas pelos sons, que o meu querido amigo vítor enviou e um cálice de bushmills, que tive que voltar a encher, tornou-se num pequeno momento de ruborizar a face.

Aqui fica esta partilha de intensidades.


Crónica de um lugar


Café do Senhor António - Praia de Melides

As portas fecharam-se. O ritmo das coisas recusou-se a continuar.
O Pinguim ajeitou-se junto a nós na esplanada improvisada desde sempre. Ajeitava-se enroscado sobre si mesmo no conforto possível que um cão pode obter sobre a areia. Como sempre, do escuro ouvia-se o mar. Lá dentro talvez a Fatinha ainda faça as limpezas. Talvez o Castanho esteja confortavelmente aninhado sob as mesas ou um rato esquivo percorra o beiral. Nós afastamo-nos, recusando um último olhar sobre um lugar importante na nossa construção existencial e condenado a deixar de existir ou a existir para sempre no lugar que atribuímos ao mito, mito das coisas vividas com a intensidade possível dos dias. Este lugar que habita em nós, acontece porque nunca se quis impôr. E talvez o torne especial ser pouco exigente, se ter recusado a olhar para nós a interrogar a nossa verdade. Este lugar nunca quis saber e nós também nunca pronunciamos o nosso apego às coisas sérias que por ali passavam: o senhor que adormecia a ver televisão em frente ao café e ao bagaço, os cães, os gatos e as pulgas que se passeavam perigosamente por todo lado, a infinita panóplia de humanos que por ali populavam e que nas palavras do Senhor António, não eram mais do que guedelhudos, a simpatia contida da Fatinha e o olhar sisudo da sua mãe sentada sempre no mesmo lugar a comer pevides.
Os lugares que habitamos com intensidade transformar-se-ão inevitavelmente em lugares extintos e marcar-nos-ão sensorialmente para sempre, e bem pode o Sr. António carregar as grossas portas de madeira que nos separam do interior que o mito do lugar irá permanecer.
Este lugar extinguiu-se outros estão em vias de surgir.

29 julho 2005

banhos de sol


desenho (1992)

Pois chegou o momento de um homem do interior esquecer (durante alguns dias) a sua montanha e ir a banhos para o litoral.
A água salgada e o sol em bruto também têm o seu interesse. O corpo todo a mostrar-se à luz, a pele a ver-se livre das inúmeras "espinhas" acumuladas ao longo do ano, beber cerveja, olhar o mar e o seu ruído em profundidade. Tudo isto retemperante nos três primeiros dias de boa vida.
Depois... bom, depois ler uns livritos no tasco estrategicamente colocado sobre o areal, olhar em volta só pelo prazer de olhar. Observar a Fatinha a servir cervejas, os alemães (do tipo hippie) a fumar umas ganzas e a beber copos de vinho barato.
O melhor momento do dia:
Fim de tarde no "Café dos Alemães" a olhar a extensa praia (vê-se a Arrábida nos dias mais límpidos), uma ou duas cervejas, um queijinho, a companhia da Carla com quem partilho isto tudo e um suave ruído de fundo numa língua que não conheço mas que me é familiar.
Será isto possível?
Sim. Num certo Alentejo que eu cá sei de há alguns anos a esta parte.


(...) misturemos as bebidas, brindemos à confusão.
Michel Serres, Os Cinco Sentidos

27 julho 2005

........................................................


David Hockney, The Fourth love painting, 1961


fascinam-me as propostas condicionais, não porque tenham necessariamente de se cumprir, mas porque se nos impõem, porque são desafios e criam o desconforto necessário para agir.

26 julho 2005

Corpo a corpo com o passado



Tinha a vida em rolos que fui destruindo sem mágoa. Um corpo a corpo suado entre o que fui e o presente. Uma distinta selecção do passado. Destrui tudo sem mágoa nem sensações fortes. Só apagar para sempre, lançar fora uma intensidade vaga de dias distantes.
De uma vez pude resolver vários problemas: abrir espaço na poeira das coisas e libertar-me de espaços reflexivos que já não interessam, partes de mim que já não amo.
Guardei apenas dois rolos, robustos e organizados. Sinto-me leve. Fui capaz de fazer a selecção necessária. Posso recomeçar de outro lugar sem cometer os mesmos erros.
Uma parte do passado reduzida à condição de pó, ou um velho livro abandonado, cujas páginas desfilam abrindo por si quando o vento sopra, e sem que ninguém as leia.

21 julho 2005

reclamações



Este sou eu. A partir de agora, quando houver reclamações, vão ter que dar uma voltinha no labirinto que me define e entrar pela porta das traseiras, que costuma estar apenas presa pelo ferrolho.

20 julho 2005

viagem inaugural


pintura, 1995

Aqui vou arquitectar uma viagem inaugural de sombra e vastidão

no dia dos meus anos recebi de um amigo uma prenda surpreendente. Ou talvez não.



em nós sempre existe algo de inalienável.
Traços profundos que nos caracterizam.
E, simultaneamente, um desejo de mudar.

...

Querias saber porque cheguei tarde. Porque não arrumei a mesa que partilhavamos.
Porque fui jantar fora, quando tinhamos combinado comer apenas uma sopa e uma sande de atum.
Perguntaste porque beijei toda a gente naquela noite de São João, debaixo do Jacarandá, sem que te lembrasses das flores que se desprendiam da árvore e caíam sobre nós, tão serenos e intensos ao mesmo tempo. Tão amantes e tão contraditórios.
Querias saber porque cheguei a casa a cheirar mal. Porque ficou a porta entreaberta a noite toda. Porque não entrei no teu quarto para te beijar...


Senti o fio das palavras destrutivas sem surpresa e como se estas sempre tivessem existido, mas impronunciáveis. Impossibilitadas por um exercício contorcionista da parte do corpo que as produz, pelo rossar na garganta áspera de tanto regurgitar o que sempre se quis dizer e que agora se libertava no espaço covil de querer saber porquê.

um mês depois

um mês após ter abandonado este lugar, olhei para trás e vi algumas coisas práticas resolvidas. Essencialmente, nada de importante. Voltei novamente ao teclado. Não que me sinta obrigado a alimentar este espaço, mas antes porque as teclas me massajam os dedos e eu gosto da urgência das palavras. Mas também por causa daqueles que habitualmente me visitam e me sentem extinto. Não que eu possa assegurar a minha existência aqui, ou, onde quer que seja. Não que eu consiga gravar aqui aquilo que sou ou na pedra o meu nome com os dedos. Não.

18 junho 2005

regresso aos lugares extintos

Fui ao funeral do teu pai e lá estavas tu, de preto, naturalmente. Semblante carregado. Fizeste um suspiro abafado quando te abracei a meio daquilo que poderia ser um grito. Forçamos o abraço por alguns momentos e senti nas mãos a intensidade com que te apertava, e tu a mim. Pensaste que eu poderia não aparecer, e ficaste aliviado quando me viste. Voltaste a sentir pela enésima vez que afinal há pessoas das quais inevitavelmente nunca nos vamos afastar, ainda que muitas vezes pareça, e outras tantas vezes nos sintamos abandonados. Por momentos saíste para a rua, e gracejaste quando passaste por mim: - vou fumar um cigarro lá fora para o meu pai não ver. Pareceste-me alguém muito familiar. Pareceste-me tu. Lembras-te?
Fiquei pouco tempo. Mais tarde senti que deveria ter ficado mais um pouco, não seria necessário falar. Bastava que estivessemos por ali a observarmo-nos sem nos olhar.
Mas não quis ficar mais. Voltamos a dar um abraço forte na despedida e pareceste-me triste por eu me ir embora.

tropeçar no acaso

As coordenadas, os mapas rabiscados nos guardanapos,os esquiços ocasionais, riscos nas letras do jornal, desenhos na contracapa dos livros, as manchas de vinho sobre as palavras... sempre me fascinaram.
Assim como a lista de afazeres para o dia que decorre e criteriosamente riscada nas tarefas cumpridas. E ainda a lista do dia seguinte que repete as tarefas não cumpridas no dia anterior.
Estes testemunhos congelam, por vezes, momentos inesquecíveis, dias raros, dias vulgares, lugares de intensidade, de tristeza, mas tanbém de felicidade.
São lugares de memória, registos que ajudam na construção daquilo que somos ou vias de cintura interna congestionadas.
O vento, os grãos de areia entre os livros, vestígios de protector solar, o marulhar agitado do mar nas páginas de Boris Vian... ou Douglas Coupland.
Notas de rodapé, frases interrompidas por falta de espaço e continuadas na página seguinte. Lombadas desfeitas e livros amarelos do uso e exposição aos elementos.
Quatro ou cinco momentos especiais incrivelmente registados em fotografias e onde nos vemos mais novos, cheios de vida e quem sabe de esperança.
Ocasionalmente palavras sublinhadas nos livros que nos inspiram saudade e nos fazem recuar no tempo aos tropeções e onde encontramos aquilo que muitas vezes já estava esquecido e nem sequer queríamos lembrar.

14 junho 2005

sem tempo

Peço desculpa às pessoas que habitualmente visitam este espaço, mas de momento estou sem tempo nenhum. Para a semana prometo voltar com saborosas crónicas de andar por aí.

De qualquer maneira tenho uma sugestão, que descobri aqui à uns dias, muito interessante e que está a nascer sob a terra.

02 junho 2005

a minha montanha

hoje fiquei de costas voltadas para o verde intenso e primaveril da minha montanha.
Cansei-me da provincia. Renasci cosmopolita.
Recusei as histórias do povo e sobre o povo, e senti que a literatura, como a arte, não se deve encerrar no espaço espartilhado das sensações vagas. E, que o país avança na medida do seu cosmopolitismo e na sua fé profunda em ideias transversais e abrangentes.
Digo-o no dia em que se comemora João de Araújo Correia (escritor alto duriense). Não que recuse o valor intrínseco da sua obra, mas antes na recusa da apropriação vaga e redutora, que facilmente se pode fazer do seu trabalho. Na relação estritamente provinciana que facilmente se faz dos seus escritos, das suas palavras. É que as palavras não são propriedade de uma certa visão do mundo, mas estão ao serviço de quem as explora numa dimensão dilatada.

01 junho 2005

resgatado ao quotidiano III - a bomba



O dia tinha terminado. Estava exausto. Trabalhei seguramente durante dezoito horas.
Passei o dia, como grande parte dos dias da minha curta existência a fazer um trabalho repetitivo, ainda por cima hoje tive que aturar a patroa, que se babava por todos os lados. Eu não sei se sabem, mas trabalho num lugar escuro, sombrio, e a maior parte das vezes húmido. Nas paredes não existem quadros e quase nunca se sonha. Lá onde trabalho, todos nos limitamos a passar silenciosamente uns pelos outros, na melhor das hipóteses esboçamos um impossível sorriso. Somos explorados dia após dia por um poder invisível e despótico. Neste momento estamos a trabalhar num livro, uma edição bastante antiga do Alves Redol. A pior parte é a capa, capa dura, como se faziam antigamente. O meu trabalho hoje foi remover a lombada interna. Por vezes quando pude subir à zona superior da capa olhava o horizonte, mas a vista não era particularmente bonita. Um velho cadeirão com a almofada esburacada e uma janela entreaberta. As paredes estavam negras de tanta humidade e a um canto uns sacos de plástico do Pingo Doce abandonados e com restos de comida. Houve dias em que aparecia alguém para dormir, mas já há quatro dias que é só aquilo vazio. Por vezes o sol entra pela janela e eu fico expectante a imaginar os mundos que não existirão do outro lado. Mas não dura muito. Rapidamente sou forçado a avançar carregado com pedaços de lombada. Durante a noite sonho libertar-me deste mundo constrangedor, colocar uma bomba, destruir o mundo hostil.