20 julho 2005

no dia dos meus anos recebi de um amigo uma prenda surpreendente. Ou talvez não.



em nós sempre existe algo de inalienável.
Traços profundos que nos caracterizam.
E, simultaneamente, um desejo de mudar.

...

Querias saber porque cheguei tarde. Porque não arrumei a mesa que partilhavamos.
Porque fui jantar fora, quando tinhamos combinado comer apenas uma sopa e uma sande de atum.
Perguntaste porque beijei toda a gente naquela noite de São João, debaixo do Jacarandá, sem que te lembrasses das flores que se desprendiam da árvore e caíam sobre nós, tão serenos e intensos ao mesmo tempo. Tão amantes e tão contraditórios.
Querias saber porque cheguei a casa a cheirar mal. Porque ficou a porta entreaberta a noite toda. Porque não entrei no teu quarto para te beijar...


Senti o fio das palavras destrutivas sem surpresa e como se estas sempre tivessem existido, mas impronunciáveis. Impossibilitadas por um exercício contorcionista da parte do corpo que as produz, pelo rossar na garganta áspera de tanto regurgitar o que sempre se quis dizer e que agora se libertava no espaço covil de querer saber porquê.

um mês depois

um mês após ter abandonado este lugar, olhei para trás e vi algumas coisas práticas resolvidas. Essencialmente, nada de importante. Voltei novamente ao teclado. Não que me sinta obrigado a alimentar este espaço, mas antes porque as teclas me massajam os dedos e eu gosto da urgência das palavras. Mas também por causa daqueles que habitualmente me visitam e me sentem extinto. Não que eu possa assegurar a minha existência aqui, ou, onde quer que seja. Não que eu consiga gravar aqui aquilo que sou ou na pedra o meu nome com os dedos. Não.

18 junho 2005

regresso aos lugares extintos

Fui ao funeral do teu pai e lá estavas tu, de preto, naturalmente. Semblante carregado. Fizeste um suspiro abafado quando te abracei a meio daquilo que poderia ser um grito. Forçamos o abraço por alguns momentos e senti nas mãos a intensidade com que te apertava, e tu a mim. Pensaste que eu poderia não aparecer, e ficaste aliviado quando me viste. Voltaste a sentir pela enésima vez que afinal há pessoas das quais inevitavelmente nunca nos vamos afastar, ainda que muitas vezes pareça, e outras tantas vezes nos sintamos abandonados. Por momentos saíste para a rua, e gracejaste quando passaste por mim: - vou fumar um cigarro lá fora para o meu pai não ver. Pareceste-me alguém muito familiar. Pareceste-me tu. Lembras-te?
Fiquei pouco tempo. Mais tarde senti que deveria ter ficado mais um pouco, não seria necessário falar. Bastava que estivessemos por ali a observarmo-nos sem nos olhar.
Mas não quis ficar mais. Voltamos a dar um abraço forte na despedida e pareceste-me triste por eu me ir embora.

tropeçar no acaso

As coordenadas, os mapas rabiscados nos guardanapos,os esquiços ocasionais, riscos nas letras do jornal, desenhos na contracapa dos livros, as manchas de vinho sobre as palavras... sempre me fascinaram.
Assim como a lista de afazeres para o dia que decorre e criteriosamente riscada nas tarefas cumpridas. E ainda a lista do dia seguinte que repete as tarefas não cumpridas no dia anterior.
Estes testemunhos congelam, por vezes, momentos inesquecíveis, dias raros, dias vulgares, lugares de intensidade, de tristeza, mas tanbém de felicidade.
São lugares de memória, registos que ajudam na construção daquilo que somos ou vias de cintura interna congestionadas.
O vento, os grãos de areia entre os livros, vestígios de protector solar, o marulhar agitado do mar nas páginas de Boris Vian... ou Douglas Coupland.
Notas de rodapé, frases interrompidas por falta de espaço e continuadas na página seguinte. Lombadas desfeitas e livros amarelos do uso e exposição aos elementos.
Quatro ou cinco momentos especiais incrivelmente registados em fotografias e onde nos vemos mais novos, cheios de vida e quem sabe de esperança.
Ocasionalmente palavras sublinhadas nos livros que nos inspiram saudade e nos fazem recuar no tempo aos tropeções e onde encontramos aquilo que muitas vezes já estava esquecido e nem sequer queríamos lembrar.

14 junho 2005

sem tempo

Peço desculpa às pessoas que habitualmente visitam este espaço, mas de momento estou sem tempo nenhum. Para a semana prometo voltar com saborosas crónicas de andar por aí.

De qualquer maneira tenho uma sugestão, que descobri aqui à uns dias, muito interessante e que está a nascer sob a terra.

02 junho 2005

a minha montanha

hoje fiquei de costas voltadas para o verde intenso e primaveril da minha montanha.
Cansei-me da provincia. Renasci cosmopolita.
Recusei as histórias do povo e sobre o povo, e senti que a literatura, como a arte, não se deve encerrar no espaço espartilhado das sensações vagas. E, que o país avança na medida do seu cosmopolitismo e na sua fé profunda em ideias transversais e abrangentes.
Digo-o no dia em que se comemora João de Araújo Correia (escritor alto duriense). Não que recuse o valor intrínseco da sua obra, mas antes na recusa da apropriação vaga e redutora, que facilmente se pode fazer do seu trabalho. Na relação estritamente provinciana que facilmente se faz dos seus escritos, das suas palavras. É que as palavras não são propriedade de uma certa visão do mundo, mas estão ao serviço de quem as explora numa dimensão dilatada.

01 junho 2005

resgatado ao quotidiano III - a bomba



O dia tinha terminado. Estava exausto. Trabalhei seguramente durante dezoito horas.
Passei o dia, como grande parte dos dias da minha curta existência a fazer um trabalho repetitivo, ainda por cima hoje tive que aturar a patroa, que se babava por todos os lados. Eu não sei se sabem, mas trabalho num lugar escuro, sombrio, e a maior parte das vezes húmido. Nas paredes não existem quadros e quase nunca se sonha. Lá onde trabalho, todos nos limitamos a passar silenciosamente uns pelos outros, na melhor das hipóteses esboçamos um impossível sorriso. Somos explorados dia após dia por um poder invisível e despótico. Neste momento estamos a trabalhar num livro, uma edição bastante antiga do Alves Redol. A pior parte é a capa, capa dura, como se faziam antigamente. O meu trabalho hoje foi remover a lombada interna. Por vezes quando pude subir à zona superior da capa olhava o horizonte, mas a vista não era particularmente bonita. Um velho cadeirão com a almofada esburacada e uma janela entreaberta. As paredes estavam negras de tanta humidade e a um canto uns sacos de plástico do Pingo Doce abandonados e com restos de comida. Houve dias em que aparecia alguém para dormir, mas já há quatro dias que é só aquilo vazio. Por vezes o sol entra pela janela e eu fico expectante a imaginar os mundos que não existirão do outro lado. Mas não dura muito. Rapidamente sou forçado a avançar carregado com pedaços de lombada. Durante a noite sonho libertar-me deste mundo constrangedor, colocar uma bomba, destruir o mundo hostil.

25 maio 2005

Resgatado ao quotidiano II - dentro de mim

Das três cartas que te enviei, não respondeste a nenhuma.
Não tiveste tempo.
Trocaste de passeio quando me viste na rua.
Olhaste para o infinito quando estavamos quase frente a frente naquela esplanada.
Valeu um sol de fim de tarde. Uma mágoa dolorosa no peito. E o gin tónico que acabei por beber de golada.
Sorri para outra mesa como se fossem velhos conhecidos.
De lá acenaram-me e dos lábios do puto pude entender as palavras ciciadas: até segunda.
Não tinha por hábito sair aos domingos. Mas hoje não sei, o sol, um odor impossível a maresia fez-me levantar da cama mais cedo que o costume.
E lá estava eu num fim de tarde domingueiro a olhar um rio lento e uma brisa fresca.
Não esperava era encontrar-te.
Mas pronto aconteceu... e depois.
Vou para casa lavar a louça de sábado à noite. Ler um livro para adormecer.
E na segunda lá estarei como se o mundo renascesse de novo.

Resgatado ao quotidiano I - fora de mim

Estou desfocado, estou inquieto. Estou fora de mim.
Deixei de ser feliz nos lugares de sempre.
Não encontro tranquilidade em lugar nenhum.
Vivo no paradoxo de dois mundos distantes.
Sinto-me desconsolado, ameaçado.
Estou sem tempo.
Escrevo mensagens no telemóvel para adormecer.
Acordo como se tivesse levado uma sova.
A vida que sempre me seduziu deixou de me fascinar.
Dou beijos de braços abertos no vento e tenho em troca cagadelas de pássaro.
Não gosto de ninguém.
Estou desfocado, estou inquieto. Estou fora de mim.

Quando alguém se sente assim só pode ter razão.

reunião geral

isto só vai demorar 10 minutos.
Silêncio, por favor.

Trás-os-Montes e Alto Douro


site meter

porque será que as pessoas que visitam o meu blog sempre contribuem para me lembrar o lugar onde vivo?
Não é que eu não seja feliz aqui, mas também gosto do Alentejo.
Caramba! vejam lá se vêm cá todos os dias estou a necessitar de um horizonte mais distante.

24 maio 2005

É uma espécie de

Toquei o negro, flecti o ombro, simulei a entrada no nada.
Ouvi um soluço, um tilintar de vidro partido no chão. Humedeceu-se-me a cara e desatei a correr em frente. Esperei partir-me todo contra qualquer coisa. Caí na água.
Levantei um braço,outro braço e tentei erguer o corpo todo com uma sofreguidão de naufrago. Timidamente abri um olho e depois outro. Observei em volta. Sustive a respiração. Aaaahh…
Toquei um ombro, flecti um braço. Abri a porta, simulei entrar. Ouvi uma voz atrás de mim. Voltei-me. Vi alguém encharcado a caminhar para mim. Afastei-me… ele passou como se não me visse. Tropeçou numa secretária, partiu um copo. O patrão disse-lhe: está despedido.
Timidamente abriu um olho e depois o outro. Olhou em volta e viu alguém. Hesitou entrar. Olhou para mim.

19 maio 2005


Estava atrasado para qualquer coisa. Era noite. Esqueci-me de acender a luz da entrada.
A chave caiu ao chão e eu debrucei-me para a apanhar. Por entre os dedos esfumou-se-me aquele desejo e enfoquei o olhar no negro.
Sentei-me na cadeira de baloiço e olhei um cão que ladrava. Tentei imitá-lo com a autenticidade atribuída aos homens de muita vontade.
Ele replicou sem grande expressão. E eu remeti-me ao silêncio.

17 maio 2005

H.O.L.O.G.R.A.F.I.A

Como se a vida estivesse confinada ao ambiente de trabalho. Um ecrã de 17 polegadas, bem calibradas. Os dias passassem ao sabor da organização de pastas recentes e antigas. As novidades e toda a excitação passasse pelo Outlook e o inovador gmail: o momento mais emocionante do dia. Os anti-vírus e firewalls actualizadissímos. Um novo wallpapper. Amontoar os livros em pilhas para não os ler e os sentir cada vez mais, elementos estranhos. Beber um copo de vinho tirado da silhueta permanente do monitor. Não usar canetas, lápis e outros elementos que correspondam a instrumentos da pré-história da sabedoria humana. O teclado ser uma extensão do corpo. Cada vez mais debilitado. Tudo coisa mental. Tudo direccionado à cabeça. Olhos fixados no ecrã como única possibilidade real de existir, de pensar, de saber. Ligação permanente à Internet, na banda mais larga disponível.

A quebra de rede corresponde ao corte primordial do cordão umbilical.

Percorrer páginas e páginas de informação descontextualizada e acreditar nas possibilidades intangíveis da flexibilidade cognitiva. Estabelecer comunicação via messenger e exclusivamente via messenger. Tocar o teclado apaixonadamente, suprema manifestação da sensualidade. Montar a cama mesmo junto ao desktop e acreditar que um dia o ecrã será uma tela virtual. O espaço holográfico. Um corpo em rede, em comunicação ininterrupta, em relação total com os elementos. Montar três coolers no computador e sentir uma brisa suave e quente. O marulhar permanente do seu funcionamento. As águas de um rio.

15 maio 2005

eram as estrelas, caminhante,
o mapa que não soubeste decifrar
mas vais continuar e continuar
perdido para sempre.

José Luís Peixoto. a criança em ruínas

10 maio 2005

o mundo do vinho



Mondovino, um documentário de Jonathan Nossiter, é um retrato bastante fiel das pessoas ligadas ao mundo do vinho. Trata-se de uma visão ampla do assunto, onde podemos ver o vinho como mercadoria e o vinho como arte. Sobretudo podemos ver tipos humanos: Se os primeiros vendem ou produzem vinho, como quem poderia produzir embalagens para palitos, os segundos integram a criação do vinho na sua própria existência, o discurso destes é aliás sintomático de quão intensa pode ser esta relação - Homem, Vida e Vinho (HVV).
O filme aborda a questão da globalização e do efeito que esta está a ter na harmonização do gosto (do vinho) a nível mundial. A questão é ponderada pelo filme, sem que no entanto seja manifestada uma posição de um ou outro lado. Muitos disseram que o realizador estava do lado da anti-globalização. Francamente não me pareceu que o filme manifestasse essa posição (o risco seria transformar-se num mau filme, ou pelo menos num filme panfletário). A não ser que o facto de o filme ter sido filmado na integra com câmara à mão e num registo bastante turbulento (exagerado por vezes), logo menos convencional, possa ser conotado com um dos lados da barricada.
Eu por mim, embora a massificação do que quer que seja, me dê um arrepio na espinha, penso também que o processo de globalização, apesar de estar por aí e sendo inevitável, não é propriamente um problema de maior - assim haja espaço para todos e assim haja espaço para o meu gosto pessoal. E para já vai havendo. Ou não?

08 maio 2005

Samuel

Samuel tinha 3 horas de vida, uns olhos enormes e vontade de não ser incomodado por ninguém.
Samuel estava a lançar os primeiros olhares para mundo.
Samuel era frágil e ainda não descobriu o interesse de tudo isto.
O que pensa um ser quando nasce?
O que sente?
O que quer?
O que sabe?

haverá tempo, muito tempo para descobrir o segredo...

O pai já decidiu a primeira etapa:
- Quando sairmos daqui (da maternidade) vamos levá-lo a Serralves.

Confesso que me agradou bastante a opção.

03 maio 2005

porquê?

De um documentário sobre as mentes brilhantes de Galileu, Newton, Einstein e Stephen Hawking, que hoje vi na televisão, salta a ideia que o avanço científico está menos relacionado com as respostas que se têm do que com as perguntas que se fazem. Se esta ideia sempre serviu a física e outras ciências, porque não aplicá-la à nossa vida quotidiana e podermos assim também nós colocarmo-nos numa posição mais construtiva da existência.
Claro que esta ideia parece simples e básica como ponto de partida, mas não nos podemos esquecer que também foram sempre as ideias simples e básicas, à partida, que por força do génio humano se transformaram nas grandes e complexas ideias que fizeram avançar a história da humanidade. Para mim que não sou um tipo das ciências talvez comece agora a compreender um pouco melhor as aulas do professor Eurico Carrapatoso (um professor que dá as aulas a perguntar) e quem sabe vir a aplicá-las às artes, quanto mais não seja para ficar de consciência tranquila e poder dizer que as grandes ideias (que na realidade é o que alimenta a alma) não me passaram ao lado.

02 maio 2005

sete palmos de terra



Sete Palmos de Terra voltou ao canal 2 para nos continuar a reconciliar com a vida, com as coisas, com tudo que gira em torno de nós.
Se na maioria das vezes as múltiplas versões do que quer que seja correspondem a um decrescimo de qualidade, neste caso temos estórias que cada vez mais nos continuam a contar o mais precioso, mais belo e intenso da vida.
Durante as próximas treze semanas se houver falta de intensidade existêncial, de uma coisa vou estar certo, nas segundas às 10:30 vou viver um momento intenso.