28 abril 2005

cultura retro

"Retroescavadoras invadiram monumento nacional no Douro" pode ler-se no Público de 28 de Abril (quinta-feira).
Vemos assim mais uma vez, o património nacional, e no caso, também património da humanidade, abandonado e por consequência vítima da incúria e da falta de cidadania. Desta vez até parece que o mandante é letrado (a grande besta). Temos pois a irresponsabilidade dos organismos oficiais e a bestialidade dos cidadãos de mãos dadas.
São muitas vezes estes os ingredientes que caracterizam o nosso alegre povo.

21 abril 2005

perguntas com livros

Resposta ao talento da mediocridade

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro de capa grossa

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Sim. Zaratrusta e Zenão.

Qual foi o último livro que compraste?
Foi o meu amigo talento da mediocridade que os foi buscar a um alfarrabista da rua das flores: duas edições antigas do Alves Redol – Trilogia do Port Wine I e III, respectivamente, Horizonte Cerrado e Vindima de Sangue.

Qual o último livro que leste?
Até ao fim, foi provavelmente, Vindima de Miguel Torga

Que livros estás a ler?
Bom, para não pregar uma seca a ninguém vou ficar calado

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Seguramente não levava nenhum. Só acredito nos livros quando podem ser partilhaveis.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Talvez ao meu amigo português suave amarelo, já que os restantes amigos bloguistas já responderam ao questionário.

19 abril 2005

uma parte de mim


Alice Geirinhas

Uma parte de mim tem "necessidade" de acreditar nas teorias educacionais.

16 abril 2005

confesso que nunca li Agustina...

... a não ser pelo olhar de Manoel de Oliveira: o belíssimo "Vale Abraão", "O Covento" e o assombroso e viscontiano "Party".
Hoje, um excelente documentário na 2, revela um ser humano amplo e irreverente, que a páginas tantas, quando alguém que não a conhecia lhe perguntou como era a sua escrita, respondeu: "escrevo mais ou menos como o Dostoyevski".
Agustina Bessa-Luís tem uma obra "monstra" no panorana nacional e mesmo internacional, ela própria diz, que se numa determinada fase da sua vida tivesse ido para França, como quase poderia ter acontecido, seria uma grande escritora de língua francesa. Esta falta de humildade está-lhe no sangue e é intrinseca à sua própria personalidade controversa e quantas vezes excessiva. Ela diz ainda, que não se leva muito a sério, considerando que essa seria uma forma de estar, que a colocaria em inferioridade perante a vida. Temos assim um ser humano em toda a sua magnitude a assumir um papel claro, transparente e... lúcido!
Do documentário salta esta frase: "Eu gosto tanto de si, que um dia até sou capaz de ler um dos seus livros".
Perfeitamente adequado para o autor deste post.

15 abril 2005

Recordações de uma amoreira ou os dias com árvores

Lembro a Estrada Nacional n.º 2, em Santa Marta de Penaguião, com o pavimento carcomido e um carro a passar de 5 em 5 minutos.
Lembro um chão negro e um cheiro adocicado de fruta madura.
Lembro uma amoreira imponente e inalcançável, mesmo para as travessuras de um puto de 8 anos.
Lembro o desejo de a trepar para lhe descobrir o segredo e o sabor da fruta nos lugares mais altos.
Lembro o Estio abrasador e seco.
Lembro a minha tia, já velhinha, a pontear umas meias na soleira da porta, com um óculos redondinhos e a lançar-me um sorriso carinhoso quando me via a entrar pelo portão. Até parece que ainda sinto o seu colo.

Persona


Ingmar Bergman, Persona (1966) - na imagem Bibi Andersson e Liv Ullmann

Se eu quisesse escrever sobre este filme todas as palavras seriam necessessariamente redutoras.
Por isso, veja-se, reveja-se e volte-se a ver.

13 abril 2005

Interior intenso com Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral

Aqui há uns dias interrogava-me acerca da questão interioridade/urbanidade a propósito de um post acerca da revista “Periférica”. Hoje chegou até mim e sem esforço um esboço de reflexão sobre o assunto.

Por razões profissionais e com enorme prazer, tive com alguns colegas de trabalho, um encontro com dois vultos da cultura portuguesa, respectivamente, Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral. Tal encontro decorreu primeiro num agradabilíssimo almoço a que se seguiu um revelador encontro de Graça Morais com alunos da Escola Secundária João de Araújo Correia, no Peso da Régua. E digo revelador pois Graça Morais, igual a si mesma e à sua pintura falou aos alunos e respondeu às suas perguntas com a autenticidade que lhe é característica, na obra que eu já conhecia, e que agora se me revelou também no seu olhar e na personalidade afável e disponível que pude conhecer.

Posso dizer que conheço razoavelmente bem a obra da pintora, ao contrário da obra do músico e compositor Pedro Caldeira Cabral, reputado especialista em guitarra portuguesa e também ele com um percurso artístico notável.

Graça Morais é natural de Vieiro, uma aldeia trasmontana perto de Vila Flor e a sua obra é um excelente exemplo da relação que se pode estabelecer entre o cosmopolitismo e a ruralidade. Com uma já longa carreira e uma assinalável notoriadade, a sua obra desde sempre reflectiu esse microcosmos que é a sua aldeia natal, mas que numa visão mais alargada se pode considerar a visão de uma certa ruralidade nacional. Talvez não exista em Portugal exemplo tão feliz, profundo e intenso dessa interpretação antropológica do Portugal interior.

O traço de Graça Morais é forte, quase masculino, se é que os traços têm sexo, e terá na sua génese, a influência dos expressionismos do início de século, a multiplicação/fragmentação da realidade de um Picasso ou mesmo as transparências e realismo mágico de Francis Picabia.

Particularmente interessante foi o encontro com os adolescentes interessados em ouvir o que a artista tinha para dizer e para os quais Graça Morais se disponibilizou para responder a todas as perguntas que estes lhe colocaram. Não pude deixar de notar a humildade sábia de quem alcançou um lugar de destaque na arte portuguesa, o sorriso bonito e toda a disponibilidade do mundo, que é apanágio de quem fez uma boa construção existencial e não chegou lá por acaso.

09 abril 2005

nos dias tranquilos (para um amor sem limites)

Olhava-te timidamente nos gestos mais simples. Tinha pudor de te olhar no lugar do sexo e até os teus braços suados de fim de tarde. O sopro das tuas palavras maravilhava-me, os teus gestos contidos, a tua inocência virginal de quem não se sente observado. Vi-te energia pura e aprendi a descobrir-te degrau a degrau, como quem sobe sem pressa aquela escada desdobrável que me permite uma arrecadação exemplarmente organizada.
Quando saíste eu já não estava lá, antes te organizava, no lugar que decidi atribuir às coisas belas.

Aos meus amores (fragmento de um discurso amoroso)

08 abril 2005

nos dias tranquilos

Hoje vi-te num silêncio explosivo.
Saltaste da cadeira e correste vermelho como um touro para ela.
Com toda a força do mundo, levantaste-a junto com a cadeira e derrubaste-a sobre as mesas.
Penso que te vi possesso de um amor visceral, genuíno e adolescente.

05 abril 2005

não sei


Edward Hopper

Esta pintura sobejamente conhecida do Hopper fascina-me há alguns anos, de tal forma que tenho algum receio em confrontar-me com ela num museu. É que a pintura é sob o meu ponto de vista uma arte não reproduzível.
Tenho alguns exemplos de fascínio pela reprodução e desilusão no confronto directo com a obra. Mas também tenho exemplos do contrário. É o caso do déjeuner sur l'herbe do Manet.


Edouard Manet

Como estão aqui perante duas reproduções, este post... não sei!

02 abril 2005

se não tivesse tanta dificuldade em sair de casa, talvez fosse um grande viajante

Fico particularmente mal disposto nas partidas, o que só é superado quando a ideia de voltar se torna demasiado penosa ou já sem sentido. Estar longe apaga todos os fantasmas e permite ter a sensação de a qualquer momento poder viver outra vida. A realidade é para quem viaja particularmente volátil, sempre novos caminhos... tantos caminhos.

de uma viagem

De uma viagem também nos podem ficar vazios, nadas, olhos vermelhos de procurar.
De uma viagem sempre podemos reter, um momento límpido, que não será um monumento nem uma ruina, que não será um museu nem uma cidade...
De uma viagem sempre nos fica a nostalgia de ter chegado ao fim.

28 março 2005

27 de Julho de 1973. 18:31:43


composição sobre um desenho de João Rodrigues
uma vinha.uma árvore.alguém por perto

25 março 2005

No cinema...

No cinema…
uma das coisas que me fascina são os hiatos temporais que apagam tudo que é supérfluo.

Por outro lado…
também me agrada quando o realizador quer dizer-nos que aquilo que é infímo e parece não ter importância é um factor decisivo, não só na narrativa, como no processo vivencial que constrói os personagens.
Há um cinema que nos quer ocultar os hiatos temporais e mostrar-nos o processo existêncial passo a passo. O grande Kiarostami pode ser um dos exemplos paradigmáticos.

Gosto particularmente…
quando num filme o personagem inicialmente de costas para a câmara de repente se volta e firma um olhar revelador. Nesse preciso momento a câmara subjectiva (o olhar do mesmo personagem) encontra aquela plenitude, a revelação do encontro com algo que possamos considerar fundamental: um profundo desejo de mudança ou uma brisa que agita uma flor.

19 março 2005

sol raiano

É-me muito difícil falar daquilo que fui. Dos livros que li, os filmes mais especiais, os momentos intensos, os excessos que vivi.
Quase me recuso a reflecti-los.
Quem me encontrar terá sido por acaso. Um acaso feliz ou um desencontro.
Quando publico (posto) tenho um espelho na mão que por força da verdade só pode reflectir-me a mim, nas misérias e nas virtudes de ser-se humano.
Quem me quiser, vá à fronteira ou ao planalto, onde o sol do fim de tarde é uma laranja e o desejo é de infinito.

18 março 2005

periferias



Certamente muitos já terão visto por aí nas bancas a revista Periférica, da qual aliás eu sou assinante desde o primeiro dia. Primeiro por solidariedade regional e depois por me parecer um “pontapé” bem assente na interioridade onde nada parece acontecer, mas onde ao mesmo tempo também tudo acontece num ambiente certamente mais saudável (refiro-me literalmente ao ambiente) do que na urbanidade cosmopolita e “avançada”.
Desta revista se pode dizer que é para ler, o caracter miudinho e o texto denso afasta qualquer leitor apressado. Pode ainda dizer-se que tem um grafismo à altura. Quem a vê pela primeira vez dificilmente dirá que esta é escrita, produzida e reproduzida em pleno Trás-os-Montes (tal é a visão que se tem do interior). O único elemento delator da sua interioridade talvez seja mesmo a publicidade de página inteira que muitas vezes pelo seu grafismo “pitoresco” mais parece um sarcasmo da irreverente revista do que algo para levar a sério. Mas claro, estes projectos têm custos.

No entanto, e apesar de tudo que foi dito, tenho com a “Periférica” uma relação de amor/ódio.
É uma revista do interior que sistematicamente pisca o olho à urbanidade cúmplice, vejam-se as acções de lançamento realizadas em lugares da moda, na capital. Até aqui, tudo bem. Pior é quando por vezes os textos roçam a erudição hermética e afectada, a começar nos editoriais, que são escritos por quem realmente não acredita no interior. Francamente não sei como me relacionar com este facto, já que também eu próprio apesar de ser e viver no interior, tenho sob muitos aspectos uma grande dificuldade em me relacionar com ele. Mas que não gosto nada, lá isso não gosto.
É uma revista do interior, que no fundo o despreza e o minimiza e onde o ser-se construtivo ou até didáctico não tem espaço.
Francamente penso que esta revista, do interior, só tem mesmo o nome da aldeia onde é produzida (Vilarelho – Vila Pouca de Aguiar) e a ficha técnica, já que o seu público privilegiado e mesmo assim minoritário, é urbano, não havendo nela nada, ou quase nada, que reflicta a interioridade, à excepção, claro, da publicidade!

16 março 2005

Sideways



Não me parecendo a mim um exercício cinematográfico excepcional, "soube-me muito bem" ver esta história de amizade e inquietação existêncial. O vinho surge neste filme como a perfeita metáfora da "coisa viva" e inquieta. Um dos personagens diz, mais ou menos desta forma: "dentro de uma garrafa está um produto vivo. Um vinho nunca é igual em dois momentos diferentes". Tal como os estados de "alma" humanos.
Talvez por viver numa região que produz vinho e de partilhar com os personagens deste filme o prazer de o beber, talvez por existirem aspectos de identificação pessoal com um dos personagens, saí do cinema com um sorriso cumplice e uma grande vontade de beber um copo de vinho de forma ainda mais atenta que o costume.