28 março 2005

27 de Julho de 1973. 18:31:43


composição sobre um desenho de João Rodrigues
uma vinha.uma árvore.alguém por perto

25 março 2005

No cinema...

No cinema…
uma das coisas que me fascina são os hiatos temporais que apagam tudo que é supérfluo.

Por outro lado…
também me agrada quando o realizador quer dizer-nos que aquilo que é infímo e parece não ter importância é um factor decisivo, não só na narrativa, como no processo vivencial que constrói os personagens.
Há um cinema que nos quer ocultar os hiatos temporais e mostrar-nos o processo existêncial passo a passo. O grande Kiarostami pode ser um dos exemplos paradigmáticos.

Gosto particularmente…
quando num filme o personagem inicialmente de costas para a câmara de repente se volta e firma um olhar revelador. Nesse preciso momento a câmara subjectiva (o olhar do mesmo personagem) encontra aquela plenitude, a revelação do encontro com algo que possamos considerar fundamental: um profundo desejo de mudança ou uma brisa que agita uma flor.

19 março 2005

sol raiano

É-me muito difícil falar daquilo que fui. Dos livros que li, os filmes mais especiais, os momentos intensos, os excessos que vivi.
Quase me recuso a reflecti-los.
Quem me encontrar terá sido por acaso. Um acaso feliz ou um desencontro.
Quando publico (posto) tenho um espelho na mão que por força da verdade só pode reflectir-me a mim, nas misérias e nas virtudes de ser-se humano.
Quem me quiser, vá à fronteira ou ao planalto, onde o sol do fim de tarde é uma laranja e o desejo é de infinito.

18 março 2005

periferias



Certamente muitos já terão visto por aí nas bancas a revista Periférica, da qual aliás eu sou assinante desde o primeiro dia. Primeiro por solidariedade regional e depois por me parecer um “pontapé” bem assente na interioridade onde nada parece acontecer, mas onde ao mesmo tempo também tudo acontece num ambiente certamente mais saudável (refiro-me literalmente ao ambiente) do que na urbanidade cosmopolita e “avançada”.
Desta revista se pode dizer que é para ler, o caracter miudinho e o texto denso afasta qualquer leitor apressado. Pode ainda dizer-se que tem um grafismo à altura. Quem a vê pela primeira vez dificilmente dirá que esta é escrita, produzida e reproduzida em pleno Trás-os-Montes (tal é a visão que se tem do interior). O único elemento delator da sua interioridade talvez seja mesmo a publicidade de página inteira que muitas vezes pelo seu grafismo “pitoresco” mais parece um sarcasmo da irreverente revista do que algo para levar a sério. Mas claro, estes projectos têm custos.

No entanto, e apesar de tudo que foi dito, tenho com a “Periférica” uma relação de amor/ódio.
É uma revista do interior que sistematicamente pisca o olho à urbanidade cúmplice, vejam-se as acções de lançamento realizadas em lugares da moda, na capital. Até aqui, tudo bem. Pior é quando por vezes os textos roçam a erudição hermética e afectada, a começar nos editoriais, que são escritos por quem realmente não acredita no interior. Francamente não sei como me relacionar com este facto, já que também eu próprio apesar de ser e viver no interior, tenho sob muitos aspectos uma grande dificuldade em me relacionar com ele. Mas que não gosto nada, lá isso não gosto.
É uma revista do interior, que no fundo o despreza e o minimiza e onde o ser-se construtivo ou até didáctico não tem espaço.
Francamente penso que esta revista, do interior, só tem mesmo o nome da aldeia onde é produzida (Vilarelho – Vila Pouca de Aguiar) e a ficha técnica, já que o seu público privilegiado e mesmo assim minoritário, é urbano, não havendo nela nada, ou quase nada, que reflicta a interioridade, à excepção, claro, da publicidade!

16 março 2005

Sideways



Não me parecendo a mim um exercício cinematográfico excepcional, "soube-me muito bem" ver esta história de amizade e inquietação existêncial. O vinho surge neste filme como a perfeita metáfora da "coisa viva" e inquieta. Um dos personagens diz, mais ou menos desta forma: "dentro de uma garrafa está um produto vivo. Um vinho nunca é igual em dois momentos diferentes". Tal como os estados de "alma" humanos.
Talvez por viver numa região que produz vinho e de partilhar com os personagens deste filme o prazer de o beber, talvez por existirem aspectos de identificação pessoal com um dos personagens, saí do cinema com um sorriso cumplice e uma grande vontade de beber um copo de vinho de forma ainda mais atenta que o costume.

11 março 2005

11.03.2004.MADRID




Acordamos no dia 11 de Março de 2004, faz hoje um ano, convictos da vulnerabilidade da existência e limitações humanas. Acordamos com um "soco" no estômago e sustivemos por um segundo a respiração para logo a seguir entendermos a inevitabilidade de já nada podermos fazer. Quisemos ir para a rua gritar, mas não o fizemos. Ficamos revoltados, mas não fizemos mais que ficar chocados com a catadupa de imagens que nos entravam pelos olhos e pela "alma" a todos os segundos, num continuum constrangedor de estarmos parados. Charles Darwin disse um dia: "Nenhum facto na longa história do mundo é tão chocante como os amplos e repetidos extermínios dos seus habitantes". Esta frase lapidar é verdade a cada instante, mas neste dia foi mais verdade, porque a morte estava mais perto, muito mais perto.

06 março 2005

paralelo 36


http://www.zemos98.org/festivales/zemos987/prezemos/vie101204.htm
[largometraje-documental]
"Paralelo 36, de José Luis Tirado - Zap Producciones 2003-2004 - 70 min.
Documento y ficción en la frontera sur de Europa
El Paralelo 36 es una línea imaginaria en un mapa, a la vez que un espacio real en el que transcurre el viaje de la emigración clandestina en el Estrecho de Gibraltar. En Paralelo 36 los protagonistas son los emigrantes: documento y ficción, gestos y palabras, sueños y deseos. Paralelo 36 es un relato, un cruce de micronarrativas que cartografían la frontera sur de Europa."

No mínimo muito curiosa esta coincidência.

05 março 2005

chocapic

Hosted by Photobucket.com

Os ovos e o bacon eram considerados na sociedade americana de finais do século XIX, alimentos afrodisíacos conducentes à masturbação. Para refrear os hábitos "perversos" dos "bons americanos" o senhor Will Keith Kellogg criou os agora muito famosos Kellogg's. No sítio da empresa refere-se que o senhor Kellogg acreditava que a "dieta" era um factor muito importante para um estilo de vida saudável e que o pequeno almoço era a refeição mais importante do dia. Será que alguém acredita nesta "dieta"?

Eu por mim prefiro Chocapic.

23 fevereiro 2005

sem dúvidas

Por vezes perguntam-me se o personagem que tantas vezes aparece nas fotografias corresponde ao autor deste blogue.
Definitivamente não. E para que não haja dúvidas vou tentar esclarecer a situação, até porque não quero que andem por aí a dizer que sou narcisista.
O dito modelo/personagem é o namorado da minha querida amiga CC que assina algumas das fotos que por aqui vão passando e posso até dizer-vos de fonte segura, que se não fosse o talento fotográfico da minha amiga o "careto" do barbudo não estaria assim tão favorecido.

esquerda

foto de CC

Já me sinto melhor do meu lado esquerdo.

O que significam as coisas fora do seu contexto?
Pois é, significam outras tantas coisas.

Fico sempre espantado com o processo comunicativo e com alguma aragem.

bla! bla! ou talvez não

foto de CC com tratamento de JAM


Nas boas metáforas cabem todas as ideias do mundo, são obras abertas para livres pensadores.

13 fevereiro 2005

inclinação natural?

Hoje, acordei com uma uma visão inclinada de mim.

Fiquei atento no silêncio a tentar ouvir o sangue nas veias, mas desisti intimidado ao dar-me conta da precaridade de existir.

Tudo se complicou: eu quero ser eterno.

Mas o meu verdadeiro problema é acordar todos os dias inclinado.

Estou sempre seguramente dois ou três dias para me conseguir endireitar. Às vezes é um verdadeiro tormento.

Arranjei uma estaca, daquelas que se usam para manter os feijões "encaminhados". Foi uma sorte, assim descanso bastante a minha perna esquerda. Estava a sofrer muito da minha perna esquerda. Não fosse aquela ideia da estaca que o amigo Gonçalves me deu e...

De resto está tudo bem. Não tenho filhos, o empregozito é seguro e as pessoas fazem um esforço para gostar de mim.

Vou confessar-vos uma coisa... na realidade as pessoas não só gostam de mim como me adoram, não fazem outra coisa que não seja saber coisas acerca de mim. Tanto, que a minha mãe deixou de trabalhar, e agora passa os dias na mercearia da Mariazinha, a falar de mim, dos meus feitos, dos meus actos de bravura, da luta titânica que continuo a ter com a minha inclinação natural de acordar inclinado.

Para ser franco nem entendo esta obsessão que as pessoas têm por mim!

Tenho-me interrogado e cheguei à conclusão que a razão do meu sucesso existêncial é a minha inclinação natural para as coisas simples: o natal, a família, a integração social absoluta e claro, ver televisão na diagonal (literalmente).

03 fevereiro 2005

Contos minúsculos*

Muitas vezes se confunde o verdadeiro viajante com aquele que simplesmente entra num avião ou no carro e se desloca para um determinado destino. Viajar não corresponde unicamente ao movimento perceptível da pessoa que vai de um lugar para outro, nem tão pouco existe um único conceito de viagem. Fernando Pessoa viajava dentro do seu próprio quarto, para Pavese era, simplesmente, “uma brutalidade”. Para Kerouac era alienação pura.

O verdadeiro viajante não é um turista, o verdadeiro viajante é um ser interrogativo e diletante. Desafia as normas e os conceitos pré-estabelecidos e não lhe interessa o lugar de chegada mas antes as nuances do seu percurso. O verdadeiro viajante só existe sem roteiro.

* Leia-se o post do meu querido amigo talento da mediocridade

01 fevereiro 2005

o palácio da sabedoria

Estive cerca de dez dias à espera que a barba me crescesse o suficiente
para ser sábio.
Esperei todos os dias ansiosamente...
Olhar o espelho logo pela manhã tornou-se tão frequente que quase
deixei de me ver (estava concentrado no crescimento da barba).
Os dias foram passando!
... e a barba cresceu.
Quando já sabia tudo (ao décimo dia), num momento de excesso resolvi cortá-la...

28 janeiro 2005

tudo que te disse

Tudo que te disse acerca de répteis e tubarões era verdade.
Tenho-o comprovado dia após dia e repetidamente no canal dois.
Quando a realidade me agride fico perplexo e reconfortado
por viver num mundo onde não existem tubarões tigre nem cobras venenosas.
Por aqui o veneno é outro... tem dimensão humana e quantas vezes não deixa
um homem à procura de um antidoto.

26 janeiro 2005

divagação


foto de CC

Observar meticulosamente um aspecto da realidade pode não corresponder a uma necessidade fundamental do indivíduo que observa.
Estou envolvido num estudo que de tão específico e meticuloso me remete para o perigo sempre eminente de não me entender a mim mesmo e de estar a construir coisa nenhuma.
É um abismo que me afasta do que me é essencial e se afirma num academismo sem precedentes na estória da minha existência.
Sem espontaneidade, sem disponibilidade mental para a arte e sem divagação.
Sinto-me esfomeado...
... de intensidade, de diletância, de paixão, de arrebatamento, de arte... e sobretudo de viajar.

19 janeiro 2005

mais um pormenor

O pormenor é um exercício de análise da realidade,
e porque nos surpreende, revela a acutilância
do nosso olhar e uma certa intensidade de viver.
Viver sem pormenores seria insuportável.

só um pormenor por ser inverno e frio

Tenho duas moscas na minha cozinha.
No dia anterior tinha-as visto em alegre carrocel em volta da lâmpada, testando mutuamente a sua perícia na arte de bem circular.
Hoje, uma está parada no bordo do candeeiro, enquanto a outra se arrasta encharcada pelo lava louça.
Em breve haverá apenas uma única mosca na minha cozinha.

outro pormenor

Hoje ao jantar via as notícias da SIC.
Tive uma certa dificuldade em "engolir" a ideia de que em
cada três segundos morre uma pessoa com fome no mundo.

16 janeiro 2005

Dr. Bayard



Os míticos rebuçados do Doutor não tiveram até agora o efeito desejado!

10 janeiro 2005

sem intensidade

Tenho nos últimos tempos sentido uma falta abissal de intensidade existêncial.
Raramente me surpreendo e tudo vai acontecendo sem surpresas de maior.
Uso o humor no processo vivêncial.
Perdi algum sentido crítico e vejo-me mesmo a caminhar por um túnel perfeitamente iluminado.
Toco muitas vezes o peito a ver se o coração ainda bate.
Acordo pela manhã sem surpresas e crente que a higiene pessoal sempre existiu.
Vivo o resto do dia com uma relativa leveza e chateio-me menos do que nunca com as pessoas do costume.
Hoje acordei de cabeça virada para o fundo da cama e achei perfeitamente natural.
Nada se me afigura de difícil resolução e os dias passam a uma velocidade estonteante.
Olho para o mundo e tudo me parece perfeitamente natural.
Qualquer dia plantam-me no chão e eu vou querer dar frutos.
Perfeitamente natural!

04 janeiro 2005

mudar de vida ou o carácter

mudar de vida - traços de carácter

Sempre tive uma certa dificuldade em comemorar o que quer que seja. Começa com o dia dos meus anos e passa pelos natais, anos novos e outros que tais.
Já tentei várias vezes, sem sucesso, alterar este estádio de introspecção forçada em que me vejo envolvido no decorrer destas festividades com lugar assinalado no calendário.
Quis mudar de vida, sem sucesso!
Reveillon em
Galicia a torcer o nariz à festividade de Ano Novo e a disparar mau humor em todas as direcções. Puxei da cigarrilha... e zás, alapado em frente ao televisor durante horas, seguido de sono profundo e retemperante.
Às vezes sou invadido por esta espécie de loucura a que o meu amigo Vítor, sempre com a explicação dos factos na ponta da língua, chamaria de, traços de carácter inerentes ao ser humano e definidores da sua identidade.


29 dezembro 2004

caminhar para onde


douro 2003 (Santa Marta de Penaguião)

acusaram-me de este blogue corresponder mais a uma certa urbanidade do que a um blogue de interior, como está nas premissas da sua criação.
Forçado a concordar parcialmente com esta ideia, aqui vai uma imagem em jeito de
tentativa de redenção.

...de qualquer maneira, é sabido que temos tendência a reflectir aquilo de que estamos mais afastados em desproveito do que nos está mais próximo.
E depois, tenho tendência para ser mundano e entender as coisas da vida como um todo organizado e inseparável.

Agora que um novo ano vai começar, a mão sábia desta imagem aponta um caminho a percorrer. Que seja o inefável e abstracto caminho de quem o queira trilhar.

Árvores


Douro 2004 - foto de cc

Dias e dias a olhar as árvores


25 dezembro 2004

fotos no natal

O Natal é sempre um bom momento para ver fotos antigas.
E Este Natal não foi excepção.
Emocionou-me ver aquelas pessoas que fizeram parte da minha vida, mas que já cá não estam para partilhar o acto de viver. E emocionou ver-me a mim mesmo num corpo franzino a sorrir como se fosse feliz.
A fotografia como arte da ilusão pode enganar-nos se estivermos pouco atentos ou formos apenas observadores não intervenientes da realidade fotografada.

Estórias da vida e da morte

É sempre inquietante ver pessoas mortas e ainda mais inquietante se torna, quando essas pessoas estão num caixão vestidas com o melhor fato e com a serenidade no rosto de quem dorme um sono profundo e apaziguador.
Em volta, a família reunida fala de morte e evita olhar o defunto.
Neste caso, e por momentos, pareceu-me uma família harmoniosa e quase vislumbrei um estranho bem estar geral. Para trás pareciam ter ficado anos de picardias e invejazinhas, de muitas carvalhadas apregoadas uns aos outros.
Ontem foi diferente. Respirava-se uma paz e um silêncio irreal, havendo mesmo lugar para uma piadazinha inofensiva da minha mãe, que colocou toda a gente com um impossível sorriso de aprovação no rosto.
- Pois é, Deus fez-lhe um favor. Estava a sofrer tanto. E mais a mais ninguém cá fica.
E foram nomeando um a um a idade que tinham.
Os meus tios e tias já têm uma idade jeitosa e o que sei da maioria deles é que realmente nunca se entenderam ao longo da vida. Viveram sempre de costas voltadas uns para os outros. Aqui no lugar da morte pareceram ganhar a intimidade e a cumplicidade das crianças que brincavam no pátio. Foi um momento de felicidade e partilha de afectos à sua maneira.
Na minha família as pessoas juntam-se para morrer o que na minha opinião tem tanto de estranho quanto de clara afirmação da rudeza* de carácter que os caracteriza.

* rudeza não tem neste caso um sentido pejorativo, bem pelo contrário, trata-se de uma intimidade relacional com as suas estórias de vida e com os lugares que sempre habitaram. Uma harmoniosa relação com os elementos naturais que hoje qualquer um de nós apenas pode intuir.

21 dezembro 2004

Pelos olhos passeiam imagens

invisibilidade

daqui para Elsinore

do ponto de vista teórico entristecem-me as possibilidades ontológicas
Elsinore

As camas são lugares espirituais


Ermesinde 1999?



Canção da errância

Eu sou o irregular o vagabundo o erradio

eu sou da errância e da distância e da errática

e proibida margem de outro rio.

Haverá sempre em mim a linha matemática

e a gramática secreta do Padre António Vieira.

A minha terra é sempre em terra estranha

quem me quiser procure na fronteira

eu sou de algures entre o azul e a Espanha.

Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”

O abraço

Tudo começa com o aconchego do feto,
...depois, com os repetidos abraços das mães, das tias , dos avós e de todos aqueles que depositam em nós uma profunda esperança. Um abraço de todos aqueles que já esqueceram a importância real do abraço e nos transmitem, quantas vezes sem saber, um conhecimento primordial que vai marcar o resto dos nossos dias.
Abraçar é uma das mais importantes manifestações humanas.
Abraçar é ter esperança que o mundo vai ser melhor;
Abraçar é redescobrir o prazer de viver.

O abraço é uma profunda manifestação de amor



Senti a vontade de te abraçar, e assim foi... abraçei-te como se fosse a última vez e soube que seria para sempre. O abraço corresponde a este pacto a esta necessidade profunda de seres humanos.

Se hoje não abraçaste ninguém... procura...
...o blog está a absorver-te demasiado tempo e nunca saberás se essa foi a melhor solução.


tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac

17 dezembro 2004

Cartão de Natal (para não fumadores)


Um colega e amigo enviou-me este excelente cartão de Natal, como não poderia deixar de ser partilho-o aqui com o mundo todo em verdadeiro espírito natalício.
Dedico esta imagem áqueles que deixaram as salas de fumo (não é o meu caso, continuo a gostar do nevoeiro) e se dedicaram de corpo e alma à goma e a outras actividades que esta imagem tão bem sugere.


15 dezembro 2004

...





O meu barbeiro (esboço antes de um olhar serigráfico)

Boa tarde.
É para cortar o cabelo?
É.
Vai ter que esperar uns 10 minutitos enquanto acabo este corte.
Circulo pelo salão, passo os olhos no "Jogo". Nas paredes estão rapazes e raparigas com cortes sofisticados.
...

Ora sente-se aí fa(chavor)
Quer lavar?
Não.
Como quer o corte?
Como o costume, curtinho, mas não demasiado, certo nas pontas, mas sem exageros, orelhas destapadas e suíças discretas. Na frente, "sem risco".
Vamos lá ver isso então...
(ouve-se o som maquinal de quem passou a vida a mexer em tesouras)
Rosto inclinado ora para a direita, ora para a esquerda, ora para baixo, ora para cima - em frente.
...
Aqui, surjo eu, em frente ao espelho e projectado num fundo impossível...



08 dezembro 2004

#4.Lugares com óptica

para trocar os olhos ritsumei

#3.Lugares


#2.Lugares ao alto


# 1.Lugares da vida real

Estava demasiado eufórico para os lugares habituais e não hesitei em tentar a Foz.
Era fim de semana prolongado e as vaidades saíram à rua.
Em frente ao bar estava um casal de porteiros simpáticos, ela mais simpática do que ele e a oferecer brindes na troca de bebidas doces, e apenas, ligeiramente alcoólicas.
Como disse, eu estava verdadeiramente eufórico.
Entrei confiante e toda a gente olhou para mim, o que me fez sentir bonito.
Encostei-me ao balcão para pedir uma bebida e foi servido por gente loura e sorridente.
Voltei as costas ao balcão para sentir o ambiente, e lá estavam eles e elas, a sorrir, a saltar e a berrar nos ouvidos uns dos outros. Eles de camisa aos quadrados e barba bem escanhoada, elas de sapato de ponta fina, gangas justas ao corpo e camiseta de alças a deixar ver corpos de peles macias e cuidadas.
Entretanto, as três louras que serviam no bar tinham saltado para cima do balcão e esfregavam-se sensualmente umas nas outras a dançar o ieie.
Fiquei por momentos a olhar para todo o lado, tipo sonar da Marinha.
Pedi outra bebida.
Ela apareceu do nada e perguntou:
não te costumo ver por aqui?
então?
És diferente... barba por fazer, roupa preta e castanha, um olhar tipo sonar...
pois!
até já.(afasta-se)
...tchauuu

Saí do bar algo desiquilibrado, sendo que só hoje me dei conta, enquanto observava um livro de ilusões de óptica, que estive sujeito a uma experiência singular - as camisas dos rapazes, às riscas, aos quadrados, e sempre as riscas diagonais e os quadrados.

Há lugares que não nos pertencem, mas que deixam em nós uma marca singular.

27 novembro 2004

instruções de leitura dos dois posts precedentes

Os dois posts precedentes, respectivamente, os 31 passos para ser intelectual rural e os 31 passos para ser intelectual urbano, devem ser lidos da seguinte forma:
ler o ponto 1 do intelectual urbano, seguido do ponto 1 do intelectual rural;
ler o ponto 2 do intelectual urbano, seguido do ponto 2 do intelectual rural;
etc.

A mim parece-me que o intelectual rural sai favorecido, claro está que há quem pense o contrário; Assim como existem aqueles que se colocam no ponto intermédio;
Outros dirão que o post do intelectual rural é autobiográfico e por isso sai favorecido;
Existem ainda aqueles que pensam que não existe ninguém assim;
outros ainda dirão que nunca mais visitam este blog.

pois que todos se situem onde quiserem, que eu agora vou mesmo para a janela apanhar com o vento gelado e o perfume da noite nas ventas.

PS é aconselhável usar um rato com scroll

os 31 passos para ser intelectual rural

01. É encontrar boas ideias nos lugares, nas paisagens e no
inefável perfume das coisas;
02. É abrir a janela pela manhã e pensar que nesse dia vamos
parar, porque não vamos viver para sempre;
03. É deixar-se adormecer a ver os programas para gente culta,
no canal 2;
04. É voltar muitas vezes aos livros de sempre;
05. É estar bem no meio do “nada”;
06. É acreditar profundamente no silêncio;
07. É discutir ideias, livre e espontaneamente;
08. É sobretudo pensar;
09. É aguentar a estocada e devolver a dobrar;
10. No verão, estar numa praia onde se ouve realmente o
mar ao fundo, é retemperante;
11. É ser moderadamente egocêntrico;
12. É considerar que a percepção do tempo é relativa;
13. Nas zonas rurais não há universidade;
14. É assumir que o dinheiro tem a sua importância;
15. É falar com convicção apenas aquilo que se sente;
16. É não conseguir viver sem o silêncio;
17. É considerar que a arrogância é apanágio dos ignorantes;
18. É agir com calma sempre que possível;
19. É ser moderadamente egocêntrico (11)
20. É pensar que o centro do mundo tem um interesse relativo;
21. É relativizar quase tudo menos o amor e a amizade;
22. É responder às solicitações e principalmente às dos amigos;
23. Não é preciso combinar nada, as coisas acontecem
espontaneamente;
24. É sobretudo dar espaço às sensações primárias;
25. É muito difícil ser objectivo e racional no espaço rural;
26. No espaço rural já não se usam penicos;
27. É ser inconformista qb;
28. É sentir que não estamos sós;
29. É tocar a terra e senti-la como um ser humano a sabe sentir;
30. É ir deixando crescer uma “barriguita” e cuidar da aparência
quando é necessário;
31. Fumar nunca é um problema para o intelectual rural.

os 31 passos para ser intelectual urbano

01. É ter projectos, muitos projectos;
02. É estar a trabalhar muito e em muitas coisas ao mesmo tempo;
03. É ver o máximo de espectáculos que o “Y” noticia;
04. É ler os livros “referência” de cada ano;
05. É fazer o pouco e quantas vezes “o nada” render muito;
06. É estar sempre a dizer qualquer coisa;
07. É perguntar ao outro o que está a fazer, e sem o ouvir realmente, já estar
a falar dos seus projectos;
08. É não pensar;
09. É agir em “legitima” defesa;
10. É fazer uma “escapadinha” durante o ano aos lugares mais “in - culturais”
da Europa e no verão visitar os lugares da moda (de preferência com mar ao
fundo e muita vida nocturna);
11. É ser puramente egocêntrico;
12. É uma luta contra o tempo;
13. É ser, ou ter vontade de ser Professor Universitário;
14. É (disfarçadamente) gostar muito de dinheiro;
15. É como o mundo do futebol, é falar e saber de tudo menos de desporto;
16. É não suportar o silêncio;
17. É ser profundamente auto-confiante e denotar alguma arrogância
quando põem em causa as suas ideias;
18. É ser setressado;
19. É não ter tempo para se masturbar;
20. É pensar que Lisboa é o centro do mundo;
21. É dar ao amor e à amizade uma importância relativa;
22. É esquecer-se de responder aos mail´s dos “amigos”;
23. É combinar encontrar-se com alguém para falar ou beber uns
copos e com sorte isso só vir a acontecer passados uns meses;
24. É não dar espaço às sensações mais primárias;
25. É ser pretensamente objectivo e racional;
26. É não “mijar fora do penico”;
27. É ser aparentemente inconformista;
28. É caminhar para o vazio espiritual e para a solidão;
29. É não ser verdadeiramente um animal;
30. É emagrecer e cuidar bastante da aparência, mas ter um
aspecto “neglige” quando convém (nota-se principalmente nos
espécimes mais relacionados com as artes);
31. É estar a fazer um esforço por deixar de fumar.

26 novembro 2004

quietude

Deixei-o hoje pelas 8 da manhã junto a um caminho estreito e longo entre vinhedos. O dia estava nublado, frio e triste. Dei a volta ao carro e ele esperou pacientemente que eu me afastasse. O seu olhar estava triste durante o tempo em que o foi observando pelo retrovisor até ao desfoque e à curva na estrada. Há tantas coisas que ele não sabe e eu gostaria de lhe dizer...
Já do outro lado da encosta ainda o vi a fazer o seu percurso lento, só e pesaroso pelo caminho estreito. Mantive-o no pensamento durante horas...

O telefone tocou...
- Podes vir buscar-me à vinha?

...fiquei contente pela sua voz, e não pude deixar de notar a humildade das suas palavras, a quietude em que parece mergulhar a cada dia que passa.

"a velhice é um naufrágio, sabe?"
in Carla de Elsinore

24 novembro 2004

ponencias III


instantâneos daquela vida real

ponencias II

Ela surpreendeu todos com a sua galopante mini-saia e meias rendadas a envolver as coxas esguias.
O colosso, aquele do post anterior, não ficou indiferente e olhou-a desajeitadamente de cima a baixo. Ela sentiu o seu olhar penetrante e lambareiro, mas desviou o olhar e fez um sorriso discreto, enquanto abanava afirmativamente a cabeça para o colega com quem conversava. Avançou confiante em direcção aos bolos e escolheu o mais pequeno, enquanto perguntava ao empregado se tinham creme. O empregado olhou-a e disse que sim, acrescentando que eram fresquinhos. Ela não resistiu, e... zás, deu-lhe uma grande dentada. O empregado suspirou reconfortado. O colosso que tomava café, café de saco, mesmo ali ao lado, não pôde evitar um olhar de soslaio. Bebeu o resto de café de uma só golada e arrastou-se languidamente mesmo junto a ela enquanto aspirava profundamente o seu perfume.
Ela voltou-se repentinamente e viu-o passar desajeitado e a esticar o casaco amarrotado.

Todos os convivas desceram para mais uma ponencia.
O colosso ia discursar, e ela, sentou-se na primeira fila.
Escusado será dizer que foi uma ponencia com muito interesse, uma abordagem inovadora das estratégias educacionais para o século XXI.

20 novembro 2004

ponencias I

O meu amigo T. concordou...
não podemos permitir a sua entrada na sala de ponencias!
As suas formas exacerbadas, o seu olhar altivo e a crueldade dos seus passos, geram tensões, torções e esforços não compatíveis com o enfoque globalizador que se pretende sempre presente. Isto, para além da natural incompatibilidade com a sociedade da informação e o esforço tecnológico do Ayuntamiento de Extremadura.
Vamos colocá-lo no claustro?
Assim foi.
O sol outonal entrava pelas arcadas e ele sentiu-se bem e reconfortado. Não gostava de parecer muito exigente, mas resolveu pedir uns bolos. Bolos, e café de saco.
Quando eu e o meu amigo T. chegamos, ele ressonava encostado a uma cadeira. Por um momento sentimos um sorriso e uma expressão vagabunda de quem sonha desmesuradamente. MEU DEUS! temos que o tirar daqui.
Aquilo que tinha parecido inicialmente um problema resolvido, agravou-se agora de forma incontrolável, ou seja, como remover dali tal colosso...Liguei o portátil e servi-me do último grito em tecnologia para chamar os bombeiros. Sim, estou a falar de wireless, que é como quem diz... ela está no ar.
O colosso acordou de repente estremunhado, sacudiu as migalhas da barriga e fez um esforço inglório por eliminar uma pequena mancha de café na camisa azul marinho. Ajeitou a gravata e levantou-se com a seriedade que o caracterizava. Afastou-se ruidosamente arrastando a perna esquerda, enquanto esticava as abas do casaco amarrotado. Ainda tropeçou no último degrau das escadas, mas aguentou a estocada. Olhou o sapato arranhado e entrou confiante na Sala Europa, onde ia apresentar uma comunicação sobre: "Estratégias Educacionais para o Século XXI - uma abordagem crítica sobre o pensamento complexo e o indesejável uso das novas tecnologias."

P.S. Os bombeiros foram avisados em tempo oportuno que a missiva tinha sido cancelada.

14 novembro 2004

inactivo

este espaço de ideias soltas e saberes vádios vai estar inactivo durante 4 ou 5 dias. Mas eu volto, esperançado e com ideias renovadas.

12 novembro 2004

nazo

"Todos os dias de manhã ao olhar o espelho faço a mesma pergunta, como seria a minha cara sem"... nariz

Corporação Nazoestética

Mário Botas


Mário Botas. s/título, 1993

pêlos nos ouvidos

estão a nascer-me pêlos nos ouvidos de tal forma pujantes que as palavras que me dizem se afirmam musicais. Repare-se que a última palavra que me disseram ao ouvido ficou a meio caminho entre a "Alina" de Arvo Pärt e o suave arfar de um sono profundo.

Kem es tu. rxp

sou a ponte para lado nenhum, o azul de infinito, a terra de ninguém que recebe de braços abertos a estrela cadente que ainda agora vi.


11 novembro 2004

espelhos

altura : arutla
mat : tam
pirilipan-pan : nap-napilirip
artur : rutra
alho : ohla
soalho : ohlaos
muito : otium

o dia hoje começou mal, tudo ao contrário e muitas vezes desfocado.
o espelho da casa de banho estava sujo e no ralo da banheira havia pêlos.
Esqueci-me de fechar a torneira e à noite deparei com uma inundação. Fiquei com os sapatos todos molhados, e as calças que ontem tinha comprado na Zara, ficaram irremediavelmente estragadas.
Quando saí para a rua e me meti no carro fui todo o tempo perseguido por uma aicnâlubma (ambulância)
definitivamente tinha acordado invertido para os acontecimentos.

- Cheguei!
- só agora. Diz ela!
- sim fui perseguido por uma aicnâlubma.
- então que contas?
- Olha, hoje tenho muito pouco para te dizer. O que pretendes saber?


hoje...
não vi a novela das sete, não ouvi o relato, estive desatento nas aulas...
quando falavas eu só pensava na desculpa que iria arranjar para aguentar a vida mais um dia,
decidi não ir a mais nenhum lado, inclusive, não fui à conservatória como tinha previsto...

Chego a casa tropeço num taco do soalho, escorrego para a frente no chão molhado e ainda por cima deparo-me com o bilhetinho dos afazeres para o dia todo.
fiquei pior que estragado.
O soalho estava definitivamente irrecuperável...

09 novembro 2004

de/no interior

Tenho andado a pensar se devo, ou não, assumir este blogue como sendo de interior ou no interior. É que os dois conceitos são na realidade claramente distintos, mas de qualquer maneira, dúbios.
Eu posso estar a falar do interior, no interior.
assim como,
estar no interior a falar do interior.
e posso ainda,
falar do interior sem que nessessariamente esteja a falar de mim mesmo.
ou então,
posso estar no interior, posso estar a falar de mim mesmo e simultaneamente estar no litoral.

desculpem lá o desabafo...
São coisas de in-terior.

frenético...

"Hoje estou cruel, frenético e exigente..."
Ou nem tanto... estou apenas cansado de me repetir.
Apetecia-me voar um pouco, mas as asas estão molhadas, sem ânimo.
Fica para uma próxima oportunidade.
Há sempre uma próxima oportunidade?
ou não?


Videira após a poda - Alto Douro

07 novembro 2004

...

o mapa riscado a batom...
a pastilha elástica colada por baixo do porta luvas
um sorriso perverso
um ou outro momento de perfeição.

06 novembro 2004

blog-in (2)

in-terior e abru(p)to.

Blog-in

No in-terior os blogs são mais intensos.

MMS – 1200 metros ou tudo está em tudo

Recebi uma MMS
que continha uma fotografia da paisagem abrupta das Fisgas de Ermelo e tinha em primeiro plano gravada na pedra a palavra “amo-te”. O autor desta foto não pôde ser identificado.

Olhava a paisagem
verde pelo enquadramento da janela do carro.
O vento morno da tarde arrancou-me uma lágrima ao olho direito enquanto um rubor me subiu pelo corpo acima e me invadiu as têmperas. Emociono-me facilmente com as paisagens e com as alturas.

05 novembro 2004

Valeira

Por alturas da Valeira
convém ser mudo.
Ou esquecer o fio das palavras.

Porque há lugares tão feitos
para a malha do silêncio,
que uma simples sílaba
apenas murmurada - embaraça.
A. M. Pires Cabral

(O Cachão da Valeira é um lugar mítico em toda a história do Alto Douro Vinhateiro...
a visitar... e sobretudo, a sentir )

Olhar


S. Salvador do Mundo (S. João da Pesqueira)


04 novembro 2004

Manual do sedutor

Hoje conheci um sedutor (autêntico) que usa o "método experimental" nas suas conquistas casuais (leia-se habituais). Descobriu que a infidelidade não é um problema, mas antes uma necessidade, e que o prazer está essencialmente no "descobrir pelo corpo acima". O primeiro grande ensinamento, diz ser, o silêncio relacional e a fugacidade dos encontros. O meu amigo encontra-se com três tipos de mulher: as dos vintes, as dos trintas e as dos quarentas. Deixou escapar, segredando, que cada vez mais se interessa pelas dos quarenta, pois diz, serem um "acrescento" - de salientar que o meu amigo é um homem da área das matemáticas, e segundo ele, "acrescento" é um conceito muito específico, que prometeu explicar-me numa próxima oportunidade.
O meu amigo associa a este amplo espaço de sedução uma certa "espiritualidade", um êxtase, que diz, ser visceral. Ele, é um poeta.
É pro-activo assumindo de imediato a atitude do conquistador:
- Vamos Jantar?
segue-se um olhar sedutor pelo corpo acima.
ela responde:
- Hoje não posso.
- Ok.Fica para outro dia.
O princípio da sedução está instalado, em crescendo, e a culminar no êxtase total.
É o que ele diz...
Há dúvidas?

03 novembro 2004


ainda com o cigarro ao canto da boca

a favor da bandalheira e da devassa

No outro dia em conversa com um amigo íamos conjecturando acerca dos fascismos encaputados que por aí andam e do medo colectivo que se sente.
Ninguém diz o que pensa claramente;
Dificilmente se discutem opiniões;
Toda a gente quer parecer perfeita e sem mácula, deixando de existir o "ser" para emergir em grande força o "parecer";
Os burocratas ganham preponderância afogados em papelada...
Deus já não interessa muito (por mim tudo bem)
anda tudo a tentar "safar-se" de quê?
do desemprego,
da mulher,
da prestação do carro,
daqueles que têm opiniões (pouco saudáveis!),
...etc
até os coitados dos fumadores que nunca fizeram mal a ninguém, agora parecem ter lepra. Toda a gente está incomodada (revoltada) com o fumo. Quando tal vai ser crime.

Anda para aí uma entidade anónima a "bufar"... e todos temos medo, sabe-se lá porquê e de quê!

Que saudades da bandalheira e devassa quantas vezes "pirosa" dos anos 80.

Parece que agora o que está a dar é ser eternamente jovem, viver para sempre. Nestas condições eu gostava de saber para quê...
mas está certo,
esperemos é que isto seja cíclico... como tudo.
Não é?



Para "afunilar" o olhar


Rio Douro (próximo do Peso da Régua)


02 novembro 2004

afunilar pontos de vista

hoje acordei com vontade de "afunilar" o meu ponto de vista, o mesmo é dizer "tou-te a ver daqui com os meus binóculos".

Tele-texto

Gostava de histórias de amor e não conseguia evitar a lágrima ao canto do olho desajeitadamente disfarçada. Passava horas em frente à televisão, umas vezes enamorado pelo vazio, outras vezes a pensar em si mesmo.

Kerckhove disse no livro “A pele da cultura” que a televisão se direcciona primeiro ao corpo e só depois à mente – disse que a televisão age fisicamente com o espectador. Esta feliz conclusão não lhe terá escapado nas longas horas passadas em frente ao ecrã. Só uma ou outra mosca a zunir próxima aos ouvidos o tirava do sério. Baixava o som do televisor. Levantava-se e procurava uma almofada. Os seus sentidos estavam concentrados no ouvido que por sua vez agiam como sonares experimentados. Após várias tentativas falhadas, zás!

Voltava a sentar-se no sofá desconfortável. Uns velhos cadeirões da década de 60 que já ninguém queria e estendia-se todo enquanto aumentava o som do televisor. Por vezes fazia um pouco de zapping e ia-se deixando ficar em fragmentos de publicidade que anunciavam raparigas bonitas e de bem com a vida ou então modelos de comportamento social que só eram credíveis porque fazia-se a si mesmo o favor de não os pensar. Outras vezes adormecia por longos períodos de tempo e acordava com a sensação desconfortável de ter ficado sempre a dormir para o mesmo lado. Colocava a mão no pescoço e fazia gestos circulares com a cabeça. Puxava o corpo pelo sofá acima e mudava de canal.

Hoje acordou com sede e foi à cozinha beber um copo de água. Estava calor e a água gelada despertou-o. Eram por aí umas 8 da tarde e o sol estava a desaparecer no horizonte. Saíu para regar o jardim tal como o fazia religiosamente todos os dias de verão. Sentia uma espécie de hipnose a olhar o jacto de água a humedecer o chão e ficava feliz por ver crescer as ervas. Sentia-se responsável pelo bem estar das plantas e dos animais que viviam nas entranhas daquele pedaço de terra.

Tinham-lhe dito no dia anterior que era triste e tinha um humor irregular. Ele concordou enquanto fechava a torneira e se dirigia à sala para consultar o tele-texto.

01 novembro 2004

aqui no rio

Como terei que começar por algum lado, coloquei-me quatro ou cinco passos acima da linha de água e fiquei a pensar no que me passou pela cabeça.
Que assim seja.

Inicio assim este espaço sem qualquer conceito prévio e na esperança de que algo aconteça...