19 março 2005

sol raiano

É-me muito difícil falar daquilo que fui. Dos livros que li, os filmes mais especiais, os momentos intensos, os excessos que vivi.
Quase me recuso a reflecti-los.
Quem me encontrar terá sido por acaso. Um acaso feliz ou um desencontro.
Quando publico (posto) tenho um espelho na mão que por força da verdade só pode reflectir-me a mim, nas misérias e nas virtudes de ser-se humano.
Quem me quiser, vá à fronteira ou ao planalto, onde o sol do fim de tarde é uma laranja e o desejo é de infinito.

18 março 2005

periferias



Certamente muitos já terão visto por aí nas bancas a revista Periférica, da qual aliás eu sou assinante desde o primeiro dia. Primeiro por solidariedade regional e depois por me parecer um “pontapé” bem assente na interioridade onde nada parece acontecer, mas onde ao mesmo tempo também tudo acontece num ambiente certamente mais saudável (refiro-me literalmente ao ambiente) do que na urbanidade cosmopolita e “avançada”.
Desta revista se pode dizer que é para ler, o caracter miudinho e o texto denso afasta qualquer leitor apressado. Pode ainda dizer-se que tem um grafismo à altura. Quem a vê pela primeira vez dificilmente dirá que esta é escrita, produzida e reproduzida em pleno Trás-os-Montes (tal é a visão que se tem do interior). O único elemento delator da sua interioridade talvez seja mesmo a publicidade de página inteira que muitas vezes pelo seu grafismo “pitoresco” mais parece um sarcasmo da irreverente revista do que algo para levar a sério. Mas claro, estes projectos têm custos.

No entanto, e apesar de tudo que foi dito, tenho com a “Periférica” uma relação de amor/ódio.
É uma revista do interior que sistematicamente pisca o olho à urbanidade cúmplice, vejam-se as acções de lançamento realizadas em lugares da moda, na capital. Até aqui, tudo bem. Pior é quando por vezes os textos roçam a erudição hermética e afectada, a começar nos editoriais, que são escritos por quem realmente não acredita no interior. Francamente não sei como me relacionar com este facto, já que também eu próprio apesar de ser e viver no interior, tenho sob muitos aspectos uma grande dificuldade em me relacionar com ele. Mas que não gosto nada, lá isso não gosto.
É uma revista do interior, que no fundo o despreza e o minimiza e onde o ser-se construtivo ou até didáctico não tem espaço.
Francamente penso que esta revista, do interior, só tem mesmo o nome da aldeia onde é produzida (Vilarelho – Vila Pouca de Aguiar) e a ficha técnica, já que o seu público privilegiado e mesmo assim minoritário, é urbano, não havendo nela nada, ou quase nada, que reflicta a interioridade, à excepção, claro, da publicidade!

16 março 2005

Sideways



Não me parecendo a mim um exercício cinematográfico excepcional, "soube-me muito bem" ver esta história de amizade e inquietação existêncial. O vinho surge neste filme como a perfeita metáfora da "coisa viva" e inquieta. Um dos personagens diz, mais ou menos desta forma: "dentro de uma garrafa está um produto vivo. Um vinho nunca é igual em dois momentos diferentes". Tal como os estados de "alma" humanos.
Talvez por viver numa região que produz vinho e de partilhar com os personagens deste filme o prazer de o beber, talvez por existirem aspectos de identificação pessoal com um dos personagens, saí do cinema com um sorriso cumplice e uma grande vontade de beber um copo de vinho de forma ainda mais atenta que o costume.

11 março 2005

11.03.2004.MADRID




Acordamos no dia 11 de Março de 2004, faz hoje um ano, convictos da vulnerabilidade da existência e limitações humanas. Acordamos com um "soco" no estômago e sustivemos por um segundo a respiração para logo a seguir entendermos a inevitabilidade de já nada podermos fazer. Quisemos ir para a rua gritar, mas não o fizemos. Ficamos revoltados, mas não fizemos mais que ficar chocados com a catadupa de imagens que nos entravam pelos olhos e pela "alma" a todos os segundos, num continuum constrangedor de estarmos parados. Charles Darwin disse um dia: "Nenhum facto na longa história do mundo é tão chocante como os amplos e repetidos extermínios dos seus habitantes". Esta frase lapidar é verdade a cada instante, mas neste dia foi mais verdade, porque a morte estava mais perto, muito mais perto.

06 março 2005

paralelo 36


http://www.zemos98.org/festivales/zemos987/prezemos/vie101204.htm
[largometraje-documental]
"Paralelo 36, de José Luis Tirado - Zap Producciones 2003-2004 - 70 min.
Documento y ficción en la frontera sur de Europa
El Paralelo 36 es una línea imaginaria en un mapa, a la vez que un espacio real en el que transcurre el viaje de la emigración clandestina en el Estrecho de Gibraltar. En Paralelo 36 los protagonistas son los emigrantes: documento y ficción, gestos y palabras, sueños y deseos. Paralelo 36 es un relato, un cruce de micronarrativas que cartografían la frontera sur de Europa."

No mínimo muito curiosa esta coincidência.

05 março 2005

chocapic

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Os ovos e o bacon eram considerados na sociedade americana de finais do século XIX, alimentos afrodisíacos conducentes à masturbação. Para refrear os hábitos "perversos" dos "bons americanos" o senhor Will Keith Kellogg criou os agora muito famosos Kellogg's. No sítio da empresa refere-se que o senhor Kellogg acreditava que a "dieta" era um factor muito importante para um estilo de vida saudável e que o pequeno almoço era a refeição mais importante do dia. Será que alguém acredita nesta "dieta"?

Eu por mim prefiro Chocapic.

23 fevereiro 2005

sem dúvidas

Por vezes perguntam-me se o personagem que tantas vezes aparece nas fotografias corresponde ao autor deste blogue.
Definitivamente não. E para que não haja dúvidas vou tentar esclarecer a situação, até porque não quero que andem por aí a dizer que sou narcisista.
O dito modelo/personagem é o namorado da minha querida amiga CC que assina algumas das fotos que por aqui vão passando e posso até dizer-vos de fonte segura, que se não fosse o talento fotográfico da minha amiga o "careto" do barbudo não estaria assim tão favorecido.

esquerda

foto de CC

Já me sinto melhor do meu lado esquerdo.

O que significam as coisas fora do seu contexto?
Pois é, significam outras tantas coisas.

Fico sempre espantado com o processo comunicativo e com alguma aragem.

bla! bla! ou talvez não

foto de CC com tratamento de JAM


Nas boas metáforas cabem todas as ideias do mundo, são obras abertas para livres pensadores.

13 fevereiro 2005

inclinação natural?

Hoje, acordei com uma uma visão inclinada de mim.

Fiquei atento no silêncio a tentar ouvir o sangue nas veias, mas desisti intimidado ao dar-me conta da precaridade de existir.

Tudo se complicou: eu quero ser eterno.

Mas o meu verdadeiro problema é acordar todos os dias inclinado.

Estou sempre seguramente dois ou três dias para me conseguir endireitar. Às vezes é um verdadeiro tormento.

Arranjei uma estaca, daquelas que se usam para manter os feijões "encaminhados". Foi uma sorte, assim descanso bastante a minha perna esquerda. Estava a sofrer muito da minha perna esquerda. Não fosse aquela ideia da estaca que o amigo Gonçalves me deu e...

De resto está tudo bem. Não tenho filhos, o empregozito é seguro e as pessoas fazem um esforço para gostar de mim.

Vou confessar-vos uma coisa... na realidade as pessoas não só gostam de mim como me adoram, não fazem outra coisa que não seja saber coisas acerca de mim. Tanto, que a minha mãe deixou de trabalhar, e agora passa os dias na mercearia da Mariazinha, a falar de mim, dos meus feitos, dos meus actos de bravura, da luta titânica que continuo a ter com a minha inclinação natural de acordar inclinado.

Para ser franco nem entendo esta obsessão que as pessoas têm por mim!

Tenho-me interrogado e cheguei à conclusão que a razão do meu sucesso existêncial é a minha inclinação natural para as coisas simples: o natal, a família, a integração social absoluta e claro, ver televisão na diagonal (literalmente).

03 fevereiro 2005

Contos minúsculos*

Muitas vezes se confunde o verdadeiro viajante com aquele que simplesmente entra num avião ou no carro e se desloca para um determinado destino. Viajar não corresponde unicamente ao movimento perceptível da pessoa que vai de um lugar para outro, nem tão pouco existe um único conceito de viagem. Fernando Pessoa viajava dentro do seu próprio quarto, para Pavese era, simplesmente, “uma brutalidade”. Para Kerouac era alienação pura.

O verdadeiro viajante não é um turista, o verdadeiro viajante é um ser interrogativo e diletante. Desafia as normas e os conceitos pré-estabelecidos e não lhe interessa o lugar de chegada mas antes as nuances do seu percurso. O verdadeiro viajante só existe sem roteiro.

* Leia-se o post do meu querido amigo talento da mediocridade

01 fevereiro 2005

o palácio da sabedoria

Estive cerca de dez dias à espera que a barba me crescesse o suficiente
para ser sábio.
Esperei todos os dias ansiosamente...
Olhar o espelho logo pela manhã tornou-se tão frequente que quase
deixei de me ver (estava concentrado no crescimento da barba).
Os dias foram passando!
... e a barba cresceu.
Quando já sabia tudo (ao décimo dia), num momento de excesso resolvi cortá-la...

28 janeiro 2005

tudo que te disse

Tudo que te disse acerca de répteis e tubarões era verdade.
Tenho-o comprovado dia após dia e repetidamente no canal dois.
Quando a realidade me agride fico perplexo e reconfortado
por viver num mundo onde não existem tubarões tigre nem cobras venenosas.
Por aqui o veneno é outro... tem dimensão humana e quantas vezes não deixa
um homem à procura de um antidoto.

26 janeiro 2005

divagação


foto de CC

Observar meticulosamente um aspecto da realidade pode não corresponder a uma necessidade fundamental do indivíduo que observa.
Estou envolvido num estudo que de tão específico e meticuloso me remete para o perigo sempre eminente de não me entender a mim mesmo e de estar a construir coisa nenhuma.
É um abismo que me afasta do que me é essencial e se afirma num academismo sem precedentes na estória da minha existência.
Sem espontaneidade, sem disponibilidade mental para a arte e sem divagação.
Sinto-me esfomeado...
... de intensidade, de diletância, de paixão, de arrebatamento, de arte... e sobretudo de viajar.

19 janeiro 2005

mais um pormenor

O pormenor é um exercício de análise da realidade,
e porque nos surpreende, revela a acutilância
do nosso olhar e uma certa intensidade de viver.
Viver sem pormenores seria insuportável.

só um pormenor por ser inverno e frio

Tenho duas moscas na minha cozinha.
No dia anterior tinha-as visto em alegre carrocel em volta da lâmpada, testando mutuamente a sua perícia na arte de bem circular.
Hoje, uma está parada no bordo do candeeiro, enquanto a outra se arrasta encharcada pelo lava louça.
Em breve haverá apenas uma única mosca na minha cozinha.