28 janeiro 2005
tudo que te disse
Tenho-o comprovado dia após dia e repetidamente no canal dois.
Quando a realidade me agride fico perplexo e reconfortado
por viver num mundo onde não existem tubarões tigre nem cobras venenosas.
Por aqui o veneno é outro... tem dimensão humana e quantas vezes não deixa
um homem à procura de um antidoto.
26 janeiro 2005
divagação
foto de CC
Observar meticulosamente um aspecto da realidade pode não corresponder a uma necessidade fundamental do indivíduo que observa.
Estou envolvido num estudo que de tão específico e meticuloso me remete para o perigo sempre eminente de não me entender a mim mesmo e de estar a construir coisa nenhuma.
É um abismo que me afasta do que me é essencial e se afirma num academismo sem precedentes na estória da minha existência.
Sem espontaneidade, sem disponibilidade mental para a arte e sem divagação.
Sinto-me esfomeado...
... de intensidade, de diletância, de paixão, de arrebatamento, de arte... e sobretudo de viajar.
19 janeiro 2005
mais um pormenor
e porque nos surpreende, revela a acutilância
do nosso olhar e uma certa intensidade de viver.
Viver sem pormenores seria insuportável.
só um pormenor por ser inverno e frio
No dia anterior tinha-as visto em alegre carrocel em volta da lâmpada, testando mutuamente a sua perícia na arte de bem circular.
Hoje, uma está parada no bordo do candeeiro, enquanto a outra se arrasta encharcada pelo lava louça.
Em breve haverá apenas uma única mosca na minha cozinha.
outro pormenor
Tive uma certa dificuldade em "engolir" a ideia de que em
cada três segundos morre uma pessoa com fome no mundo.
18 janeiro 2005
atchim
Não consegui resistir a este pormenor da imagem anterior.
16 janeiro 2005
Dr. Bayard
Os míticos rebuçados do Doutor não tiveram até agora o efeito desejado!
10 janeiro 2005
sem intensidade
Raramente me surpreendo e tudo vai acontecendo sem surpresas de maior.
Uso o humor no processo vivêncial.
Perdi algum sentido crítico e vejo-me mesmo a caminhar por um túnel perfeitamente iluminado.
Toco muitas vezes o peito a ver se o coração ainda bate.
Acordo pela manhã sem surpresas e crente que a higiene pessoal sempre existiu.
Vivo o resto do dia com uma relativa leveza e chateio-me menos do que nunca com as pessoas do costume.
Hoje acordei de cabeça virada para o fundo da cama e achei perfeitamente natural.
Nada se me afigura de difícil resolução e os dias passam a uma velocidade estonteante.
Olho para o mundo e tudo me parece perfeitamente natural.
Qualquer dia plantam-me no chão e eu vou querer dar frutos.
Perfeitamente natural!
04 janeiro 2005
mudar de vida ou o carácter
Sempre tive uma certa dificuldade em comemorar o que quer que seja. Começa com o dia dos meus anos e passa pelos natais, anos novos e outros que tais.
Já tentei várias vezes, sem sucesso, alterar este estádio de introspecção forçada em que me vejo envolvido no decorrer destas festividades com lugar assinalado no calendário.
Quis mudar de vida, sem sucesso!
Reveillon em Galicia a torcer o nariz à festividade de Ano Novo e a disparar mau humor em todas as direcções. Puxei da cigarrilha... e zás, alapado em frente ao televisor durante horas, seguido de sono profundo e retemperante.
Às vezes sou invadido por esta espécie de loucura a que o meu amigo Vítor, sempre com a explicação dos factos na ponta da língua, chamaria de, traços de carácter inerentes ao ser humano e definidores da sua identidade.
29 dezembro 2004
caminhar para onde
douro 2003 (Santa Marta de Penaguião)
acusaram-me de este blogue corresponder mais a uma certa urbanidade do que a um blogue de interior, como está nas premissas da sua criação.
Forçado a concordar parcialmente com esta ideia, aqui vai uma imagem em jeito de
tentativa de redenção.
...de qualquer maneira, é sabido que temos tendência a reflectir aquilo de que estamos mais afastados em desproveito do que nos está mais próximo.
E depois, tenho tendência para ser mundano e entender as coisas da vida como um todo organizado e inseparável.
Agora que um novo ano vai começar, a mão sábia desta imagem aponta um caminho a percorrer. Que seja o inefável e abstracto caminho de quem o queira trilhar.
25 dezembro 2004
fotos no natal
E Este Natal não foi excepção.
Emocionou-me ver aquelas pessoas que fizeram parte da minha vida, mas que já cá não estam para partilhar o acto de viver. E emocionou ver-me a mim mesmo num corpo franzino a sorrir como se fosse feliz.
A fotografia como arte da ilusão pode enganar-nos se estivermos pouco atentos ou formos apenas observadores não intervenientes da realidade fotografada.
Estórias da vida e da morte
Em volta, a família reunida fala de morte e evita olhar o defunto.
Neste caso, e por momentos, pareceu-me uma família harmoniosa e quase vislumbrei um estranho bem estar geral. Para trás pareciam ter ficado anos de picardias e invejazinhas, de muitas carvalhadas apregoadas uns aos outros.
Ontem foi diferente. Respirava-se uma paz e um silêncio irreal, havendo mesmo lugar para uma piadazinha inofensiva da minha mãe, que colocou toda a gente com um impossível sorriso de aprovação no rosto.
- Pois é, Deus fez-lhe um favor. Estava a sofrer tanto. E mais a mais ninguém cá fica.
E foram nomeando um a um a idade que tinham.
Os meus tios e tias já têm uma idade jeitosa e o que sei da maioria deles é que realmente nunca se entenderam ao longo da vida. Viveram sempre de costas voltadas uns para os outros. Aqui no lugar da morte pareceram ganhar a intimidade e a cumplicidade das crianças que brincavam no pátio. Foi um momento de felicidade e partilha de afectos à sua maneira.
Na minha família as pessoas juntam-se para morrer o que na minha opinião tem tanto de estranho quanto de clara afirmação da rudeza* de carácter que os caracteriza.
* rudeza não tem neste caso um sentido pejorativo, bem pelo contrário, trata-se de uma intimidade relacional com as suas estórias de vida e com os lugares que sempre habitaram. Uma harmoniosa relação com os elementos naturais que hoje qualquer um de nós apenas pode intuir.
21 dezembro 2004
As camas são lugares espirituais
Ermesinde 1999?
Canção da errância
Eu sou o irregular o vagabundo o erradio
eu sou da errância e da distância e da errática
e proibida margem de outro rio.
Haverá sempre em mim a linha matemática
e a gramática secreta do Padre António Vieira.
A minha terra é sempre em terra estranha
quem me quiser procure na fronteira
eu sou de algures entre o azul e a Espanha.
Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”
O abraço
...depois, com os repetidos abraços das mães, das tias , dos avós e de todos aqueles que depositam em nós uma profunda esperança. Um abraço de todos aqueles que já esqueceram a importância real do abraço e nos transmitem, quantas vezes sem saber, um conhecimento primordial que vai marcar o resto dos nossos dias.
Abraçar é uma das mais importantes manifestações humanas.
Abraçar é ter esperança que o mundo vai ser melhor;
Abraçar é redescobrir o prazer de viver.
O abraço é uma profunda manifestação de amor
Senti a vontade de te abraçar, e assim foi... abraçei-te como se fosse a última vez e soube que seria para sempre. O abraço corresponde a este pacto a esta necessidade profunda de seres humanos.
Se hoje não abraçaste ninguém... procura...
...o blog está a absorver-te demasiado tempo e nunca saberás se essa foi a melhor solução.
tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac
17 dezembro 2004
Cartão de Natal (para não fumadores)

Um colega e amigo enviou-me este excelente cartão de Natal, como não poderia deixar de ser partilho-o aqui com o mundo todo em verdadeiro espírito natalício.
Dedico esta imagem áqueles que deixaram as salas de fumo (não é o meu caso, continuo a gostar do nevoeiro) e se dedicaram de corpo e alma à goma e a outras actividades que esta imagem tão bem sugere.
16 dezembro 2004
15 dezembro 2004
O meu barbeiro (esboço antes de um olhar serigráfico)
É para cortar o cabelo?
É.
Vai ter que esperar uns 10 minutitos enquanto acabo este corte.
Circulo pelo salão, passo os olhos no "Jogo". Nas paredes estão rapazes e raparigas com cortes sofisticados.
...
Ora sente-se aí fa(chavor)
Quer lavar?
Não.
Como quer o corte?
Como o costume, curtinho, mas não demasiado, certo nas pontas, mas sem exageros, orelhas destapadas e suíças discretas. Na frente, "sem risco".
Vamos lá ver isso então...
(ouve-se o som maquinal de quem passou a vida a mexer em tesouras)
Rosto inclinado ora para a direita, ora para a esquerda, ora para baixo, ora para cima - em frente.
...
Aqui, surjo eu, em frente ao espelho e projectado num fundo impossível...
08 dezembro 2004
#4.Lugares com óptica
# 1.Lugares da vida real
Era fim de semana prolongado e as vaidades saíram à rua.
Em frente ao bar estava um casal de porteiros simpáticos, ela mais simpática do que ele e a oferecer brindes na troca de bebidas doces, e apenas, ligeiramente alcoólicas.
Como disse, eu estava verdadeiramente eufórico.
Entrei confiante e toda a gente olhou para mim, o que me fez sentir bonito.
Encostei-me ao balcão para pedir uma bebida e foi servido por gente loura e sorridente.
Voltei as costas ao balcão para sentir o ambiente, e lá estavam eles e elas, a sorrir, a saltar e a berrar nos ouvidos uns dos outros. Eles de camisa aos quadrados e barba bem escanhoada, elas de sapato de ponta fina, gangas justas ao corpo e camiseta de alças a deixar ver corpos de peles macias e cuidadas.
Entretanto, as três louras que serviam no bar tinham saltado para cima do balcão e esfregavam-se sensualmente umas nas outras a dançar o ieie.
Fiquei por momentos a olhar para todo o lado, tipo sonar da Marinha.
Pedi outra bebida.
Ela apareceu do nada e perguntou:
não te costumo ver por aqui?
então?
És diferente... barba por fazer, roupa preta e castanha, um olhar tipo sonar...
pois!
até já.(afasta-se)
...tchauuu
Saí do bar algo desiquilibrado, sendo que só hoje me dei conta, enquanto observava um livro de ilusões de óptica, que estive sujeito a uma experiência singular - as camisas dos rapazes, às riscas, aos quadrados, e sempre as riscas diagonais e os quadrados.
Há lugares que não nos pertencem, mas que deixam em nós uma marca singular.
27 novembro 2004
instruções de leitura dos dois posts precedentes
ler o ponto 1 do intelectual urbano, seguido do ponto 1 do intelectual rural;
ler o ponto 2 do intelectual urbano, seguido do ponto 2 do intelectual rural;
etc.
A mim parece-me que o intelectual rural sai favorecido, claro está que há quem pense o contrário; Assim como existem aqueles que se colocam no ponto intermédio;
Outros dirão que o post do intelectual rural é autobiográfico e por isso sai favorecido;
Existem ainda aqueles que pensam que não existe ninguém assim;
outros ainda dirão que nunca mais visitam este blog.
pois que todos se situem onde quiserem, que eu agora vou mesmo para a janela apanhar com o vento gelado e o perfume da noite nas ventas.
PS é aconselhável usar um rato com scroll
os 31 passos para ser intelectual rural
01. É encontrar boas ideias nos lugares, nas paisagens e no
inefável perfume das coisas;
parar, porque não vamos viver para sempre;
no canal 2;
mar ao fundo, é retemperante;
espontaneamente;
quando é necessário;
os 31 passos para ser intelectual urbano
01. É ter projectos, muitos projectos;
a falar dos seus projectos;
da Europa e no verão visitar os lugares da moda (de preferência com mar ao
fundo e muita vida nocturna);
quando põem em causa as suas ideias;
copos e com sorte isso só vir a acontecer passados uns meses;
aspecto “neglige” quando convém (nota-se principalmente nos
espécimes mais relacionados com as artes);
26 novembro 2004
quietude
Já do outro lado da encosta ainda o vi a fazer o seu percurso lento, só e pesaroso pelo caminho estreito. Mantive-o no pensamento durante horas...
O telefone tocou...
- Podes vir buscar-me à vinha?
...fiquei contente pela sua voz, e não pude deixar de notar a humildade das suas palavras, a quietude em que parece mergulhar a cada dia que passa.
"a velhice é um naufrágio, sabe?"
in Carla de Elsinore
24 novembro 2004
ponencias III
instantâneos daquela vida real
ponencias II
O colosso, aquele do post anterior, não ficou indiferente e olhou-a desajeitadamente de cima a baixo. Ela sentiu o seu olhar penetrante e lambareiro, mas desviou o olhar e fez um sorriso discreto, enquanto abanava afirmativamente a cabeça para o colega com quem conversava. Avançou confiante em direcção aos bolos e escolheu o mais pequeno, enquanto perguntava ao empregado se tinham creme. O empregado olhou-a e disse que sim, acrescentando que eram fresquinhos. Ela não resistiu, e... zás, deu-lhe uma grande dentada. O empregado suspirou reconfortado. O colosso que tomava café, café de saco, mesmo ali ao lado, não pôde evitar um olhar de soslaio. Bebeu o resto de café de uma só golada e arrastou-se languidamente mesmo junto a ela enquanto aspirava profundamente o seu perfume.
Ela voltou-se repentinamente e viu-o passar desajeitado e a esticar o casaco amarrotado.
Todos os convivas desceram para mais uma ponencia.
O colosso ia discursar, e ela, sentou-se na primeira fila.
Escusado será dizer que foi uma ponencia com muito interesse, uma abordagem inovadora das estratégias educacionais para o século XXI.
20 novembro 2004
ponencias I
não podemos permitir a sua entrada na sala de ponencias!
As suas formas exacerbadas, o seu olhar altivo e a crueldade dos seus passos, geram tensões, torções e esforços não compatíveis com o enfoque globalizador que se pretende sempre presente. Isto, para além da natural incompatibilidade com a sociedade da informação e o esforço tecnológico do Ayuntamiento de Extremadura.
Vamos colocá-lo no claustro?
Assim foi.
O sol outonal entrava pelas arcadas e ele sentiu-se bem e reconfortado. Não gostava de parecer muito exigente, mas resolveu pedir uns bolos. Bolos, e café de saco.
Quando eu e o meu amigo T. chegamos, ele ressonava encostado a uma cadeira. Por um momento sentimos um sorriso e uma expressão vagabunda de quem sonha desmesuradamente. MEU DEUS! temos que o tirar daqui.
Aquilo que tinha parecido inicialmente um problema resolvido, agravou-se agora de forma incontrolável, ou seja, como remover dali tal colosso...Liguei o portátil e servi-me do último grito em tecnologia para chamar os bombeiros. Sim, estou a falar de wireless, que é como quem diz... ela está no ar.
O colosso acordou de repente estremunhado, sacudiu as migalhas da barriga e fez um esforço inglório por eliminar uma pequena mancha de café na camisa azul marinho. Ajeitou a gravata e levantou-se com a seriedade que o caracterizava. Afastou-se ruidosamente arrastando a perna esquerda, enquanto esticava as abas do casaco amarrotado. Ainda tropeçou no último degrau das escadas, mas aguentou a estocada. Olhou o sapato arranhado e entrou confiante na Sala Europa, onde ia apresentar uma comunicação sobre: "Estratégias Educacionais para o Século XXI - uma abordagem crítica sobre o pensamento complexo e o indesejável uso das novas tecnologias."
P.S. Os bombeiros foram avisados em tempo oportuno que a missiva tinha sido cancelada.
14 novembro 2004
inactivo
12 novembro 2004
nazo
Corporação Nazoestética
pêlos nos ouvidos
Kem es tu. rxp
11 novembro 2004
espelhos
mat : tam
pirilipan-pan : nap-napilirip
artur : rutra
alho : ohla
soalho : ohlaos
muito : otium
o dia hoje começou mal, tudo ao contrário e muitas vezes desfocado.
o espelho da casa de banho estava sujo e no ralo da banheira havia pêlos.
Esqueci-me de fechar a torneira e à noite deparei com uma inundação. Fiquei com os sapatos todos molhados, e as calças que ontem tinha comprado na Zara, ficaram irremediavelmente estragadas.
Quando saí para a rua e me meti no carro fui todo o tempo perseguido por uma aicnâlubma (ambulância)
definitivamente tinha acordado invertido para os acontecimentos.
- Cheguei!
- só agora. Diz ela!
- sim fui perseguido por uma aicnâlubma.
- então que contas?
- Olha, hoje tenho muito pouco para te dizer. O que pretendes saber?
hoje...
não vi a novela das sete, não ouvi o relato, estive desatento nas aulas...
quando falavas eu só pensava na desculpa que iria arranjar para aguentar a vida mais um dia,
decidi não ir a mais nenhum lado, inclusive, não fui à conservatória como tinha previsto...
Chego a casa tropeço num taco do soalho, escorrego para a frente no chão molhado e ainda por cima deparo-me com o bilhetinho dos afazeres para o dia todo.
fiquei pior que estragado.
O soalho estava definitivamente irrecuperável...
09 novembro 2004
de/no interior
Eu posso estar a falar do interior, no interior.
assim como,
estar no interior a falar do interior.
e posso ainda,
falar do interior sem que nessessariamente esteja a falar de mim mesmo.
ou então,
posso estar no interior, posso estar a falar de mim mesmo e simultaneamente estar no litoral.
desculpem lá o desabafo...
São coisas de in-terior.
frenético...
Ou nem tanto... estou apenas cansado de me repetir.
Apetecia-me voar um pouco, mas as asas estão molhadas, sem ânimo.
Fica para uma próxima oportunidade.
Há sempre uma próxima oportunidade?
ou não?
Videira após a poda - Alto Douro
07 novembro 2004
...
a pastilha elástica colada por baixo do porta luvas
um sorriso perverso
um ou outro momento de perfeição.
06 novembro 2004
Blog-in
MMS – 1200 metros ou tudo está em tudo
Recebi uma MMS
que continha uma fotografia da paisagem abrupta das Fisgas de Ermelo e tinha em primeiro plano gravada na pedra a palavra “amo-te”. O autor desta foto não pôde ser identificado.
verde pelo enquadramento da janela do carro.
O vento morno da tarde arrancou-me uma lágrima ao olho direito enquanto um rubor me subiu pelo corpo acima e me invadiu as têmperas. Emociono-me facilmente com as paisagens e com as alturas.
05 novembro 2004
Valeira
convém ser mudo.
Ou esquecer o fio das palavras.
Porque há lugares tão feitos
para a malha do silêncio,
que uma simples sílaba
apenas murmurada - embaraça.
A. M. Pires Cabral
(O Cachão da Valeira é um lugar mítico em toda a história do Alto Douro Vinhateiro...
a visitar... e sobretudo, a sentir )
Olhar
S. Salvador do Mundo (S. João da Pesqueira)
04 novembro 2004
Manual do sedutor
O meu amigo associa a este amplo espaço de sedução uma certa "espiritualidade", um êxtase, que diz, ser visceral. Ele, é um poeta.
É pro-activo assumindo de imediato a atitude do conquistador:
- Vamos Jantar?
segue-se um olhar sedutor pelo corpo acima.
ela responde:
- Hoje não posso.
- Ok.Fica para outro dia.
O princípio da sedução está instalado, em crescendo, e a culminar no êxtase total.
É o que ele diz...
Há dúvidas?
03 novembro 2004
a favor da bandalheira e da devassa
Ninguém diz o que pensa claramente;
Dificilmente se discutem opiniões;
Toda a gente quer parecer perfeita e sem mácula, deixando de existir o "ser" para emergir em grande força o "parecer";
Os burocratas ganham preponderância afogados em papelada...
Deus já não interessa muito (por mim tudo bem)
anda tudo a tentar "safar-se" de quê?
do desemprego,
da mulher,
da prestação do carro,
daqueles que têm opiniões (pouco saudáveis!),
...etc
até os coitados dos fumadores que nunca fizeram mal a ninguém, agora parecem ter lepra. Toda a gente está incomodada (revoltada) com o fumo. Quando tal vai ser crime.
Anda para aí uma entidade anónima a "bufar"... e todos temos medo, sabe-se lá porquê e de quê!
Que saudades da bandalheira e devassa quantas vezes "pirosa" dos anos 80.
Parece que agora o que está a dar é ser eternamente jovem, viver para sempre. Nestas condições eu gostava de saber para quê...
mas está certo,
esperemos é que isto seja cíclico... como tudo.
Não é?
Para "afunilar" o olhar
Rio Douro (próximo do Peso da Régua)
02 novembro 2004
afunilar pontos de vista
Tele-texto
Gostava de histórias de amor e não conseguia evitar a lágrima ao canto do olho desajeitadamente disfarçada. Passava horas em frente à televisão, umas vezes enamorado pelo vazio, outras vezes a pensar em si mesmo.
Kerckhove disse no livro “A pele da cultura” que a televisão se direcciona primeiro ao corpo e só depois à mente – disse que a televisão age fisicamente com o espectador. Esta feliz conclusão não lhe terá escapado nas longas horas passadas em frente ao ecrã. Só uma ou outra mosca a zunir próxima aos ouvidos o tirava do sério. Baixava o som do televisor. Levantava-se e procurava uma almofada. Os seus sentidos estavam concentrados no ouvido que por sua vez agiam como sonares experimentados. Após várias tentativas falhadas, zás!
Voltava a sentar-se no sofá desconfortável. Uns velhos cadeirões da década de 60 que já ninguém queria e estendia-se todo enquanto aumentava o som do televisor. Por vezes fazia um pouco de zapping e ia-se deixando ficar em fragmentos de publicidade que anunciavam raparigas bonitas e de bem com a vida ou então modelos de comportamento social que só eram credíveis porque fazia-se a si mesmo o favor de não os pensar. Outras vezes adormecia por longos períodos de tempo e acordava com a sensação desconfortável de ter ficado sempre a dormir para o mesmo lado. Colocava a mão no pescoço e fazia gestos circulares com a cabeça. Puxava o corpo pelo sofá acima e mudava de canal.
Hoje acordou com sede e foi à cozinha beber um copo de água. Estava calor e a água gelada despertou-o. Eram por aí umas 8 da tarde e o sol estava a desaparecer no horizonte. Saíu para regar o jardim tal como o fazia religiosamente todos os dias de verão. Sentia uma espécie de hipnose a olhar o jacto de água a humedecer o chão e ficava feliz por ver crescer as ervas. Sentia-se responsável pelo bem estar das plantas e dos animais que viviam nas entranhas daquele pedaço de terra.
Tinham-lhe dito no dia anterior que era triste e tinha um humor irregular. Ele concordou enquanto fechava a torneira e se dirigia à sala para consultar o tele-texto.
01 novembro 2004
aqui no rio
Que assim seja.
Inicio assim este espaço sem qualquer conceito prévio e na esperança de que algo aconteça...