25 dezembro 2004

fotos no natal

O Natal é sempre um bom momento para ver fotos antigas.
E Este Natal não foi excepção.
Emocionou-me ver aquelas pessoas que fizeram parte da minha vida, mas que já cá não estam para partilhar o acto de viver. E emocionou ver-me a mim mesmo num corpo franzino a sorrir como se fosse feliz.
A fotografia como arte da ilusão pode enganar-nos se estivermos pouco atentos ou formos apenas observadores não intervenientes da realidade fotografada.

Estórias da vida e da morte

É sempre inquietante ver pessoas mortas e ainda mais inquietante se torna, quando essas pessoas estão num caixão vestidas com o melhor fato e com a serenidade no rosto de quem dorme um sono profundo e apaziguador.
Em volta, a família reunida fala de morte e evita olhar o defunto.
Neste caso, e por momentos, pareceu-me uma família harmoniosa e quase vislumbrei um estranho bem estar geral. Para trás pareciam ter ficado anos de picardias e invejazinhas, de muitas carvalhadas apregoadas uns aos outros.
Ontem foi diferente. Respirava-se uma paz e um silêncio irreal, havendo mesmo lugar para uma piadazinha inofensiva da minha mãe, que colocou toda a gente com um impossível sorriso de aprovação no rosto.
- Pois é, Deus fez-lhe um favor. Estava a sofrer tanto. E mais a mais ninguém cá fica.
E foram nomeando um a um a idade que tinham.
Os meus tios e tias já têm uma idade jeitosa e o que sei da maioria deles é que realmente nunca se entenderam ao longo da vida. Viveram sempre de costas voltadas uns para os outros. Aqui no lugar da morte pareceram ganhar a intimidade e a cumplicidade das crianças que brincavam no pátio. Foi um momento de felicidade e partilha de afectos à sua maneira.
Na minha família as pessoas juntam-se para morrer o que na minha opinião tem tanto de estranho quanto de clara afirmação da rudeza* de carácter que os caracteriza.

* rudeza não tem neste caso um sentido pejorativo, bem pelo contrário, trata-se de uma intimidade relacional com as suas estórias de vida e com os lugares que sempre habitaram. Uma harmoniosa relação com os elementos naturais que hoje qualquer um de nós apenas pode intuir.

21 dezembro 2004

Pelos olhos passeiam imagens

invisibilidade

daqui para Elsinore

do ponto de vista teórico entristecem-me as possibilidades ontológicas
Elsinore

As camas são lugares espirituais


Ermesinde 1999?



Canção da errância

Eu sou o irregular o vagabundo o erradio

eu sou da errância e da distância e da errática

e proibida margem de outro rio.

Haverá sempre em mim a linha matemática

e a gramática secreta do Padre António Vieira.

A minha terra é sempre em terra estranha

quem me quiser procure na fronteira

eu sou de algures entre o azul e a Espanha.

Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”

O abraço

Tudo começa com o aconchego do feto,
...depois, com os repetidos abraços das mães, das tias , dos avós e de todos aqueles que depositam em nós uma profunda esperança. Um abraço de todos aqueles que já esqueceram a importância real do abraço e nos transmitem, quantas vezes sem saber, um conhecimento primordial que vai marcar o resto dos nossos dias.
Abraçar é uma das mais importantes manifestações humanas.
Abraçar é ter esperança que o mundo vai ser melhor;
Abraçar é redescobrir o prazer de viver.

O abraço é uma profunda manifestação de amor



Senti a vontade de te abraçar, e assim foi... abraçei-te como se fosse a última vez e soube que seria para sempre. O abraço corresponde a este pacto a esta necessidade profunda de seres humanos.

Se hoje não abraçaste ninguém... procura...
...o blog está a absorver-te demasiado tempo e nunca saberás se essa foi a melhor solução.


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17 dezembro 2004

Cartão de Natal (para não fumadores)


Um colega e amigo enviou-me este excelente cartão de Natal, como não poderia deixar de ser partilho-o aqui com o mundo todo em verdadeiro espírito natalício.
Dedico esta imagem áqueles que deixaram as salas de fumo (não é o meu caso, continuo a gostar do nevoeiro) e se dedicaram de corpo e alma à goma e a outras actividades que esta imagem tão bem sugere.


15 dezembro 2004

...





O meu barbeiro (esboço antes de um olhar serigráfico)

Boa tarde.
É para cortar o cabelo?
É.
Vai ter que esperar uns 10 minutitos enquanto acabo este corte.
Circulo pelo salão, passo os olhos no "Jogo". Nas paredes estão rapazes e raparigas com cortes sofisticados.
...

Ora sente-se aí fa(chavor)
Quer lavar?
Não.
Como quer o corte?
Como o costume, curtinho, mas não demasiado, certo nas pontas, mas sem exageros, orelhas destapadas e suíças discretas. Na frente, "sem risco".
Vamos lá ver isso então...
(ouve-se o som maquinal de quem passou a vida a mexer em tesouras)
Rosto inclinado ora para a direita, ora para a esquerda, ora para baixo, ora para cima - em frente.
...
Aqui, surjo eu, em frente ao espelho e projectado num fundo impossível...



08 dezembro 2004

#4.Lugares com óptica

para trocar os olhos ritsumei

#3.Lugares


#2.Lugares ao alto


# 1.Lugares da vida real

Estava demasiado eufórico para os lugares habituais e não hesitei em tentar a Foz.
Era fim de semana prolongado e as vaidades saíram à rua.
Em frente ao bar estava um casal de porteiros simpáticos, ela mais simpática do que ele e a oferecer brindes na troca de bebidas doces, e apenas, ligeiramente alcoólicas.
Como disse, eu estava verdadeiramente eufórico.
Entrei confiante e toda a gente olhou para mim, o que me fez sentir bonito.
Encostei-me ao balcão para pedir uma bebida e foi servido por gente loura e sorridente.
Voltei as costas ao balcão para sentir o ambiente, e lá estavam eles e elas, a sorrir, a saltar e a berrar nos ouvidos uns dos outros. Eles de camisa aos quadrados e barba bem escanhoada, elas de sapato de ponta fina, gangas justas ao corpo e camiseta de alças a deixar ver corpos de peles macias e cuidadas.
Entretanto, as três louras que serviam no bar tinham saltado para cima do balcão e esfregavam-se sensualmente umas nas outras a dançar o ieie.
Fiquei por momentos a olhar para todo o lado, tipo sonar da Marinha.
Pedi outra bebida.
Ela apareceu do nada e perguntou:
não te costumo ver por aqui?
então?
És diferente... barba por fazer, roupa preta e castanha, um olhar tipo sonar...
pois!
até já.(afasta-se)
...tchauuu

Saí do bar algo desiquilibrado, sendo que só hoje me dei conta, enquanto observava um livro de ilusões de óptica, que estive sujeito a uma experiência singular - as camisas dos rapazes, às riscas, aos quadrados, e sempre as riscas diagonais e os quadrados.

Há lugares que não nos pertencem, mas que deixam em nós uma marca singular.

27 novembro 2004

instruções de leitura dos dois posts precedentes

Os dois posts precedentes, respectivamente, os 31 passos para ser intelectual rural e os 31 passos para ser intelectual urbano, devem ser lidos da seguinte forma:
ler o ponto 1 do intelectual urbano, seguido do ponto 1 do intelectual rural;
ler o ponto 2 do intelectual urbano, seguido do ponto 2 do intelectual rural;
etc.

A mim parece-me que o intelectual rural sai favorecido, claro está que há quem pense o contrário; Assim como existem aqueles que se colocam no ponto intermédio;
Outros dirão que o post do intelectual rural é autobiográfico e por isso sai favorecido;
Existem ainda aqueles que pensam que não existe ninguém assim;
outros ainda dirão que nunca mais visitam este blog.

pois que todos se situem onde quiserem, que eu agora vou mesmo para a janela apanhar com o vento gelado e o perfume da noite nas ventas.

PS é aconselhável usar um rato com scroll

os 31 passos para ser intelectual rural

01. É encontrar boas ideias nos lugares, nas paisagens e no
inefável perfume das coisas;
02. É abrir a janela pela manhã e pensar que nesse dia vamos
parar, porque não vamos viver para sempre;
03. É deixar-se adormecer a ver os programas para gente culta,
no canal 2;
04. É voltar muitas vezes aos livros de sempre;
05. É estar bem no meio do “nada”;
06. É acreditar profundamente no silêncio;
07. É discutir ideias, livre e espontaneamente;
08. É sobretudo pensar;
09. É aguentar a estocada e devolver a dobrar;
10. No verão, estar numa praia onde se ouve realmente o
mar ao fundo, é retemperante;
11. É ser moderadamente egocêntrico;
12. É considerar que a percepção do tempo é relativa;
13. Nas zonas rurais não há universidade;
14. É assumir que o dinheiro tem a sua importância;
15. É falar com convicção apenas aquilo que se sente;
16. É não conseguir viver sem o silêncio;
17. É considerar que a arrogância é apanágio dos ignorantes;
18. É agir com calma sempre que possível;
19. É ser moderadamente egocêntrico (11)
20. É pensar que o centro do mundo tem um interesse relativo;
21. É relativizar quase tudo menos o amor e a amizade;
22. É responder às solicitações e principalmente às dos amigos;
23. Não é preciso combinar nada, as coisas acontecem
espontaneamente;
24. É sobretudo dar espaço às sensações primárias;
25. É muito difícil ser objectivo e racional no espaço rural;
26. No espaço rural já não se usam penicos;
27. É ser inconformista qb;
28. É sentir que não estamos sós;
29. É tocar a terra e senti-la como um ser humano a sabe sentir;
30. É ir deixando crescer uma “barriguita” e cuidar da aparência
quando é necessário;
31. Fumar nunca é um problema para o intelectual rural.

os 31 passos para ser intelectual urbano

01. É ter projectos, muitos projectos;
02. É estar a trabalhar muito e em muitas coisas ao mesmo tempo;
03. É ver o máximo de espectáculos que o “Y” noticia;
04. É ler os livros “referência” de cada ano;
05. É fazer o pouco e quantas vezes “o nada” render muito;
06. É estar sempre a dizer qualquer coisa;
07. É perguntar ao outro o que está a fazer, e sem o ouvir realmente, já estar
a falar dos seus projectos;
08. É não pensar;
09. É agir em “legitima” defesa;
10. É fazer uma “escapadinha” durante o ano aos lugares mais “in - culturais”
da Europa e no verão visitar os lugares da moda (de preferência com mar ao
fundo e muita vida nocturna);
11. É ser puramente egocêntrico;
12. É uma luta contra o tempo;
13. É ser, ou ter vontade de ser Professor Universitário;
14. É (disfarçadamente) gostar muito de dinheiro;
15. É como o mundo do futebol, é falar e saber de tudo menos de desporto;
16. É não suportar o silêncio;
17. É ser profundamente auto-confiante e denotar alguma arrogância
quando põem em causa as suas ideias;
18. É ser setressado;
19. É não ter tempo para se masturbar;
20. É pensar que Lisboa é o centro do mundo;
21. É dar ao amor e à amizade uma importância relativa;
22. É esquecer-se de responder aos mail´s dos “amigos”;
23. É combinar encontrar-se com alguém para falar ou beber uns
copos e com sorte isso só vir a acontecer passados uns meses;
24. É não dar espaço às sensações mais primárias;
25. É ser pretensamente objectivo e racional;
26. É não “mijar fora do penico”;
27. É ser aparentemente inconformista;
28. É caminhar para o vazio espiritual e para a solidão;
29. É não ser verdadeiramente um animal;
30. É emagrecer e cuidar bastante da aparência, mas ter um
aspecto “neglige” quando convém (nota-se principalmente nos
espécimes mais relacionados com as artes);
31. É estar a fazer um esforço por deixar de fumar.

26 novembro 2004

quietude

Deixei-o hoje pelas 8 da manhã junto a um caminho estreito e longo entre vinhedos. O dia estava nublado, frio e triste. Dei a volta ao carro e ele esperou pacientemente que eu me afastasse. O seu olhar estava triste durante o tempo em que o foi observando pelo retrovisor até ao desfoque e à curva na estrada. Há tantas coisas que ele não sabe e eu gostaria de lhe dizer...
Já do outro lado da encosta ainda o vi a fazer o seu percurso lento, só e pesaroso pelo caminho estreito. Mantive-o no pensamento durante horas...

O telefone tocou...
- Podes vir buscar-me à vinha?

...fiquei contente pela sua voz, e não pude deixar de notar a humildade das suas palavras, a quietude em que parece mergulhar a cada dia que passa.

"a velhice é um naufrágio, sabe?"
in Carla de Elsinore