17 dezembro 2004

Cartão de Natal (para não fumadores)


Um colega e amigo enviou-me este excelente cartão de Natal, como não poderia deixar de ser partilho-o aqui com o mundo todo em verdadeiro espírito natalício.
Dedico esta imagem áqueles que deixaram as salas de fumo (não é o meu caso, continuo a gostar do nevoeiro) e se dedicaram de corpo e alma à goma e a outras actividades que esta imagem tão bem sugere.


15 dezembro 2004

...





O meu barbeiro (esboço antes de um olhar serigráfico)

Boa tarde.
É para cortar o cabelo?
É.
Vai ter que esperar uns 10 minutitos enquanto acabo este corte.
Circulo pelo salão, passo os olhos no "Jogo". Nas paredes estão rapazes e raparigas com cortes sofisticados.
...

Ora sente-se aí fa(chavor)
Quer lavar?
Não.
Como quer o corte?
Como o costume, curtinho, mas não demasiado, certo nas pontas, mas sem exageros, orelhas destapadas e suíças discretas. Na frente, "sem risco".
Vamos lá ver isso então...
(ouve-se o som maquinal de quem passou a vida a mexer em tesouras)
Rosto inclinado ora para a direita, ora para a esquerda, ora para baixo, ora para cima - em frente.
...
Aqui, surjo eu, em frente ao espelho e projectado num fundo impossível...



08 dezembro 2004

#4.Lugares com óptica

para trocar os olhos ritsumei

#3.Lugares


#2.Lugares ao alto


# 1.Lugares da vida real

Estava demasiado eufórico para os lugares habituais e não hesitei em tentar a Foz.
Era fim de semana prolongado e as vaidades saíram à rua.
Em frente ao bar estava um casal de porteiros simpáticos, ela mais simpática do que ele e a oferecer brindes na troca de bebidas doces, e apenas, ligeiramente alcoólicas.
Como disse, eu estava verdadeiramente eufórico.
Entrei confiante e toda a gente olhou para mim, o que me fez sentir bonito.
Encostei-me ao balcão para pedir uma bebida e foi servido por gente loura e sorridente.
Voltei as costas ao balcão para sentir o ambiente, e lá estavam eles e elas, a sorrir, a saltar e a berrar nos ouvidos uns dos outros. Eles de camisa aos quadrados e barba bem escanhoada, elas de sapato de ponta fina, gangas justas ao corpo e camiseta de alças a deixar ver corpos de peles macias e cuidadas.
Entretanto, as três louras que serviam no bar tinham saltado para cima do balcão e esfregavam-se sensualmente umas nas outras a dançar o ieie.
Fiquei por momentos a olhar para todo o lado, tipo sonar da Marinha.
Pedi outra bebida.
Ela apareceu do nada e perguntou:
não te costumo ver por aqui?
então?
És diferente... barba por fazer, roupa preta e castanha, um olhar tipo sonar...
pois!
até já.(afasta-se)
...tchauuu

Saí do bar algo desiquilibrado, sendo que só hoje me dei conta, enquanto observava um livro de ilusões de óptica, que estive sujeito a uma experiência singular - as camisas dos rapazes, às riscas, aos quadrados, e sempre as riscas diagonais e os quadrados.

Há lugares que não nos pertencem, mas que deixam em nós uma marca singular.

27 novembro 2004

instruções de leitura dos dois posts precedentes

Os dois posts precedentes, respectivamente, os 31 passos para ser intelectual rural e os 31 passos para ser intelectual urbano, devem ser lidos da seguinte forma:
ler o ponto 1 do intelectual urbano, seguido do ponto 1 do intelectual rural;
ler o ponto 2 do intelectual urbano, seguido do ponto 2 do intelectual rural;
etc.

A mim parece-me que o intelectual rural sai favorecido, claro está que há quem pense o contrário; Assim como existem aqueles que se colocam no ponto intermédio;
Outros dirão que o post do intelectual rural é autobiográfico e por isso sai favorecido;
Existem ainda aqueles que pensam que não existe ninguém assim;
outros ainda dirão que nunca mais visitam este blog.

pois que todos se situem onde quiserem, que eu agora vou mesmo para a janela apanhar com o vento gelado e o perfume da noite nas ventas.

PS é aconselhável usar um rato com scroll

os 31 passos para ser intelectual rural

01. É encontrar boas ideias nos lugares, nas paisagens e no
inefável perfume das coisas;
02. É abrir a janela pela manhã e pensar que nesse dia vamos
parar, porque não vamos viver para sempre;
03. É deixar-se adormecer a ver os programas para gente culta,
no canal 2;
04. É voltar muitas vezes aos livros de sempre;
05. É estar bem no meio do “nada”;
06. É acreditar profundamente no silêncio;
07. É discutir ideias, livre e espontaneamente;
08. É sobretudo pensar;
09. É aguentar a estocada e devolver a dobrar;
10. No verão, estar numa praia onde se ouve realmente o
mar ao fundo, é retemperante;
11. É ser moderadamente egocêntrico;
12. É considerar que a percepção do tempo é relativa;
13. Nas zonas rurais não há universidade;
14. É assumir que o dinheiro tem a sua importância;
15. É falar com convicção apenas aquilo que se sente;
16. É não conseguir viver sem o silêncio;
17. É considerar que a arrogância é apanágio dos ignorantes;
18. É agir com calma sempre que possível;
19. É ser moderadamente egocêntrico (11)
20. É pensar que o centro do mundo tem um interesse relativo;
21. É relativizar quase tudo menos o amor e a amizade;
22. É responder às solicitações e principalmente às dos amigos;
23. Não é preciso combinar nada, as coisas acontecem
espontaneamente;
24. É sobretudo dar espaço às sensações primárias;
25. É muito difícil ser objectivo e racional no espaço rural;
26. No espaço rural já não se usam penicos;
27. É ser inconformista qb;
28. É sentir que não estamos sós;
29. É tocar a terra e senti-la como um ser humano a sabe sentir;
30. É ir deixando crescer uma “barriguita” e cuidar da aparência
quando é necessário;
31. Fumar nunca é um problema para o intelectual rural.

os 31 passos para ser intelectual urbano

01. É ter projectos, muitos projectos;
02. É estar a trabalhar muito e em muitas coisas ao mesmo tempo;
03. É ver o máximo de espectáculos que o “Y” noticia;
04. É ler os livros “referência” de cada ano;
05. É fazer o pouco e quantas vezes “o nada” render muito;
06. É estar sempre a dizer qualquer coisa;
07. É perguntar ao outro o que está a fazer, e sem o ouvir realmente, já estar
a falar dos seus projectos;
08. É não pensar;
09. É agir em “legitima” defesa;
10. É fazer uma “escapadinha” durante o ano aos lugares mais “in - culturais”
da Europa e no verão visitar os lugares da moda (de preferência com mar ao
fundo e muita vida nocturna);
11. É ser puramente egocêntrico;
12. É uma luta contra o tempo;
13. É ser, ou ter vontade de ser Professor Universitário;
14. É (disfarçadamente) gostar muito de dinheiro;
15. É como o mundo do futebol, é falar e saber de tudo menos de desporto;
16. É não suportar o silêncio;
17. É ser profundamente auto-confiante e denotar alguma arrogância
quando põem em causa as suas ideias;
18. É ser setressado;
19. É não ter tempo para se masturbar;
20. É pensar que Lisboa é o centro do mundo;
21. É dar ao amor e à amizade uma importância relativa;
22. É esquecer-se de responder aos mail´s dos “amigos”;
23. É combinar encontrar-se com alguém para falar ou beber uns
copos e com sorte isso só vir a acontecer passados uns meses;
24. É não dar espaço às sensações mais primárias;
25. É ser pretensamente objectivo e racional;
26. É não “mijar fora do penico”;
27. É ser aparentemente inconformista;
28. É caminhar para o vazio espiritual e para a solidão;
29. É não ser verdadeiramente um animal;
30. É emagrecer e cuidar bastante da aparência, mas ter um
aspecto “neglige” quando convém (nota-se principalmente nos
espécimes mais relacionados com as artes);
31. É estar a fazer um esforço por deixar de fumar.

26 novembro 2004

quietude

Deixei-o hoje pelas 8 da manhã junto a um caminho estreito e longo entre vinhedos. O dia estava nublado, frio e triste. Dei a volta ao carro e ele esperou pacientemente que eu me afastasse. O seu olhar estava triste durante o tempo em que o foi observando pelo retrovisor até ao desfoque e à curva na estrada. Há tantas coisas que ele não sabe e eu gostaria de lhe dizer...
Já do outro lado da encosta ainda o vi a fazer o seu percurso lento, só e pesaroso pelo caminho estreito. Mantive-o no pensamento durante horas...

O telefone tocou...
- Podes vir buscar-me à vinha?

...fiquei contente pela sua voz, e não pude deixar de notar a humildade das suas palavras, a quietude em que parece mergulhar a cada dia que passa.

"a velhice é um naufrágio, sabe?"
in Carla de Elsinore

24 novembro 2004

ponencias III


instantâneos daquela vida real

ponencias II

Ela surpreendeu todos com a sua galopante mini-saia e meias rendadas a envolver as coxas esguias.
O colosso, aquele do post anterior, não ficou indiferente e olhou-a desajeitadamente de cima a baixo. Ela sentiu o seu olhar penetrante e lambareiro, mas desviou o olhar e fez um sorriso discreto, enquanto abanava afirmativamente a cabeça para o colega com quem conversava. Avançou confiante em direcção aos bolos e escolheu o mais pequeno, enquanto perguntava ao empregado se tinham creme. O empregado olhou-a e disse que sim, acrescentando que eram fresquinhos. Ela não resistiu, e... zás, deu-lhe uma grande dentada. O empregado suspirou reconfortado. O colosso que tomava café, café de saco, mesmo ali ao lado, não pôde evitar um olhar de soslaio. Bebeu o resto de café de uma só golada e arrastou-se languidamente mesmo junto a ela enquanto aspirava profundamente o seu perfume.
Ela voltou-se repentinamente e viu-o passar desajeitado e a esticar o casaco amarrotado.

Todos os convivas desceram para mais uma ponencia.
O colosso ia discursar, e ela, sentou-se na primeira fila.
Escusado será dizer que foi uma ponencia com muito interesse, uma abordagem inovadora das estratégias educacionais para o século XXI.

20 novembro 2004

ponencias I

O meu amigo T. concordou...
não podemos permitir a sua entrada na sala de ponencias!
As suas formas exacerbadas, o seu olhar altivo e a crueldade dos seus passos, geram tensões, torções e esforços não compatíveis com o enfoque globalizador que se pretende sempre presente. Isto, para além da natural incompatibilidade com a sociedade da informação e o esforço tecnológico do Ayuntamiento de Extremadura.
Vamos colocá-lo no claustro?
Assim foi.
O sol outonal entrava pelas arcadas e ele sentiu-se bem e reconfortado. Não gostava de parecer muito exigente, mas resolveu pedir uns bolos. Bolos, e café de saco.
Quando eu e o meu amigo T. chegamos, ele ressonava encostado a uma cadeira. Por um momento sentimos um sorriso e uma expressão vagabunda de quem sonha desmesuradamente. MEU DEUS! temos que o tirar daqui.
Aquilo que tinha parecido inicialmente um problema resolvido, agravou-se agora de forma incontrolável, ou seja, como remover dali tal colosso...Liguei o portátil e servi-me do último grito em tecnologia para chamar os bombeiros. Sim, estou a falar de wireless, que é como quem diz... ela está no ar.
O colosso acordou de repente estremunhado, sacudiu as migalhas da barriga e fez um esforço inglório por eliminar uma pequena mancha de café na camisa azul marinho. Ajeitou a gravata e levantou-se com a seriedade que o caracterizava. Afastou-se ruidosamente arrastando a perna esquerda, enquanto esticava as abas do casaco amarrotado. Ainda tropeçou no último degrau das escadas, mas aguentou a estocada. Olhou o sapato arranhado e entrou confiante na Sala Europa, onde ia apresentar uma comunicação sobre: "Estratégias Educacionais para o Século XXI - uma abordagem crítica sobre o pensamento complexo e o indesejável uso das novas tecnologias."

P.S. Os bombeiros foram avisados em tempo oportuno que a missiva tinha sido cancelada.

14 novembro 2004

inactivo

este espaço de ideias soltas e saberes vádios vai estar inactivo durante 4 ou 5 dias. Mas eu volto, esperançado e com ideias renovadas.

12 novembro 2004

nazo

"Todos os dias de manhã ao olhar o espelho faço a mesma pergunta, como seria a minha cara sem"... nariz

Corporação Nazoestética

Mário Botas


Mário Botas. s/título, 1993

pêlos nos ouvidos

estão a nascer-me pêlos nos ouvidos de tal forma pujantes que as palavras que me dizem se afirmam musicais. Repare-se que a última palavra que me disseram ao ouvido ficou a meio caminho entre a "Alina" de Arvo Pärt e o suave arfar de um sono profundo.