05 novembro 2004

04 novembro 2004

Manual do sedutor

Hoje conheci um sedutor (autêntico) que usa o "método experimental" nas suas conquistas casuais (leia-se habituais). Descobriu que a infidelidade não é um problema, mas antes uma necessidade, e que o prazer está essencialmente no "descobrir pelo corpo acima". O primeiro grande ensinamento, diz ser, o silêncio relacional e a fugacidade dos encontros. O meu amigo encontra-se com três tipos de mulher: as dos vintes, as dos trintas e as dos quarentas. Deixou escapar, segredando, que cada vez mais se interessa pelas dos quarenta, pois diz, serem um "acrescento" - de salientar que o meu amigo é um homem da área das matemáticas, e segundo ele, "acrescento" é um conceito muito específico, que prometeu explicar-me numa próxima oportunidade.
O meu amigo associa a este amplo espaço de sedução uma certa "espiritualidade", um êxtase, que diz, ser visceral. Ele, é um poeta.
É pro-activo assumindo de imediato a atitude do conquistador:
- Vamos Jantar?
segue-se um olhar sedutor pelo corpo acima.
ela responde:
- Hoje não posso.
- Ok.Fica para outro dia.
O princípio da sedução está instalado, em crescendo, e a culminar no êxtase total.
É o que ele diz...
Há dúvidas?

03 novembro 2004


ainda com o cigarro ao canto da boca

a favor da bandalheira e da devassa

No outro dia em conversa com um amigo íamos conjecturando acerca dos fascismos encaputados que por aí andam e do medo colectivo que se sente.
Ninguém diz o que pensa claramente;
Dificilmente se discutem opiniões;
Toda a gente quer parecer perfeita e sem mácula, deixando de existir o "ser" para emergir em grande força o "parecer";
Os burocratas ganham preponderância afogados em papelada...
Deus já não interessa muito (por mim tudo bem)
anda tudo a tentar "safar-se" de quê?
do desemprego,
da mulher,
da prestação do carro,
daqueles que têm opiniões (pouco saudáveis!),
...etc
até os coitados dos fumadores que nunca fizeram mal a ninguém, agora parecem ter lepra. Toda a gente está incomodada (revoltada) com o fumo. Quando tal vai ser crime.

Anda para aí uma entidade anónima a "bufar"... e todos temos medo, sabe-se lá porquê e de quê!

Que saudades da bandalheira e devassa quantas vezes "pirosa" dos anos 80.

Parece que agora o que está a dar é ser eternamente jovem, viver para sempre. Nestas condições eu gostava de saber para quê...
mas está certo,
esperemos é que isto seja cíclico... como tudo.
Não é?



Para "afunilar" o olhar


Rio Douro (próximo do Peso da Régua)


02 novembro 2004

afunilar pontos de vista

hoje acordei com vontade de "afunilar" o meu ponto de vista, o mesmo é dizer "tou-te a ver daqui com os meus binóculos".

Tele-texto

Gostava de histórias de amor e não conseguia evitar a lágrima ao canto do olho desajeitadamente disfarçada. Passava horas em frente à televisão, umas vezes enamorado pelo vazio, outras vezes a pensar em si mesmo.

Kerckhove disse no livro “A pele da cultura” que a televisão se direcciona primeiro ao corpo e só depois à mente – disse que a televisão age fisicamente com o espectador. Esta feliz conclusão não lhe terá escapado nas longas horas passadas em frente ao ecrã. Só uma ou outra mosca a zunir próxima aos ouvidos o tirava do sério. Baixava o som do televisor. Levantava-se e procurava uma almofada. Os seus sentidos estavam concentrados no ouvido que por sua vez agiam como sonares experimentados. Após várias tentativas falhadas, zás!

Voltava a sentar-se no sofá desconfortável. Uns velhos cadeirões da década de 60 que já ninguém queria e estendia-se todo enquanto aumentava o som do televisor. Por vezes fazia um pouco de zapping e ia-se deixando ficar em fragmentos de publicidade que anunciavam raparigas bonitas e de bem com a vida ou então modelos de comportamento social que só eram credíveis porque fazia-se a si mesmo o favor de não os pensar. Outras vezes adormecia por longos períodos de tempo e acordava com a sensação desconfortável de ter ficado sempre a dormir para o mesmo lado. Colocava a mão no pescoço e fazia gestos circulares com a cabeça. Puxava o corpo pelo sofá acima e mudava de canal.

Hoje acordou com sede e foi à cozinha beber um copo de água. Estava calor e a água gelada despertou-o. Eram por aí umas 8 da tarde e o sol estava a desaparecer no horizonte. Saíu para regar o jardim tal como o fazia religiosamente todos os dias de verão. Sentia uma espécie de hipnose a olhar o jacto de água a humedecer o chão e ficava feliz por ver crescer as ervas. Sentia-se responsável pelo bem estar das plantas e dos animais que viviam nas entranhas daquele pedaço de terra.

Tinham-lhe dito no dia anterior que era triste e tinha um humor irregular. Ele concordou enquanto fechava a torneira e se dirigia à sala para consultar o tele-texto.

01 novembro 2004

aqui no rio

Como terei que começar por algum lado, coloquei-me quatro ou cinco passos acima da linha de água e fiquei a pensar no que me passou pela cabeça.
Que assim seja.

Inicio assim este espaço sem qualquer conceito prévio e na esperança de que algo aconteça...