31 maio 2009
28 maio 2009
Porque temos medo
Em resposta ao meu post "Medo de quê?" o meu querido amigo Eduardo Condorcet enviou este excerto de uma peça que ele encenou e que não poderia deixar de partilhar aqui.
“Vivemos todos sob a ameaça da bomba - cancro - carcinógeneos - doença - desemprego - impotência - medo do medo - pretos - brancos - polícias - juros - imposto de rendimento - multas de estacionamento - esquecer as nossas deixas - perder dinheiro - ganhar demasiado dinheiro - perder cabelo - engordar - ficar feio - ser estúpido -não ter graça - ser tímido - ser tonto - ficar preocupado com qual aparelhagem comprar - como arranjar um carro - a bicicleta - aprender piano - medo de falhar - de não causar boa impressão - medo da força dos outros - medo da fraqueza - medo de ficar exposto - de não chegar a horas ao emprego - de não ter reforma - segurança - velhice - de morrer - guerra - aleijado num acidente de automóvel - medo de ficar cego - surdo - de não entender a piada - medo dos duros - medo de correr riscos - medo de nadar - de saltar - de mergulhar de uma prancha - medo da doença - medo de mexer - medo de vender - medo de comprar - medo obsessivo de aranhas - armários escuros - facas - assaltantes - medo de pessoas - festas - multidões - pessoas espertas - medo de dizer o que se pensa - medo das mulheres - medo dos homens - medo da polícia - medo da ansiedade - por isso esta peça é dedicada a todos medrosos.”
Peça “Kvetch”; Original, Steven Berkoff; Tradução: Luis Fonseca
“Vivemos todos sob a ameaça da bomba - cancro - carcinógeneos - doença - desemprego - impotência - medo do medo - pretos - brancos - polícias - juros - imposto de rendimento - multas de estacionamento - esquecer as nossas deixas - perder dinheiro - ganhar demasiado dinheiro - perder cabelo - engordar - ficar feio - ser estúpido -não ter graça - ser tímido - ser tonto - ficar preocupado com qual aparelhagem comprar - como arranjar um carro - a bicicleta - aprender piano - medo de falhar - de não causar boa impressão - medo da força dos outros - medo da fraqueza - medo de ficar exposto - de não chegar a horas ao emprego - de não ter reforma - segurança - velhice - de morrer - guerra - aleijado num acidente de automóvel - medo de ficar cego - surdo - de não entender a piada - medo dos duros - medo de correr riscos - medo de nadar - de saltar - de mergulhar de uma prancha - medo da doença - medo de mexer - medo de vender - medo de comprar - medo obsessivo de aranhas - armários escuros - facas - assaltantes - medo de pessoas - festas - multidões - pessoas espertas - medo de dizer o que se pensa - medo das mulheres - medo dos homens - medo da polícia - medo da ansiedade - por isso esta peça é dedicada a todos medrosos.”
Peça “Kvetch”; Original, Steven Berkoff; Tradução: Luis Fonseca
26 maio 2009
A vida secreta de uma toupeira VIII
AFLORAR À SUPERFÍCIE
As cerejas vermelhas estavam sobre a mesa, frescas, belas e ácidas. O meu olhar estava ainda plasmado no horizonte que tinha abarcado momentos antes sobre a imponente cerejeira. Saía cedo, refém de uma intensidade louca de subir à árvore que engrandecia o meu horizonte e me devolvia uma certa felicidade. Os Melros enlouquecidos pela generosidade da natureza esvoaçavam num frenesim estonteante fazendo voos rasantes à minha inusitada felicidade de principio de manhã de Junho. Fazia 14 anos e nesse dia estava preste a desmaiar pela primeira vez na minha vida.
A frescura da manhã rejuvenescia um cérebro jovem e algo idealista. Imaginava-me com 32 anos, a viver em todos os lugares do mundo onde existissem cerejeiras imponentes, e onde a frescura da manhã continuasse a ser um tónico revigorante para os sentidos diletantes de quem simplesmente sobe uma cerejeira imponente e se sente feliz.Acreditava já, que as coisas simples sempre seriam um lugar de encontros e igualmente de desesperos vários.
Acordei a meio da viagem, a caminho do hospital, alguém me dava palmadas na cara e dizia: - acorda, acorda... lentamente devolvido à realidade senti a dor forte que me esfacelou todo o lado esquerdo do corpo. No hospital tudo me pareceu simpático, o médico, as enfermeiras roliças, as simpatias a que estava pouco habituado.
Passei o fim do ano lectivo, no lugar alto em que vivia a curar as mazelas de um atropelamento, e a olhar os meus colegas de escola a brincar no recreio ou, a adivinhá-los nas aulas chatas e traumatizantes de um certo mau professor de português a quem certamente não devo este meu gosto pelas letras. O Gonçalves esse, continuava como sempre, a correr desalmado pelo relvado de ervas daninhas com uma bola - nós chamávamos-lhe râguebi. Atrás, lá vinham os colegas de turma esbaforidos e a tentar rasteirar o imperturbável rapazola, por quem ainda hoje, passados 25 anos nutro uma enorme simpatia e amizade.
Hoje lembrei um daqueles acontecimentos de muitos anos e que fazem parte da minha construção existencial, sendo para isso apenas necessário, que sobre a mesa estivessem umas cerejas frescas, belas e ácidas. Enfim... coisas simples.

As cerejas vermelhas estavam sobre a mesa, frescas, belas e ácidas. O meu olhar estava ainda plasmado no horizonte que tinha abarcado momentos antes sobre a imponente cerejeira. Saía cedo, refém de uma intensidade louca de subir à árvore que engrandecia o meu horizonte e me devolvia uma certa felicidade. Os Melros enlouquecidos pela generosidade da natureza esvoaçavam num frenesim estonteante fazendo voos rasantes à minha inusitada felicidade de principio de manhã de Junho. Fazia 14 anos e nesse dia estava preste a desmaiar pela primeira vez na minha vida.
A frescura da manhã rejuvenescia um cérebro jovem e algo idealista. Imaginava-me com 32 anos, a viver em todos os lugares do mundo onde existissem cerejeiras imponentes, e onde a frescura da manhã continuasse a ser um tónico revigorante para os sentidos diletantes de quem simplesmente sobe uma cerejeira imponente e se sente feliz.Acreditava já, que as coisas simples sempre seriam um lugar de encontros e igualmente de desesperos vários.
Acordei a meio da viagem, a caminho do hospital, alguém me dava palmadas na cara e dizia: - acorda, acorda... lentamente devolvido à realidade senti a dor forte que me esfacelou todo o lado esquerdo do corpo. No hospital tudo me pareceu simpático, o médico, as enfermeiras roliças, as simpatias a que estava pouco habituado.
Passei o fim do ano lectivo, no lugar alto em que vivia a curar as mazelas de um atropelamento, e a olhar os meus colegas de escola a brincar no recreio ou, a adivinhá-los nas aulas chatas e traumatizantes de um certo mau professor de português a quem certamente não devo este meu gosto pelas letras. O Gonçalves esse, continuava como sempre, a correr desalmado pelo relvado de ervas daninhas com uma bola - nós chamávamos-lhe râguebi. Atrás, lá vinham os colegas de turma esbaforidos e a tentar rasteirar o imperturbável rapazola, por quem ainda hoje, passados 25 anos nutro uma enorme simpatia e amizade.
Hoje lembrei um daqueles acontecimentos de muitos anos e que fazem parte da minha construção existencial, sendo para isso apenas necessário, que sobre a mesa estivessem umas cerejas frescas, belas e ácidas. Enfim... coisas simples.

foto: António Manuel Silva
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A Vida Secreta de uma Toupeira
22 maio 2009
HEY KIDS LEAVE US TEACHERS ALONE
Não digo que não necessitemos de nenhuma educação, digo antes que não necessitamos desta educação.
Se formos capazes de ouvir e ver este vídeo, talvez possamos compreender que neste momento nos debatemos com problemas similares, sendo que, agora, a figura castigadora e uniformizadora não é o mestre (professor), mas o próprio sistema que ao longo dos anos não se soube renovar e adaptar às regras da sociedade emergente e em que o professor passou a ser um objecto manipulado e manipulável (uma espécie de autómato) das vontades e dos caprichos inconfessáveis da sociedade e sobretudo dos poderes.
O que agora apetece dizer não é "teachers leave us kids alone", mas antes "kids leave us teachers alone", ou seja, uma espécie de grito de revolta que se consubstancie numa mudança rápida ou até mesmo forçada do estádio das coisas. Se algum dia pensarmos que, nós professores, o podemos fazer sem o comprometimento dos alunos, estaremos mais uma vez enganados e nada vai mudar mais uma vez.
Se formos capazes de ouvir e ver este vídeo, talvez possamos compreender que neste momento nos debatemos com problemas similares, sendo que, agora, a figura castigadora e uniformizadora não é o mestre (professor), mas o próprio sistema que ao longo dos anos não se soube renovar e adaptar às regras da sociedade emergente e em que o professor passou a ser um objecto manipulado e manipulável (uma espécie de autómato) das vontades e dos caprichos inconfessáveis da sociedade e sobretudo dos poderes.
O que agora apetece dizer não é "teachers leave us kids alone", mas antes "kids leave us teachers alone", ou seja, uma espécie de grito de revolta que se consubstancie numa mudança rápida ou até mesmo forçada do estádio das coisas. Se algum dia pensarmos que, nós professores, o podemos fazer sem o comprometimento dos alunos, estaremos mais uma vez enganados e nada vai mudar mais uma vez.
21 maio 2009
20 maio 2009
Medo de quê?
Ver o filme primeiro e depois ler o texto (se tiverem vontade)
Duvido que o futuro da humanidade esteja exclusivamente nas mulheres, na realidade penso que o futuro da humanidade está nos pequenos passos de cada um, na luta que todos os dias formos capazes de fazer para criar uma sociedade mais justa, mais equitativa.
Acredito no poder da arte como agente fundamental da transformação humana. Estará efectivamente a arte a cumprir esta componente da sua missão?
nem sempre - a maior parte das vezes não, tal é seu grau de promiscuidade com poder (não é de agora, sempre foi assim).
Vivemos atafulhados de embustes, de falsos problemas, de angustias irracionais. Vivemos em torno de causas esvaziadas de significado e criaram para nós a ilusão de que o dinheiro e o poder nos fazem mais felizes.
Enquanto criticamos o estado do mundo em que vivemos, enquanto nos queixamos dos nossos alunos, do seu desleixo e do "não querer saber", evitamos perguntar a nós próprios o que andamos aqui a fazer, e qual está a ser o nosso contributo para o bem comum. Todos os dias nos queixamos (nos casos mais promissores) pelo menos três ou quatro vezes por dia de uma série de coisas que estão erradas no mundo mas, seguramente, estamos menos preocupados em quantas vezes por dia damos um contributo positivo à sociedade. Atribuímos sistematicamente a culpa a um agente invisível e ainda fazemos pior quando lhe damos um rosto, mas continuamos, quando podemos, a tirar um incompreensível proveito das benesses do sistema que nos vai consumindo cada dia da nossa vida.
Somos uma sociedade hipócrita e centrada em si mesma, somos uma sociedade escravizada e auto-complacente todos os dias - uns a seguir aos outros. Somos fieis consumidores do Xanax, mas cada vez mais, numa tendência higienizadora (eu gosto de lhe chamar a sociedade dos "limpinhos") castigamos os que fumam, os que bebem, os que não fazem ginástica, os que são gordos, os que são demasiado magros, os que são altos, os que são demasiado baixos, os que têm o cabelo comprido, os que são azuis, os que são pretos e até os que são demasiado brancos. Porque raio haveríamos de ser todos iguais. Por raio temos que ser iguais à força.
Que é feito da liberdade individual? porque será, que todos (quase sem excepção) nos sentimos cada vez menos livres? Que medo é este... de ser livre? que terror anda a consumir as nossas almas atormentadas? que desejos secretos nos consomem os dias? porque vivemos tão centrados nos outros, quando o segredo talvez esteja em cada um de nós?
Que medo é este... que insegurança é esta, que terror... que desvario?
É necessário acordar, acordar rápido. É necessário mudar, é necessário afrontar, é necessário colocarmo-nos na linha insegura de sermos nós mesmos.
É necessário lutar, é necessário mudar de paradigma. É necessário criar a não-escola.
Duvido que o futuro da humanidade esteja exclusivamente nas mulheres, na realidade penso que o futuro da humanidade está nos pequenos passos de cada um, na luta que todos os dias formos capazes de fazer para criar uma sociedade mais justa, mais equitativa.
Acredito no poder da arte como agente fundamental da transformação humana. Estará efectivamente a arte a cumprir esta componente da sua missão?
nem sempre - a maior parte das vezes não, tal é seu grau de promiscuidade com poder (não é de agora, sempre foi assim).
Vivemos atafulhados de embustes, de falsos problemas, de angustias irracionais. Vivemos em torno de causas esvaziadas de significado e criaram para nós a ilusão de que o dinheiro e o poder nos fazem mais felizes.
Enquanto criticamos o estado do mundo em que vivemos, enquanto nos queixamos dos nossos alunos, do seu desleixo e do "não querer saber", evitamos perguntar a nós próprios o que andamos aqui a fazer, e qual está a ser o nosso contributo para o bem comum. Todos os dias nos queixamos (nos casos mais promissores) pelo menos três ou quatro vezes por dia de uma série de coisas que estão erradas no mundo mas, seguramente, estamos menos preocupados em quantas vezes por dia damos um contributo positivo à sociedade. Atribuímos sistematicamente a culpa a um agente invisível e ainda fazemos pior quando lhe damos um rosto, mas continuamos, quando podemos, a tirar um incompreensível proveito das benesses do sistema que nos vai consumindo cada dia da nossa vida.
Somos uma sociedade hipócrita e centrada em si mesma, somos uma sociedade escravizada e auto-complacente todos os dias - uns a seguir aos outros. Somos fieis consumidores do Xanax, mas cada vez mais, numa tendência higienizadora (eu gosto de lhe chamar a sociedade dos "limpinhos") castigamos os que fumam, os que bebem, os que não fazem ginástica, os que são gordos, os que são demasiado magros, os que são altos, os que são demasiado baixos, os que têm o cabelo comprido, os que são azuis, os que são pretos e até os que são demasiado brancos. Porque raio haveríamos de ser todos iguais. Por raio temos que ser iguais à força.
Que é feito da liberdade individual? porque será, que todos (quase sem excepção) nos sentimos cada vez menos livres? Que medo é este... de ser livre? que terror anda a consumir as nossas almas atormentadas? que desejos secretos nos consomem os dias? porque vivemos tão centrados nos outros, quando o segredo talvez esteja em cada um de nós?
Que medo é este... que insegurança é esta, que terror... que desvario?
É necessário acordar, acordar rápido. É necessário mudar, é necessário afrontar, é necessário colocarmo-nos na linha insegura de sermos nós mesmos.
É necessário lutar, é necessário mudar de paradigma. É necessário criar a não-escola.
vai lá pintar
Vai lá pintar as folhas, 100 folhas da árvore frondosa que está no quintal. Vai lá texturar o mundo do sem sentido, vai e deixa deslumbrar-te pelo verde e os seus matizes, as sombras e os reflexos. Apanha o sol da tarde e sente-o a entrar em cada um dos poros. Não julgues e não deixes que te julguem. Olha para o sorriso bom dos que te compreendem e afronta o sorriso perturbante dos que estão fora de si.
Vai lá pintar o final de ano de amarelo, de laranja e violeta. Vai imitar os pássaros e os seus voos rasantes.
Vai lá pintar o mundo com as tuas cores bonitas.
Vai lá pintar o final de ano de amarelo, de laranja e violeta. Vai imitar os pássaros e os seus voos rasantes.
Vai lá pintar o mundo com as tuas cores bonitas.
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