29 julho 2005

banhos de sol


desenho (1992)

Pois chegou o momento de um homem do interior esquecer (durante alguns dias) a sua montanha e ir a banhos para o litoral.
A água salgada e o sol em bruto também têm o seu interesse. O corpo todo a mostrar-se à luz, a pele a ver-se livre das inúmeras "espinhas" acumuladas ao longo do ano, beber cerveja, olhar o mar e o seu ruído em profundidade. Tudo isto retemperante nos três primeiros dias de boa vida.
Depois... bom, depois ler uns livritos no tasco estrategicamente colocado sobre o areal, olhar em volta só pelo prazer de olhar. Observar a Fatinha a servir cervejas, os alemães (do tipo hippie) a fumar umas ganzas e a beber copos de vinho barato.
O melhor momento do dia:
Fim de tarde no "Café dos Alemães" a olhar a extensa praia (vê-se a Arrábida nos dias mais límpidos), uma ou duas cervejas, um queijinho, a companhia da Carla com quem partilho isto tudo e um suave ruído de fundo numa língua que não conheço mas que me é familiar.
Será isto possível?
Sim. Num certo Alentejo que eu cá sei de há alguns anos a esta parte.


(...) misturemos as bebidas, brindemos à confusão.
Michel Serres, Os Cinco Sentidos

27 julho 2005

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David Hockney, The Fourth love painting, 1961


fascinam-me as propostas condicionais, não porque tenham necessariamente de se cumprir, mas porque se nos impõem, porque são desafios e criam o desconforto necessário para agir.

26 julho 2005

Corpo a corpo com o passado



Tinha a vida em rolos que fui destruindo sem mágoa. Um corpo a corpo suado entre o que fui e o presente. Uma distinta selecção do passado. Destrui tudo sem mágoa nem sensações fortes. Só apagar para sempre, lançar fora uma intensidade vaga de dias distantes.
De uma vez pude resolver vários problemas: abrir espaço na poeira das coisas e libertar-me de espaços reflexivos que já não interessam, partes de mim que já não amo.
Guardei apenas dois rolos, robustos e organizados. Sinto-me leve. Fui capaz de fazer a selecção necessária. Posso recomeçar de outro lugar sem cometer os mesmos erros.
Uma parte do passado reduzida à condição de pó, ou um velho livro abandonado, cujas páginas desfilam abrindo por si quando o vento sopra, e sem que ninguém as leia.

21 julho 2005

reclamações



Este sou eu. A partir de agora, quando houver reclamações, vão ter que dar uma voltinha no labirinto que me define e entrar pela porta das traseiras, que costuma estar apenas presa pelo ferrolho.

20 julho 2005

viagem inaugural


pintura, 1995

Aqui vou arquitectar uma viagem inaugural de sombra e vastidão

no dia dos meus anos recebi de um amigo uma prenda surpreendente. Ou talvez não.



em nós sempre existe algo de inalienável.
Traços profundos que nos caracterizam.
E, simultaneamente, um desejo de mudar.

...

Querias saber porque cheguei tarde. Porque não arrumei a mesa que partilhavamos.
Porque fui jantar fora, quando tinhamos combinado comer apenas uma sopa e uma sande de atum.
Perguntaste porque beijei toda a gente naquela noite de São João, debaixo do Jacarandá, sem que te lembrasses das flores que se desprendiam da árvore e caíam sobre nós, tão serenos e intensos ao mesmo tempo. Tão amantes e tão contraditórios.
Querias saber porque cheguei a casa a cheirar mal. Porque ficou a porta entreaberta a noite toda. Porque não entrei no teu quarto para te beijar...


Senti o fio das palavras destrutivas sem surpresa e como se estas sempre tivessem existido, mas impronunciáveis. Impossibilitadas por um exercício contorcionista da parte do corpo que as produz, pelo rossar na garganta áspera de tanto regurgitar o que sempre se quis dizer e que agora se libertava no espaço covil de querer saber porquê.

um mês depois

um mês após ter abandonado este lugar, olhei para trás e vi algumas coisas práticas resolvidas. Essencialmente, nada de importante. Voltei novamente ao teclado. Não que me sinta obrigado a alimentar este espaço, mas antes porque as teclas me massajam os dedos e eu gosto da urgência das palavras. Mas também por causa daqueles que habitualmente me visitam e me sentem extinto. Não que eu possa assegurar a minha existência aqui, ou, onde quer que seja. Não que eu consiga gravar aqui aquilo que sou ou na pedra o meu nome com os dedos. Não.