Fui ao funeral do teu pai e lá estavas tu, de preto, naturalmente. Semblante carregado. Fizeste um suspiro abafado quando te abracei a meio daquilo que poderia ser um grito. Forçamos o abraço por alguns momentos e senti nas mãos a intensidade com que te apertava, e tu a mim. Pensaste que eu poderia não aparecer, e ficaste aliviado quando me viste. Voltaste a sentir pela enésima vez que afinal há pessoas das quais inevitavelmente nunca nos vamos afastar, ainda que muitas vezes pareça, e outras tantas vezes nos sintamos abandonados. Por momentos saíste para a rua, e gracejaste quando passaste por mim: - vou fumar um cigarro lá fora para o meu pai não ver. Pareceste-me alguém muito familiar. Pareceste-me tu. Lembras-te?
Fiquei pouco tempo. Mais tarde senti que deveria ter ficado mais um pouco, não seria necessário falar. Bastava que estivessemos por ali a observarmo-nos sem nos olhar.
Mas não quis ficar mais. Voltamos a dar um abraço forte na despedida e pareceste-me triste por eu me ir embora.
18 junho 2005
tropeçar no acaso
As coordenadas, os mapas rabiscados nos guardanapos,os esquiços ocasionais, riscos nas letras do jornal, desenhos na contracapa dos livros, as manchas de vinho sobre as palavras... sempre me fascinaram.
Assim como a lista de afazeres para o dia que decorre e criteriosamente riscada nas tarefas cumpridas. E ainda a lista do dia seguinte que repete as tarefas não cumpridas no dia anterior.
Estes testemunhos congelam, por vezes, momentos inesquecíveis, dias raros, dias vulgares, lugares de intensidade, de tristeza, mas tanbém de felicidade.
São lugares de memória, registos que ajudam na construção daquilo que somos ou vias de cintura interna congestionadas.
O vento, os grãos de areia entre os livros, vestígios de protector solar, o marulhar agitado do mar nas páginas de Boris Vian... ou Douglas Coupland.
Notas de rodapé, frases interrompidas por falta de espaço e continuadas na página seguinte. Lombadas desfeitas e livros amarelos do uso e exposição aos elementos.
Quatro ou cinco momentos especiais incrivelmente registados em fotografias e onde nos vemos mais novos, cheios de vida e quem sabe de esperança.
Ocasionalmente palavras sublinhadas nos livros que nos inspiram saudade e nos fazem recuar no tempo aos tropeções e onde encontramos aquilo que muitas vezes já estava esquecido e nem sequer queríamos lembrar.
Assim como a lista de afazeres para o dia que decorre e criteriosamente riscada nas tarefas cumpridas. E ainda a lista do dia seguinte que repete as tarefas não cumpridas no dia anterior.
Estes testemunhos congelam, por vezes, momentos inesquecíveis, dias raros, dias vulgares, lugares de intensidade, de tristeza, mas tanbém de felicidade.
São lugares de memória, registos que ajudam na construção daquilo que somos ou vias de cintura interna congestionadas.
O vento, os grãos de areia entre os livros, vestígios de protector solar, o marulhar agitado do mar nas páginas de Boris Vian... ou Douglas Coupland.
Notas de rodapé, frases interrompidas por falta de espaço e continuadas na página seguinte. Lombadas desfeitas e livros amarelos do uso e exposição aos elementos.
Quatro ou cinco momentos especiais incrivelmente registados em fotografias e onde nos vemos mais novos, cheios de vida e quem sabe de esperança.
Ocasionalmente palavras sublinhadas nos livros que nos inspiram saudade e nos fazem recuar no tempo aos tropeções e onde encontramos aquilo que muitas vezes já estava esquecido e nem sequer queríamos lembrar.
14 junho 2005
sem tempo
Peço desculpa às pessoas que habitualmente visitam este espaço, mas de momento estou sem tempo nenhum. Para a semana prometo voltar com saborosas crónicas de andar por aí.
De qualquer maneira tenho uma sugestão, que descobri aqui à uns dias, muito interessante e que está a nascer sob a terra.
De qualquer maneira tenho uma sugestão, que descobri aqui à uns dias, muito interessante e que está a nascer sob a terra.
02 junho 2005
a minha montanha
hoje fiquei de costas voltadas para o verde intenso e primaveril da minha montanha.
Cansei-me da provincia. Renasci cosmopolita.
Recusei as histórias do povo e sobre o povo, e senti que a literatura, como a arte, não se deve encerrar no espaço espartilhado das sensações vagas. E, que o país avança na medida do seu cosmopolitismo e na sua fé profunda em ideias transversais e abrangentes.
Digo-o no dia em que se comemora João de Araújo Correia (escritor alto duriense). Não que recuse o valor intrínseco da sua obra, mas antes na recusa da apropriação vaga e redutora, que facilmente se pode fazer do seu trabalho. Na relação estritamente provinciana que facilmente se faz dos seus escritos, das suas palavras. É que as palavras não são propriedade de uma certa visão do mundo, mas estão ao serviço de quem as explora numa dimensão dilatada.
Cansei-me da provincia. Renasci cosmopolita.
Recusei as histórias do povo e sobre o povo, e senti que a literatura, como a arte, não se deve encerrar no espaço espartilhado das sensações vagas. E, que o país avança na medida do seu cosmopolitismo e na sua fé profunda em ideias transversais e abrangentes.
Digo-o no dia em que se comemora João de Araújo Correia (escritor alto duriense). Não que recuse o valor intrínseco da sua obra, mas antes na recusa da apropriação vaga e redutora, que facilmente se pode fazer do seu trabalho. Na relação estritamente provinciana que facilmente se faz dos seus escritos, das suas palavras. É que as palavras não são propriedade de uma certa visão do mundo, mas estão ao serviço de quem as explora numa dimensão dilatada.
01 junho 2005
resgatado ao quotidiano III - a bomba

O dia tinha terminado. Estava exausto. Trabalhei seguramente durante dezoito horas.
Passei o dia, como grande parte dos dias da minha curta existência a fazer um trabalho repetitivo, ainda por cima hoje tive que aturar a patroa, que se babava por todos os lados. Eu não sei se sabem, mas trabalho num lugar escuro, sombrio, e a maior parte das vezes húmido. Nas paredes não existem quadros e quase nunca se sonha. Lá onde trabalho, todos nos limitamos a passar silenciosamente uns pelos outros, na melhor das hipóteses esboçamos um impossível sorriso. Somos explorados dia após dia por um poder invisível e despótico. Neste momento estamos a trabalhar num livro, uma edição bastante antiga do Alves Redol. A pior parte é a capa, capa dura, como se faziam antigamente. O meu trabalho hoje foi remover a lombada interna. Por vezes quando pude subir à zona superior da capa olhava o horizonte, mas a vista não era particularmente bonita. Um velho cadeirão com a almofada esburacada e uma janela entreaberta. As paredes estavam negras de tanta humidade e a um canto uns sacos de plástico do Pingo Doce abandonados e com restos de comida. Houve dias em que aparecia alguém para dormir, mas já há quatro dias que é só aquilo vazio. Por vezes o sol entra pela janela e eu fico expectante a imaginar os mundos que não existirão do outro lado. Mas não dura muito. Rapidamente sou forçado a avançar carregado com pedaços de lombada. Durante a noite sonho libertar-me deste mundo constrangedor, colocar uma bomba, destruir o mundo hostil.
Subscrever:
Mensagens (Atom)