30 abril 2005

Júlio

Em Agosto de 1998 assisti ao Festival de Paredes de Coura pela primeira vez e por lá fui passando nos anos seguintes por várias razões. Antes de mais, por causa do meu querido amigo Vítor, depois pelos convites que este foi fazendo a mim e à Carla para trabalharmos naqueles três ou quatro dias alucinantes. Mas também porque sempre me senti por lá muito bem e fui sempre extremamente bem recebido, primeiro pela família (tão bonita) do meu amigo em segundo lugar pelos amigos dos amigos que se juntavam à noite para beber umas cervejas no café do Paulo. Um desses amigos que também acabou por se tornar num dos meus amigos foi o Júlio. Confesso que a nossa amizade nunca foi profunda já que apenas nos encontravamos naqueles três ou quatro dias, uma vez por ano. De qualquer forma tivemos longas e boas conversas quantas vezes animadas por umas boas cervejas. Era um ser humano de carácter nobre , bom companheiro e pelo que me pareceu, a tirar sempre bom proveito do facto de estar vivo. Hoje soube da sua morte estúpida e fiquei triste. Mais uma vez a vida e o confronto com a morte nos ensina e nos ilumina sobre a preciosidade de estar vivo e de como nunca nos devemos esquecer de a aproveitar em toda a sua plenitude.

29 abril 2005

jardim suspenso

"Jardins suspensos" (o nome da actual exposição organizada pela comissão instaladora do museu do Douro) é uma bela metáfora para a suspensão da criação à muito aguardada do famigerado Museu. Existem instalações, existe muita vontade, existe trabalho feito e bem sucedido. Parece não existir vontade política. Ou então não há dinheiro (presumo que tenha sido gasto na casa da música).

28 abril 2005

interrogação semanal

se o orçamento da casa da música fosse rigoroso, com uma pequena fração da derrapagem já poderiamos ter o Museu do Douro em actividade. Assim temos uma exposição particularmente bem organizada que se chama "Jardins Suspensos" com um número de visitantes anuais da ordem dos 30.000, que por estar localizada do interior (Peso da Régua) ainda não consegue ver a luz ao fundo do túnel, na gíria regional até se poderia dizer Tonel (recipiente de grandes dimensões usado para armazenar vinho) que dê luz verde (na região conhecida por maduro tinto) para a concretização do já muito bem estruturado projecto.

cultura retro

"Retroescavadoras invadiram monumento nacional no Douro" pode ler-se no Público de 28 de Abril (quinta-feira).
Vemos assim mais uma vez, o património nacional, e no caso, também património da humanidade, abandonado e por consequência vítima da incúria e da falta de cidadania. Desta vez até parece que o mandante é letrado (a grande besta). Temos pois a irresponsabilidade dos organismos oficiais e a bestialidade dos cidadãos de mãos dadas.
São muitas vezes estes os ingredientes que caracterizam o nosso alegre povo.

21 abril 2005

perguntas com livros

Resposta ao talento da mediocridade

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro de capa grossa

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Sim. Zaratrusta e Zenão.

Qual foi o último livro que compraste?
Foi o meu amigo talento da mediocridade que os foi buscar a um alfarrabista da rua das flores: duas edições antigas do Alves Redol – Trilogia do Port Wine I e III, respectivamente, Horizonte Cerrado e Vindima de Sangue.

Qual o último livro que leste?
Até ao fim, foi provavelmente, Vindima de Miguel Torga

Que livros estás a ler?
Bom, para não pregar uma seca a ninguém vou ficar calado

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Seguramente não levava nenhum. Só acredito nos livros quando podem ser partilhaveis.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Talvez ao meu amigo português suave amarelo, já que os restantes amigos bloguistas já responderam ao questionário.

19 abril 2005

uma parte de mim


Alice Geirinhas

Uma parte de mim tem "necessidade" de acreditar nas teorias educacionais.

16 abril 2005

confesso que nunca li Agustina...

... a não ser pelo olhar de Manoel de Oliveira: o belíssimo "Vale Abraão", "O Covento" e o assombroso e viscontiano "Party".
Hoje, um excelente documentário na 2, revela um ser humano amplo e irreverente, que a páginas tantas, quando alguém que não a conhecia lhe perguntou como era a sua escrita, respondeu: "escrevo mais ou menos como o Dostoyevski".
Agustina Bessa-Luís tem uma obra "monstra" no panorana nacional e mesmo internacional, ela própria diz, que se numa determinada fase da sua vida tivesse ido para França, como quase poderia ter acontecido, seria uma grande escritora de língua francesa. Esta falta de humildade está-lhe no sangue e é intrinseca à sua própria personalidade controversa e quantas vezes excessiva. Ela diz ainda, que não se leva muito a sério, considerando que essa seria uma forma de estar, que a colocaria em inferioridade perante a vida. Temos assim um ser humano em toda a sua magnitude a assumir um papel claro, transparente e... lúcido!
Do documentário salta esta frase: "Eu gosto tanto de si, que um dia até sou capaz de ler um dos seus livros".
Perfeitamente adequado para o autor deste post.

15 abril 2005

Recordações de uma amoreira ou os dias com árvores

Lembro a Estrada Nacional n.º 2, em Santa Marta de Penaguião, com o pavimento carcomido e um carro a passar de 5 em 5 minutos.
Lembro um chão negro e um cheiro adocicado de fruta madura.
Lembro uma amoreira imponente e inalcançável, mesmo para as travessuras de um puto de 8 anos.
Lembro o desejo de a trepar para lhe descobrir o segredo e o sabor da fruta nos lugares mais altos.
Lembro o Estio abrasador e seco.
Lembro a minha tia, já velhinha, a pontear umas meias na soleira da porta, com um óculos redondinhos e a lançar-me um sorriso carinhoso quando me via a entrar pelo portão. Até parece que ainda sinto o seu colo.

Persona


Ingmar Bergman, Persona (1966) - na imagem Bibi Andersson e Liv Ullmann

Se eu quisesse escrever sobre este filme todas as palavras seriam necessessariamente redutoras.
Por isso, veja-se, reveja-se e volte-se a ver.

13 abril 2005

Interior intenso com Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral

Aqui há uns dias interrogava-me acerca da questão interioridade/urbanidade a propósito de um post acerca da revista “Periférica”. Hoje chegou até mim e sem esforço um esboço de reflexão sobre o assunto.

Por razões profissionais e com enorme prazer, tive com alguns colegas de trabalho, um encontro com dois vultos da cultura portuguesa, respectivamente, Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral. Tal encontro decorreu primeiro num agradabilíssimo almoço a que se seguiu um revelador encontro de Graça Morais com alunos da Escola Secundária João de Araújo Correia, no Peso da Régua. E digo revelador pois Graça Morais, igual a si mesma e à sua pintura falou aos alunos e respondeu às suas perguntas com a autenticidade que lhe é característica, na obra que eu já conhecia, e que agora se me revelou também no seu olhar e na personalidade afável e disponível que pude conhecer.

Posso dizer que conheço razoavelmente bem a obra da pintora, ao contrário da obra do músico e compositor Pedro Caldeira Cabral, reputado especialista em guitarra portuguesa e também ele com um percurso artístico notável.

Graça Morais é natural de Vieiro, uma aldeia trasmontana perto de Vila Flor e a sua obra é um excelente exemplo da relação que se pode estabelecer entre o cosmopolitismo e a ruralidade. Com uma já longa carreira e uma assinalável notoriadade, a sua obra desde sempre reflectiu esse microcosmos que é a sua aldeia natal, mas que numa visão mais alargada se pode considerar a visão de uma certa ruralidade nacional. Talvez não exista em Portugal exemplo tão feliz, profundo e intenso dessa interpretação antropológica do Portugal interior.

O traço de Graça Morais é forte, quase masculino, se é que os traços têm sexo, e terá na sua génese, a influência dos expressionismos do início de século, a multiplicação/fragmentação da realidade de um Picasso ou mesmo as transparências e realismo mágico de Francis Picabia.

Particularmente interessante foi o encontro com os adolescentes interessados em ouvir o que a artista tinha para dizer e para os quais Graça Morais se disponibilizou para responder a todas as perguntas que estes lhe colocaram. Não pude deixar de notar a humildade sábia de quem alcançou um lugar de destaque na arte portuguesa, o sorriso bonito e toda a disponibilidade do mundo, que é apanágio de quem fez uma boa construção existencial e não chegou lá por acaso.

09 abril 2005

nos dias tranquilos (para um amor sem limites)

Olhava-te timidamente nos gestos mais simples. Tinha pudor de te olhar no lugar do sexo e até os teus braços suados de fim de tarde. O sopro das tuas palavras maravilhava-me, os teus gestos contidos, a tua inocência virginal de quem não se sente observado. Vi-te energia pura e aprendi a descobrir-te degrau a degrau, como quem sobe sem pressa aquela escada desdobrável que me permite uma arrecadação exemplarmente organizada.
Quando saíste eu já não estava lá, antes te organizava, no lugar que decidi atribuir às coisas belas.

Aos meus amores (fragmento de um discurso amoroso)

08 abril 2005

nos dias tranquilos

Hoje vi-te num silêncio explosivo.
Saltaste da cadeira e correste vermelho como um touro para ela.
Com toda a força do mundo, levantaste-a junto com a cadeira e derrubaste-a sobre as mesas.
Penso que te vi possesso de um amor visceral, genuíno e adolescente.

05 abril 2005

não sei


Edward Hopper

Esta pintura sobejamente conhecida do Hopper fascina-me há alguns anos, de tal forma que tenho algum receio em confrontar-me com ela num museu. É que a pintura é sob o meu ponto de vista uma arte não reproduzível.
Tenho alguns exemplos de fascínio pela reprodução e desilusão no confronto directo com a obra. Mas também tenho exemplos do contrário. É o caso do déjeuner sur l'herbe do Manet.


Edouard Manet

Como estão aqui perante duas reproduções, este post... não sei!

02 abril 2005

se não tivesse tanta dificuldade em sair de casa, talvez fosse um grande viajante

Fico particularmente mal disposto nas partidas, o que só é superado quando a ideia de voltar se torna demasiado penosa ou já sem sentido. Estar longe apaga todos os fantasmas e permite ter a sensação de a qualquer momento poder viver outra vida. A realidade é para quem viaja particularmente volátil, sempre novos caminhos... tantos caminhos.

de uma viagem

De uma viagem também nos podem ficar vazios, nadas, olhos vermelhos de procurar.
De uma viagem sempre podemos reter, um momento límpido, que não será um monumento nem uma ruina, que não será um museu nem uma cidade...
De uma viagem sempre nos fica a nostalgia de ter chegado ao fim.